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quinta-feira, junho 23, 2011

EVAPOROU-SE O "GASOLINA"

No dia 10, quando o Henda ligou para mim a comunicar a morte da tia Santa advertiu-me: Kota, o tio Gasó também está muito mal. Estamos à espera apenas do dia, porque na enfermaria dele só entra já o chefe dele e a esposa".  E disse mais, "a mana Santa é nossa mãe, mas esse aí que está por bazar é mesmo nosso... é nosso sangue". Do outro lado do telefone, fiquei com a sensação de que o jovem terá soltado algo que lhe estava preso há muito tempo na garganta e que, depois do esforço, terá caído em lágrimas. Eu também senti um amargo de boca e uma vontade de chorar. Fiz coragem e fui passando a mensagem da morte da tia Santa e da doença "irreversível" do tio Gasolina, a contar da dureza/franqueza das palavras do Henda.

Dia 23 de Junho, 8 horas, voltou a tocar o meu telefone. Desta vez não foi o Henda. A voz era do Santos, irmão dele mais velho, e a notícia era a que eu menos esperava.
-_ Kota, sabes que temos desde ontem óbito, né?
_ Como assim? Quem morreu? _ Perguntei admirado.
-_ O Ti Gasó. Parou ontem.

Não resisti ao peso da notícia. Perdi força e o telefone escapou-me das mãos, esvaindo-se, aberto, no pavimento. Custou-me recuperar a "coragem de homem" e planificar as acções a tomar: Avisar os que não sabiam da má nova, cuidar da dispensa no serviço, e ... trabalhar, enquanto se espera pelo dia da viagem.

Quem foi o tio Gasolina? Augusto João dos Santos "Kapaio". Filho de um primo do meu avô materno, João dos Santos ou João Kitumbulu. 
Quando nos começamos a relacionar ele era adolescente ou jovem e eu entre os 4 ou 5 anos. Eu vivia, com o Augusto Infeliz (cognome e sobrinho dele, também conhecido por Augusto pequeno), em casa do avô João. O tio "Kapaio", como era tratado carinhosamente na infância, vivia e estudava no Dondo com os irmãos mais velhos. Era normalmente no período de férias escolares que nos visitava e era sempre grande a nossa emoção em ter o tio em casa ou receber notícias dele que o avô João e a avó Emília faziam questão de partilhar com os netinhos todos.

Uma vez, eu ainda com 5 ou 7 anos, fomos à caça de canta-pedras. Arnaldo, Augusto e Zito eram os mais velhos de que me lembro e eu o mais novo. De regresso à casa, cheio de fome, deixei-me dormir numa sombra, junto ao antigo campo de aviação da Fazenda Israel, ao Libolo. O Luciano era praticamente o "carregador" das pacas que o Kapaio matava na adolescência.

Já eu em Luanda, nos anos 84-87 e de 1999 em diante, fomos falando e nos encontrando de forma esparsa. Primeiro ele era militar, depois foi estudar na União Soviética. Quando voltou demorou pouco tempo e começou a trabalhar em embaixadas. Mesmo assim, fomos nos encontrando ou em sua casa ou em encontros familiares, ou num hotel para "conversas só nossas".

Foi-se o tio  com os seus quarenta e tal cacimbos. Evaporou-se o Gasolina!

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