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sexta-feira, setembro 22, 2017

O CERTIFICADO DE HULE

 
Fazia meses que Nampula registava calor. Pior, quando El Nino se aproxima, cumprida a sua sazonalidade. Estava um calor de assar sardinhas para um prenúncio de noite. Já se alinhavam estrelas num céu cinzento recortado por nuvens turvas. Ao mesmo tempo que Hule procurava acertar a cor do céu afivelava ideias sobre a janta do dia seguinte e o leite do Diploma que brilhava nas costas. 
Hule fora enviada a Maputo ainda na puberdade aonde o pai pretendia que sua filha do meio se formasse em medicina ou outra ciência afim. Mas cedo conheceu angolanos e outros diplomatas oeste-africanos que exploravam petrodólares. Meticais para que te quero?! Instituto para que me serves?! Hule encontrou vida fácil. Dançarina de primeira hora, conhecedora de noites luxuosas, dama de companhia para eventos se fez. Não escolhia cor da epiderme. Não! Nem idade lhe interessava. Diferenças etárias eram apenas números. Somente uma cor, a do dinheiro americano lhe interessava. O certificado de habilitações literárias que lhe proporcionaria emprego numa instituição do Estado, sonho amputado do pai,  foi substituído pela cria. Foi assim que os mais inconformados com aquela opção da jovem passaram a tratar a filha de Hule por "Certificado".

No dia em que a cena aconteceu, Hule estava à porta da sua mandjungu ou choupana que herdara da avó materna de quem a filha se tornou xará. Abriu a porta, entre duas colunas que se prolongam e se revezam no andar. Deixou entrar um pouco de ar para arrefecer o forno que se achava envolto a kapulanas, como são tratados os tecidos em Moçambique.  O forno, fundo, húmido e já com pouca elasticidade, ante ao uso revezeiro, é a sua indústria, seu banco. Ajeitou os maboques, um par no peito, que se prestavam a fugir do soutien. Jactou o decote. Mamas já flácidas jazem quase quase num amontoado de esponjas suportadas por arcos metálicos. Aos lábios, levou um batom pobre e encarnado. É sangue procurando suor e sangue. À filha, chorona e resmungona, espectou um sambapito na boca. 
- Cala. A mamã vai ganhar pão pra amanhã! 
Hule fez-se a caminho da baixa de Nampula, entre Faina e Mutotope, seu emprego prazeroso. Foi lá que o Manuel, polícia de profissão, já quase noivo, a encontrou em flagrante delícia.
Ali mesmo, no Largo Machel, depois de adentrar o jeep grande de vidros translúcidos, não precisou de vistoriar à volta. 
- São cooperantes, nada os detém! - Pensou.
Imitou o canídeo. Lambeu a sua cria,  afugentando-lhe as maleitas. O bicho respirou fundo e esticou-se ao comprido. Hule, feita canídea de Rafa, simulou caminhada, de quatro, do kambwá como dizem os angolanos na margem atlântica do continente. Sem se aperceberem, a polícia que procurava por marginais foragidos fez-lhes uma surpreendente visita. Manuel estava na patrulha.
- Estão presos, malandros!

terça-feira, setembro 19, 2017

NÓTULA SOBRE CAXICANE

O festejo do 95º aniversário natalício do primeiro Presidente de Angola, também consagrado Herói Nacional, Dr. António Agostinho Neto, levou-me à vila de Catete para actividade lúdica e cultural, adentrando depois a estrada que nos conduz à Muxima e mais ainda a picada que vai a Caxicane, local que conserva o cordão umbilical do fundador da nação angolana nascido a 17 de Setembro de 1922. Não sendo a primeira vez que para lá me desloquei, não deixei de “descobrir” algumas curiosidades não visualizadas com minúcia nas primeiras visitas ao local. Repare bem a foto. Estou apoiado sobre o púlpito do que foi o segundo templo metodista erguido em CAXICANE. Procurei pela data da sua construção e, embora houvesse no local cidadãos sexagenários, não obtive resposta. Resta-me a impressão de que a edificação terá sido a que existia nos dias de mocidade de Agostinho Neto, sendo feita de pau-a-pique e rebocada com areia e cimento nos dois lados das paredes. O chão foi também cimentado, sendo que os púlpitos haviam sido construídos em tijolos e rebocados. O tampo também é de betão.

