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terça-feira, maio 22, 2018

ANTIGAMENTE NO RANGEL

 O tambor, uma lata de leite de qualquer marca, agredido por um ferro ou uma pedra, gritava ao máximo de sua força. Pá-pá-pá-pá.
Atrás do som, uma, duas ou três senhoras, lábios secos e pés empoeirados de tanto gritar e caminhar, soltavam um coro, alegre para a nossa inocência de tundenge e preocupante para as mamães que podiam estar naquela situação um dia, a contar com as nossas travessuras e o seguidismo ao Mam-Brás, ao cavalo-tica-tica, e, sobretudo no tempo de carnaval. Essas as mamães confirmavam antes a presença dos seus tumbonga é prestavam-se em passar informação e pedir detalhes sobre o garoto ou garota desaparecida.
- Pá-pá-pá... O gritar intrépido da lata já ampliada ia, deixando rasto na rua varrida manhã cedo pelas mamães. Cada uma atacava o seu lado. Lixo tinha lugar, o balde, no quintal, e depois o depósito com ou sem contentor.
Atrás do barulho da lata, ou quase em simultâneo, a manhã aflita e suas companheiras gritavam, quase já sem força. Apenas esperança em reencontrar o filho amado.

- Nanyi wa ngi bongela kambonga Kadyaléééé? E a lata tambor continuava Batucando.
É esse o Rangel do meu tempo, século passado, quarenta anos.
E o som, as trambiquices, as magoelas na carroça do carro do vizinho ou dum visitante qualquer, as pescarias de "bagudas" na vala Senado da Câmara, junto ao Catetão, as cercanias da DTA para apanhar loiça descartável já descartada, os pinos na Chicala e ou na praia do Mbungu, as castanhas de caju que só o comboio permitia chegar ao quilómetro trinta de Viana, tudo isso ainda no ouvido e na memória.
- Vocês, estão a ouvir né? É melhor tomarem cuidado. Se calhar quem se perdeu é vosso amigo da bola ou de brincadeiras. Quando mamã fala não sai é mesmo para não sair.
Qualquer vizinha era tia. Era mamã no aconselhar, repreender se necessário e acarinhar quando injuriado. 
- Filho 'lheio tem 'mbora razão dele. Pra quê só fazer no filho da outra quando você também tem kambonga? - Acudiam.
Hoje, com escolas do povo, colégios privados, ATL e creches para todos os bolsos, media e redes sociais para todos, nem o pregão que procura o filho desaparecido, nem as brincadeiras são as mesmas. Tudo mudou. Até às razões das desapropriações dos meninos. Hoje a atenção redobrada é com raptores de menores. Porque a Televisão , os jogos, as escolas e os quintais murados feitos prisões já não as leva tanto a caçar gafas, apanhar peixinhos para guardar em aquário de garrafão cortado, nadar inocente no perigo da Chicala e Mbungu ou pendurar-se ao comboio para chegar à fonte de castanhas de cajú. São outros os males e os remédios também.

terça-feira, maio 15, 2018

MADRES, ROUPAS, TELEFONES E REGUADAS

Na escola, roupas ou vestuário adequado, comunicações ou telefones (para os dias de hoje) e a (im)pertinência de reguadas são temas sempre presentes nas conversas formais e informais dos que labutam e frequentam instituições escolares dos primeiros níveis.  E, quando madres se juntam à escola, a "conversa" ganha mais vida.
Estive (28.02.2015) num colégio gerido por madres, ao Kikuxi, Luanda. Uma boa iniciativa que leva o ensino de qualidade e a bom preço ao museke. As propinas me pareceram modestas, quando comparadas com as praticadas por outros colégios, mas elas, as madres, foram claras em explicar que embora a criança matriculada "não seja culpada pela falta de pagamento dos pais, não devendo por isso ser convidada a abandonar a sala de aulas, a instituição tem trabalhadores assalariados" que devem receber pontualmente os seus ordenados.
A coordenadora da escola chamou também a atenção dos pais para que não viciem as crianças aí matriculadas com dinheiro e coisas extravagantes. "Há pais que dão dinheiro aos filhos. Levem o dinheiro aos pobres ou às cadeias", disse a irmã Leopoldina, realçando que outras crianças vêm com telefones muito sofisticados. "Não viciem vossos filhos com coisas impróprias para a sua idade", rematou a religiosa  que coordena a escola das madres, "S. José do Colouny" do Kikuxi. Para mim, são conselhos que se aplicam a todos os pais e encarregados de educação e a todas as instituições de ensino.
Ainda no campo comportamental, a cristã frisou que está a ser alarmante na  instituição a separação dos pais. "Além dos vossos motivos devem pensar nas crianças. Vemos que uma criança que lia já não lê mais. Umas já vêm sujas porque deixou de viver com os dois e agora está somente com um". Os pais, explicou, devem cuidar também da roupa dos filhos. Não devem usar roupas muito curtas, nem inapropriadas para uma escola (como essa). Vemos mãe e encarregadas de educação que chegam aqui com sainhas e decotes que não se recomendam, lembrou.
Já no fim, quando os pais e encarregados de educação conferiam com os professores o comportamento dos petizes, eis que me surpreende um senhor bem-falante e igualmente bem trajado defendendo castigos físicos aos alunos, comparando o seu tempo de escola com o hodierno. Eu era "um pato naquela ceia", fui apenas procurar o amigo Bernardo Bumba que tinha um cachimbo para me ofertar e enfeitar a minha banga de prosador, mas quase intervi para recordar-lhe das aulas do pedagogo Amós Komenius. 
Surra já era, senhor encarregado. A ciência demonstra que sem ela também se aprende e que violência gera violência. Os tempos mudaram. Senti vontade de lhe dizer tudo isso e mais umas coisas, mas quem interveio a seguir a ele explicou que era professor e que nenhum mestre mudo de pedagogia moderna recomendava as reguadas do "nosso" tempo de kapalandanda.
A "Maria das Dores" que tirava "lágrimas de sangue" ficou no século XIX (XX para nós nascidos antes ou na alvorada da Angola Independente).

