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domingo, abril 15, 2018

VUZADO EM "CAPE"

Mangodinho, na banda dele, em Kalulu, e em Luanda acha-se um "grande vivo", individuo culto e esbanjador de luminosidade por onde passa. Quando atravessa a Via Expressa Comandante Fidel Castro, a banga que faz ´´e somente comparada à de um macaco que tenha visto banana madura e desguarnecida. Passo largo, elástico e cadenciado. Kwá- Kwá-Kwá! Só ele e mais ninguém.
Na terra do arco-iris, onde, em vez de espreitar primeiro à direita e depois à esquerda, é o inverso, Mangodinho escapou "ser engomado" por uma 'mboa (deve ser mwangolê) que só sabe acelerar, virar o volante e travar, de vez em quando.
Mangodinho, com a mania dele de andar estiloso, espreitou à direita e nada. Pensou que a estrada fosse de sentido único e sem carro por perto.
_ Não está a vir carro nenhum, vou atravessar.
Banga em "Cape", para ele, era tipo sol que, por aquelas há mais do que chuva rara nos tempos de hoje.
A 'mboa ia na bisga, a zunar. Quando Mangodinho ia pôr, bangosamente, o pé da frente no passeio e puxar o da trás, ouviu: cru-cru-cru-tawas! Nem tempo teve para mobilizar o corpo à corrida.
Caiu ali mesmo. A 'mboa, uma kamusekele tipo latona, brilho na pele parecia "feitiço". Ela a tremer de medo e ele a tremer de susto. Os dois olharam-se nos olhos, pareciam adolescentes apaixonados à procura do beijo inaugural. 
- Are you ok? - Indagou a kindoza.
- Ok! - Respondeu ele, mesmo sem ver se o pé estava ou não partido, se estava ou não ferido ou luxado. Pronto, respondeu só usando o "kainglês" que tinha na cabeça.
O polícia que estava por perto fez a vênia à 'mboa e essa meteu-se no popô, seguindo o seu caminho. Olhos só na frente.
Mangodinho, sentado no passeio, descalçou os sapatos, viu a arranhadura a ficar vermelha quase a alcançar a pele bonita da mulher kamusekele que por pouco o mandava para a outra vida. Ficou a pensar pensamento de medo.
- Se me bondassem aqui quem iria contar o óbito na banda?!
Chorou um choro longo a que se seguiu um sono também longo, depois de massageado o corpo com um "usa bem", à moda biena.

domingo, abril 08, 2018

SAWUBONA!


Na banda muito dikelengo, porque eu já ganhei dois campeonatos de falar inglês. Chegou a Soute, virou gago. Vale apenas ainda na terra dos dâmaras, onde andava com o dicionário no sovaco e lápis no cabelo. Na Soute, nem pensar. Népais!
Mangodinho, a assanhadice saiu-lhe, desta vez, pela culatra. Qual disparo verbal, qual quê?
Primeiro, mandaram-lhe, de controlo, um "Sawubona", quando entrou no avião. Procurou no dicionário e não encontrou a palavra. Depois, quando estava a descer, ouviu a aeromoça a dizer-lhe
"dmari gadley totsi", acompanhado de um acenar da mão. 
- Será que disse até breve ou até amanhã? E sawubona então é quê? Será que disse vais viajar bem, sem tremura no avião?
Chegou à terra querida, motherland, solo pátrio. Mas o pensamento na cabeça dele é somente sobre sawubona e o tal dmari gadley totsi. 
Já tomou decisão.
- Esses wis não podem voltar a me brincar. Sou Soba, autoridade respeitada na Pedra Escrita, Kuteka e arredores. Mesmo na Ngimbi, capital da República nossa, toda a gente que me conhece me respeita. - Reclamou aos ventos, acrescentando que "Quando Mangodinho abre a boca até o vento pára de fazer circulação confusa. Por que esses gajos não me dão valor? Volto à Champions aprender inglês. Ano que vem vamos nos reencontrar e quero ver se vão mais conseguir me avacalhar ou me aguentar minhas gorgetas. Fiquem lá com vosso inglês de meia-tigela que não aparece no dicionário que meu pai Sabalo-a-Soba  trouxe da própria England. Brinquem com os outros gajos que são kawisu, pá. Um gajo vem a falar bom inglês aprendido na Champions e vocês a quererem me trocar as ideias com o vosso Kimbundu daqui? Pensam que nós também não temos? Temos. Temos Kikongo, Umbundu Oshiwambo, Ucokwe e muito mais que já estamos a dar o devido valor e a aprender e a falar nas repartições públicas e nas escolas do povo e dos privados. Pensam que nós só sabemos plantar batata? Rocharam. Também temos...
Akuna matata, mazé, pá!


Texto publicado a 01.03.2018, no jornal Nova Gazeta

domingo, abril 01, 2018

UMA MONTANHA SEM BRILHO


À frente do hotel em que estava hospedado, a kamunda mostrava-se arejada e asseada. Árvores poucas, relva escassa mas cuidada, porquice nada! 
Mangodinho recuou a fita e ficou a pensar na Ilha Seca do seu Zango III e ainda na na sua Boavista do Sambila.
- Epá, esse mambo, se fosse na banda, era "bom sítio" para casitas de lata e aguardar pelo realojamento do Estado. Mas aqui nada. - Pensou.
Passeou o olhar à volta e viu a montanha grande, parecida com mesa, lá em cima, também toda sem brilho e sem lixo a transbordar como acontece na sua Table Moutain da Coreia, na Samba, cujo topo abre caminho ocular para a ilha do Cabo, Xikala, Musulu e ilha da Kazanga.
- Será que é por causa da ausência de casotas oportunistas de chapa? É que isso não brilha mesmo!
Na tasca mais próxima, foi tomar uma bebida que se parecia ao "usa bem", kapuka da ponteira, feita de usambe (batata-doce em Umbundu). Precisava de diminuir o cansaço da marcha e puxar o calor que não vinha, mesmo andando debaixo de sol intenso. Melhor, Mangodinho precisava era de "caloriar", como ele apelida o suor.
De espanto em espanto, viu ainda que na rua nenhuma dama andava com lata de gasosa na mão para cuspir. 
- Nem só uma? Mas aqui as damas não cospem nem no chão nem na lata de gasosa?
Sorveu as últimas gotas do "usa bem" e limpou a boca.
- Quantué?
- What?
- Quantué?
- I dont undertand you.
Lembrou-se que tinha falado português. 
- How much?
- Nine, five.
Pegou na cédula de cem Rands e a estendeu à balconista. Esta, por sua vez, tardava em devolver o troco pensando ser "tip". Já lá iam trinta minutos.
Mangodinho ficou a banzelar.
- Essa mboa não me traz o kumbu do troco, porquê? Xê, se pensas que vais me aguentar estás mal enganada. Vou te mostrar que antes dessa vida Mangodinho, que sou, eu já era vivo.
Aproximou-se à moça e puxou coragem. Pensou em  Português, traduziu ao pé-da-letra, soletrou as sílabas anglófonas e disparou:
- Misse, for other things, I can not speaking your language, but for money I can. Please, give me my change.
A moça, aprendiz de aguentadora, que já haviam feito suas contas para o after work, pôs mudança de recuo e entregou-lhe o kumbu.
- Fogo! Nessa vida é preciso ser viju. - Comemorou, pedindo mais um shot que apelidou de "usa bem" à moda angolana.