A primeira igreja no local terá sido em material ainda mais precário: ramos de palmeiras, paus, barro simples para fechar as paredes e coberta de capim, conforme nos mostram as fotos de seu pai, Reverendo Pedro Neto, com o filho, Kilamba, pousando no colo de D. Maria da Silva Neto. 


A terceira igreja, em alvenaria e pintada de branco, é maior e tem altos alicerces, devido às inundações que vezes sem conta acontecem em CAXICANE, quando o Kwanza faz suas águas transbordarem, é mais próxima no tempo.

Repare agora na proximidade entre o rio e a Igreja em cujas ruínas concebi esse texto: apenas escassos metros a separam do leito. Não será, por isso, difícil concluir que os implantadores do metodismo em CAXICANE terão navegado sobre o manso Kwanza.

sexta-feira, setembro 15, 2017

UMA VISITA AOS IRMÃOS DE CAMBULUNGO

CAMBULUNGO é  o nome da classe (espécie de capela para os católicos) da Igreja Metodista Unida em Angola, IMUA, no Quissongo. Ao longo da rodovia não vi mais do que duas confissões religiosas, sendo o templo de Cambulungo o maior.
 
As paredes duplas, em adobe, dão maior resistência e durabilidade ao edifício coberto de chapa de zinco. Os assentos são de plástico e atendem todos os irmãos e visitantes.
Cambulungo, designação adoptada para o templo, é nome de um nativo Metodista que nunca deixou a chama se apagar, mesmo em momentos difíceis da vida daquele povo e comunidade religiosa.
Malanje é berço do metodismo angolano e fica aí, a poucos quilómetros, servindo de inspiração.
 
Parabéns aos irmãos da Classe Cambulungo/Cargo de Calulo (Kalulu).
Os peregrinos metodistas de Luanda e de outras cidades precisam de lá ir e procurar entender os caminhos árduos percorridos pelos missionários americanos que nos trouxeram a chama do METODISMO wesleyano.
 
É também um chamado que os metodistas que amam a sua chama e que podem contribuir com algo apadrinhem comunidades como a de Cambulungo.

sexta-feira, setembro 08, 2017

DEPOIS DA FILA A 10GRAÇA

Tarde de sexta-feira, dia de repor energia, depois de cinco jornadas extenuantes. Aturei "mbora bem" o engarrafamento na zona do Coelho, três horas e tal, a "caloriar" num carro com AC e tudo. O gasóleo, agora, é líquido precioso que exige poupar. Luxo fica só pela metade: um pouco de AC e um pouco de poeira e calor, para poupar combustível em trânsito intransigente.
 
Quando estava mesmo já no fim do sofrimento, eu a buzinar a os outros automobilistas para que tivesses mais atenção e eles a me buzirem de volta, uns só mesmo de pirraça para espantar os nervos que tinham comido todas as unhas e estavam quase a sangrar os dedos, eu já a entrar para o asfalto, ouvi um cru-cru-cru- buá trás de mim. Era no lado esquerdo. 
 
Um Rav 4 antigo, todo desmazelado, um acaba de me matar, raspou-se no meu carro, até se estatelar no degrau (estribo) que chamam de "pisa-pé". Buá! E o homem não pára já? Não! Continuou.
Estava, afinal de contas, a ser puxado, com corda de aço, por uma camioneta. Saí da viatura "foribundo", quase aos socos, mesmo tendo a minha mão aleijada. Mais atento esteve o polícia, quase a ler-me os nervos à superfície da epiderme, contrariando-me:
 
- Não faz isso, senhor, por mais razão que tenha. Não se bate ninguém a frente d'autoridade. 
 
- Então, camarada autoridade, mande-o assumir e pagar os estragos, senão vamos nos resolver mesmo já aqui. Esse carro tem nome da minha sofrida mãe. É de sofrimento. Não me foi oferecido nem o apanhei só assim... - Falei mais calmo.
 
