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terça-feira, dezembro 31, 2013

A DIFICIL SITUAÇÃO DE JOGAR AMARELADO

Gostaria de escrever sobre a difícil sensação de jogar amarelado. Sempre que me fiz ao campo, jogando futebol, não tive jogos oficiais, dignos desse nome, em que a atitude em campo ou em relação oao juiz pudesse redundar em advertência intermédia (cartão amarelo).

Imagino que jogar amarelado seja no campo desportivo ou profissional muito difícil para o executante que se vê invadido por três sentimentos/situações:

1-      O orgulho próprio de fazer segundo a sua consciência, compleição física e táctica ou profissional.

2-      O perigo de tentar fazer as coisas mais para agradar o treinador e/ou o árbitro, pois ambos estão de olho nele, do que executá-las com o profissionalismo que lhe é devido.

3-      A possibilidade de ser julgado não pelo que sempre fez mas por pesar sobre ele uma admoestação.

Nunca tendo estado em campo desportivo como actor, repasso aos meus amigos a ingrata missão de tecer os seus comentários e ou experiências quanto ao que já terão sentido em situação análoga.

Que 2014 seja, em todos os sentidos, um ano com poucos cartões amarelos nem vermelhos!

segunda-feira, dezembro 23, 2013

DIA-A-DIA DO PROFESSOR NO FIM D´ANO LECTIVO

- Alô
- Alô, com quem falo?
- Aqui é teu/tua aluno/a fulano/a de tal.
- Ok. então, estudante, qual é o teu problema?
- Professor, liguei só para o professor me ajudar. Estou mal.
- Estudante, queres apoio financeiro ou boleia para ir ao médico?
- Não doutor, estou mal na tua cadeira.
- Estudante, já começaste mal. Mas, vamos lá ver a tua turma......
- Sou da turma X.
- Sabes, quanto tiveste nas três avaliações?
- Sim professor sei.
- Então faz a soma e divide por três. Apenas isso.
- Sim professor, já fiz e estou mesmo mal.
- Não estudaste o suficiente. Vais repetir a cadeira ou solicita exame extraordinário...
- Professor me ajuda só. O Professor não pode me dar uns pontos para chegar à média dez?
- Estudante, isso não é negócio. Não é venda de tomate em que podemos dar alguns de quebra (esquebra). É ciência e com ciência não se brinca...
- Mas professor?
- Estudante, agradeço a chamada, agora o professor vaio ter de trabalhar. Liga-me mais tarde se for para outra conversa.
- Pim, pimmmm, Pimmm.

segunda-feira, dezembro 16, 2013

PEDOFILIA, VIOLAÇÕES DE NOVIÇAS E ACÓLITOS E OUTRAS "POUCAS VERGONHAS" DA CATÓLICA

Papa Francisco quer moral na igreja
Man-Chico, o papa argentino que está a marcar o Vaticano, quer combater os delitos sexuais e os desvios à norma de padres e madres que se entregam perdidamente ao deleite sexual.
Hoje, sobretudo em Angola, poucos terão dúvida de que "debaixo dos hábitos (vestes) habita um fogo sexual desmesurado".
Muitos padres e madres sexuam de forma aberta. Têm filhos e constituíram famílias.
Virão eventualmente uns falsos puritanos jogarem-me pedras a desmentir sem argumentos…

Madres e padres têm uma brincadeira que se chama sexuar. Conheço madres e padres que sexuam desavergonhadamente dentro (entre eles) e fora da igreja (com outros homens e mulheres, servos ou não da corporação).

Há Bispos que têm filhos e muitas namoradas. Há padres que desfloram noviças e crentes. Madres que de dia usam hábito e de noite “txuna baby”... Basta ver como algumas se comportam em gozo de férias, piores do que vadias profissionais.
É óbvio que no meio de tanto joio ainda resta algum trigo. Mas será que o  Papa Francisco vai conseguir pôr ordem no “prostíbulo”?
Para mim, por aquilo que vejo, leio e oiço, a moralidade na católica recuou aos tempos da Idade Media, quando o clero estava todo entregue à luxúria, a acumulação de riquezas, aos concubinatos e aos mais diversos escândalos, o que levou um dos papas daquele tempo a dar um basta, “proibir” os casamentos, a fim de se dedicarem mais à igreja do que aos prazeres terrestres e carnais.
Vai, por isso, a minha sugestão ao Man-Chico, o Papa:
- O melhor caminho, para que deixe de haver tanto despudor na igreja de Paulo, é mesmo abrir a loja. Adoptem a mesma postura que tomaram os vossos "revus" protestantes. Sigam o conselho de Paulo, o apóstolo.
"Era bom que fossem como eu (celibatário) porém, caso vossa carne seja fraquíssima, será sempre melhor se casarem do que fornicarem". Casem-se. Verão que o trigo, aqueles que mantêm a pureza, deixará de ser confundido com o joio que inunda as sacristias.