Texto publicado no Caderno Fim-de-semana do Jornal de Angola, pag. 10, ed. 11.03.2018

terça-feira, maio 08, 2018

"AGUARDAR COLOCAÇÃO" EM AR CONDICIONADO

Num curto texto publicado na sua página da rede social face book, Ismael Mateus, entre outras questões que levantou, questionava a razão da existência de "bons quadros" na condição de "aguarda colocação" em organismos públicos e em algumas empresas públicas e privadas quando há municípios "às moscas". dada a pertinência do assunto, e visando despertar consciências sobre a pertinência do assunto e o desperdício ao Estado e ás empresas em que se constitui a referida condição de "AC", vimos retomar o tema, colocando demais questões.
- Por que será que muitas empresas e instituições conservam a categoria de AC (aguarda colocação), quando há dispêndio em salários e demais regalias inerentes?
- Sendo o salário algo proporcional à prestação laboral, faltará trabalho para fazer em uma organização?
- O que faz um "AC", regularmente pago, senão biscatear, empregar-se em outro patrão, fazer negócios, viajar ou engordar a custa dos outros que efectivamente labutam?
- Não haverá trabalho nas comunidades, nas localidades, nos municípios ou até mesmo prestar uma assessoria mais específica ao chefe que decide a condição de "AC"?
- Não faltarão visitas de constatação, inspecções, ajuda e controlo, etc.?
- Um indivíduo na condição de "AC" só pode trabalhar em ambiente de AC (ar condicionado)?
- Um bom técnico que tenha prestado serviços relevantes ao serviço público, empresa pública e ou privada, não pode fazer trabalho de campo? É desprestígio?
- Os líderes/chefes não gostariam de visitar determinados pontos, sectores, filiais ou representações sendo impossibilitados pela agenda? Que tal se os "AC" os substituíssem n essas missões?
- Quanto custa sustentar um "AC", quando adicionado o mau estar que provoca entre os que realmente trabalham e que estão remuneratoriamente abaixo dele?
É sabido que enquanto mais "velhas" se torna a organizações mais propensas se tornam em relação ao fenômeno "AC", dada a mobilidade de Capital Humano para outras organizações que, depois de cumprida a missão, devolvem o colaborador à origem onde encontra o posto ocupado ou sem vaga no organograma. Porém, se se remunera, cumprindo com o ético e legal, há que se dar trabalho, pois a condição de "AC" é, a meu ver, perniciosa à organização que paga sem receber trabalho, ao afectado e aos demais integrantes da organização.




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terça-feira, maio 01, 2018

KAXOMBA

O ambiente rural de Angola, entre os ambundu, regista o vocábulo "Kaxomba" que se reporta a uma patologia que afecta crianças ainda de tenra idade. O registo é de que o infante fica debilitado e com aspecto pálido. Casos dessa natureza, quando levados aos serviços médicos, são, geralmente reportados como anemia.
lançada a questão a parentes e amigos kwanza-sulinos e malanjinos sobre o que é "Kaxomba", como se manifesta, como era tratada e quais eram7são as consequências, recebemos as seguintes respostas:
"Kaxomba é uma doença (que se manifesta) em tenra idade,1 a 2 anos, e que os velhos diziam que (ser) sangue a mais, enquanto, no fundo, era anemia severa. Tratamento: lâmina ou outro objecto cortante na mão da avó ou tia, fazendo alguns tracejados (no rosto da criança), seguido de banhos de água morna e folhas cheirosas", respondeu Matias P, também ele vítima de tal "tratamento" que o deixou com "tatuagens em baixo relevo" no rosto.
Jaime CC, licenciado em enfermagem, acrescenta que a dita é "doença amigdalítica que impede a criança de se alimentar, causando anemia".

Para Judite L, licenciada e mestrada em enfermagem e com conhecimento da realidade brasileira, o que se designa por "cachumba" no Brasil é a nossa famosa papeira, quando a criança fica com a região da mandíbula abaixo das orelhas inflamadas, situação que ocasiona febres e dores ao mastigar ou engolir alimentos. Os mais velhos nas aldeias, persegue,  tratavam com óleo de palma e fricções no local.
Francisco C. diz que "...foi uma prática que assolou parte dessa Angola. A região de Songo, Kunda dya Baze, Kaombo e Marimba, em Malanje, não foram poupadas".
O. Pedro L diz que "em finais dos anos 80 do século XX ainda assistiu a essas acções, mesmo em Luanda, no bairro Sambizanga, praticadas por gentes oriundas de Malanje e Kwanza-Sul"...
A "kaxomba" foi responsável, até finais do século XX, por muitas mortes infantis. Crianças com a dita doença eram submetidas à extracção de suposto "sangue mau" para que "a doença abandonasse o corpo e com o novo sangue (que muitas vezes acabava não tendo) ganhasse saúde". Quando vemos adultos e jovens com tracinhos (faquinhas) no rosto, nos devemos lembrar que não foi (apenas) por uma questão de "kidimbu" (de que origina a palavra portuguesa carimbo), tradicional entre os súbditos (emissários) do rei Ngola. Trata-se de uma tentativa (crença mitológica) de salvar a criança adoentada e acossada por anemia que podia até derivar de má nutrição. Por isso, um crasso erro de gente com essas crenças e falta de informação médica.
A dita "kaxomba" é anemia, debilidade do sistema imunológico. 
Empenhemo-nos na formação e informação e haja menos discriminação de quem foi vítima de ignorância, falta de meios de atendimento médico e medicamentoso e até mesmo de cuidados alimentares para com infantes.
Se persistir ainda essa crença por algum lado do nosso país, devemos formar e informar e evitar mortes e ou ostracismo e bullying no futuro.
A kaxomba cura-se no hospital. No Brasil uma patologia descrita com os mesmos sintomas que "a nossa kaxomba" é designada cachumba, inexistindo naquelas paragens a cura por meios mitológicos como acontecia até há bem pouco tempo em Angola.

domingo, abril 29, 2018

ATINGIMOS A "ADOLESCÊNCIA"

Já lá vão 14 anos desde que, a 29 de Abril, na Universidade Católica de Lisboa, criámos o "Olhoatento" que viria a ser rebaptizado, na língua Kimbundu, por "Mesumajikuka".
 
Surgimos como espaço sarcástico, reproduzindo (in)fielmente estórias vivenciais dos estudantes ao Curso de Jornalismo destinado aos PALOP (3ª edição), organizado pela Fundacção Gulbenkian e UCL. 
 
Já lá vão 14 anos. Do generalista "OLHOATENTO" emergiram outros blogues temáticos, como sejam: www.canhanga.blogspot.com (aforismos), www.agricultarte.blogspot.com (dicas sobre plantação), www.olhoensaios.blogspot.com (apontamentos sobre recolhas históricas e sociais), www.atura-liter-atura.blogspot.com (laboratório de escrita artística), www.10encantos.blogspot.com (poesia).
 
