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sexta-feira, dezembro 30, 2005

Iª EPÍSTOLA À TERRA


Amigos meus que ficastes. Graça e paz e votos de que abram os olhos. Eu, por cá, na carne vosso irmão e kamba do munhungo, estou na área intermédia entre o inferno e o paraíso, onde se fazem os julgamentos. Convivo todos os dias com um espírito que teve na carne o nome de Feliscesco Dicopai. Contou-me que tem vários amigos, ainda no activo, na terra, sobretudo por aí onde estais.

O Dico, um dos primeiros a ser julgado, contou-me que fora em vida terrena pobre e filho de um homem beberrão que nem dera conta do seu nascimento, foi por isso criado pela mãe e pelo irmão mais velho já que o pai fora mobília de bar onde gastava tudo.

Vós que andais ainda como ele estejais atentos para que o vosso julgamento não comece na terra.

O Dico, também conhecido por Ditador, contou ainda que na sua primeira audiência com o meritíssimo juiz, que sempre teve ambição pelo poder e que quando o conseguiu jamais o largou até ser despachado.

Tão desavergonhado como eu, em vida terrena, o Dico contou ainda que fez amizade com chinese e coreanos aos quais ele e Paulina sua Esposa imitaram o mando e controlo.
Digo isso porque sei que vós ainda gostais de ser controlados. Mas não contem mais com o Dico que está por conhecer a sentença.

Avisem também a todos os distraídos do munhungo que aqui a vida é boa. Mas custa saber em que bairro se está a viver. Por isso, enquanto estiverdes naquela vida, não vos esqueçais de erguer as vossas casas e que não deixeis que as troquem por vivendas urbanas públicas como as do meu novo amigo Dico.

Quanto aos que se apressam na vida terrena, avisai-os que ainda é cedo. Deixem que os muros se desfaçam por si. Comprem computadores, façam cartas e gritem alto aos Dicos.

Também vos falo sobre o alimento. Comais carne e não bebeis mais vinho que vos aliena. Da cevada aproveiteis apenas a farinha porque está escrito num livro qualquer. Do vinho te embriagarás e não mais te levantarás.

Amigos meus que estais nas terras de kassanje, irmãos na liamba e no Kapuka, não mais perguntem quando termina a independência que roubou as benesses da idade média. Trabalhais e orais sem cessar porque assim fizeram os romenos nos seus templos para que possais ver um novo dia de sol e chuva abundantes.

O Dico que comigo vive em zona intermédia conta bons exemplos de dias longos em que todos trabalhavam sem nada exigir e noites frias sem luz nem transportes. Conta exemplos de despachos que ficaram no papel e de visitantes que substituíram os doentes no leito por causa da doença contraída nos próprios hospitais. Fala também de homens que pensam para outros dizerem e de mulheres coroadas sem honra. O Dico pede também que quando estiverdes no munhungo lembrai-vos das vossas obrigações. Lembrai-vos de que a terra permanecerá para sempre. Sem demora é a nossa vinda.

Amados irmãos amai a fidelidade e quando não poderdes abstenhai-vos da luta corporal.
Abraços de vosso irmão e kamba na carne, Felito So-Bra-do-Caixão.

Luciano Canhanga

quarta-feira, dezembro 21, 2005

Cânticos anónimos VI

A minha nguvulação

Lembro-me de ter lido, ainda nos meus tempos de undengue, uma coluna sobre os chefes ou chefiação a que os angolanos estão sujeitos. Crónica ou artigo tão bem escrito, dele resta-me apenas a exactidão do colunista em enumerar quantos chefes tinha; uma vintena.

Classifiquei de imediato o jornal como “documento" e escrevi no topo "Não retirar da K”. Mas, quis alguém dar-lhe um destino por mim indesejado.
Busquei e rebusquei tudo quanto pude e não encontrei pista alguma que me permitisse citar com exactidão o autor do texto sobre os chefes. Disseram-me alguns próximos trata-se do Ismael ou Salas. Seja quem for, o meu reconhecimento pela "chuva que provocou o rio".