terça-feira, dezembro 10, 2013

O MAIOR NEGRO QUE JÁ VIVEU

De Klerk e Mandela
Njinga Mbandi, Mandume ya Ndemufayo, Mohamed Ali (Egipto), Leopoldo Senglor, Nkwame Nkrumah são alguns nomes de africanos que se debateram pelas lutas e independências de seus povos e do continente.

África teve, ao longo do seu percurso histórico, homens notáveis, homens corajosos que abdicaram de suas vidas, que não se acomodaram com o que tinham e lutaram pelos que nada tinham. Que não se acomodaram com as migalhas de liberdades condicionadas e se entregaram à luta para a liberdade das maiorias, o seu povo. Essas lutas árduas foram feitas num tempo em que as tecnologias de informação e as vias de comunicação não estavam tão desenvolvidos e universalizados como hoje. Esses homens conhecidos e incógnitos merecem a nossa honra e respeito.

Atrevo-me, entretanto, a elevar Nelson Mandela, o adolescente que frequentou uma Missão da Igreja Metodista na África do Sul, como o Maior Negro da Nossa História. Vejamos:
KING
Mandela era 11 anos mais velho do que Martin Luther King Jr.
A forma de luta, a  Não Violência, era a mesma. Mandela passou da "Nao Violência" a luta violenta quando notou que os êxitos eram ténues. Saído da prisão, 27 anos depois, em 1990, negociou a paz com os seus carcereiros, assumiu o poder e sempre defendeu a harmonia quando até tinha tudo para se vingar. Na presidência da África do Sul, cumpriu um mandato e abandonou quando tinha tudo para lá continuar para pelo menos mais um mandato.

Quanto ao Sonho de King e ideal pelo qual lutou Mandela têm o mesmo fim.
Vejamos outro dados.
- Mandela foi julgado entre 1962 a 1963 (por isso completou 27 anos na prisão) e  durante o julgamento disse: "Durante a minha vida, dediquei-me a essa luta do povo africano. Lutei contra a dominação branca, lutei contra a dominação negra. Acalentei o ideal de uma sociedade livre e democrática na qual as pessoas vivam juntas em harmonia e com oportunidades iguais. É um ideal para o qual espero viver e realizar. Mas, se for preciso, é um ideal pelo qual estou disposto a morrer.

- King fez o célebre discurso “I have a Dream” em 1963 em que prenunciava uma América justa e igualitária onde meninas negras e meninos brancos pudessem caminhar de mãos dadas...
 
Outra coisa é certa: Nelson Mandela, Matin Luther King e Mahatma Ghandi foram da mesma escola (luta pacifica).

Mandela viveu mais tempo do que KING (nasceu antes e morreu depois). Passou por mais etapas, privações e provações, tendo resistido a tudo e todos sem nunca abdicar do seu ideal.
O renomado escritor sul-africano André Brink num artigo publicado logo ao fim do mandato seu mandato, coloca Mandela como o maior nome do século XX, comparando-o a outros expoentes - como Gandhi ou Martin Luther King e acentua que esses morreram sem que tivessem ocasião de experimentar o exercício do poder. Outros como Eisenhower ou Churchill, que se destacaram em momentos de guerra, não o fizeram durante a paz...