 

domingo, abril 22, 2018

O SOL E O MAR

Você que sempre relacionou o mar ao pôr-do-sol; Você nascido em Cabinda, Zaire, Bengo, Luanda, Kwanza-Sul, Benguela ou Namibe; Você que, tendo nascido em província angolana do interland, tem visitado o Atlântico-Leste (oeste do nosso país) e relacionado ou levado para o seu subconsciente que "para nós, o sol morre no mar";  depois de um sono e sonho profundos "acorda", bem disposto, abre a janela e vê que, sendo manhã ainda, seis e meia, o sol está, ainda uma criança sem força, no lado oposto em que sempre o viu morrer.
Corre para a janela oposta, onde normalmente ele nasce, e não o vê. 
- Capalama!
Consulta o relógio e confirma a hora. Sete menos um quarto. Passa a mão pela cabeça, procurando se reencontrar. 
- Será que a terra virou e a casa está em sentido contrário? - Questiona-se colhendo apenas silêncio.
Com mais detalhes, visita ocultamente o bairro. Os vizinhos, o sentido do trânsito, o pregão das kitandeiras e tudo mais... Está tudo no sítio certo menos o sol.
Pois é. Nem sempre o sol morre no oeste. Ele nasce, sim, no leste ou oriente, na região dos "magos" citados na bíblia cristã. Porém, os mares, os oceanos, os lagos, as lagoas, os rios, os cursos de água pluvial têm duas margens. Você estará eventualmente em apenas na margem oposta do Atlântico. Estará na costa atlântica da América. É assim que eles vêm o sol nascer (pelo leste, no mar) e morrer floresta adentro, escondendo-se entre montanhas e copas frondosas de árvores do Amazonas.
Quão bom é sonhar estar no lado oposto do Oceano e ver o sol a nascer na posição em que o vemos morrer? É o que gravou o seu subconsciente. Tenha mais sonhos!

Publicado no jornal Nova Gazeta de 15/03/18

domingo, abril 15, 2018

VUZADO EM "CAPE"

Mangodinho, na banda dele, em Kalulu, e em Luanda acha-se um "grande vivo", individuo culto e esbanjador de luminosidade por onde passa. Quando atravessa a Via Expressa Comandante Fidel Castro, a banga que faz ´´e somente comparada à de um macaco que tenha visto banana madura e desguarnecida. Passo largo, elástico e cadenciado. Kwá- Kwá-Kwá! Só ele e mais ninguém.
Na terra do arco-iris, onde, em vez de espreitar primeiro à direita e depois à esquerda, é o inverso, Mangodinho escapou "ser engomado" por uma 'mboa (deve ser mwangolê) que só sabe acelerar, virar o volante e travar, de vez em quando.
Mangodinho, com a mania dele de andar estiloso, espreitou à direita e nada. Pensou que a estrada fosse de sentido único e sem carro por perto.
_ Não está a vir carro nenhum, vou atravessar.
Banga em "Cape", para ele, era tipo sol que, por aquelas há mais do que chuva rara nos tempos de hoje.
A 'mboa ia na bisga, a zunar. Quando Mangodinho ia pôr, bangosamente, o pé da frente no passeio e puxar o da trás, ouviu: cru-cru-cru-tawas! Nem tempo teve para mobilizar o corpo à corrida.
Caiu ali mesmo. A 'mboa, uma kamusekele tipo latona, brilho na pele parecia "feitiço". Ela a tremer de medo e ele a tremer de susto. Os dois olharam-se nos olhos, pareciam adolescentes apaixonados à procura do beijo inaugural. 
- Are you ok? - Indagou a kindoza.
- Ok! - Respondeu ele, mesmo sem ver se o pé estava ou não partido, se estava ou não ferido ou luxado. Pronto, respondeu só usando o "kainglês" que tinha na cabeça.
O polícia que estava por perto fez a vênia à 'mboa e essa meteu-se no popô, seguindo o seu caminho. Olhos só na frente.
Mangodinho, sentado no passeio, descalçou os sapatos, viu a arranhadura a ficar vermelha quase a alcançar a pele bonita da mulher kamusekele que por pouco o mandava para a outra vida. Ficou a pensar pensamento de medo.
- Se me bondassem aqui quem iria contar o óbito na banda?!
Chorou um choro longo a que se seguiu um sono também longo, depois de massageado o corpo com um "usa bem", à moda biena.

Publicado pelo jornal Nova Gazeta de 04.05.2018

domingo, abril 08, 2018

SAWUBONA!


Na banda muito dikelengo, porque eu já ganhei dois campeonatos de falar inglês. Chegou a Soute, virou gago. Vale apenas ainda na terra dos dâmaras, onde andava com o dicionário no sovaco e lápis no cabelo. Na Soute, nem pensar. Népais!
Mangodinho, a assanhadice saiu-lhe, desta vez, pela culatra. Qual disparo verbal, qual quê?
Primeiro, mandaram-lhe, de controlo, um "Sawubona", quando entrou no avião. Procurou no dicionário e não encontrou a palavra. Depois, quando estava a descer, ouviu a aeromoça a dizer-lhe
"dmari gadley totsi", acompanhado de um acenar da mão. 
- Será que disse até breve ou até amanhã? E sawubona então é quê? Será que disse vais viajar bem, sem tremura no avião?
Chegou à terra querida, motherland, solo pátrio. Mas o pensamento na cabeça dele é somente sobre sawubona e o tal dmari gadley totsi. 
Já tomou decisão.
- Esses wis não podem voltar a me brincar. Sou Soba, autoridade respeitada na Pedra Escrita, Kuteka e arredores. Mesmo na Ngimbi, capital da República nossa, toda a gente que me conhece me respeita. - Reclamou aos ventos, acrescentando que "Quando Mangodinho abre a boca até o vento pára de fazer circulação confusa. Por que esses gajos não me dão valor? Volto à Champions aprender inglês. Ano que vem vamos nos reencontrar e quero ver se vão mais conseguir me avacalhar ou me aguentar minhas gorgetas. Fiquem lá com vosso inglês de meia-tigela que não aparece no dicionário que meu pai Sabalo-a-Soba  trouxe da própria England. Brinquem com os outros gajos que são kawisu, pá. Um gajo vem a falar bom inglês aprendido na Champions e vocês a quererem me trocar as ideias com o vosso Kimbundu daqui? Pensam que nós também não temos? Temos. Temos Kikongo, Umbundu Oshiwambo, Ucokwe e muito mais que já estamos a dar o devido valor e a aprender e a falar nas repartições públicas e nas escolas do povo e dos privados. Pensam que nós só sabemos plantar batata? Rocharam. Também temos...
Akuna matata, mazé, pá!