Aí,o homem do acidente exibe as "cadaplas"e confessa: 
 
- Sou pessoa de boa fé. Me desculpa só. Também sou polícia que guarda as empresas grandes o meu ganho é xis. Pior do que isso, errar a mãe. O meu passe e a carta de condução podem ir consigo. Dá-me seu contacto e um dia lhe procuro. -Disse o senhor.
 
Eu com a mãe (viatura que tem o nome da minha progenitora) arranhado. Ele, verdade ou mentira, perdeu a mãe. Fiquei por interrogações sem respostas.
 
- Assim mesmo se faz?
 
A Maria (carrinha) anda agora "despelada", como se tivesse lutado com o António (outra viatura com o nome do finado marido de setenta e três-oitenta e dois). É uma estória antiga, já leva tempo. Mas aconteceu mesmo!

Publicado no jornal nova Gazeta de 31 de Agosto/17. 

sexta-feira, setembro 01, 2017

LOTADORES, COBRADORES E ESPALHA DORES

Fazia tempo que não andava de táxi. Fi-lo propositadamente em dois dias seguidos para estar por dentro do mundo que existe para além do ar condicionado e vidros translúcidos.
 
Descobri que, para além dos já famigerados cobradores (preferem ser chamados de gerentes), loteadores (os que numa paragem principal ou término se encarregam de chamar os passageiros até completar a lotação do veículo), existe uma outra subcategoria, essa perniciosa, que é a dos aproveitadores ou saqueadores.
 
São grupelhos de jovens, muitas vezes drogados, que inundam as paragens de táxis colectivos, dedicando-se à extorsão dos cobradores no valor de cem Kwanzaa por cada paragem que efectuem. Se resistência houver, muitas vezes, acabam agredindo o cobrador resistente, ficando com todo o dinheiro que tenha e chegam mesmo a assaltar o táxi e se acaparar dos bens e dinheiro dos passageiros. 
 
Contra esses, não se pode fazer outro apelo que não seja a atenção e acção da polícia que deve ser implacável e não coabitar, nas paragens e em qualquer lugar, com tais inimigos da segurança pública.
Aos saqueadores e espalha-dores não devia haver sequer um segundo de tolerância!
 
 
Texto publicado pelo Jornal Nova Gazeta a 04.05.2017

terça-feira, agosto 29, 2017

VENDO BEM... COMO SURGEM OS NOMES?

- Na Pasa; Sa Lutenda; Mama ly´Atimba; Tata lya Juá... não passam de nomes que ganham os progenitores depois do nascimento do(a) primeiro(a) filho (a). Era assim antigamente a atribuição de antropónimos (nomes de pessoas). 

Para a comunidade rural angolana, sendo a paternidade/maternidade um marco muito importante, o(a) genitor(a) passava a ser chamado(a) pelo nome do(a) filho(a), antecedido do prefixo equivalente na língua local a palavra pai (sa em Cokwe e tata em kimbundu), passando-se o mesmo com a genitora (na ou mama nas duas línguas em que fiz a pesquisa) passando a "mãe de fulano (a).

Situações semelhantes verifiquei no Mali e Guiné-Konacri. Já para os europeus, os antropónimos e depois os apelidos surgiram para diferenciar os indivíduos em função da ocupação. Assim, surge o Pedro (pedreiro), diferente do Jardim (jardineiro), do Backer (padeiro em inglês), etc. 