sábado, dezembro 07, 2013

INVADE-ME UM PRAZER MAIOR DO QUE O CANSAÇO

Eis-me exausto mas feliz por ter realizado uma actividade beneficente. Aliás, quem corre por gosto não se cansa. Eu e meus colegas de Catoca passamos o dia em Saurimo, capital da Lunda Sul (Angola) prestando um serviço social. Depois de termos convidado os artesãos portadores de deficiências, tutelados pela  Direcção de Assistência e Reinserção Social, para exporem e venderem as suas produções em Catoca, fomos hoje (07.12.2013) pintar o espaço em que laboram.
À nossa iniciativa juntaram-se trabalhadores de outras empresas: os da Cimianto forneceram as os pincéis, os do grupo 7Cunhas as tintas e a Rádio e TPA levaram as imagens e os discursos a quem esteve em casa.
É preciso “abrirmos as mãos”. Por mais apertadas que estejam as nossas contas há sempre alguém precisando mais do que nós. Ali onde o dinheiro não exista, a nossa força e nossas ideias podem fazer a diferença. E fizemo-lo.
Pintamos a parte exterior de todo o edifício anexo e o interior da sala em que se fazem os instrumentos de cestaria. Um gesto que serve como anzol e isca entregues a quem tem fome.
Eu sou o que aparenta ser "o mais alto"
 
Proporcionamos mercado para os produtos (exposição e vendas em Catoca) e melhoramos as condições do local de trabalho dos artesãos deficientes físicos. Também fizemos amizades entre os participantes e com os portadores de deficiências.
Depois do lanche, a foto de família e  o sentimento de dever cumprido.

domingo, dezembro 01, 2013

OS LAMENTOS E ANSEIOS DO POVO E A MÚSICA DE HANDANGA


Muito longe do bambolear de corpos frescos e umas simples gritarias que enchem hoje os espaços musicais, uma boa música mede-se pela letra e, sobretudo, pelo conteúdo/mensagem que retrata/transmite.
Ouvi demoradamente, durante o último fim de semana as músicas de Justino Handanga. Notei que o músico continua no seu estilo peculiar e que o tempo se encarregará de perpetuar. São reproduções de falas das populações. Lamentos, gritos de euforia, descrições situacionais e recontar de estórias e História.
Foi bom ouvir a nova roupagem do “mbalaum eyi ya ndonga”;  o “Abílio” que virou caenche sendo para ele “pequena coisa: Ó velho eu vou te chapar”; as viagens ao Musende (Kwanza-Sul; o “ Carlitos” que levou a mulher ao Huambo tendo-a abandonado depois de reencontrar os parentes e as conterrâneas, etc. São músicas que nada têm a ver com as gritarias de muita mizangala de hoje que, com certeza, nada legará para a posteridade com o seu “mana me deixa, me deixa e outras (des)coisas).
 

segunda-feira, novembro 25, 2013

ELISAL "ESTORVA" OU NÂO O GOVERNO DE LUANDA?

Gostaria de entender por que razão algumas empresas públicas andam em rota de colisão contra os esforços de congéneres e do próprio Governo.
Homens ao serviço da Elisal que (des)cuidam da limpeza no bairro Vila Nova, Viana, começaram por levar o lancil da recém-asfaltada rua que conduz as águas pluviais à "Lagoa da Comarca". Como se não bastasse, agora é a camada betuminosa que começaram por raspar.
Isso não é agir contra o próprio Governo de Luanda?

quarta-feira, novembro 20, 2013

"PEIXE PREGUIÇOSO" EM PORTO ALEXANDRE

Vi, em tempos,  numa reportagem televisiva imagens de instalações abandonadas e inundadas de areia, sem alma humana naquelas paragens ricas em recursos piscatórios e que em tempos idos proporcionou avultadas somas de dinheiro ao governo colonial português e alimento para muitos lares.
Lembro-me ainda das caixas de peixe seco procedentes do Porto Alexandre, bem como da farinha de peixe e enlatados…
As imagens que pude ver são sombrias e aqueles que conhecem e ou se deslocam àquele lugar, contam episódios inimagináveis sobre o abandono em que as infra-estruturas foram votadas pelo deixa andar de quem governa.
Oiço frequentemente na media relatos sobre saltimbancos, assassinos cruéis, pilha-galinhas incorrigíveis e outros que passam a vida a evadir-se de cadeias. Na ausência de voluntários, por que não levar estes anti-sociais ao Porto Alexandre para reabilitar e habitar as instalações piscatórias, fazendo da actividade o seu castigo e ganha-pão?
Já assim foi na época doutra senhora.
A China que é o país com a maior população prisional não os tem aí a engordar sem nada fazer. Alguns dos nossos malfeitores preferem a cadeia ao trabalho livre e assalariado, porque as instalações penitenciarias converteram-se em campos de retiro. Sem trabalho, sem punição pelas faltas cometidas, tirando uma surra aqui e outra acolá que vêm escapando pela net.
Há polícias e militares também mal comportados. Esses seriam os guardas dos civis em cumprimento de pena.
Alguém dá corpo à ideia?
Senhores empresários! Será que a pesca não rende?
Invistam cá vosso/nosso dinheiro e permitamos que o prato angolano seja mais barato para além de poder corrigir os lúmpenos, dando-lhes trabalho e profissões. Vamos ajudar pessoas a sair da pobreza extrema.