Publicado pelo Jornal de Angola, pag. 10, edição de 26.02.2018

quinta-feira, março 29, 2018

NDENDE JA MBALA

O camião apinhado ia cansado e a resmungar. Coisas e gentes sufocavam o no seu dorso. Tábuas velhas e cansadas, feros retorcidos enfeitando taipais que acolhiam peixe salgado, macroeira, balões de fardo, idosos que pareciam fardos e crianças com nudez farta. Os jovens e adolescentes iam igualmente. Porém, eram poucos. Apenas os mais destemidos. A última idosa a apanhar o camião levava coisas suas. Umas kindas e linhas para tricotar balaios e outras cestarias. Levava ainda um cacho de dendém que era alheio.
Na última subida, 10% de declive, seguida de duas curvas perigosas, local incontornável da EN 180, onde a velocidade nunca passava os dez quilómetros a hora. Ali mesmo, na esquina que beijava o rio, os homens da farda verde-oliva apertada à exaustão, montaram o seu posto de controlo. Paragem obrigatória e sem falatórios.
O camião que já ia lento soluçou antes de o ajudante calçar sobre uma das rodas traseiras um valente pedaço de madeira. Um dos homens fardados subiu à carroceria, barba e cabelos fartos. Pente e tesoura parecia não haver. As verdinhas calças quase se desmanchavam dado o esforço do militar.
- Ndendefica. -Disse ele à "floresta" no camião.
Enquanto uns, conformados com a sorte, sacudiam as algibeiras e as sacolas para retirar e apresentar os documentos, a velhota sentada por cima das suas bikwatas, soltou um valente e malicioso muxoxu.
- Hum, ndangala jê. Ndende ja mbala (é dendém alheio)!
Terá entendido que o cacho de dendém ficaria naquele posto militar.

Texto publicado no jornal Nova Gazeta de 12/10/2017

domingo, março 25, 2018

KALUNGI

Mangodinho, há semana e meia que estava dividido entre desenvolver novas ideias e materializar o que havia planificado fazer depois que regressou de curta estada em terra dos dâmaras.
- Pensar e não fazer é o mesmo que não pensar. As pessoas querem mudanças, querem movimento, querem pragmatismo, acção prática e nada de simples retórica. Estão fartas de simples elementos em potência. - Argumentou em surdina.
Porém, uma nova deslocação para a rainbow nation fê-lo, de novo, voltar às analogias e novos pensamentos. Em cada espanto, positivo ou negativo, regressa à banda e faz comparação. Foi assim quando viu um bangoso turista que calçava límpidos "londindi". Assim também foi ao avistar uns guetos de JoBo, que vistos a mais de quinhentos metros de altitude se pareciam ao nosso Ngwanyá ou Fubú.
- Epá, aqui também há resquícios da segregação. - Disse, a olhar para Soma Kevela com quem divida acentos no pássaro de metal.
- Sim, companheiro. Ainda têm uns guetos é sempre tiveram. Mais ontem do que hoje. Mas eles têm água e luz e até números nas portas. - Explicou Kevela, o resiliente.
Postos no hub de JoBo, Mangodinho, pensamento só no NAIL que se quer semelhante ao Oliver Tambo Air Port, aonde convergem várias rotas africanas, asiáticas, europeias e americanas.
- E fizeram-no aqui fora da capital Pretória? Ai se fôssemos nós! E se o NAIL fosse no Huambo, Katumbela ou Lubango?
As perguntas continuaram. Umas oralizadas outras apenas "no coração". Conteve-se. Até porque Kevela estava a ler a revista Sawubona que ele, Mangodinho, traduziu automaticamente para "Kalungi", o mesmo que "Olá-como-está" dos tugas bem dispostos. Ficou a exercitar os seus vastos conhecimentos linguísticos bantu e fez uma lista de saudações-tipo a que pretende sugerir a comunicadores institucionais da Ngimbi para suas revistas.
- São ideias. Apenas ideias que valem o que não valem. Mas, Menekenu do Ucokwe e Kalungi do Umbundu são já meus títulos de revistas e faço o registo imediato logo que chegue. - Verbalizou de forma audível, mesmo não tendo companhia no monólogo. Ainda há mais horas por voar até ao destino. Entre trepidações da máquina "arrastada" pelas correntes densas do Índico-Atlântico, Mangodinho pergunta-responde, como se saúda e se retribui.
-Kalungi?
- Kuku!

quarta-feira, março 21, 2018

MANGODINHO NA FILA DOS POEMAS

 
Visionário de aldeia é visionário e mais nada. É único e conhecido de todos. Qualquer mestre  é mestre no seu ofício, sendo, por isso, respeitado e solicitado em tempo próprio. O circuncisador, no kasimbu, anda de aldeola em aldeola, tratando da transição à vida posterior dos infantes. O pedreiro é o grande mestre do tempo seco, antes da chegada da chuvada seguinte, fazendo crescer as aldeias com adobes, massa crua de barro, fio e prumo. O professor, mestre do ABCD e da desvenda contra a ignorância, percorre quilómetros até atingir a escola que, muitas vezes, fica na aldeola central que recebe alunos e alunas de várias aldeolas cincunvizinhas. O enfermeiro é um "doutor da injecção" e recebe pacientes de vários aglomerados populacionais. O catequista é um andrajoso, pregando e evangelizando velhas e novas ovelhas do seu rebanho. Ao comerciante acorrem vários utentes/compradores e vendedores disso e daquilo, procedentes de aldeias de distâncias inimagináveis a um kalwanda. O poeta é também filósofo, como na Heleiâda ou Roma antiga.
Em comunidades pequenas os iluminados contam-se aos dedos pela região.
No mato, Mangodinho é Kilamba de verdade. Um poeta de fina flor. Tudo o que fala, mesmo quando bebeu canecas, é aplaudido. Os miúdos que andam já a estudar poesia com rima e métrica na sétima classe da escola do povo dizem que Mangodinho é bom poeta. E foi nesse convencimento de matuense que, posto na Ngimbi, ouviu  na rádio do Estado que o cidadão Ismael, aquele que anda a defender "autarquias já", ia lançar um poemário de verdade.
Miúdo Sembe que foi com ele, a pensar que a poesia natural de Mangodinho é igual à poesia artística dos escritores das capitais (municipais, provinciais e nacional) também agitou Mangodinho para ir declamar no Tropical onde estariam os homens de verbo escorreito e linguagem retocada da grande capital.
- Vai Kota Mangodinho. Se ele é teu guia, tua candeia, teu admirado benquisto, promotor das autarquias que muito desejosamente esperas, vai também. Pede para declamar com aqueles Kilamba da Ngimbi cheios de nganza, fato e gravata e muita garganta. Garganta e pausa, Mangodinho, você tem de sobram vai. Vai ser desta vez que Luanda se vai abrir completamente aos teus pés e, em vez de te autarcares no Libolo, eles te edilam já mesmo aqui. Estamos na claque.
Assim mesmo, Mangodinho se inscreveu. Aliás, pediu ao puto Sembe, aquele que enviou à Huíla para se formar em enfermagem, para inscrevê-lo via Facebook. Só que, quando descobriu a conta do cidadão Ismael, a bicha (fila) era enorme. Afinal, os mwadyés da Ngimbi ainda não aposentaram o hábito deles antigo de madrugar nas filas de tudo que seja bom.
Mangodinho volta ao seu Libolo sem declamar?
A ver vamos!