Quis agora que é chegada a minha vez de nguvular e de ser nguvulado descrever também até que ponto vergo o joelho para reverenciar.
Começo então pela casa da minha mãe que tem por hábito tratar o primeiro Neto saído do filho varão por chefe. Este rapaz de apenas oito anos é quem mais manda em mim. Ora cadernos, ora livros, ora BD, ora concerto de bicicleta, ora computador que ainda não dei, ora etc., ora vídeo game, enfim. Está descrito o meu primeiro chefe, o meu filho.

Ainda em casa tenho a chefe do governo que me exige sempre que quer o reforço do OGC. Entenda-se orçamento geral de casar. A chefe Elsa.

Fora do lar, mal saio, tenho na porta ao lado o chefe da célula e o chefe do núcleo. Se for cinco ruas mais adiante, no Comité Municipal, encontro outros dois chefes: O da Juventude e o do partido. A estes se juntam os chefes da província e seus adjuntos nos dois escalões. Ainda no partido, vou para o escalão nacional e encontro vários chefes. Os chefes dos meus chefes.

No campo académico, tenho o chefe de sala ou delegado e o chefe da associação de estudantes. Como frequento duas universidades, tenho quatro chefes, tirando aqueles que por mérito demonstrado ao longo dos anos de coleguismo ou consideração não deixam de ser chefes.

No serviço, tenho superiores hierárquicos que até ficam chateados quando não se prefixa a expressão chefe ao seu nome. Gostam do epíteto como se de nome próprio se tratasse: Chefe Amélia, Chefé Bibi ou chefe Dê. A estes se juntam o chefe de secção ou editor, o chefe de sector ou Editor-chefe, o director de Informação, e os demais directores que são três.
Ao nível de Estado tenho o chefe grande, a quem todo o país verga o joelho, aliás parte o joelho para a vénia.
Feitas as contas, tenho mais de trinta chefes entre os directos e indirectos.
Posto a reflectir, notei que cada um de nós tem um número exagerado de chefes a quem presta subserviência e sem poder reclamar. Apenas nos cânticos anónimos se ouve algo relacionado à chefiação, sendo o nome do Chefe grande o que mais soa nas canções.

Lembro-me que no tempo do Carnaval da vitória quase todas as canções levavam o nome do chefe. Em Calulo, no Carnaval escolar lembro-me termos cantado “Zuzéduardoé uol’ótuma kiambote, kolenu povué tuondó kina kiavulo...”.
Talvez uma cópia mal feita de um cântico original, talvez não.
Hoje, no candongueiro da Mutamba ao Rangel, um jovem introduziu na conversa ocasional o tema “chefe grande”.
Dizia o cidadão anónimo que “o Chefe inaugura demais”.
Uma senhora da casa dos vinte, mas com aparência de muitos partos pelo caminho, perguntou se “o quê que o presidente inaugurou e que não seria para ele”.

A resposta inesperada pela assistência de doze camaradas de viagem veio do cobrador: “os três bebés”. Levou tempo para me aperceber que o gerente do Hiace se referia ao edifício AAA inaugurado num dia em que o Primeiro Ministro teve de adiar o corte de fita do Instituto de Património Cultural para não chocar com o chefe grande que tinha um dia completo de “tesoura, fita e prato”.