segunda-feira, novembro 11, 2013

RUAS PERIFÉRICAS DE SAURIMO RECEBEM ASFALTO

 Andei um pouco pela periferia de Saurimo e vi, com agrado, que algumas ruas foram ou estão a ser asfaltadas.
O asfalto é incentivo ao investimento e este (investimento) traz consigo o desenvolvimento.

Não tarda, aqueles casebres com quintais de chapas e aduelas serão trocados por construções em betão. Surgirão grandes casas, lojas, cantinas, serviços, etc. Assim se fizeram muitas das nossas actuais cidades.
Viva o asfalto.

Espero que os beneficiários saibam cuidar das ruas alcatroadas, não deitando água nem objectos que as danifiquem, e que a administração não permita que as areias invadam o asfalto. É preciso também uma fiscalização eficaz, pois há trechos onde já se notam poças d´água, o que no meu ver de leigo indicia ausência de escoamento.
 
Ainda sobre circulação nas ruas da capital da Lunda Sul, sugiro que se coloque uma linha contínua no trecho entre a rotunda do Cikumina às bombas da Pumangol, visto que os automobilistas saídos da cidade (em direcção ao `Cikumina-Dundo) não se dão ao trabalho de ir contornar a rotunda para abastecer as suas viaturas, provocando, com as suas manobras, congestionamento no trecho, que já é estreito, e  eminente perigo. Acho que não custará nada.
 

 VIVA O ASFALTO, A SEGURANÇA E O DESENVOLVIMENTO!