Entre os Bantu, o homem social ganhava estatuto depois de se tornar pai/mãe.

quinta-feira, agosto 24, 2017

AO DEBATE: ANTES E DEPOIS DE VOTAR

Nota prévia:
Discutíamos de forma saudável e urbana sobre a impertinência de, na próxima legislatura se poder ou não rever a Constituição da República e "acomodar" o principio da eleição dos deputados pelo ciclo provincial em função da proporcionalidade do seu número de eleitores. Dizia eu que "não fazia sentido que o Bengo eleja mesmo número de deputados (cinco) que Luanda", sendo a capital do país a principal praça eleitoral, com cerca de um quarto do total de eleitores. O debate ia animado (ele defendendo a regra em uso e eu o contrário), até que chegou "o dia do voto", 23 de Agosto/17, tendo decretado uma "pausa" para que pudéssemos pensar em outras coisas mais imediatas. E assim escrevi:
  
"Permito-me ainda abusar o meu amigo Carlos Calongo Adão, jovem inteligente de Catete que já foi Luanda, passou ao Bengo e voltou a ser Luanda. Eu também, do Libolo, sou agora o quarto vizinho de Luanda.
E é assim:
Duas lambisgoias bêbadas e perdidas. Dizia uma:
- Quero saber onde estamos é aonde vamos.
Respondeu a outra:
- Não precisas saber.
- Por que razão?
- És puta, por que te interessa saber aonde vais?
- Para me orientar no regresso à casa.
- Tu precisas é de clientes e mais copos... - Dizia a conformista.
- Disso sei, mas... Quando acabar o álcool e os clientes?
- Por acaso decidimos mudar de profissão?
- Até que não. Mas não precisaremos nunca nem de mudar de tangas?
- Tangas?
- Sim, roupas maquiagem, higiene, etc.
- Basta que tenhamos clientes e dinheiro. Tudo se compra no momento.
- E os banhos?
- Já te disse, Maura. Se vier um cliente que te leve a um hotel você toma o duche. A roupa compras na boutique. Casa pra quê.
- Mingota, sua tonta, e quando tiveres saudades dos teus irmãos também os vais transformar em clientes?
...
Cada foi no seu caminho.
No caso, eu e o meu amigo Carlos Calongo Adão, ainda vamos a caminho do voto e voltaremos à conversa".
Bom dia e espero que tenha votado em consciência.

terça-feira, agosto 22, 2017

A CAMINHO DO ALAMBIQUE

Entre Setembro a Abril, bate a chuva e todos curva. Homens, rios, vegetação... Cresce o canavial e o bananal, destacando-se o "dondi". É no kasimbu que tem proveito. O capotar de um camião irrecuperável é festa para o ferreiro-artesão. Tem cano para a canoa que há-de expelir já liquidificado o álcool gasoso que foge do tambor em que se agita o fermentado em fervura.
 
No kasimbu, sim. Os caminhos vão dar ao alambique, à ditenda ou outro código. Uns contam os dias de fermentação da matéria prima: pasta de batata doce, de mandioca, de milho (incrementada se seiva de muxíri ou mbundi que é raiz suculenta de um arbusto), sumo de cana de açúcar, de mamão, laranjas, abacaxi, frutas diversas incluindo silvestres como o maboque. Há quem ouse até transformar maluvu (vinho de palma) em kaporroto! Sete dias para a destilação!
 
Antes, há o catar de lenhas para preparar o produto que entra em fermentação. Depois outras lenhas para a fogueira que há-de expulsar o álcool e transformar o vapor em líquido.

Os kinangambala (os que, por preguiça de lavrar, "cuidam" da aldeia), são guiados pelo fumo negro e quente que no kasimbu abre fenda entre o nevoeiro cerrado. Encimando um montículo, uma pedra ou outra altitude, passeiam os olhos pelos 360 graus da aldeia. Já sabem de quem é a lavra e o alambique. Fazem-se caminho abaixo. As amizades e parentescos também contam para "fiar". E a fabriqueta dispensa assalariados. Ganha braços voluntários que alimentam de lenhas a fogueira  água na "canoa refrigeradora",aguardando pacientes pela primeira gota e primeiro litro: o da "ponteira". Depois enchem-se garrafões. Aos poucos, muitas vezes pelo mesmo copo, vão provando, "fiando" e comprando, se entorpecendo até álcool não mais for expelido pelo cano ligado ao tambor.
 