Na conversa de candongueiro que geralmente não tem dono cada um foi apimentando do seu jeito, sempre na ânsia de puxar o auditoria para o seu lado. Já na paragem da cidadela entrou uma jovem que não deixando o “caldo” esfriar rematou:
-Sabem quem inaugurou as casas de banho (urinóis públicos) da Mutamba e do Porto? - O chefe!
Mais gargalhadas e mais banalização do papel dos chefes. Fiquei apenas sem conferir o desfecho da questão sobre “o chefe da casa de banho”, porque para mim a Cáritas tinha sido o fim da viagem.
Fiquei porém, com a lição de que é importante fazer-se uma boa nguvulação e boas inaugurações, porque enquanto for chefe lá em casa, da minha mulher, do meu filho e do minha irmã com quem partilho os cantos da casa, pode acontecer que me deêm champanhe e tesoura para cortar a fita no dia da troca da sanita que já não tem cor.
Por: Soberano Canhanga

terça-feira, dezembro 20, 2005

Cânticos anónimos V

A verdura da kamanga


Hoje, (03.12.2005) a minha viagem até que foi de avião. Preferia que fosse de candongueiro para ouvir os inúmeros cânticos anónimos possíveis somente em casa de ninguém. Desta vez não. A distância que separa o Atlântico do nordeste do país tirou-me o gostinho que criei pelos mujimbos.
Fui ao terminal da SAL onde um trabalhador de uma diamantífera “despacha” os seus colegas e visitantes da empresa.
Um manifesto em lista dá acesso ao talão de embarque. Até aqui nada mau. O meu espanto foi, porém, saber que o abandono da sala de espera nunca é anunciado. Os passageiros têm de cercar “o homem da lista” para não perder o voo porque o "mwata" pode, quando quer, pôr outros nos lugares dos distraídos. E aconteceu mesmo com alguém que até conheço.

Quando comentei o que vi com um frequentador da Lunda-Sul a resposta seca foi:
_“Aquilo não é Angola, é muito concorrido e não se avisa ninguém”. Fiquei buamado.

Uma vez próximo da “mina”, já em território katchokue, deparei-me com um outro espanto.
- Um enorme planalto a esbanjar o verde.Um verde selvagem composto apenas de capim e árvores. Não se via, quer pelo ar, quer por terra, uma bananeira sequer.
Mais uma vez perguntei o porquê da incultura dos campos, e, novamente ríspida e pronta a resposta dos habitantes não se fez demorar:
-“Habituaram o povo a viver da kamanga e já ninguém quer esperar pela colheita”.

O canto que se canta em qualquer canto das Lundas é a kamanga, a ocupação das terras ancestrais pelas empresas e garimpeiros nacionais e estrangeiros, a extinção da agropecuária e a condenação à fome dos idosos, deficientes e mulheres que têm na prostituição e no comércio informal o único ganha-pão.
Vivi os dias que vivi, comi o que comi, mas tudo de fora. O pior é que nem uma pedra vi.
Ouvi no cântico dum idoso ovimbundu que “quando eles chegavam destruíam as lavras e até os bairros para cavar kamanga… quando acabavam deixavam tudo assim (aberto), mesmo quando íamos longe e eles descobriam que tem kamanga vinham de novo… até que parávamos também”.
Noutro refrão captei que “aqui escola para os filhos não tem, hospital também não. Medicamentos, mesmo, é tudo na praça da cidade. A pessoa pede emprego no governo também não tem. Se não tem filho que trabalha na kamanga, você fica só assim mesmo”.
No mercado paralelo de Saurimbo (Saurimo) vozes desafinadas desafiavam o sol e a chuva, que cai sem avisar, com outros cânticos à memória das filhas.
_"Assim que está a escurecer, daqui a pouco vão já começar a chegar das minas. É assim todas as sextas e sábados. Se trouxessem ainda comida era normal. É só mesmo disbunda e SIDA. É só mesmo assim…”.
Como o fel que inadvertidamente se mistura à jinguinga, em hora de fazer contas com a lombriga, sorvi o desabafo e deixei-o comigo. Somente comigo.
Uma vez no ar, de regresso a Luanda, deparei-me novamente com o verde que se espreguiça num vale sem que alguém se lembre em botar-lhe um machado, uma enxada ou uma catana para dar outro verde que pinte e encha os pratos vazios. "Tanto verde para tanta fome é realmente muita kamanga".