segunda-feira, novembro 04, 2013

"DIVAGANDO" SOBRE EDUCAÇÃO EM ANGOLA

Quando estudei a 5ª e 6ª classes, na escola preparatória Kwame Nkrumah, em Kalulo, os meus professores do II nível tinham apenas a 8ªclasse mas eram bons. Sabiam o que transmitiam e faziam-no com convicção. Sentíamos que nos transmitiam coisas novas e as retínhamos como úteis ao nosso desenvolvimento intelectual. Fazíamos desafios entre colegas e assim alguns se destacavam entre os demais…
Com esse mesmo espírito e vocação, já a fazer a 7ª classe, na escola Ngola Mbandi, em Luanda, eu dava aulas de superação às minhas sobrinhas Marisa Raquel e Claudeth F. Bandeira. Dizem que minhas aulas eram tão boas que as vizinhas e amigas da minha prima Teresinha (Mª de F. Ferreira Bandeira ) decidiram também levar seus filhos à explicação. Tempo depois, o quintal dela, na rua 10 da Comissão do Rangel, tornou-se pequeno.
Com o andar do tempo, , abri um pequeno negócio no meu quintal (Comité Njinga. Rangel). Os meus sobrinhos (juntou-se o Ary às duas meninas), todos sao hoje senhores, não pagavam e tinham o estatuto de "bolseiros". Os demais faziam pagamentos simbólicos no final do mês, o que me permitia comprar o giz e o meu material escolar.
É triste que hoje um individuo com o ensino médio concluído tenha metade ou mesmo um quarto dos conhecimentos científicos e cultura geral que alguns de nos tínhamos com a sexta classe em 1988.
Onde reside o problema?
Eis o que dizem os meus amigos do face book sobre o assunto:
Eduardo Cussendala: No sistema de ensino, eu até hoje não entendo como é que um indivíduo que escreve casa com Z chegou à faculdade. E, pior, é finalista.
Conheço pessoas que não sabem quanto é 10% de 100, mas têm o médio concluído…
Sebastião Neto: O nosso sistema de ensino deixa muito a desejar. Queremos erradicar o analfabetismo às pressas.
Gustavo Silva: Conheço licenciados que redigem textos medíocres. Têm uma caligrafia sofrível. Falam num “linguajar” que atropela as normas básicas da língua veicular. Mal sabem redigir uma carta a solicitar candidatura para um emprego. Para eles, não interessa que se saiba ou não, que haja conhecimento, ciência. O importante é que os familiares, amigos e arredores fiquem a saber que há diploma na área.
Sebastião António Santos: Eu conheço alguém que se diz licenciado e ainda escreve cabeça com dois SS (cabessa). Em vez do Ç na palavra Gonçalves, escreve Gonsalves. E há muito ainda sobre gramática ou ortografia.
Victorino Tchikunda: Caro Luciano, sabes que andamos nestas coisas de docência há já largos anos. Tendo em conta a tua “divagação” pela educação, apraz-me escrever o seguinte: no tempo em que estudávamos e os nossos professores tinham pouco nível académico, mas eram sábios e dedicados, não existia muita alienação, muita televisão e muita diversão. Hoje por hoje, “paga-se para passar e não estudam para aprender". O resultado esta aí à vista de todos. Alunos universitários com dificuldades em escrever e falar correctamente, dificuldade em abordar com propriedade assuntos estudados na universidade... Junta-se a isto a falta de leitura. Gosta-se mais de novela e outras coisas imediatas.
Emilio José Victoriano: Ausência da trindade: pais, aluno e professor! Hoje, os pais já não se preocupam com o aproveitamento e o comportamento dos filhos, indo de quando em vez à escola onde o filho estuda e conversar com seus professores. Normalmente, só vão à escola no final de cada trimestre para verem os resultados. Outros ainda ligam para os professores ou vão ao encontro desses para negociarem as notas dos filhos. Desse modo, o que se espera dos futuros ' quadros''?
 Octávia Rosa Linda:  Lembro-me, com saudades, que também dei aulas no quintal da avo Filipa e tinha muitos alunos. Pagavam cada Kz 50 e ganhei muito respeito dos miúdos que hoje são jovens, adulto e uns até já pais de família que às vezes pedem que volte a dar aulas. Acho que a reforma (educativa) não está a ajuda em nada. Há crianças na quarta classe que não sabem ler.
Carlos Canda:  A valorização do estudo, na sua verdadeira essência, está ser ofuscada pelo fenómeno “dar gasosa para transitar de classe”, porque o mais importante hoje é mostrar o diploma. Há doutores sem que os mesmos tenham dado “o litro” para tal graduação. As consequências do fenómeno corrupção no ensino estão à vista. Ai, que saudades dos anos 80?!
Irlanda Salongue: É que há professores actuais que só dão aulas por dinheiro. Leccionam cadeiras ou disciplinas para as quais não possuem habilidades e conhecimentos. O quê que se espera?
Francisco Jacucha: Eu lembro aqui declarações de um padre dizendo que “desde que se fez o acordo com o governo as escolas católicas começaram a fechar as portas”. É triste mas é real. É aí onde devemos reflectir sobre o ensino hoje. Estou preocupado porque tenho filhos que estão a estudar nesse tempo, todos sabem, todos dizem que o ensino está mal, mas disso não passamos. Ainda tive a felicidade de aprender com esses professores, sobretudo vocacionados para o ensino. É um prazer ensinar...
Victoria Ferreira: Cultivar o hábito de leitura desde a base é muito importante e isso começa na família, em casa! Luciano Canhanga, desde pequena a minha mãe comprava livros com gravuras bonitas e muito coloridas. Depois comecei a frequentar a feira do livro, aí onde é hoje o Parque Heróis de Chaves, na cidade alta. Comprava os livros da Heidi e outras colecções de livros infantis. As revistas aos quadradinhos ajudaram-me muito: o tio Patinhas, a Mónica e outros. É claro que nem sempre havia dinheiro para comprá-los, por isso fazia troca com os meus colegas da escola. Nos livros de aventura, policiais e dramas vivi grandes emoções, às vezes, mesmo na escuridão, quando não havia energia, fingia que estava a ler a matéria da escola… tão interessante e emocionante estava a leitura. Tive uma colega que fugia da escola para ir à Miruí, uma livraria localizada no Kinaxixi. Por outro lado, acho que os livros de leitura, naquela altura, traziam lições que despertavam um grande interesse aos alunos, assim como a forma em que o professor fazia a leitura. Os alunos mal chegavam à casa e já queriam exercitar o novo texto. Quem não tem saudades dos Textos Africanos de Expressão Portuguesa que eram destinados aos alunos da 7ª e 8ª classes? A leitura, sobretudo, ajuda na formação intelectual das pessoas, por isso deve ser cultivada ao longo das nossas vidas!

segunda-feira, outubro 28, 2013

ANGOCITIES

A feira das cidades, realizada em Luanda, de 3 a 6 de Outubro 2013, teve muito movimento.
Houve muita gente curiosa que visitou e procurou por informações específicas sobre as cidades e vilas de Angola.