Texto publicado a 01.03.2018, no jornal Nova Gazeta

domingo, abril 01, 2018

UMA MONTANHA SEM BRILHO


À frente do hotel em que estava hospedado, a kamunda mostrava-se arejada e asseada. Árvores poucas, relva escassa mas cuidada, porquice nada! 
Mangodinho recuou a fita e ficou a pensar na Ilha Seca do seu Zango III e ainda na na sua Boavista do Sambila.
- Epá, esse mambo, se fosse na banda, era "bom sítio" para casitas de lata e aguardar pelo realojamento do Estado. Mas aqui nada. - Pensou.
Passeou o olhar à volta e viu a montanha grande, parecida com mesa, lá em cima, também toda sem brilho e sem lixo a transbordar como acontece na sua Table Moutain da Coreia, na Samba, cujo topo abre caminho ocular para a ilha do Cabo, Xikala, Musulu e ilha da Kazanga.
- Será que é por causa da ausência de casotas oportunistas de chapa? É que isso não brilha mesmo!
Na tasca mais próxima, foi tomar uma bebida que se parecia ao "usa bem", kapuka da ponteira, feita de usambe (batata-doce em Umbundu). Precisava de diminuir o cansaço da marcha e puxar o calor que não vinha, mesmo andando debaixo de sol intenso. Melhor, Mangodinho precisava era de "caloriar", como ele apelida o suor.
De espanto em espanto, viu ainda que na rua nenhuma dama andava com lata de gasosa na mão para cuspir. 
- Nem só uma? Mas aqui as damas não cospem nem no chão nem na lata de gasosa?
Sorveu as últimas gotas do "usa bem" e limpou a boca.
- Quantué?
- What?
- Quantué?
- I dont undertand you.
Lembrou-se que tinha falado português. 
- How much?
- Nine, five.
Pegou na cédula de cem Rands e a estendeu à balconista. Esta, por sua vez, tardava em devolver o troco pensando ser "tip". Já lá iam trinta minutos.
Mangodinho ficou a banzelar.
- Essa mboa não me traz o kumbu do troco, porquê? Xê, se pensas que vais me aguentar estás mal enganada. Vou te mostrar que antes dessa vida Mangodinho, que sou, eu já era vivo.
Aproximou-se à moça e puxou coragem. Pensou em  Português, traduziu ao pé-da-letra, soletrou as sílabas anglófonas e disparou:
- Misse, for other things, I can not speaking your language, but for money I can. Please, give me my change.
A moça, aprendiz de aguentadora, que já haviam feito suas contas para o after work, pôs mudança de recuo e entregou-lhe o kumbu.
- Fogo! Nessa vida é preciso ser viju. - Comemorou, pedindo mais um shot que apelidou de "usa bem" à moda angolana.


Publicado pelo Jornal de Angola, pag. 10, edição de 26.02.2018

quinta-feira, março 29, 2018

NDENDE JA MBALA

O camião apinhado ia cansado e a resmungar. Coisas e gentes sufocavam o no seu dorso. Tábuas velhas e cansadas, feros retorcidos enfeitando taipais que acolhiam peixe salgado, macroeira, balões de fardo, idosos que pareciam fardos e crianças com nudez farta. Os jovens e adolescentes iam igualmente. Porém, eram poucos. Apenas os mais destemidos. A última idosa a apanhar o camião levava coisas suas. Umas kindas e linhas para tricotar balaios e outras cestarias. Levava ainda um cacho de dendém que era alheio.
Na última subida, 10% de declive, seguida de duas curvas perigosas, local incontornável da EN 180, onde a velocidade nunca passava os dez quilómetros a hora. Ali mesmo, na esquina que beijava o rio, os homens da farda verde-oliva apertada à exaustão, montaram o seu posto de controlo. Paragem obrigatória e sem falatórios.
O camião que já ia lento soluçou antes de o ajudante calçar sobre uma das rodas traseiras um valente pedaço de madeira. Um dos homens fardados subiu à carroceria, barba e cabelos fartos. Pente e tesoura parecia não haver. As verdinhas calças quase se desmanchavam dado o esforço do militar.
- Ndendefica. -Disse ele à "floresta" no camião.
Enquanto uns, conformados com a sorte, sacudiam as algibeiras e as sacolas para retirar e apresentar os documentos, a velhota sentada por cima das suas bikwatas, soltou um valente e malicioso muxoxu.
- Hum, ndangala jê. Ndende ja mbala (é dendém alheio)!
Terá entendido que o cacho de dendém ficaria naquele posto militar.

Texto publicado no jornal Nova Gazeta de 12/10/2017

domingo, março 25, 2018

ENE AKWETU, KALUNGI

Mangodinho, há semana e meia que estava dividido entre desenvolver novas ideias e materializar o que havia planificado fazer depois que regressou de curta estada em terra dos dâmaras.
- Pensar e não fazer é o mesmo que não pensar. As pessoas querem mudanças, querem movimento, querem pragmatismo, acção prática e nada de simples retórica. Estão fartas de simples elementos em potência. - Argumentou em surdina.
Porém, uma nova deslocação para a rainbow nation fê-lo, de novo, voltar às analogias e novos pensamentos. Em cada espanto, positivo ou negativo, regressa à banda e faz comparação. Foi assim quando viu um bangoso turista que calçava límpidos "londindi". Assim também foi ao avistar uns guetos de JoBo, que vistos a mais de quinhentos metros de altitude se pareciam ao nosso Ngwanyá ou Fubú.
- Epá, aqui também há resquícios da segregação. - Disse, a olhar para Soma Kevela com quem divida acentos no pássaro de metal.
- Sim, companheiro. Ainda têm uns guetos é sempre tiveram. Mais ontem do que hoje. Mas eles têm água e luz e até números nas portas. - Explicou Kevela, o resiliente.
Postos no hub de JoBo, Mangodinho, pensamento só no NAIL que se quer semelhante ao Oliver Tambo Air Port, aonde convergem várias rotas africanas, asiáticas, europeias e americanas.
- E fizeram-no aqui fora da capital Pretória? Ai se fôssemos nós! E se o NAIL fosse no Huambo, Katumbela ou Lubango?
As perguntas continuaram. Umas oralizadas outras apenas "no coração". Conteve-se. Até porque Kevela estava a ler a revista Sawubona que ele, Mangodinho, traduziu automaticamente para "Kalungi", o mesmo que "Olá-como-está" dos tugas bem dispostos. Ficou a exercitar os seus vastos conhecimentos linguísticos bantu e fez uma lista de saudações-tipo a que pretende sugerir a comunicadores institucionais da Ngimbi para suas revistas.
- São ideias. Apenas ideias que valem o que não valem. Mas, Menekenu do Ucokwe e Kalungi do Umbundu são já meus títulos de revistas e faço o registo imediato logo que chegue. - Verbalizou de forma audível, mesmo não tendo companhia no monólogo. Ainda há mais horas por voar até ao destino. Entre trepidações da máquina "arrastada" pelas correntes densas do Índico-Atlântico, Mangodinho pergunta-responde, como se saúda e se retribui.
-Kalungi?
- Kuku!