Por: Luciano Canhanga

quarta-feira, dezembro 14, 2005

Cânticos anónimos IV

“Hoje não há escola”

Há muito que não desafiava a distância numa viatura. Viajei, esta semana de carro Luanda/Munenga/Lussusso, mais de 290 km.

Zangado com os solavancos na picada, o carro gritava ao vento no seu roncar a angústia que lhe provocavam as crateras no moribundo asfalto. O serpentear do caminho multiplicava com o andar as indignações.

Antigos bairros abrigam fantasmas e nas cantoneiras da junta de estradas, feitas escolas no calor da revolução, resta apenas o soar do chicote largado pela mão do professor de quarta classe e sem pedagogia. Tentei a pergunta sobre o paradeiro das carteiras e tal como na descuidada infância, na PRÉ, a resposta veio gritada:
-“Hoje não há escola”.
Frase que já não ouvia há muito, desde que deixei a iniciação escolar ou pré Kabunga, quando desabituados ainda com a vida escolar festejávamos as ausências do professor, cantando em coro e correndo os dez quilómetros que separavam a escola da casa.

“Hoje não há escola” é também estrofe dum cântico anónimo solto pela garganta duma angolana iletrada que na inauguração do país ficou sem os filhos nos afazeres agrícolas, e ela mesma, sem tempo para o jantar do marido, gasto na alfabetização. Desse tempo apenas a nostalgia das primeiras lições do a, mbê, cê, ndê naquela garagem da fazenda Israel do Libolo.

Vinte e cinco anos passados, já não é fazenda aquele campo de ananazes, girassol, laranjeiras e bananeiras. Tudo desapareceu.
Os pais de outrora transformaram-se nas tumbas neófitas que ladeiam o caminho. E o pior é que hoje “não há escola” de verdade. Não é apenas a ausência da educação formal com o professor Jorge Kaconda, o Giz e o Chicote para a burrice na matemática, mas também a escola informal do Velho Chica Yango no ndjango.
Desapareceram os idosos e com eles as anedotas, as canções, as fábulas, as Estórias e a História do meu povo, o nosso povo. O livro das linhagens escrito na memória e assim reproduzido sem tinta e papel.

Visitei o largo que acolhia os nossos serões à volta da fogueira quando fossem boas lenhas. Hoje só fumaça. Lenhas que não fogueiam, conservando apenas nas cinzas o lume para o amanhã incerto, sem isqueiros de fricção, nem gasóleo dos tractores queimados pela guerra.

Desesperado, recuei para Munenga, a sede comunal. Ali, onde em Setembro de cada ano se juntavam todos os “comunas” para o exame final da quarta classe. A antiga sede do posto administrativo reclama reconstrução e já não é cerâmica a casa da montanha. O sangue Frio desapareceu com o seu bar e o Ferreira, ai que pena! Do Ferreira ficou apenas o nome.

Procurei então pelo administrador para que me indicasse a escola geral. Queria saber se restavam ainda retalhos da minha infância escolar. Novamente a resposta duma anciã:
-"Filho, hoje, já não há escola".

Conclui então que os ditos do passado não morrem. Conservam-se apenas noutros estados, noutras falas do mesmo povo, noutras vestes do mesmo corpo. Não há, realmente, escola que chegue para tanta maternidade!

Por: Soberano Canhanga

quinta-feira, dezembro 08, 2005

Cânticos anónimos III

“Ai ué, me tarracha só...”, “Fica só comigo, só mais um pouquinho...”,etc. São cânticos conhecidos e que geram outros Cânticos anónimos quando reproduzidos de forma ensurdecedora a céu aberto e dançadas em hasta pública como a ignorância ordena.
Passei hoje, depois de uma aula de moral, no meu bairro, pelo largo adjacente à Emissora nacional. Notei que é um lugar onde as campanhas de civismo sonoro gritadas na rádio, televisão e nos jornais continua a encontrar o seu mais directo violador.

A céu aberto e com robustos altifalantes virados a todos os ventos, os homens do civismo que promovem nos media o uso apertado de “decibês” em casa, fazem na rua o pior. E pior ainda porque promovem também a bebedice.