- O que é que há no município Xis e que não há em mais nenhum lugar?
- Que objectivos económicos podem atrair potenciais investidores ou mesmo emigrantes (internos e externos)?

Essas e muitas outras perguntas não encontraram respostas cabais em muitos stands que em vez de mostrarem as cidades e vilas (maquetes) levaram apenas produtos agro-pecuários, piscatórios e peças de artesanato que nas áreas de origem muitas vezes apenas enfeitam os museus.
A próxima feira das vilas e cidades pode ser melhor explorada se as administrações contactarem agências de comunicação e saberem definir o que pretendem mostrar, dando-lhes um retorno do investimento a realizar.
Doutra forma, as feiras serão apenas sorvedores de dinheiro, com vantagem apenas para os organizadores do evento.
E, como aprendemos todos os dias, espero que os próximos eventos sejam melhores.


terça-feira, outubro 22, 2013

TIROS VOLTAM A MOÇAMBIQUE

Depois de 21 anos de paz precária (sem a completa desmobilização e integração das forças da Renamo no exercito e polícia nacional) entre O Governo e o maior partido oposicionista, RENAMO, a guerra civil pode voltar ao país lusófono do Índico africano onde as forças armadas tiveram de atacar e ocupar a base militar de Afonso Dlakama, o líder guerrilheiro que já havia excluído, numa entrevista, um fim semelhante ao que teve o ex-guerrilheiro angolano Jonas Savimbi.
Dlakama que há 21 anos vem mantendo um discurso de “semi-paz e sem-guerra”, com ataques a viaturas e esquadras policiais por si reivindicados, foi forçado a se pôr a monte pelas forças governamentais de Moçambique, segundo relatos da imprensa internacional.
Está a monte e renunciou à paz de Roma 1992
Só espero que depois de ter iniciado uma empreitada para a qual julgo NÃO ter apoios internacionais, nem força física e psicológica, consiga rapidamente atirar a “toalha ao tapete” e pedir clemência para que não vá à terra mais cedo e fazer companhia ao “Jaguar Negro”.
Seja de grande ou de pequena intensidade, uma guerra é guerra. É destruição e morte. É o povo, capim entre dois elefantes, quem mais sofre. São os agitadores, os fabricantes e vendedores de armas, que se alegram a custo de quem padece ad eternun.
Lamento profundamente pelos moçambicanos que não merecem outra guerra injusta, depois dos desastrosos anos de guerrilha patrocinada pelos racistas sul-africanos entre 1975-1992 (acordo de paz de Roma a que Afonso Dlakama acabou de renunciar).
Por fim, espero ainda que, embora seja legal um pedido de apoio militar entre os dois governos democraticamente eleitos, não viagem angolanos para o Índico como aconteceu nos Kongos, em anos de memória recente. Há sempre quem volte incompleto ou quem não volte vivo…   

segunda-feira, outubro 21, 2013

KANA KUDIBETA

A língua que se fala nas duas margens do Kwanza (do Médio ao Baixo) é de mesma raiz, ambundu.
Kana kudibeta significa, em português, não lutem.
 
Pedra Escrita: Munenga, Libolo, K-Sul, Angola
Soube que na partida pontuável para os 8ºs de final da Taça de Angola, houve rixa entre adeptos, depois do jogo entre o Porcelana do Kwanza- Norte e Recreativo do Libolo do Kwanza-Sul. Igual comportamento dos adeptos do Porcelana já tinha sido notificado no jogo da 1ª volta do Girabola, realizado no Estádio dos Dinizes (Ndalatando).
 
As informações que tenho apontam que os adeptos do Porcelana terão digerido mal, ainda dentro do campo, o resultado do jogo da taça em que os donos-de-casa foram eliminados por 0-1, daí terem partido para insultos e actos de violência gratuita contra os libolenses.
 
Os kwanza-nortenhos terão dito que "os libolenses (súbditos de Ngola como eles) eram "escravos", pois não eram ambundu nem ovimbundu"...  Isso levou, segundo o correspondente da Rádio Cinco, no Sumbe, Neto Makandumba, a ajuste de contas no jogo da 28ª jornada do Girabola.
 