Publicado no jornal Nova Gazeta a 08 de Fevereiro e 10.05 de 2018

quarta-feira, março 21, 2018

MANGODINHO NA FILA DOS POEMAS

 
Visionário de aldeia é visionário e mais nada. É único e conhecido de todos. Qualquer mestre  é mestre no seu ofício, sendo, por isso, respeitado e solicitado em tempo próprio. O circuncisador, no kasimbu, anda de aldeola em aldeola, tratando da transição à vida posterior dos infantes. O pedreiro é o grande mestre do tempo seco, antes da chegada da chuvada seguinte, fazendo crescer as aldeias com adobes, massa crua de barro, fio e prumo. O professor, mestre do ABCD e da desvenda contra a ignorância, percorre quilómetros até atingir a escola que, muitas vezes, fica na aldeola central que recebe alunos e alunas de várias aldeolas cincunvizinhas. O enfermeiro é um "doutor da injecção" e recebe pacientes de vários aglomerados populacionais. O catequista é um andrajoso, pregando e evangelizando velhas e novas ovelhas do seu rebanho. Ao comerciante acorrem vários utentes/compradores e vendedores disso e daquilo, procedentes de aldeias de distâncias inimagináveis a um kalwanda. O poeta é também filósofo, como na Heleiâda ou Roma antiga.
Em comunidades pequenas os iluminados contam-se aos dedos pela região.
No mato, Mangodinho é Kilamba de verdade. Um poeta de fina flor. Tudo o que fala, mesmo quando bebeu canecas, é aplaudido. Os miúdos que andam já a estudar poesia com rima e métrica na sétima classe da escola do povo dizem que Mangodinho é bom poeta. E foi nesse convencimento de matuense que, posto na Ngimbi, ouviu  na rádio do Estado que o cidadão Ismael, aquele que anda a defender "autarquias já", ia lançar um poemário de verdade.
Miúdo Sembe que foi com ele, a pensar que a poesia natural de Mangodinho é igual à poesia artística dos escritores das capitais (municipais, provinciais e nacional) também agitou Mangodinho para ir declamar no Tropical onde estariam os homens de verbo escorreito e linguagem retocada da grande capital.
- Vai Kota Mangodinho. Se ele é teu guia, tua candeia, teu admirado benquisto, promotor das autarquias que muito desejosamente esperas, vai também. Pede para declamar com aqueles Kilamba da Ngimbi cheios de nganza, fato e gravata e muita garganta. Garganta e pausa, Mangodinho, você tem de sobram vai. Vai ser desta vez que Luanda se vai abrir completamente aos teus pés e, em vez de te autarcares no Libolo, eles te edilam já mesmo aqui. Estamos na claque.
Assim mesmo, Mangodinho se inscreveu. Aliás, pediu ao puto Sembe, aquele que enviou à Huíla para se formar em enfermagem, para inscrevê-lo via Facebook. Só que, quando descobriu a conta do cidadão Ismael, a bicha (fila) era enorme. Afinal, os mwadyés da Ngimbi ainda não aposentaram o hábito deles antigo de madrugar nas filas de tudo que seja bom.
Mangodinho volta ao seu Libolo sem declamar?
A ver vamos!


Publicado pelo caderno fim-de-semana do Jornal de Angola, pg 10, edi. 15.04.2018

domingo, março 18, 2018

A MISSÃO CIVILIZADORA METODISTA EM CAXICANE


Frequentado o espaço e recuando no tempo, as conclusões, depois de visitas à memória, não são demoradas.
Quem vai a CAXICANE vê o delta do rio Kwanza, todo ele comprido, curvilíneo, majestoso e preguiçoso, e casotas que se escondem sobre o arvoredo ribeirinho. Encara ainda uma picada tangencial ao rio, inacessível no tempo chuvoso e que terá sido pior no início  do século XX, quando Agostinho Neto nasceu (Setembro de 1922) e seu pai Rev° Pedro Neto  pastoreava a igreja metodista local. Encontramos povos agricultores e pescadores espalhados pela planície longa e húmida que podiam "professar", para além do Nzambi, outras divindades ligadas à fertilidade do solo, à chuva e às enchentes que, anos sim, anos não,  visitam furiosas os campos e as habitações de pau-a-pique daquelas região.


Ruínas da casa pastoral da Igreja Metodista de Caxicane
E foi nesse cenário que a caravana metodista, procedente dos Estados Unidos da América, Marco de 1985, que trafegava sobre o Kwanza implantou a Igreja Metodista de CAXICANE, no Icolo e Bengo. Era preciso destapar as vendas, fazer daqueles povos cidadãos do mundo, conhecendo a sua cultura e geografia e descodificando o alfabeto para descobrirem que "havia mais muindo do que o horizonte de seus olhos" e tomarem conhecimento do que os outros povos haviam já inventado e comunicarem eficazmente com o passado e o futuro. E Pedro Neto, pastor ainda jovem, foi mandado ao local para dirigir a Igreja de Cristo imbuída da sua missão CIVILIZADORA, ensinando as crianças a ler e escrever e os adultos a conhecer a Deus único, verdadeiro e poderoso, sobre o qual gravita todo o ser, pensar e estar. Os bons costumes como a poupança, a monogamia, o desapego às práticas místicas e inibição da bebedice foram e ainda são outras das lições que os metodistas ensinam e conservam.
Quem vai a CAXICANE logo conclui que não podia ser outro o caminho. Apenas o Kwanza. Tal é a proximidade entre a igreja (a primeira já sem sinais, a segunda em ruínas e a terceira feita de blocos de cimento) e o rio, separada apenas por parcos quinze metros do leito, sendo que "quando as pessoas não falam é o Kwanza que conta estórias". E o mesmo Kwanza, bi-lateral, teria no seu silêncio milenar, apadrinhando o surgimento de outras "missões protestantes" no seu outro lado, o direito: Kisama, Lubolu, e terras além mar...