Há muito que assisto à cena e oiço anónimos reproduzindo as músicas e outros cânticos de teor atentatório à moral pública.

Decidi então avançar. Para as bandas do Catambor ver um velho amigo. O Velhinho. Dois passos depois, cruzei com as preces de um idoso na casa dos setenta, mais ou menos. O meu cálculo é apenas pela forma trôpega que não evitou o desabafo perante ao que assistia.
_ “ Perdoe-me Deus, mas estes homens já não ouvem mais”.

O ancião anónimo olhava para as cores conhecidas dos promotores do civismo, as mesmas que revestiam o largo barulhento. E não era só na baixa. O Muceque todo estava inundado de maratonas ruidosas.
-“Que civismo meu Deus, afinal estes homens são assim?”
- Outra interrogação duma beata que se dirigia ali ao lado, no Reino de Deus Rico.

Casada com o barulho a promoção cívica estende-se à tarracha, a dança do esfrega-esfrega, exercitada no descampado, também conhecida por irmã gémea do strip tease.
_“Esta dança pornográfica ganha corpo e ninguém move palha?”- "Issunji!" Conclui a beata anónima.


No meu andar e ouvir despreocupado soube depois que um jornal Capital(ista) lhe tinha dedicado páginas de reflexão que aguardam ainda pela mão leve do “quem de direito”.

À boca da Igreja idosas conservadoras suplicavam se “ vamos continuar a ver nossos filhos e filhas a se aquecerem o “matrindindi” à nossa frente ou se vão indicar locais apropriados para a moda deles”?

Sem chatices, o jardineiro do hotel Estrelas Lavadas cantava o seu canto, cachimbando malambas e recordações de um tempo bom que o tempo levou.

_“É Revolução, kota”, gritou um rapaz que respondia ao amigo sobre o título do filme em exibição na casa de vídeo, ali naquele Muceque insular do Alvalade.

E eu, sem tempo ainda para a reflexão dos cânticos ouvidos, segui o meu caminho até à casa que o Velhinho me tinha mostrado. Felizmente, já lá não vivia. Estava empregado numa petrolífera.

Por: Soberano Canhanga.

sexta-feira, dezembro 02, 2005

Canticos anónimos I

Cânticos anónimos I

Ontem mesmo andei num autocarro, (transporte público urbano). Há muito que já não o fazia, pois tinha um carro velho que dava para as minhas curtas saídas.

O meu espanto foi que nos autocarros cobram-se valores mas não se passam os bilhetes de passagem. Ainda ontem (27.11) andei num candongueiro (espécie de táxi com destinos predeterminados, mal conservados e com pessoas enlatadas). Todos os passageiros, dos mais variados extractos da sociedade, reclamam o andar inverso das coisas em Luanda e no país.

Ruas feitas pocilgas neste tempo chuvoso, lixo nas ruas e mercados paralelos, aos olhos cegos dos governantes, delinquência aberta nas "barbas da polícia", e pior, ninguém faz nada porque ninguém vê nada! Os que deveriam ver e fazer, andam em carros luxuosos e com vidros fumados onde nem o cheiro nauseabundo penetra, nem os saltos os incomodam. O resto é Selva!

Parece-me que vivem duas categorias de pessoas em Angola. Os Homens (governantes e clientes) e os Selvagens (nós os simples mortais).

Uma coisa parece ser certa, já ninguém suporta a degradação da vida em Angola!!! Todos os dias há novos contratos de concessão de exploração petrolífera. Mais kimberlitos descobertos. Mais carros luxuosos dão entrada nos portos de Luanda, Namibe e Lobito. Porém, mais sem tecto nascem, mais desempregados, mais crianças morrem na pediatria por falta de medicamentos e camas, mais jovens se entregam à prostituição e äs drogas.
É absurdo notar que entre as jovens já é lema "prostituir-se pelo menos uma vez para subir na vida".