Os adeptos do Recreativo do Libolo, segundo ainda Neto Makandumba, não lutaram dentro do recinto de jogos mas protagonizaram "actos de desforra" ao apedrejar o autocarro do Porcelana e impedindo que se fizesse à estrada de regresso a Ndalatando.
 
"Bloquearam as estradas da Munenga e da Kabuta e o autocarro só pôde sair de Kalulo às 18 horas, sob escolta da polícia e pela estrada de terra batida Luati-Lussusso-Munenga-Dondo. Tiveram de dar volta à revolta".
 
Contados os factos, esses "bilos" entre os adeptos do Porcelana e do Rec.  Libolo  estremeceram comigo.  Essas gentes precisam de mais informação e formação. Os media devem cumprir o seu papel educativo. As rádios de Ndalatando, Kambambe e Sumbe têm de educar os amantes do futebol, os adeptos que fazem bem ao futebol, quando bem comportados e educados.

Sei que  o Recreativo não está no Girabola de passagem e, pelo que me parece, o Porcelana renova a estada no campeonato maior de futebol angolano. Essas equipas hão-de cruzar mais vezes em 2014. É preciso pôr termo a essas rixas e explicar que as lutas entre claques em nada dignificam os nomes dos emblemas que defendem, muito menos solidifica o Projecto de Nação em curso no país. 
Que o futebol seja elemento aglutinador entre angolanos e não dissuasor.
 
Aproveitando o momento: para mim fazia mais sentido o Libolo ter uma rádio das supostas "comunitárias" do que Viana, Cacuaco e Cazenga, em Luanda.
Para além do Café e agora do vinho made in Libolo, o município tem Futebol e Basquetebol de primeira divisão que tornam a circunscrição um roteiro obrigatório.
 
Teremos de esperar que Higino Carneiro seja Ministro da Comunicação ou da Propaganda?
 
 

terça-feira, outubro 15, 2013

O HOMEM E A PROVÍNCIA DE QUEM SE FALA


Começou a ganhar visibilidade ainda nos tempos da senhora guerra, quando ainda coronel, manteve encontro, algures no Moxico, com a chefia militar da rebelião. Daí em diante, fez três coisas: Diplomacia (enquanto negociador), política e negócios )enquanto empresário).
Depois de Vice-Ministro sem Pasta passou a Vice-Ministro da Administração do Território, tendo-lhe sido, posteriormente, confiado o governo de sua província natal, o Kwanza-Sul. Começou com os Festi-Sumbe e outras realizações. Na Kabuta, comuna do Libolo,  ergueu uma grande fazenda que já produz vinho tinto, completamente made in Angola.
Ao tempo de Ministro das Obras Publicas foi apelidado de “Todo-o-Terreno”, dadas as suas qualidades frontais em encarar os problemas. Com ele o país se tornou pequeno e a circulação rodoviária um facto.
Teve passagem por Luanda, onde dirigiu a Comissão de Gestão, naquele que terá sido o seu consulado menos brilhante, fazendo-lhe companhia Tony Van-Dúnem e Job Capapinha.
No Parlamento falou pouco (ele é homem de obras e de poucas palavras, dizia-se). Foi agora, ao que se dizia, despachado para as “Terras do Fim do Mundo”, onde se pensava que seria o desterro do veterano combatente. Ledo engano.
Higino, à frente.
Higino Carneiro está a fazer do Kwando-Kubango a província de que mais se fala no presente e para onde estão viradas as antenas do Executivo Nacional que pretende diminuir as assimetrias entre as províncias do litoral e aquelas mais afastadas da costa atlântica.
Aos poucos, o KK vai mudando. O dinheiro do Estado e dos empresários vai afluindo ao KK e as pessoas vão descobrindo que nem tudo é mato. Há também oportunidades de fazer dinheiro, vida e riqueza. Agricultura e pecuária, as infraestruturas, a educação, a saúde e a reinserção social, a indústria mineira, o turismo com realce para o projecto KAZA – Área de Conservação Transfronteiriço Okavango – Zambeze são as grandes apostas do "sempre em frente" Higino Carneiro. E é isso que o homem que nasceu no Libolo vai fazendo no seu novo consulado.
E, por mais incrível que pareça, Libolo e Kwando-Kubango possuem rios homónimos, o Longa. No Longa do Libolo, Higino e parceiros ergueram uma fábrica de processamento de água “Vale do Longa”. No Longa do Kwando-Kubango, Higino Carneiro viu inaugurado, no seu mandato, o projecto agrícola “arroz do Longa”.
Sem desprimor pelos seus antecessores, o KK do pós Higino será diferente e melhor daquele que encontrou, a contar com o seu dinamismo e confiança que granjeou ao nível dos centros de decisão do país. É a quem trabalha que se conferem poderes.
Higino e o KK são o homem e a província de quem se fala.