Fila indiana, já tarde avançada ou noite escura, vasilha na mão, catana noutra mão, seguem a caminho da aldeia, alegres, às vezes cantando, outras vezes discutindo "descoisas". Passou o dia. Outros se seguem. E os alambiques prosseguem a sua função.

terça-feira, agosto 15, 2017

VELHO TRINTA


Caminhávamos em fila indiana pela estrada asfaltada e sob sol ardente. Os homens mais velhos à frente, as crianças descalças pelo meio e as protectoras mamãs à recta-guarda. Antes da fuga, havíamos passado noites a dormitar na mata, embora os dia fossem passados nas lavras. A preocupação pelo que de bom ou ruim nos pudesse acontecer era obra dos adultos. Brincávamos e íamos à escola sempre que o professor, meu primo Jorge Kakonda, entendesse.

Entre os adultos ninguém tinha sido militar, nem sequer conheciam as artimanhas dos Kahuha (assim apelidados os kwaca pelos namibianos da Swapo).

Pensava-se que os homens podiam chegar à madrugada, cercar as casas e levar todos ou quem quisessem. Por isso, as noites, sob frio intenso e chuva, eram na mata com a atenção virada aos sons que podiam vir de cães a ladrar ou galinhas a reclamar liberdade.

Lembro-me da aflição que vivia a minha mãe. A Emília devia ter dois anos e às vezes chorava, como o fazem as demais crianças. Dormir na mata, apenas um pano estendido no solo húmido ou rígido, não tem a comodidade de uma esteira. E diziam à minha mãe:

- O mon'u mubane lyele. Otujibisa! (Põe essa criança a mamar, vai fazer matar-nos!)

Vontade de defender minha mãe, eu filho primeiro, havia. Mas como exercer autoridade? Tal pressão psicológica sofriam também que estivessem engripados ou acometidos de tosse. Tossir? É se os kwaca estiverem por perto e ouvirem?

- Eles vêem melhor de noite e madrugada do que quando há sol. Com UNITA, você não torra farinha quando esteja escuro. - Diziam para nos pôr no lugar.

O Limbe, minha aldeia, era formado por duas comunidades: uma constituída por originários de Mbangu de Kuteka, cujo patrono era Xika Yangu, e outra comunidade da família Trinta. Ficavam distanciadas uma da outra por um intervalo inferior a meio quilómetro.

O dia da fuga, a primeira, foi combinado entre os makota das duas comunidades. Já se tinha "assistido ao accionamento de minas por parte de tractores e viaturas e subiam os rumores de que os kwaca estavam por perto. Já se tinham verificado rastos e algumas lavras aliviadas.

Partimos. Já não me lembro se bem no princípio da manhã ou no fim dela. Porém, aquele sol ardente sobre nossos corpos pioneiris e o alcatrão derretido a travar nossa marcha não me saem da memória.

Os da casa de Xika Yangu e os Trinta, todos estrada a baixo, em direcção às proximidades da sede comunal da Munenga. Era lá que estava a tropas das FAPLA e da Swapo.

Foi durante essa marcha, em 1983, que ouvi o Velho Trinta (já retratado em livro de ficção) a falar do seu "relógio que na verdade era o seu coração que teimava em funcionar.

- Por que não estragas de vez, ó relógio? - Apelava ele, cansado daquela vida de fugas permanentes e dias passadas nas matas, dado o peso da idade que carregava, já acima do dobro do seu nome.

Os Trinta ficaram em Katoto. Na verdade era Sangisa, pois a aldeia original de Katoto ficava mais no interior, próximo do rio Ryaha. Lá fomos parar na fuga posterior que nos levou à Munenga em Fevereiro de 1984.

Os da casa de Xika Yangu avançaram até Fuke, junto ao Ngana Mbundu, na margem do rio Mukonga. Ernesto Kapitia, irmão de Xika Yangu e primo de meu pai já finado naquela altura, era motorista do alemão (Walter Kruk ou Ngana Mbundu). Ali ficamos uma semana.