Texto publicado pelo jornal Nova Gazeta a 05/10/2017

quinta-feira, março 15, 2018

AS COMPRAS, O TIO E O FEITIÇO

Discutia-se algures, no nordeste angolano. Dois amigos. Um citadino e outro cujas vivências se restringiam àquilo que o seu horizonte visual permitia ver entre o nascer e morrer do sol.
Mulelenu e Mwecenu eram porém coetâneos e com os dez primeiros anos de vida feitos em comum: caçadas, armadilhas para todos os animais menores, pescarias, iniciação em trabalho com a madeira, ferro e até cestaria e olaria, ofícios que aprenderam antes da mukanda (escola de iniciação masculina) e que aperfeiçoaram nela e depois dela. Os mores, as tradições, os ritos, os contos, os temores aos mais velhos, ao tio, a valentia perante os perigos na selva, tudo isso foram lições aprendidas até que a cidade chamou Mulelenu que foi viver com um tio.
Tempos depois se reencontraram. Mwecenu parecendo mais velho do que Mulelenu, agruras da vida no campo. Mulelenu parecendo um infante, instalado no seu jeep todo-o-terreno. Viram-se e se abraçaram. Ali mesmo, sem mais demora, aliás, depois de Mwecenu ter tragado o pão com chouriço e bebido a cerveja que o amigo lhe oferecerá, começaram as perguntas.
- Sepha (amigo), você não têm medo de tio?
- Medo de tio? Como assim?
- Vocês que vivem nas cidades esqueceram as nossas vivências. Já te esqueceste que tio te pode vender?
- Sim. Isso nos ensinaram quando éramos crianças. Mas vendas de sobrinhos já terminaram há mais de um século, ou seja, cem anos. Tu ainda pensas assim? Apressa-te. Estás parado no tempo.
- Ai é? Eu que te quero ajudar a abrir o olho é que estou parado só porque você está a andar no carro e eu a pé? Já deste mota ou kinga (bicicleta) ao tio daqui?
- Olha, Mwecenu, para mim essas coisas ficaram no passado, são estórias para ensinar as crianças a reverenciar os mais velhos e especialmente os tios. Nada mais do que isso.
- Ó rapaz, você conhece botânica? Os tios todos têm botânica (feitiço). Se os tios de Luanda já não vendem os sobrinhos é porque têm possibilidades. Os do mato te põem mesmo na botânica, não brinca meu irmão. Não passa a vir só com as mãos a abanar. Se compras moto, primeiro dá uma longa ao tio. Se compras carro primeiro uma moto ao tio. Se compras casa boa, manda umas chapas de zinco ao tio. Assim, se ele te manda vender na botânica, o teu espírito fica protegido (coberto de razão) e nada te acontece. Os espíritos lá nos céus te defendem e o próprio teu tio ou filho dele que que entra em desgraça porque a tua parte foi feita com antecedência.
Mulelenu, mão no queixo, a ouvir o amigo de infância a discorrer conversas que, para ele, são para boi roncar, preferiu deixá-lo exorcizar todos os seus temores.
- Terminaste, Mwecenu?
- Sim. Até aqui, esse kabucado, já depois vou te explicar outras coisas porque tu és meu amigo desde há muito tempo. É para teres sempre cuidado que aqui o feitiço é mais forte do que a bala de uma arma.
- Pois é. Agradeço-te pelo facto de teres conservado todos esses valores. São eles que regulam a vida aqui na aldeia. Que fazem com que os jovens depois de se "palharem" não vilipendiem os mais velhos. Mas repito é tudo conversa da treta. Tens problema com o vizinho? Vai à polícia. Tens dinheiro, investe em coisas que ajudam a comunidade. Compra mota, compra boi, compra carro, constrói boa casa. Hoje já não herdas do tio nem ele te vende em lado sítio nenhum. E se tens tempo para estudar, estuda um pouco abre os olhos. O mundo está a avançar rápido. Hoje o neto do branco que comprava escravos e neto do antigo escravo comem à mesma mesa. Feitiço é atraso.
Mwecenu acenou a cabeça em jeito de aprovação mas não o confirmou oralmente. Continuou pensativo. Deu apenas um abraço ao seu amigo da cidade e ambos continuaram, já em surdina, a reflexão sobre o que deve ser mantido e o que deve ser extirpado dos contos e lendas do antigamente.

Publicado pelo Jornal de Angola, de 15/03/2018

quinta-feira, março 08, 2018

A ALDEIA DA JUVENTUDE

O tempo histórico é incógnito. Apenas os dizeres que viajam de geração em geração dão ideia de que não terá sido na antiguidade clássica. E conta-se que num plateau, também esquecido dessa imensa Angola, vivia uma enorme comunidade. Homens novos e homens velhos se destacavam nos trabalhos que consistiam em agricultura, pesca, caça e recolecção.
Inicialmente, os mais novos, dada a sua robustez física, executavam as mais penosas tarefas, enquanto aos idosos recaia a tarefa de ensinar e coordenar todas as actividades socio-culturais e culturais.
A investigação e a implementação de novas tecnologias era também tarefas confiadas aos mais novos, chegando, muitos deles, a envaidecer-se e desrespeitar os seus pais e avós a quem tratavam por "caducos".
Certo dia, um grupo de jovens petulantes chegou a propor a separação da aldeia, construindo, num campo que distava dois quilómetros, a aldeia dos jovens que procuravam "libertar-se" da "escuridão" a que diziam estar os velhos votados. Na verdade, a intenção maior era ver a aldeia de Kitumbulu "uma lar de idosos carentes e pedintes".
A nova aldeia, designada Light Youth City foi erguida em tempo recorde. Entre os jovens abundavam arquitectos, engenheiros civis, tecnólogos, informáticos, autómatos, entre outras ciências modernas daquele tempo.
Erguida em zona plana de uma montanha, a iluminação fotovoltaica fazia dela um esplendor. Uns tratavam-na de "cidade celestial", pois havia quase tudo e consumiu apenas meio ano.
Chegou o kasimbu, tempo seco e de caça. Os armazéns de víveres estavam vazios e era preciso pescar e caçar. As mulheres, belas e modernas já não se contentavam apenas com a cidade. Algumas furavam o combinado que era "não se deslocar á aldeia de Kitumbulu onde ficaram os velhos até que se rendessem e se mostrassem abertos ás estravagâncias juvenis". Porém, saudade e fome quando se casam, a lei evapora. Sorrateiramente, uma e outra iam visitar os pais e pedir o que comer.
Lá, em Kitumbulu, mesmo com suas forças diminutas e seus meios artesanais e rudimentares, a pesca e a caça nunca foi problema. A fartura apossou-se das casas e os velhos e velhas doutro tempo pareciam mais jovens que seus filhos desertores que padeciam de fome e má nutrição.
Aflitos, os habitantes da Light Youth City tiveram de reunir-se e nomear uma embaixada que foi se desculpar aos idosos e solicitar que os ensinassem a pescar em lagoas e pântanos e a caçar com artefactos rudimentares entre o capinzal ribeirinho.
Valeu-lhes o facto de "o amor paternal ser imensurável e inesgotável". Foram tolerados e instruídos. Mas, em contrapartida, cada filho teve de levar os seus pais para a nova cidade.

