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sábado, janeiro 31, 2009

ERROS ORTOGRÁFICOS E DE CONJUGAÇÃO VERBAL

Há vezes em que a origem e frequência dos erros ortográficos e de conjugação verbal (e falta de concordância) me levam a duvidar dos meus próprios conhecimentos e me pergunto:

Isto é mais um erro ou eu é que sempre estive enganado?

Luciano Canhanga

sexta-feira, janeiro 23, 2009

A INDÚSTRIA RURAL DOS AMBUNDU DO K-SUL


Texto em Construção

Ù-XILA (fabricar) utensílios de pesca, de cozinha, de caça, de canto e dança, de uso quotidiano é uma das actividades complementares para os Ambundu do Kuanza Sul.

Produzem-se para a caça arcos e flechas, cacetes, armadilhas diversas; para a pesca anzóis, redes, armadilhas diversas, nassas entre outros; para a casa e cozinha, xisa1, (esteira), Musalu (peneira), kinda (balaio), kualo (cesto), produtos de olaria como panelas e moringues à base de argila, almofariz e pilão; batuques e guitarras, chocalhos, dikanzas, entre outros instrumentos para o canto e a dança; para a agricultura charruas e arados puxados por bois; e ainda a destilação do makiakia (kaporroto) que aquecer as noites frias e "alegra os tristonhos".

A matéria-prima vem geralmente da natureza no seu estado mais puro, como árvores, fibras, junco e argila. O ferro e outros metais, retirado essencialmente de carros acidentados e restos de obras industriais, alimenta os foles dos ferreiros e a perícia dos funileiros que dão a forma desejada a pedaços de cada metal recolhido.

A destilação (kualula) complementa o rol desta actividade. A banana, a cana, a batata, o milho, a mandioca, o maluvo (vinho de palma), o ananás e outros frutos são as matérias primas para a destilação de bebidas alcoólicas, uma prática que vai perdendo peso na economia rural, tendo em conta a facilidade de obtenção de bebidas industriais através da compra ou da permuta por produtos campestres.

Nos anos recuados (década de oitenta e noventa do sec. XX) era comum cada família possuir o seu alambique (destilaria) que era igualmente uma unidade económica familiar na medida em que o makiakia não só era usado para oferendas em óbitos e outros eventos comunitários, mas também vendido ou permutado por outros produtos e serviços campestres. Estávamos perante comunidades com índices de monetarização extremamente baixos, sendo a permuta a principal actividade mercantil. Hoje o cenário é diferente e o que se vive é um meio termo entre o moderno e o tradicional.


1- na grafia ambundu e de acordo às regras do CICIBA a fonética do s, mesmo quando entre duas vogais, equivale a ss ou ç.

Luciano Canhanga

quinta-feira, janeiro 15, 2009

LEMBRANÇAS DE PESCARIAS FLUVIAIS NO LUBOLO E KIBALA


Texto em construção.

Os ambundu do Kuanza-sul, província angolana cercada pelo Bengo, Benguela, Huambo, Bié, Malanje e Kuanza-Norte e Oceano Atlântico, são tanto, agropecuários, quanto caçadores e pescadores, actividades que melhoram a dieta, de si já rica, visto serem povos há muito sedentários.
A pesca é feita normalmente em rios, visto inexistirem chanas e lagos na região. Rios como o Kuanza, Longa, Nhia, Phumbuiji, entre outros, oferecem variadíssimos peixes, alguns de grande porte. O nguingui/phonde (bagre grande), òlundo (bagre pequeno) icuso/ikele (tilápia), òtimpa, iriuriu, (tuqueia), phele (espécie de corvina), hála (caranguejo de água doce), entre outras espécies, abundam as águas destas paragens.

Os povos Lubolo e Kibala pescam durante todo o ano, independentemente da estação. Apenas mudam os meios ou instrumentos, embora os meses de Julho, Agosto Setembro e Outubro, devido à baixa dos caudais, sejam os de maior aproximação do homem aos cardumes e concomitantemente os de maior captura.

Os anzóis são usados em qualquer época do ano, quer como armadilha quer como instrumentos de pesca imediata. A par dos anzóis os ambundu do Lubolo e Kibala também usam as nassas (munjia/muzua), cestos (kuálo) e composições de determinadas ervas que depois de trituradas são jogadas à água (kuimba) para entorpecer os cardumes que seguidamente são apanhados com os cestos. Esse tipo de pescaria é usado somente em pequenos rios ou trechos do rio isolados pela seca. Usa-se ainda a "tarrafa" através de arremesso de redes (uanda) e armadilhas de redes.

Quanto à produção dos instrumentos de pesca, os anzóis são normalmente de produção industrial, mas na sua ausência improvisam-se os de produção artesanal. Um pedaço de arame ou fio metálico, desde que maleável, serve de matéria-prima. A cana é normalmente um caniço improvisado e a linha é normalmente de nylon. As comunidades rurais e tradicionalistas desconhecem o uso dos carretos na pesca, embora usem as chumbadas (o meu pai usava e foi com ele que aprendi a pescar no rio). A garotada, sobretudo, aprecia acoplar à linha um objecto flutuante (casca seca de cabaça) que sinaliza sempre que o peixe pique à isca. Isso torna a pesca menos frustrante e sobretudo relaxante. Quanto à isca, esta é normalmente à base de minhoca, salalé (térmita), pedaços de carne, peixe miúdo e outros condimentos. As redes são feitas igualmente de Nylon e de cordas silvestres (redes de arremesso) carregadas de esferas (matalhi/matadi) confeccionadas à base de argila. As nassas e cestos são feitos à base de fibras de junco ou palmeira.