Publicado pelo caderno fim-de-semana do Jornal de Angola, pg 10, edi. 15.04.2018

domingo, março 18, 2018

A MISSÃO CIVILIZADORA METODISTA EM CAXICANE


Frequentado o espaço e recuando no tempo, as conclusões, depois de visitas à memória, não são demoradas.
Quem vai a CAXICANE vê o delta do rio Kwanza, todo ele comprido, curvilíneo, majestoso e preguiçoso, e casotas que se escondem sobre o arvoredo ribeirinho. Encara ainda uma picada tangencial ao rio, inacessível no tempo chuvoso e que terá sido pior no início  do século XX, quando Agostinho Neto nasceu (Setembro de 1922) e seu pai Rev° Pedro Neto  pastoreava a igreja metodista local. Encontramos povos agricultores e pescadores espalhados pela planície longa e húmida que podiam "professar", para além do Nzambi, outras divindades ligadas à fertilidade do solo, à chuva e às enchentes que, anos sim, anos não,  visitam furiosas os campos e as habitações de pau-a-pique daquelas região.


Ruínas da casa pastoral da Igreja Metodista de Caxicane
E foi nesse cenário que a caravana metodista, procedente dos Estados Unidos da América, Marco de 1985, que trafegava sobre o Kwanza implantou a Igreja Metodista de CAXICANE, no Icolo e Bengo. Era preciso destapar as vendas, fazer daqueles povos cidadãos do mundo, conhecendo a sua cultura e geografia e descodificando o alfabeto para descobrirem que "havia mais muindo do que o horizonte de seus olhos" e tomarem conhecimento do que os outros povos haviam já inventado e comunicarem eficazmente com o passado e o futuro. E Pedro Neto, pastor ainda jovem, foi mandado ao local para dirigir a Igreja de Cristo imbuída da sua missão CIVILIZADORA, ensinando as crianças a ler e escrever e os adultos a conhecer a Deus único, verdadeiro e poderoso, sobre o qual gravita todo o ser, pensar e estar. Os bons costumes como a poupança, a monogamia, o desapego às práticas místicas e inibição da bebedice foram e ainda são outras das lições que os metodistas ensinam e conservam.
Quem vai a CAXICANE logo conclui que não podia ser outro o caminho. Apenas o Kwanza. Tal é a proximidade entre a igreja (a primeira já sem sinais, a segunda em ruínas e a terceira feita de blocos de cimento) e o rio, separada apenas por parcos quinze metros do leito, sendo que "quando as pessoas não falam é o Kwanza que conta estórias". E o mesmo Kwanza, bi-lateral, teria no seu silêncio milenar, apadrinhando o surgimento de outras "missões protestantes" no seu outro lado, o direito: Kisama, Lubolu, e terras além mar...

Texto publicado pelo jornal Nova Gazeta a 05/10/2017

quinta-feira, março 15, 2018

AS COMPRAS, O TIO E O FEITIÇO

Discutia-se algures, no nordeste angolano. Dois amigos. Um citadino e outro cujas vivências se restringiam àquilo que o seu horizonte visual permitia ver entre o nascer e morrer do sol.
Mulelenu e Mwecenu eram porém coetâneos e com os dez primeiros anos de vida feitos em comum: caçadas, armadilhas para todos os animais menores, pescarias, iniciação em trabalho com a madeira, ferro e até cestaria e olaria, ofícios que aprenderam antes da mukanda (escola de iniciação masculina) e que aperfeiçoaram nela e depois dela. Os mores, as tradições, os ritos, os contos, os temores aos mais velhos, ao tio, a valentia perante os perigos na selva, tudo isso foram lições aprendidas até que a cidade chamou Mulelenu que foi viver com um tio.
Tempos depois se reencontraram. Mwecenu parecendo mais velho do que Mulelenu, agruras da vida no campo. Mulelenu parecendo um infante, instalado no seu jeep todo-o-terreno. Viram-se e se abraçaram. Ali mesmo, sem mais demora, aliás, depois de Mwecenu ter tragado o pão com chouriço e bebido a cerveja que o amigo lhe oferecerá, começaram as perguntas.
- Sepha (amigo), você não têm medo de tio?
- Medo de tio? Como assim?
- Vocês que vivem nas cidades esqueceram as nossas vivências. Já te esqueceste que tio te pode vender?
- Sim. Isso nos ensinaram quando éramos crianças. Mas vendas de sobrinhos já terminaram há mais de um século, ou seja, cem anos. Tu ainda pensas assim? Apressa-te. Estás parado no tempo.
- Ai é? Eu que te quero ajudar a abrir o olho é que estou parado só porque você está a andar no carro e eu a pé? Já deste mota ou kinga (bicicleta) ao tio daqui?
- Olha, Mwecenu, para mim essas coisas ficaram no passado, são estórias para ensinar as crianças a reverenciar os mais velhos e especialmente os tios. Nada mais do que isso.
- Ó rapaz, você conhece botânica? Os tios todos têm botânica (feitiço). Se os tios de Luanda já não vendem os sobrinhos é porque têm possibilidades. Os do mato te põem mesmo na botânica, não brinca meu irmão. Não passa a vir só com as mãos a abanar. Se compras moto, primeiro dá uma longa ao tio. Se compras carro primeiro uma moto ao tio. Se compras casa boa, manda umas chapas de zinco ao tio. Assim, se ele te manda vender na botânica, o teu espírito fica protegido (coberto de razão) e nada te acontece. Os espíritos lá nos céus te defendem e o próprio teu tio ou filho dele que que entra em desgraça porque a tua parte foi feita com antecedência.
Mulelenu, mão no queixo, a ouvir o amigo de infância a discorrer conversas que, para ele, são para boi roncar, preferiu deixá-lo exorcizar todos os seus temores.
- Terminaste, Mwecenu?
- Sim. Até aqui, esse kabucado, já depois vou te explicar outras coisas porque tu és meu amigo desde há muito tempo. É para teres sempre cuidado que aqui o feitiço é mais forte do que a bala de uma arma.
- Pois é. Agradeço-te pelo facto de teres conservado todos esses valores. São eles que regulam a vida aqui na aldeia. Que fazem com que os jovens depois de se "palharem" não vilipendiem os mais velhos. Mas repito é tudo conversa da treta. Tens problema com o vizinho? Vai à polícia. Tens dinheiro, investe em coisas que ajudam a comunidade. Compra mota, compra boi, compra carro, constrói boa casa. Hoje já não herdas do tio nem ele te vende em lado sítio nenhum. E se tens tempo para estudar, estuda um pouco abre os olhos. O mundo está a avançar rápido. Hoje o neto do branco que comprava escravos e neto do antigo escravo comem à mesma mesa. Feitiço é atraso.
Mwecenu acenou a cabeça em jeito de aprovação mas não o confirmou oralmente. Continuou pensativo. Deu apenas um abraço ao seu amigo da cidade e ambos continuaram, já em surdina, a reflexão sobre o que deve ser mantido e o que deve ser extirpado dos contos e lendas do antigamente.