Estas são as crónicas de viagens ou canticos anónimos do povo, gritados aos ventos soltos nos autocarros públicos, nos candongueiros, nos bares, nas casas de liamba, enfim, onde o povo desabafa...
Essas crónicas que pretendo ver transmitidas ao grande público, sao a descricao de tanta anormalidade a que assistimos todos os dias. Quem as quiser ouvir é só meter-se num autocarro, num candongueiro ou num prostíbulo.
O caricato é que os próprios "louva corte" também já reclamam.

Por: Soberano Canhanga

quinta-feira, dezembro 01, 2005

CÂNTICOS ANÓNIMOS II


Tenho andado agora nos candongueiros (táxi), nos autocarros públicos e a pé. Não porque me apraza, mas porque fiquei sem o meu “rolante”, cansado de tantos remendos. Andar a pé e de candongueiro até dá gozo. Vive-se a vida verdadeira do povo.

Cruzo todos os dias com zungueiros, gatunos de telefones, estivadores em mercados paralelos, biscateiros de toda a sorte, Doutores de todas as áreas, caídos na desgraça, militares, polícias, enfim, todos os que não andam em carros luxuosos e com vidros fumados.

Oiço todos os dias músicas, ou melhor cânticos, alguns alegres, bafejados pelo vinho entorpecente. Outros de angústia causada pela vida que não anda.

Hoje, do aeroporto para o meu local de serviço, meti-me num azul e branco (táxi) onde o cântico era sobre as estradas que dão acesso à baixa.
"Muitas obras, estradas sempre estreitas, muito “engarrafamento” e notícias que só falam sobre milhões na comunicação social, quando o povo definha".

Vi também um coronel na conversa e conclui que os generais só não falam porque ainda não os ouvi. MAS QUEM SABE…

Do Hospital militar ao mercado dos “congolenses” (assim se diz ao contrário de congoleses que seria ideal) andei num autocarro da TCUL. O cântico foi sobre a vida difícil que “o povo leva”. Ouvi homens e mulheres a reclamarem a destruição pelo governo (?) do mercado do ASA Branca*, no Cazenga.

Ouvi dizeres como:
-" O povo vai morrer de fome".
- " A vadiagem e a droga vão aumentar".
-" Os assaltos vão piorar ".
-" Esse governo vai nos matar", etc.

Ouvi também argumentos como:
-“se eles passavam a vida a biscatear, vender qualquer coisa ou mesmo indicando o caminho para a compra disto ou daquilo em troca de um cem ou cinquenta, agora que acabaram com o mercado, a coisa vai ficar complicada”.

Ouvi ainda interrogações várias no mesmo cântico tais como:
- Como é que vamos fazé?
-Onde é que vamos cume?
-etc.

Ouvi outros cânticos anónimos na viagem, também de táxi, dos congolenses ao mercado da Estalagem e deste à Boa fé, ida e volta.

Ouvi apelos a “quem de direito” em expressões como:
-Mas quê que anda então fazé o quem de direito?
-Mas o presidente tá então a fazé só o quê, que não toma ja medida?

Ouvi depois argumentos como:
“o próprio presidente sabe”, e insinuações como:
“Deixa-lá, no Zaire também foi assim, mas chegou o dia”.

Um jovem demonstrando atrevimento ainda rematou:
-“ Isso só muda mesmo quando o kota bazar. De velhice ou de eleição”

*O mercado do ASA branca chamava-se "Ajuda o Marido" e foi assim rebaptizado em 1987 quando a TPA passava a novela brasileira Roque Santeiro. Na sua missão de ajudar o marido naquele tempo da ração planificada, ombreava com o também extinto " Tira biquini" ou "Cala a boca" e a praça das Corridas, actual "Tunga-ngo" (em kimbundu = constrói só). A extinção do Cala a boca deu lugar ao surgimentos dos mercados dos Kuanzas e do Roque santeiro.

Luciano Canhanga