Para o êxito da pescaria nocturna, os povos do Lubolo e Kibala jogam também com a posição da lua, pois enquanto mais luz houver, menor serão os resultados.

Ao contrário da caça, a pesca é normalmente individual ou familiar (pai e filhos ou sobrinhos). Há ocasiões em que é realizada de forma colectiva. A aldeia ou parte dela organiza a pescaria e os proventos são repartidos de forma quase equitativa, compensando-se os menos afortunados.

A sociedade rural, embora tenda a evoluir para o modelo patrilinear, vive ainda fortes resquícios do matrilinearismo, daí que o sobrinho ainda exerce grande influência e goza de regalias do tio (irmão da mãe) em relação ao filho. É ao sobrinho que ainda se contam os segredos e este vê igualmente o tio como o guardião das suas confidências e projectos. Aos cinco anos os rapazes iniciam-se na pesca com instrumentos simples.


Luciano Canhanga

quarta-feira, janeiro 07, 2009

A CAÇA ENTRE OS LUBOLO E KIBALA


Nunca é demais explicar que o meu engodo pela descrição de factos vividos e presenciados no Lubolo e Kibala resultam da minha descendência Lubolista/Kibalista.
Nestas linhas tentarei trazer à memória episódios distanciados há mais de vinte e cinco anos, mas que se mantêm intactos.

Embora sedentários, a caça entre os povos que habitam o Lubolo (Libolo) e a Kibala é uma actividade de importância transcendental, na medida em que permite o enriquecimento da dieta alimentar. Serve igualmente de exercício para aptidões mentais e físicas. Pois só homens dotados de inteligência e robustez são capazes de conseguir presas e desfazer-se de iminentes predadores.

Tal como em toda Angola, o ano é composto de duas estações: a estação chuvosa (
nvula) que é mais longa (9 meses) e a estação seca, também conhecida como (kixibo) cacimbo. É nessa última que mais se pratica a caça por meio de queimadas (ùximika muízo)1.

As grandes extensões de terras comunitárias, incluindo as de caça, são, na teoria, "pertença" do soba/rei. O direito consuetudinário impõe limites geográficos não muito tangíveis, mas invioláveis. Ninguém, sem autorização do soba/rei, deve atear fogo ao capim para a caça.
É o soba ou os mais velhos da comunidade que planeiam o programa de caças durante os três meses de tempo seco.

Antes da caçada são preparados minuciosamente os instrumentos de caça: la honji l'isongo (arcos e flechas), l'ombua (cães), salamba (cesto de junco para transporte de animais de pequeno porte), tubia/tibia (lume), lambala,(archotes), lungua (cone feito de malha metálica), mbuety/ñondo (cacetes), etc., bem como o roteiro. As instruções são passadas ao pormenor e o seu cumprimento é seguido à risca. Qualquer desvio pode, não só, perigar a vida dos caçadores, mas também fracassar a caçada.

Para a operação, grandes espaços de capim seco são cercados e é ateado o fogo. A operação é feita de tal forma que os animais que se encontrem no espaço tenham apenas uma escapatória. Geralmente áreas já queimadas, pequenas florestas, encostas de rios com pouca vegetação, etc. Terminada a queima do capim e com a ajuda de cães, arcos e flechas, e outras armadilhas passa-se à procura dos animais que tenham escapado ao cerco.

Enquanto os mais velhos da comunidade se responsabilizam por apanhar os animais, os mais novos têm por missão carregá-los até ao local combinado para a despelagem e divisão. Por cada animal carregado, qualquer que seja o seu porte, um pedaço de carne era/é destinado ao transportador. Uma parte (metade do animal) é/era para o caçador e outra para os integrantes da caçada que a repartem em pedaços mais ou menos iguais. Ù-tona é o termo que se aplica ao acto de repartir os proventos da caça entre os caçadores.

Ao (muen'axi) dono da terra (rei/soba) ficam igualmente salvaguardados os seus direitos. Importantes pedaços de carne vão ao "palácio real" (zemba) para o seu consumo e dos visitantes da aldeia, pois é para lá que se dirigem aqueles que estejam de passagem e que não tenham família na aldeia.

Existe entre os Lubolo e Kibala outras formas de caçar: No período chuvoso ou impróprio para queimadas usam-se armadilhas (óbolo, indamba, ótuela, nzomba) e também armas de caça. Aqui, sendo actos individuais, o produtos da caça isenta-se de obrigações sociais, salvo para com o muen'axi e familiares directos.

As armadilhas são normalmente colocadas nos atalhos, por onde passam frequentemente os animais para os locais de alimentação e ou abebeiramento, ao passo que com as armas procuram-se igualmente por locais onde se possam encontrar animais que procuram por relva fresca ou água.

Lebres, pacas, seixas, veados, corças, nunces, palancas (castanhas), pacaças, raposas, cabras de leque, javalis, porcos-espinhos, canta-pedras e outras espécies são abundantes, e por isso, os mais caçados. Predadores como hienas, leões, leopardos e onças também habitam a região.
As carnes de moma (jobóia) e de nguvo (hipopótamo) são igualmente apreciadas pelos ambundu do Kuanza-Sul. A onça (ongo), enquanto animal "sagrado", deve ser presente ao rei/soba da aldeia e com ele fica a pele, símbolo de poder.

1- muizo= coutada, extensão de terra cujo capim é queimado para a caça.

Luciano Canhanga