Publicado pelo Jornal de Angola, de 15/03/2018

quinta-feira, março 08, 2018

A ALDEIA DA JUVENTUDE

O tempo histórico é incógnito. Apenas os dizeres que viajam de geração em geração dão ideia de que não terá sido na antiguidade clássica. E conta-se que num plateau, também esquecido dessa imensa Angola, vivia uma enorme comunidade. Homens novos e homens velhos se destacavam nos trabalhos que consistiam em agricultura, pesca, caça e recolecção.
Inicialmente, os mais novos, dada a sua robustez física, executavam as mais penosas tarefas, enquanto aos idosos recaia a tarefa de ensinar e coordenar todas as actividades socio-culturais e culturais.
A investigação e a implementação de novas tecnologias era também tarefas confiadas aos mais novos, chegando, muitos deles, a envaidecer-se e desrespeitar os seus pais e avós a quem tratavam por "caducos".
Certo dia, um grupo de jovens petulantes chegou a propor a separação da aldeia, construindo, num campo que distava dois quilómetros, a aldeia dos jovens que procuravam "libertar-se" da "escuridão" a que diziam estar os velhos votados. Na verdade, a intenção maior era ver a aldeia de Kitumbulu "uma lar de idosos carentes e pedintes".
A nova aldeia, designada Light Youth City foi erguida em tempo recorde. Entre os jovens abundavam arquitectos, engenheiros civis, tecnólogos, informáticos, autómatos, entre outras ciências modernas daquele tempo.
Erguida em zona plana de uma montanha, a iluminação fotovoltaica fazia dela um esplendor. Uns tratavam-na de "cidade celestial", pois havia quase tudo e consumiu apenas meio ano.
Chegou o kasimbu, tempo seco e de caça. Os armazéns de víveres estavam vazios e era preciso pescar e caçar. As mulheres, belas e modernas já não se contentavam apenas com a cidade. Algumas furavam o combinado que era "não se deslocar á aldeia de Kitumbulu onde ficaram os velhos até que se rendessem e se mostrassem abertos ás estravagâncias juvenis". Porém, saudade e fome quando se casam, a lei evapora. Sorrateiramente, uma e outra iam visitar os pais e pedir o que comer.
Lá, em Kitumbulu, mesmo com suas forças diminutas e seus meios artesanais e rudimentares, a pesca e a caça nunca foi problema. A fartura apossou-se das casas e os velhos e velhas doutro tempo pareciam mais jovens que seus filhos desertores que padeciam de fome e má nutrição.
Aflitos, os habitantes da Light Youth City tiveram de reunir-se e nomear uma embaixada que foi se desculpar aos idosos e solicitar que os ensinassem a pescar em lagoas e pântanos e a caçar com artefactos rudimentares entre o capinzal ribeirinho.
Valeu-lhes o facto de "o amor paternal ser imensurável e inesgotável". Foram tolerados e instruídos. Mas, em contrapartida, cada filho teve de levar os seus pais para a nova cidade.

Texto publicado no Jornal Cultura de 05 Nov. 17, pg. 11

quinta-feira, março 01, 2018

CONTRATOS RENDEIROS NA VOZ DE KILOMBU KITINU*

A abolição internacional da escravatura aconteceu no sec. XIX (1883) mas a sua materialização efectiva levou décadas, para não dizer século. Porém, os detentores de escravos e aqueles que faziam da captura/compra, utilização doméstica e venda de "peças humanas" o seu negócio procuraram diversas artimanhas para fazer dos homens nessa condição meros objectos.
Ou se mudavam as totas do Atlântico para o Indico ou se praticava a escravatura (depois com outras faces) no território nativo.
Kilombo Kitinu, filha de regedor e neta de ex-proprietários de "mabika" (escravos) conta, aos setenta anos, que "meus bisavós Mungongo e Kaphote Kasenda, todos da região de Kindongo/Kisama, eram detentores de mabika que depois de alforriados, 'quando chegou a ordem', tornaram-se parentes".
Quando comecei a trabalhar na "renda" ainda adolescente, às vezes não percebia o tratamento que me era dado, explica. Recebiam-me como rainha (embora o fosse) e estendiam panos onde me sentava. Só mais tarde me fui apercebendo que era a forma grata como os ex-mabika tratavam os antigos proprietários ou seus descendentes conhecidos que os haviam tratado com dignidade.
Mas de descendente de "esclavagistas", Kilombo Kitinu também experimentaria o fel da escravidão camuflada em pseudo contratos rendeiros, onde crianças e adolescentes não eram poupadas na abertura de vias rodoviárias, apanha de café, processamento de tabaco, limpeza de capoeiras, entre outros trabalhos.
Como a máquina funcionava?
Os colonos recém-chegados, fossem portugueses ou alemães, iam ao posto administrativo requisitar "pretos para trabalhar", não se seleccionando a idade. O posto administrativo obrigava o soba a mandar ao "contrato" os seus aldeões e, nessa difícil tarefa, não podia excluir seus filhos e sobrinhos. Foi assim que ela, filha de regedor de Kuteka, também frequentou as fazendas do Prata, Kabumbulu, Ngana Mbundu, Senhora Kasenda, Conde, entre outras como "trabalhadora rendeira".
Terminado o período de um ou mais meses, outros eram "recrutados" para render os outros. Por isso, a oralidade conserva o termo "renda" para designar esse tipo de trabalho semi-escravo que se desenvolveu até à segunda metade do Sec. XX, antes da independência em Angola.
Kilombo Kitinu recua no tempo e estabelece um marco:
- Quando se abriu manualmente a picada de Kawayawasa, para o alemão Ngana Mbundu (Walter Kruk), foi quando nascemos. Aí chegou a ordem para o fim da escravatura. As pessoas que trabalhavam na abertura manual da picada  tinham as mãos rebentadas (calejadas e feridas). Entrou depois a renda. As nossas chinelas eram de pele de cabra. A todas as pessoas, os brancos chamavam apenas por ó preto! E os negros respondiam patrão! Nesses trabalhos, as meninas ficavam, às vezes, duas semanas que eram remuneradas com pouco dinheiro. Só chegava para comprar um par de brincos ou missangas para mãe, pano e sabão para a trabalhadora.
Narrou ainda que entre os seus parentes directos, duas pessoas se destacaram na fazenda da alemã conhecida por Senhora Kasenda (os nativos atribuíam outros nomes mais familiares aos europeus). Eram o mano Doce (cozinheiro) e o papá Kabota (capataz). Esses viviam lá no acampamento com suas famílias e só iam à aldeia de Mbangu-Kuteka visitar os parentes. Falavam a língua dos alemães e as suas mulheres e filhos vestiam-se bem. 
Do outro lado do rio Longa, território de Dala Kaxibo, também havia alemães. Kilombo Kitinu citou Kabumbulu e Kilenge (nomes atribuídos pelos nativos). 
De recordação em recordação, "viajou" por Kixinje, território da Kisama, onde, ainda garota, trabalhou na abertura da picada que termina em Kandanji (margem do rio Kwanza, junto ao Dondo). 
- As mulheres também abriam picadas com enxadas...

*Maria Canhanga

Texto publicado no Jornal Cultura, Janeiro 2018


quarta-feira, fevereiro 28, 2018

KATUTURA, POIS CLARO!