Texto publicado no Jornal Cultura de 05 Nov. 17, pg. 11

quinta-feira, março 01, 2018

CONTRATOS RENDEIROS NA VOZ DE KILOMBU KITINU*

A abolição internacional da escravatura aconteceu no sec. XIX (1883) mas a sua materialização efectiva levou décadas, para não dizer século. Porém, os detentores de escravos e aqueles que faziam da captura/compra, utilização doméstica e venda de "peças humanas" o seu negócio procuraram diversas artimanhas para fazer dos homens nessa condição meros objectos.
Ou se mudavam as totas do Atlântico para o Indico ou se praticava a escravatura (depois com outras faces) no território nativo.
Kilombo Kitinu, filha de regedor e neta de ex-proprietários de "mabika" (escravos) conta, aos setenta anos, que "meus bisavós Mungongo e Kaphote Kasenda, todos da região de Kindongo/Kisama, eram detentores de mabika que depois de alforriados, 'quando chegou a ordem', tornaram-se parentes".
Quando comecei a trabalhar na "renda" ainda adolescente, às vezes não percebia o tratamento que me era dado, explica. Recebiam-me como rainha (embora o fosse) e estendiam panos onde me sentava. Só mais tarde me fui apercebendo que era a forma grata como os ex-mabika tratavam os antigos proprietários ou seus descendentes conhecidos que os haviam tratado com dignidade.
Mas de descendente de "esclavagistas", Kilombo Kitinu também experimentaria o fel da escravidão camuflada em pseudo contratos rendeiros, onde crianças e adolescentes não eram poupadas na abertura de vias rodoviárias, apanha de café, processamento de tabaco, limpeza de capoeiras, entre outros trabalhos.
Como a máquina funcionava?
Os colonos recém-chegados, fossem portugueses ou alemães, iam ao posto administrativo requisitar "pretos para trabalhar", não se seleccionando a idade. O posto administrativo obrigava o soba a mandar ao "contrato" os seus aldeões e, nessa difícil tarefa, não podia excluir seus filhos e sobrinhos. Foi assim que ela, filha de regedor de Kuteka, também frequentou as fazendas do Prata, Kabumbulu, Ngana Mbundu, Senhora Kasenda, Conde, entre outras como "trabalhadora rendeira".
Terminado o período de um ou mais meses, outros eram "recrutados" para render os outros. Por isso, a oralidade conserva o termo "renda" para designar esse tipo de trabalho semi-escravo que se desenvolveu até à segunda metade do Sec. XX, antes da independência em Angola.
Kilombo Kitinu recua no tempo e estabelece um marco:
- Quando se abriu manualmente a picada de Kawayawasa, para o alemão Ngana Mbundu (Walter Kruk), foi quando nascemos. Aí chegou a ordem para o fim da escravatura. As pessoas que trabalhavam na abertura manual da picada  tinham as mãos rebentadas (calejadas e feridas). Entrou depois a renda. As nossas chinelas eram de pele de cabra. A todas as pessoas, os brancos chamavam apenas por ó preto! E os negros respondiam patrão! Nesses trabalhos, as meninas ficavam, às vezes, duas semanas que eram remuneradas com pouco dinheiro. Só chegava para comprar um par de brincos ou missangas para mãe, pano e sabão para a trabalhadora.
Narrou ainda que entre os seus parentes directos, duas pessoas se destacaram na fazenda da alemã conhecida por Senhora Kasenda (os nativos atribuíam outros nomes mais familiares aos europeus). Eram o mano Doce (cozinheiro) e o papá Kabota (capataz). Esses viviam lá no acampamento com suas famílias e só iam à aldeia de Mbangu-Kuteka visitar os parentes. Falavam a língua dos alemães e as suas mulheres e filhos vestiam-se bem. 
Do outro lado do rio Longa, território de Dala Kaxibo, também havia alemães. Kilombo Kitinu citou Kabumbulu e Kilenge (nomes atribuídos pelos nativos). 
De recordação em recordação, "viajou" por Kixinje, território da Kisama, onde, ainda garota, trabalhou na abertura da picada que termina em Kandanji (margem do rio Kwanza, junto ao Dondo). 
- As mulheres também abriam picadas com enxadas...

*Maria Canhanga

Texto publicado no Jornal Cultura, Janeiro 2018


quarta-feira, fevereiro 28, 2018

KATUTURA, POIS CLARO!