sábado, agosto 12, 2017

VIAGEM AO PASSADO


Monte Kanzangiri. Munenga/Libolo
- Kanzangiri em chamas?
- Não! É nevoeiro pela manhã.
- Então é isso que faz o cimo das montanhas ter sempre vegetação verde, mesmo em tempo seco?
- Sim. Já sabes que quer chova quer não, lá, no topo, há sempre humidade que se farta para manter vivas e verdinhas aquelas árvores que estendem as suas raízes em pequenas camadas de terra sobre pedras.
- Há bichos e pessoas por lá?
- Pessoas a morar não. Apenas canta-pedras e outros bichos de pouco valor.
- E canta-pedra é o quê?
- São pequenos animais mamíferos, não muito pequenos. Assim do tamanho de... de um coelho gordinho. Têm pêlos, pele mais resistente do que a do coelho, três dedos apenas, roedores, frutívoros e insectívoros. Vivem entre pedras e cantam ao alvorecer.
- Ah! Então são bichos que cantam entre pedras, não é?
- Pois, sim. Emitem sons ímpares à madrugada.
- E a montanha chama-se Kanzangiri porquê?
- Os locais de referência têm sempre nomes. Os montes, as montanhas, os rios, as coutadas, os cruzamentos de caminhos, etc. são referências que ajudam a situar as pessoas. Imagina que sais de Kalulu à Munenga pela primeira vez. Tenho de te dizer, para te situares ao chegar, que a lavra do Soba Kavindi Tungunu fico em Kanzangiri, montanha paleolítica que se acha à direita do teu caminho. Posto lá, em Kanzangiri, é só perguntar que as pessoas mostram a lavra do regedor.
- Ah, agora percebo, tio. E esses nomes são novos ou antigos?
- São antigos. Muito antigos. Há estórias já perdidas sobre a nomenclatura. Tentei, certa vez, perguntar sobre a origem de alguns topónimos e fiquei sem explicação.
- Mas como, sem explicação, tio, se as pessoas ainda vivem aqui?
- Sim. Vivem. Mas há uma grande dificuldade em descortinar a origem de todos os nomes. Os mais velhos não registavam por escrito os acontecimentos. Depois, houve um tempo em que os jovens deixaram de especular sobre o que lhes aparece à volta. Quem devia perguntar não o fez. Quem devia explicar também não. As pessoas estavam preocupadas em salvaguardar a vida do que a herança histórico-cultural.
- Foi no tempo da guerra não é?
- Sim. E muita nossa história ficou prejudicada. Para a recomposição histórica vamos precisar de muitos mais recursos e técnicas como o recurso à Arqueologia, Antropologia, Literatura Oral, que está a ficar escassa, etc.
- É por isso que, onde o tio pára, fica sempre a perguntar e a tomar notas?
- Sim, sobrinho. Temos de fazer a nossa parte, por mais ínfima que seja, para permitir que os verdadeiros investigadores encontrem alguma pista. Temos de fazer o mínimo possível...
- Obrigado tio.
E seguiram viagem...

Texto publicado pelo jornal Nova Gazeta, 03/08/2017

terça-feira, agosto 08, 2017

EMBOSCADO EM KASANJI

Dois ataques principais levaram-me a procurar refúgio em Luanda.
Primeiro em 1984, quando me encontrava na sede comunal da Munenga. Fiquei na capital do país até 1987, saindo daí para a sede municipal do Libolo, Kalulu, onde permaneci até Junho de 1990.
Em 1992, fruto do cessar-fogo e a sua "mini paz", que era tanta para a nossa vida de guerras sem fim, desloquei-me, em férias intermédias, à Pedra Escrita (Libolo) e depois à aldeia de Kizowo, Kibala, onde residia Luciano Fernando Dambi, irmão do meu pai. Eu gostava de bicicletas. Pegava em quadros simples e, peça a peça, fazia daquele esqueleto emergir uma "Bina". Peguei um quadro e, de regresso à Pedra Escrita, pendurei-a no ombro. A mochila repousava nas costas, assim como caminham os militares. Era adolescente pleno a espreitar a juventude. Corpo sarado e bem estruturado, 1,74m de altura.
Caminhava sozinho perto de 25 quilómetros. Carros não havia. Muitas pontes ainda partidas por reconstruir. A descer a aldeia de Kasanji (Lususu-Muxixi) Kalumbungu, chefe da UNITA e sua tropa, fazem-me uma emboscada. À distância terão enxergado "um militar com mochila às costas e PKM nas mãos". Cinco homens de farda verde oliva a mostrar o desenho dos genitais, barba por arranjar, irromperam sobre a estrada manipulando em simultâneo. Não entrei em desespero. Entrevistaram-me e expliquei de onde vinha e para aonde ia. Conheciam meu padrasto que era soba da Pedra Escrita. Minha permanência na Pedra Escrita foi apenas de um dia pois, tinha certeza que os tipos, que andavam desconfiados que eu era anti-motim, lá iriam para me incomodar. E a minha mãe informou-me, tempos depois, que mal me retirei os homens apareceram perguntando onde me encontrava.