No tempo da segregação racial imposta pela colonização sul-africana do regime apartheid, os negros ocupavam um espaço nobre, na cidade. Atentos ao crescimento exponencial da população, os brancos colonizadores entenderam mover os negros para fora da zona nobre, construindo uma espécie de casas sociais, um Zango de cá. Porém, descontentes, os negros disseram: "KATUTURA MBA" (não queremos ficar aqui)!
ALGO EM COMUM?
Na sua cama, ainda sem sono, Mangodinho começou a matutar no som de duas expressões comprimidas em duas palavras: Canguru e KATUTURA.
- Não pode! Será?! Não será? Vejamos.
Começou a esboçar no seu bloco de notas, agora auxiliado pela internet/google.com.
- Quando os ingleses chegaram à Austrália e viram o bicho de bracitos curtos e pernas longas que dava (continua a dar) uns saltos longos, perguntaram como o designavam, e foram respondidos "ka-ngu-ru" ou seja, não entendemos vocês. E eram aborígenes, portanto, negróides, os que responderam aos pulas. Aqui também na vizinhança, quando os pulas disseram saiam da cidade e vão se "encoelhar" fora da cidade e num espaço ilimitado, os mbumbu disseram "imba ka-tu-tu-ra" que significa não queremos viver aqui. Já viu? Devem ser o mesmo povo que se separou há muito tempo com o empedaçamento da terra em época remota. - Fechou o pensamento e chamou pelo sono que tardava, colocando como tarefa do dia seguinte ir em busca de um geo-historiador e colocar em terra a intrujice que lhe havia feito um zero à esquerda, segundo o qual KATUTURA=não nos torturem!
Instalado no seu apartamento T1, arrendado na cidade, Mangodinho fez constar aos amigos que gostou mesmo de KATUTURA. Para ele, o mercado afamado pelos assados ajindungados é comparável ao dos Congoleses (o antigo), higienizado e com muita carne fresquinha de vaca. Nas suas viagens à memória e exposição não se esqueceu de um detalhe:
-Epá, aqui é quase outro mundo, tendo em conta a nossa bebedice e espalha-garrafice. Álcool nem para ferida encontras. 
Contou ainda que "com a máxima intimidade entre o homem e o alimento, que só é atingível com as mãos desarmadas, comi, pela primeira vez, pirão de masangu e bebi sumo de goiaba".
-"Pomada"? Nem com binóculos pude ver. Mete inveja, KATUTURA!

quinta-feira, fevereiro 22, 2018

DE NKONGO A CONGO

Ambriz, norte do Bengo, a caminho do Zaire, parado num posto de abastecimento de combustíveis, aproveito prosear:
- Mana, boa tarde!
- Boa tarde mano. Quer "arguma" coisa para consumir ou para levar?
- Para consumir. Um café, por favor. Pode ser com açúcar.
Enquanto a jovem ligava a máquina aproveitei provocá-la:
- Mana, como se chama quem nasceu no Zaire?
A senhora faz passear a mente que navega nos conhecimentos e quase naufraga.
- Mano, nasci "mborra" em Luanda. Minha mãe é que é daqui do Ambriz e meu pai de Mbanza (Kongo).
Mariana escapou à resposta que eu esperava, sendo, porém, fornecida por seu colega que me a transmitiria em voz meio muda:
- A resposta é "zairiense", kota. E justificou-se: zairense é do Congo Democrático. Nós aqui "samo" mesmo de Ambriz, ambrizetano (do Nzeto) ou mbanza-konguense que também se chama "zairiense".
João Nevumba, como se apresentaria já na despedida, não se ficaria por aí na sua explicação e acrescentaria:
- Estou a ver que o mano está perguntar porque gosta mesmo de saber e parece está mesmo a ir "na" capital. Mano, as pessoas de Mbanza não gostam muito "lhes" chamar "zairiense". Quando o mano chegar, se precisar referir, fala só mukongo que abrange todos do norte.
Acatei o conselho, joguei o café, meio frio, garganta abaixo. Engatei a mudança automática de progressão e rumei à cidade cujo símbolo apresenta cinco espadas que simbolizam igualmente número de topónimos por que já foi designada: Mpemba, Nkumba Ungudi, Kongo dya Ngunga, S. Salvador do Congo (depois do baptismo do Rei, tornando-se cristão) e Mbanza a Kongo.
Nkongo, contam os guias do museu, é caçador na língua local. Terão os enviados de Diogo Cão, aportado em Matadi, perguntado como se chamavam aquelas terras, ao que os nativos vindos da caça entenderam que se lhes tivesse sido questionado "o que eram", tendo respondido nkongo (caçadores). O reino que possuía seis províncias geridas por "Manis" (titulo de governadores) tomou a designação de Congo, sendo Mbanza a Congo (capital), na pronúncia e escrita dos comerciantes de bugingangas e anunciantes de Cristo, o centro político para aonde os "manis" levavam os impostos recolhidos para custear a máquina administrativa. O detentor do poder supremo é Ntotila, em cujo Palácio repousa(va) uma frondosa árvore de três grandes ramos (são dois na actualidade) e uma fronde de folhas permanentes, sob cuja sombra eram efectuadas as audiências e os julgamentos. Perdeu-se na memória o nome da árvore. Porém, o facto de ter acolhido vários Kuhu (boas vindas ou conversas introdutórias que para os ambundu equivale a mahezu) ela ganhou o registo de Yala Kuhu.
O residência real possuía ainda um espaço muito restrito para a lavagem e tratamento do cadáver do rei finado (sungilu) para que fosse possível conservá-lo intacto até ao acto fúnebre que era procrastinado até à chegada do Mani que vivesse mais distante, chamados todos pelo som do tantã.
A casa mortuária real (mpindi a tadi) ficava a umas centenas de metros do Palácio, distância aproximada a que nos leva ao campo santo real, colado ao nkulu mbimbi (igreja antiga, a Sé com mais tempo a sul do Sahara).
Mas sobre Mbanza Kongo não é tudo.
Sobre o desrespeito à mítica yala kuhu, contam-se estórias associadas à queda, nos anos 90 do sec. XX , de um helicóptero que, entre outros, vitimou o bispo da diocese local e também o despiste de um avião da companhia de bandeira, já no início do séc. XXI, que levou à morte o administrador municipal, para além do "sangue que a árvore jorrou, estendendo-se do espaço em que está o pavilhão desportivo até ao cemitério real, quando os brancos construíram a estrada, cortando o terceiro galho".
Mas o guia do museu, formado no Benin, em preservação de espaços históricos, a luz da candidatura da cidade de Mbanza Kongo a património da humanidade, não se fica por aqui e vai mais adiante nos detalhes da sua apresentação. Fala também do "Mbanda Mbanda, do clã Nenzako, de Maquela", uma espécie de Presidente do Tribunal Constitucional, a quem cabia entronizar o rei, e informa que "Mbanda Mbanda e o rei no trono nunca se podiam reencontrar. Se o rei fosse à terra dele, ele se ausentava. Se Mbanda Mbanda viesse à capital, também o rei se ausentava. Ele só se via com o ntotila uma vez para o entronizar".
Entre História confrontável nos livros já abundantes e estórias de ouvir contar e entreter o visitante/turista, muito há ainda por ouvir e desvendar. O melhor mesmo é percorrer os cerca de 400km que separam Luanda de Mbanza a Kongo para ver ouvir e reter. E quiçá recontar também?!