No tempo da segregação racial imposta pela colonização sul-africana do regime apartheid, os negros ocupavam um espaço nobre, na cidade. Atentos ao crescimento exponencial da população, os brancos colonizadores entenderam mover os negros para fora da zona nobre, construindo uma espécie de casas sociais, um Zango de cá. Porém, descontentes, os negros disseram: "KATUTURA MBA" (não queremos ficar aqui)!
ALGO EM COMUM?
Na sua cama, ainda sem sono, Mangodinho começou a matutar no som de duas expressões comprimidas em duas palavras: Canguru e KATUTURA.
- Não pode! Será?! Não será? Vejamos.
Começou a esboçar no seu bloco de notas, agora auxiliado pela internet/google.com.
- Quando os ingleses chegaram à Austrália e viram o bicho de bracitos curtos e pernas longas que dava (continua a dar) uns saltos longos, perguntaram como o designavam, e foram respondidos "ka-ngu-ru" ou seja, não entendemos vocês. E eram aborígenes, portanto, negróides, os que responderam aos pulas. Aqui também na vizinhança, quando os pulas disseram saiam da cidade e vão se "encoelhar" fora da cidade e num espaço ilimitado, os mbumbu disseram "imba ka-tu-tu-ra" que significa não queremos viver aqui. Já viu? Devem ser o mesmo povo que se separou há muito tempo com o empedaçamento da terra em época remota. - Fechou o pensamento e chamou pelo sono que tardava, colocando como tarefa do dia seguinte ir em busca de um geo-historiador e colocar em terra a intrujice que lhe havia feito um zero à esquerda, segundo o qual KATUTURA=não nos torturem!
Instalado no seu apartamento T1, arrendado na cidade, Mangodinho fez constar aos amigos que gostou mesmo de KATUTURA. Para ele, o mercado afamado pelos assados ajindungados é comparável ao dos Congoleses (o antigo), higienizado e com muita carne fresquinha de vaca. Nas suas viagens à memória e exposição não se esqueceu de um detalhe:
-Epá, aqui é quase outro mundo, tendo em conta a nossa bebedice e espalha-garrafice. Álcool nem para ferida encontras. 
Contou ainda que "com a máxima intimidade entre o homem e o alimento, que só é atingível com as mãos desarmadas, comi, pela primeira vez, pirão de masangu e bebi sumo de goiaba".
-"Pomada"? Nem com binóculos pude ver. Mete inveja, KATUTURA!

Publicado pelo Jornal de Angola de 22.04.2018

quinta-feira, fevereiro 22, 2018

DE NKONGO A CONGO

Ambriz, norte do Bengo, a caminho do Zaire, parado num posto de abastecimento de combustíveis, aproveito prosear:
- Mana, boa tarde!
- Boa tarde mano. Quer "arguma" coisa para consumir ou para levar?
- Para consumir. Um café, por favor. Pode ser com açúcar.
Enquanto a jovem ligava a máquina aproveitei provocá-la:
- Mana, como se chama quem nasceu no Zaire?
A senhora faz passear a mente que navega nos conhecimentos e quase naufraga.
- Mano, nasci "mborra" em Luanda. Minha mãe é que é daqui do Ambriz e meu pai de Mbanza (Kongo).
Mariana escapou à resposta que eu esperava, sendo, porém, fornecida por seu colega que me a transmitiria em voz meio muda:
- A resposta é "zairiense", kota. E justificou-se: zairense é do Congo Democrático. Nós aqui "samo" mesmo de Ambriz, ambrizetano (do Nzeto) ou mbanza-konguense que também se chama "zairiense".
João Nevumba, como se apresentaria já na despedida, não se ficaria por aí na sua explicação e acrescentaria:
- Estou a ver que o mano está perguntar porque gosta mesmo de saber e parece está mesmo a ir "na" capital. Mano, as pessoas de Mbanza não gostam muito "lhes" chamar "zairiense". Quando o mano chegar, se precisar referir, fala só mukongo que abrange todos do norte.
Acatei o conselho, joguei o café, meio frio, garganta abaixo. Engatei a mudança automática de progressão e rumei à cidade cujo símbolo apresenta cinco espadas que simbolizam igualmente número de topónimos por que já foi designada: Mpemba, Nkumba Ungudi, Kongo dya Ngunga, S. Salvador do Congo (depois do baptismo do Rei, tornando-se cristão) e Mbanza a Kongo.
Nkongo, contam os guias do museu, é caçador na língua local. Terão os enviados de Diogo Cão, aportado em Matadi, perguntado como se chamavam aquelas terras, ao que os nativos vindos da caça entenderam que se lhes tivesse sido questionado "o que eram", tendo respondido nkongo (caçadores). O reino que possuía seis províncias geridas por "Manis" (titulo de governadores) tomou a designação de Congo, sendo Mbanza a Congo (capital), na pronúncia e escrita dos comerciantes de bugingangas e anunciantes de Cristo, o centro político para aonde os "manis" levavam os impostos recolhidos para custear a máquina administrativa. O detentor do poder supremo é Ntotila, em cujo Palácio repousa(va) uma frondosa árvore de três grandes ramos (são dois na actualidade) e uma fronde de folhas permanentes, sob cuja sombra eram efectuadas as audiências e os julgamentos. Perdeu-se na memória o nome da árvore. Porém, o facto de ter acolhido vários Kuhu (boas vindas ou conversas introdutórias que para os ambundu equivale a mahezu) ela ganhou o registo de Yala Kuhu.
O residência real possuía ainda um espaço muito restrito para a lavagem e tratamento do cadáver do rei finado (sungilu) para que fosse possível conservá-lo intacto até ao acto fúnebre que era procrastinado até à chegada do Mani que vivesse mais distante, chamados todos pelo som do tantã.
A casa mortuária real (mpindi a tadi) ficava a umas centenas de metros do Palácio, distância aproximada a que nos leva ao campo santo real, colado ao nkulu mbimbi (igreja antiga, a Sé com mais tempo a sul do Sahara).
Mas sobre Mbanza Kongo não é tudo.
Sobre o desrespeito à mítica yala kuhu, contam-se estórias associadas à queda, nos anos 90 do sec. XX , de um helicóptero que, entre outros, vitimou o bispo da diocese local e também o despiste de um avião da companhia de bandeira, já no início do séc. XXI, que levou à morte o administrador municipal, para além do "sangue que a árvore jorrou, estendendo-se do espaço em que está o pavilhão desportivo até ao cemitério real, quando os brancos construíram a estrada, cortando o terceiro galho".
Mas o guia do museu, formado no Benin, em preservação de espaços históricos, a luz da candidatura da cidade de Mbanza Kongo a património da humanidade, não se fica por aqui e vai mais adiante nos detalhes da sua apresentação. Fala também do "Mbanda Mbanda, do clã Nenzako, de Maquela", uma espécie de Presidente do Tribunal Constitucional, a quem cabia entronizar o rei, e informa que "Mbanda Mbanda e o rei no trono nunca se podiam reencontrar. Se o rei fosse à terra dele, ele se ausentava. Se Mbanda Mbanda viesse à capital, também o rei se ausentava. Ele só se via com o ntotila uma vez para o entronizar".
Entre História confrontável nos livros já abundantes e estórias de ouvir contar e entreter o visitante/turista, muito há ainda por ouvir e desvendar. O melhor mesmo é percorrer os cerca de 400km que separam Luanda de Mbanza a Kongo para ver ouvir e reter. E quiçá recontar também?!


Texto publicado no Jornal Cultura em Janeiro de 2018