Publicado pelo jornal Nova Gazeta de 28/08/2018

terça-feira, agosto 01, 2017

BALA NA CÂMARA: MÃOS AO AR

A paz de Bicesse, 31 de Maio 1990, tinha permitido realizar as primeiras eleições em Angola, de 27 a 29 de Setembro de 1992, classificadas como livres e justas.
Eu estava inscrito no Instituto Nacional de Petróleos e, em Janeiro de 1993, deveria ir ao Sumbe saber dos resultados e eventualmente estudar Geologia e Minas.
Em Dezembro de 1992, desloquei-me à Pedra Escrita, a fim de pegar um saco de macroeira que me permitiria comprar roupas novas e sapatos para aguentar o ano lectivo. No segundo dia da minha estada por aquela aldeia, que tinha a Unita sempre por perto, fui alvo de uma emboscada.
Eu trajava calças jeans blue, camisola da CNE e, por cima, um casaco avermelhado. Os homens que haviam negado a lisura do processo eleitoral e os seus resultados, terão chegado à aldeia no dia anterior e acompanhado todos os meus passos.
Eu ia à lavra, a pé, acompanhado de dois rapazes, meus paarentes: o Segunda Africano e o Daniel.
Na primeira descida, em direcção a Luanda, EN240, a olhar para a pedra, os homens saíram da mata. Crá-crá. Bala na câmara.
- Mãos ao ar.
Obedeci. Um esboçou posição de atirador. Deu uns passos à recta-guarda.
- Ainda tira o casaco. - Ordebnou arrogante.
Obedeci sem me acobardar.
Veio outro para reparar ao detalhe as inscrições na camisola, tendo anunciado depois:
- Ainda pensamos que era a cara do "Enduarto Sando". Se era ele, íamos disparare só na "fodografia" que está no peito. Ainda o maninho pode ir na (à) lavra. Mas se te darem camisola do "Enduarto Sando" nó usa. Doutor Savimbi não lhe gosta!
Quase ri. Estava já avisado que, embora tivesse propaganda do MPLA, não devia exibi-la naquele território. Um dos putos que me acompanhava não conseguiu conter o mijo. Fê-lo nos calções. Era tanto o medo que a presença dos homens e aquela acção impunham.
Segui o meu caminho, atrevido como são os adolescentes e os jovens de primeira viagem, até à lavra onde me encontraram, horas depois, para mais provocação.
Chegaram uns miúdos, FALA pequenos, irrompendo sobre a horta. Eu cuidava do bananal. Gosto de bananas e aprendi a cuidar de bananeiras. Os miúdos armados de kalachenikov pediam tudo o que viam: cana, mamão, mandioca, bombô demolhado, banana, etc. Quando eu ia já ficando fulo, a minha mãe apareceu e deu o que queriam. Ela leu o cenário mais cedo.
De regresso à aldeia, coloquei umas tantas canas na bina que me fora emprestada por um primo. Pelo caminho, fui novamente interpelado pelos kwaca (Unita) a pedir cana e demais produtos. Sabia que pretendiam um subterfúgio para lançarem toda a sua ira contra mim. A contragosto, não ofereci resistência.
Posto em casa, aturaria outras humilhações, pedindo que eu e tantos outros "kinangambala" fossemos catar lenhas para a sua habitual fogueira nocturna.
Para escapar, tive de me socorrer das que a mãe tinha na sua cozinha
...