Texto publicado no Jornal Cultura em Janeiro de 2018 

domingo, fevereiro 18, 2018

AO ENCONTRO DOS "SOBAS" DE LÁ

Mangodinho, dicionário no sovaco, lapiseira enfiada no farto cabelo e bloco de notas na mão, parece investigador. Pelas ruas de Windhoek tudo que vê busca tradução, ensaia as perguntas no "português de lá" e as executa, embora o momento mais chato dessa peripécia seja ao receber as respostas. Porém, vivo como é, Mangodinho atencia os gestos e as palavras parecidas ao Oshiwambu e Português. Os seus ouvidos são também autêntico gravador, o que lhe permite consultar o ndunda de paragem em paragem.

Quando viu a placa a indicar Association for Local Authorities of Namibia, Mangodinho quase pulou de contente.

- Epá, meus colegas, sobas d'aqui?!
Quis entrar para conversar e colher experiências, mas o português que domina e o inglês que não fala inibiram-no.

- Vou voltar com o tradutor ou noutra oportunidade.

Continuou a marcha e reparou que os ardinas, os putos que vendem jornais pelas ruas e avenidas, estavam todos garbosamente trajados: calças juarte com reflectores, uns bonecos desenhados e sinal de stop.

- Para organizar um país assim é preciso Unidade no pensamento, Liberdade na acção e uma Justiça para todos. É necessária muita ciência e coragem para mudar e melhorar, pouco populismo ou rebuçados de hoje que se tornem em fel para amanhã. - Disse para si mesmo, ajeitando as últimas notas e preparando-se para o almoço que o levará a Katutura, uma espécie Rangel-Sambizanga-Kazenga de cá, de onde o povo se organizou na contestação ao colono segregacionista e onde os bantu e pré-bantu mantiveram as suas vidas tradicionais. É onde se vende pirão branco de milho com carne de vaca assada na brasa.

Teimoso como é, no bom sentido, depois de se refastelar, Katutura, de um pirão e beef de carne tenra e fresca, com quabos e molho de tomate ajindungado, Mangodinho voltou ao local em que esperava encontrar os seus colegas da autoridade tradicional. Bateu palmas e nada. Seguiram-se uma tantas "com licença" e nada!

- Será que é da língua ou quê? - Verbalizou. Lembrou-se da campainha que accionou de imediato, ao que de dentro ouviu-se um "whell come". 

Por sorte, o boss, já velhinho, tinha sido autoridade tradicional num dos campos de refugiados em Angola, de 1975 a 1990. Major Oshikembwa, que ainda conserva o Português aprendido no exílio, recebeu-o com cordialidade e explicou como eles funcionam.

- Não chegamos a dois mil Majors e Auxiliares. Aqui, na Association, servimos de interlocutores com os colegas nas províncias e o poder político. Onde, por força da tradição, o direito positivo não encontra espaço, nós somos chamados a intervir em favor dos cidadãos e em respeito à Constituição.

Mangodinho, ouvido atento.

- Vocês, aqui, Soba Major, têm  colegas em todas embalas e aldeolas? - Questionou Mangodinho.

 - Local Authorities here only in big comunities and villages. In family village not (Aqui, autoridades tradicionais só nas grandes aldeias e vilas e não nas aldeolas familiares).

Essa frase fê-lo, de repente, voltar para Angola e pensar na realidade que bem conhece, enquanto membro do Fórum das Autoridades Tradicionais do Libolo.

- Haka! É assim, afinal? Estúpido é quem não kabula o que os outros fazem bem. Mal pouse as malas no chão irei propor ao MAT a fusão das aldeolas em "big comunities and villages" para diminuir os encargos do Estado com  salários de sobas, proporcionar mais atenção dos sobas ao povo e cooperação com as administrações locais. Long life my collegues from Damara! - Proclamou à 
saída do encontro.


Texto publicado no Jornal de Angola, Fev. 2018

quinta-feira, fevereiro 15, 2018

NO PORT'AMBOIM COM ADÃO ALBERTO

O sol de Novembro prestava-se mais a beijar o mar do que torrar os corpos expostos na areia luzidia da praia. Mesmo assim, eram muitos os que vinham da baía, cônscios, semi-cônscios ou apoiados em algum ombro amigo quando não fosse em um tronco.
 
- Essa juventude, a beber assim desse jeito, pensa que vai para algum  lugar? - Interrogou-se uma idosa, aparentemente de outra cidade, ao ver uma jovem, mais nua do que vestida, sendo carregada aos ombros por causa da surra etílica que apanhara em plena luz solar.
 
Foi nesse ambiente que chegamos ao Port’Amboim e fomos ter ao restaurante costeiro em que Adão Alberto é garçon.
 
Culto, humilde, delicado e dedicado no que faz ( fá-lo com entrega e prazer), o jovem recebeu-nos com um sorriso rasgado. É de comunicação fácil. Daqueles que vale apenas ter em seu estabelecimento comercial e ou hoteleiro, como foi o caso.
 
- Sejam bem-vindos. Temos xis, ipsilon, kapa. As bebidas são agá, vê, dê e a praia é lida e linda... – marketizou.
 
Quando interrogado se podia fazer uso do “meu produto”, Adão foi diligente perguntar à patroa se autorizava que eu bebesse o meu vinho.
 
- Só se não tivermos na casa, caso contrário, tu, Adão,  pagas uma garrafa. - Transmitiu, constrangido mas sempre bem disposto.
 
- Faço questão de atender bem os clientes porque nunca se sabe se um dia podem vir a ser meus patrões. – Explicou.
 
- Seja bom no que fazes para que um dia sejas investidor no sector. - Falei-lhe baixinho.

Já a despedir-nos, Beto Spina e eu, "pança feita", sorrisos rasgados e abraços trocados, o jovem pergunta se qual seria o nosso destino. Expliquei que éramos procedentes de Benguela (nova) aonde fora fazer uma palestra literária aos jovens de uma escola secundária. Ouvido isso, Adão Alberto que é um jovem natural de Quilenda, município kwanza-sulino criando em 1965,  encravado entre Quibala, Ebo, Amboim, Porto Amboim e Kissama, abrandou a nossa marcha e fez questão de pedir um livro.
 
- Vou ler e repassar a um meu amigo que gosta muito de literatura. - Informou depois de ganhar um autógrafo.
 
- O Port'Amboim já tem ensino superior. No ano que vem vou propor convidá-lo para fazer também uma palestra sobre "A importância da leitura no desenvolvimento académico".
 
Anui e partimos para Luanda onde tudo e todos nos aguardavam saudosos.

domingo, fevereiro 11, 2018

MANGODINHO EM TERRAS DÂMARA

Se para chegar a Luanda, saído do seu Kuteka interior, levou tempo, mais ainda levou para atravessar a fronteira sul do país. Numa saída relâmpago com seu tio Sabalo, havia chegado à Santa Clara, porém, ir mesmo ao outro lado, nada! 
Desde que se tornou administrador de Pedra Escrita, aldeia onde é mais respeitado pelas suas ideias, que dizem brilhantes, e seus feitos, do que pela estatura de meia-cuca, Mangodinho já viajou pelo Congo Democrático e até ao Putu. Mas, aqui na Namíbia ainda não. Foi a mulher que o "forçou" a ir com a doença dela das "miudezas" que era preciso retirar, juntamente com a nenê kasule de todos. E, numa altura em que se mostrava meio renitente, com um pouco de birra pelo caminho, a mulher, outra trungungueira de meter os makulu de boca aberta, comprou-lhe o bilhete de passagem e marcou-lhe viagem.
- Vou com os miúdos. Me encontra lá no dia xis.
Antes mesmo de viajar, a mulher ainda ligou para avisar:
- Alô, Mangodinho! Me anteciparam a operação (cirurgia), se não vieres no dia xis os miúdos vão ficar sozinhos.
Mangodinho pensar é pensar. Ele que não queria ir à Namíbia naquele ano. Teve de pedir urgentemente ao chefe que o deixou seguir sem mais quês nem porquês.
Parece já é hábito ou mania dele. Mesmo depois de conhecer Angola inteira, na companhia, sempre, do tio Sabalo, Mangodinho, para conhecer Kaxitu, que fica no sovaco de Luanda, foi custoso. Fincava o pé. A mulher a exigir que quer conhecer, ele mesmo com carro a por pé no travão das ideias e a dizer, ora o carro não está bom, ora a cabeça está ocupada com os assuntos da administração da aldeia. Mangodinho é assim. Quando a ronha lhe sobe à cabeça, ideia é só a dele que vale, mas, costumam dizer, Mangodinho é também boa pessoa. Coração dele é aberto. Na cabeça muitas ideias para a melhoria da vida do povo e mão dele também não fecha muito quando as pessoas têm preocupação.
Quando chegou em Luanda de lá, portanto na capital da Namíbia, Mangodinho, o primeiro susto foi a quentura. Levantou os olhos e, na frente só via colinas. Sem perguntar ainda às pessoas à volta, começou a triturar os seus botões.
- E a cidade está onde? Os prédios, arranha-céus, os palácios do governador e do Presidente, as câmaras municipais, as pomposas sedes dos tribunais, o wion-wion da polícia, os fiscais-kwata-zungueira, a zunga do cerca-avenida-desce-sobe-cidade, os batedores dos nguvulu-com poder-na-barriga, o isto e aquilo está onde?
- Epá, está assim tipo é no Sahara Ocidental? Possas, pessoa "caloria" e não fica molhada?
Continuou a viagem, já de carro, nos quarenta quilómetros que separam Hosea Kutako da cidade grande, não muito grande como Luanda de cá. Luanda deles não tem mar. Tem árvores só kafitofito e uns rastos onde passa a água quando chove. 
- Epá, tipo no sul do Lubango, na Humpata. Aqui se está a chover sai no caminho da água. Vão te chorar! - Dessa vez Mangodinho não se coibiu e falou mesmo alto no seu português. Aos que o ouviram, todos angolanos mas que dominam a veicular de lá meteram mão na boca para não rir. Mas Mangodinho só disse verdade dele.
Quando chegou então na cidade, começo a ver, tipo estava em Jobo, na "Soute". Cidade tipo é mata, mas mata bem cuidada. Casas, uma aqui e outra acolá, mas todas bonitinhas, ruas tipo é aeroporto ou pista de fórmula um. 
- Xê, aqui nem só mosca, nem mosquito não tem? Será falta de água ou mesmo falta de porquice? E luz vem d'onde, se rio não há. Água, mesmo de beber, fazem cacimba ou é furo? Dia de trabalho tipo cidade tem lá manifestação e o povo tem medo de andar? Assim esse povo vive como? 
Mangodinho de indagações em indagações, sem respostas ainda, algo a que se propõe pesquisar e responder nos próximos capítulos, recordou-se do convívio, curto, que manteve com alguns refugies do Sudoeste Africano, sob tutela da Swapo, em Kabuta, no seu Libolo.
- Andámos só a "lhes" mangar. Vivem mbora tipo são brancos da Europa e nós é que encravámos! 
Viva a inteligência e abaixo o braço-compridismo na coisa alheia!




Publicado no Jornal de Angola, 04.02.2018

quinta-feira, fevereiro 08, 2018

CONTEMPLANDO A BAIA AZUL

 Aos meus olhos visitantes o céu e o mar se tinham casado em uma só cor. Nem brumas nem nuvens. Só azul límpido e silencioso num campo límpido, asseado.
À entrada e no percurso da rua que rasga o monte pela diagonal vão florescendo novas e belas edificações para turismo e habitação permanente. Mas é a antiga instância turística que se parece abandonada que mais desperta a curiosidade, dada a sua arquitectura ímpar.
- Uma antiga pescaria?
- Um antigo hotel?
- Uma obra inacabada por causa da crise financeira dos últimos anos?
Um mar de interrogações, ali mesmo, à beira-mar que é preciso saciar.
Os que se "apoderaram" dos pisos térreos dizem que "foi o Centro Turístico e Hoteleiro de Baía Azul, antes pertença de um 'senhor de cor' (branco) e depois tutelado pela EMPROTEL (empresa provincial de hotelaria) de Benguela".
Hoje, contam, "é de um general que faleceu recentemente" e a sua reabilitação e reaproveitamento esperados ficam, por isso, condicionados a "segundas ordens", porque o dono passou para a outra dimensão da vida.
Nataniel, um dos homem a residir num dos compartimentos do imóvel, quando convidado para passear pela história e pelo local, não se coibiu. Contou o que sabe e mostrou as antigas serventias. Esboçou também uma tênue esperança.
"Queríamos que a família do malogrado general viesse retomar o que está aqui. O mais importante é meter esse hotel como era no tempo do branco ou mesmo no tempo da EMPROTEL. Aqui enchia e as pessoas tinham trabalho". - Enfatizou.
Nataniel conta que o seu pai trabalhou ali como servente e ele correu várias vezes pelas escadas que levavam os banhistas à praia. Mostrou os antigos balneários. "Aqui é onde as pessoas tiravam o calor das caminhadas, antes de se jogarem ao mar, e onde retiravam a água salgada para voltar às mesas ou aos quartos", explicou. Hoje está tudo abandonado.
Há outros pontos turísticos na baía Azul, esplendorosos em qualidade e grandeza. Mas para a história, atesta Nataniel, "é mesmo esse que venderam ao finado general Matos".


Texto publicado no jornal Nova Gazeta, 2018.

quinta-feira, fevereiro 01, 2018

NAS MARGENS DO KAMBONGO

A viagem, de automóvel, para Benguela, perto de 550 quilômetros, iniciou à hora do noticiário. As atenções daqueles dias estava virada aos Despachos presidenciais e às questões sociais que tinham regressado, sem censura, à media pública. Depois de transpostos os primeiros obstáculos mais ligados aos congestionamentos, era preciso fazer gosto ao pedal e redobrar a atenção necessária às condições da rodovia, prudência ou imprudência dos demais utentes da via e obviamente, ler as informações do painel de informações do veículo. Ás dezassete e trinta, estávamos no posto de abastecimento de combustíveis, à entrada do rio Kambongo, Sumbe. Carro abastecido e bexiga aliviada.

Quando nos preparávamos para deixar o recinto, eis que o
o jovem da loja de conveniência que atendera o meu companheiro de viagem, algo envergonhado, chama pelo Beto Spina, meu fiel compadre e confidencia-lhe algo que me é dado a saber momentos depois.
- Kota, desculpa, aquele mano é o escritor?
Palavra mais palavras, o Beto confirmou e abraçaram-se sorridentes.
- Epá, compadre, aquele puto disse que é teu admirador. Quero saber se tens um livro para ele.
Revistadas as portas, saiu um "Canções ao vento", poemário de 2015 que levei ao jovem natural de Quilenda.
- Kota, sou seu admirador. Acompanho os seus textos no Nova Gazeta, no jornal de Angola e no jornal Cultura. O kota é mesmo daonde? - Indagou Pedro Constantino a quem retribui a consideração com um "estrondoso" abraço.
- Sou do Libolo!
E foram necessárias mais cinco horas para vencer outros duzentos e poucos quilômetros de uma estrada que promete ser larga, cômoda e segura quando terminarem as obras que nos remetem mais à picada alternativa do que ao asfalto ainda resistente.

segunda-feira, janeiro 29, 2018

NO EPICENTRO DA PEGADA

Desde a minha adolescência, no Libolo, quando Benguela "ficava ainda longe" que ia ouvindo estórias sobre "pegadas" para atrair raparigas, emprego de director nas três Unidades Económicas Estatais ligadas ao café (Libolo I, II e III), pegada para conseguir cargos de comissário ou delegado, pegada da invisibilidade diante das rusgas do ST e PCU, ou ainda pegada para ser nomeado director de escola, internato ou centro médico. Falava-se também em pegada para conseguir encaminhamento escolar para o Sumbe aonde pouquíssimos eram enviados para fazer o curso médio de educação. Em Kalulu, dizia-se que o velho "bruneiro" mais famoso era o Kakwete que se gabava oriundo de Ndombe Grande ou que tivesse de lá "bebido a ciência" da wanga forte e infalível para todas as situações.
Naqueles tempo de primeiros cantos rosados às kilumbas, o que os tímidos mais procuravam era o Kacilingi cimwe. Diziam que "bastava andar com o pauzinho no bolso e esfregá-lo aos dentes quando visse a pretendida" e, no dizer dos crentes, aquilo actuava como tiro certeiro.
Mais mentira do que verdade, alguns jovens tímidos em desfazer-se do nó na garganta iam mesmo ao intrujão que "lhes comia" o pouco dinheiro que conseguiam a muito custo. Felizmente, sempre fui duvidoso dessas coisas e ao chegar à adolescência nunca fui tentado a tais práticas nem as temos, embora respeite os crentes e suas crendices.
Convidado para uma palestra no Seminário Propedêutico de Benguela, decidi fazer gosto ao motor e à estrada impecável para conhecer a tão famigerada comunidade. Ndombe Grande é uma comuna que se situa no caminho costeiro para Namibe, uns cinquenta quilómetros da Cidade das Acácias Rubras.
Parado o carro junto ao mercado da edilidade, fui sarcasticamente perguntando a jovens (rapazes, raparigas) e adultos "onde vendiam o que muitos, por toda Angola, dizem ser forte e inigualável".
- Hoko! Ó mano, é tudo mentira. Aqui "no" tem. Nem Kacilingi cimwe nem migosta. É só mesmo mentira das pessoas.- Recebi como respostas.
Afinal o único medo de Ndombe Grande é somente a distância para lá chegar. O resto são mitos e crendices. Para mim, nada de razão!


Publicado pelo jornal Nova Gazeta a 15.02.2018

sexta-feira, janeiro 26, 2018

NUM CEMITÉRIO DE DAMARALANDIA

À primeira impressão, Mangodinho chegou a pensar que se morresse mais gente em Windhoek do que na Ngimbi.
- Fogo, pá! Não pode. Estou acordado ou sonhando? Como é que num país em que os hospitais não enchem, com carência de porquice, sem moscas e mosquitos a nduta, se vai morrer ao ponto de o cemitério ficar assim tão cheio? Ou quando morre alguém toda família da cidade e do mabululu vai ao funeral?
Nem o sol escaldante de sábado o impedia de andar, pior ainda com essa dúvida que não quer ficar com ela.
Estava no sul de Windhoek. O cemitério estava cheio. A moda é a mesma do país do norte. Uns usam carpideiras para fingir chorar seu morto. A diferença que notou é que aqui não dizem "aí meu filho ou meu pai". Usam palavras e frases uniformes a todas idades e géneros. Outros, é mesmo como na Ngimbi. Vêem-se parentes chiques que têm roupas e óculos só para óbitos e outros parentes que quase se entregam à tumba, fingindo que acompanham o de cujus, mas pura simulação. Sabendo que não seria entendido na sua língua, Mangodinho ainda fez uma agitação.
- Deixem-na ir. Aqui fora está muito quente e pode ser que debaixo da terra esteja mais frio.
Os dâmara todos ouviram mas não deram ouvidos. Se calhar deve ser por causa da língua, mas a tia que estava a se rebolar, pretendendo colocar--se por cima da urna que descia ao solo do descanso, acabou desistindo. Mangodinho bateu-se levemente ao peito e disse para si:
- Me ouviste, n'é? O chão molhou com o chuvisco mas o subsolo é quente!
Ficou ali na multidão vendo e ouvindo. O lápis enfiado no cabelo, ndunda no sovaco e bloco de notas na mão é já sua marca por essas terras. Até dizem, ouvi rumores, que uma equipa de modistas segue Mangodinho para descrever-lhe os gestos e preparar uma grife. Mangodinho, ouvidos atentos e rapidez na consulta ao dicionário e notas no bloco.
- How many people death daylly, here? - Soletrou.
(Quantas pessoas morrem diariamente aqui?)
- We burry ONLY on saturday and sunday because of work abstention (enterramos apenas aos sábados e domingos por causa da abstenção ao trabalho).
- Maravilha, wonderfull, magnífico. Good idea. Vou propor um estudo lá na banda. No campo é difícil ainda, por falta de energia, morgues e etc. Mas na Ngimbi pode ser o ponto de partida. O povo vai resistir mas depois vai gostar, tenho certeza. Primeiro, boa energia a todos os cidadãos. Segundo, boas morgues privadas que concorrem entre si, oferecendo melhor serviço e preço. Depois ficam reunidas as condições objectivas para decretar funerais somente aos sábados e domingos, sendo que aos finados de domingo a quarta vão ao descanso santo ao sábado. Os que nos deixam de quinta a sábado vão descansar eternamente no domingo. Se isso passar no nosso Governo e Parlamento vai diminuir as ausências ao trabalho por motivos de óbitos de parentes e até irmãos de igreja que passam por biológicos.
Mangodinho, com ideias a lhe chover na cabeça, partiu para a hospedaria e traçar o plano que vai submeter ao Executivo e já pensa no discurso.
- Suas excelências, como gestor de Capital humano sei o quanto representam de perdas às empresas e organizações públicas as supostas ausências que nos são reportadas por eventuais causas de óbito. Sabeis também vossas excelências que se dos finamentos não se nos permite duvidar, o mesmo não se passa com o grau de parentesco entre os reportados como mortos e os que se furtam ao trabalho para depois exibirem certidões de óbito. É por isso, excelências, que propomos vossa reflexão e eventual aprovação de uma lei, de aplicação gradativa, que estabeleça dois dias para funerais!