quinta-feira, outubro 10, 2013

NO RASTO NA "NGWIMBI"

Na "Ngwimbi", se andas com muita "bufunfa",  podes ser "fungutado".
O rico e sempre inovador calão de Luanda levou a atribuir, nos anos 70 ou 80 do séc. XX à capital angolana o designativo de "Ngwimbi/Nguimbi". Um nome que nada tem a ver (no meu fraco entendimento) com as demais designações oficiais que Luanda já teve.
- A que se deveu tal nome que até "colocou" e perdura no tempo?
- E a que se deveu o termo "funguta" que significa confusão/guerra/luta/agressão?

sábado, outubro 05, 2013

COMUNIDADES SOB REGIME FEUDAL NO SECULO XXI

 
Nasci numa aldeia recôndita. Das mais recônditas do Libolo e da comuna da Munenga. Mbango-de-Kuteka fica nas margens do rio Longa. Para se lá chegar tem de atingir a aldeia de Pedra Escrita, no troço entre desvio da Munenga/Kalulu e Lussussu, embrenhando-se pelo sertão, à direita até atingir as margens do Rio Longa, numa distância entre 20 a 30 quilómetros.
 
Mbango-de-Kuteka tem uma aldeia satélite, Kabombo, onde ficava a fazenda duma senhora alemã, apelidada pelos nativos por “senhora Kasenda”. Desconheço o seu nome de registo. A mesma foi raptada em 1984 pela UNITA, com outro alemão, seu parente, Walter Kruk, também apelidado pelos nativos por “Ngana Mbundu”, e nunca mais foram  vistos.
 
A uns 5 a 10 km, fica a capital de Kuteka, Mbanze-yo-Teka (Banza de Kuteka). Antes de se atingir a aldeia de Mbango, encontramos o desvio para Hombo, aldeia também circunscrita à regedoria de Kuteka e depois de Hombo atingimos a Kipela.

Embora muita gente dessas aldeias tenha migrado para junto da estrada asfaltada EN120 (Pedra Escrita), ainda restam alguns parentes da minha mãe. Há gente que não se aparta do rio Longa que é/foi fonte de vida para muitos.

Na minha última viagem, efectuada há dois anos na companhia de um amigo Engº Geofísico, entristeceu-me não ter encontrado escola, nem posto de socorro médico. Vi crianças anémicas e desnudadas... Um autêntico período feudal em pleno séc. XXI.
 
Nos anos 70 e 80 do séc. passado, a região teve professores como Faustino Kissanga Bocado, Jorge Kakonda, entre outros que me escapam à memória. Alberto Garcia, terá sido dos melhores alunos de Mbango-yo-Teka, chegando, anos depois, já sem um ensino oficial, a ajudar os petizes com aulas particulares. Hoje, nem Garcia nem o Estado ensinam as crianças da minha aldeia natal.
 
Atravessando o Rio Longa, à distância de 25 a 30 Km, fica a aldeia de Mbwexi, comuna de Ndala Kaxibu (Municipio da Kibala). Mbango-de-Kuteka, segundo a minha mãe, também fica próxima de Tumbu e Kilenda ou ainda da Kissama (se descer com o rio). Ela conta que em tempos recuados iam à Kissama, à pé, vender tabaco. A ligação do Bango-de-Kuteka com as aldeias citadas é feita à pé.
 
Na minha derradeira visita a Mbgango, pude identificar instrumentos rudimentares como: armadilhas de ferro, designados genericamente por “otuela”, do português ratoeira, embora sejam para apanhar animais de médio e grande porte; facas e flechas forjadas no fole pelo ferreiro; panelas e moringues de barro; pontes feitas a base de cordas e paus, designados por “ulalo”; redes piscatórias e anzóis artesanais;  circuncisão ainda a sangue frio; cura de doenças  baseada apenas em raízes e plantas medicinais; crença no feiticismo e na intervenção dos antepassados na vida, etc., situações já “enterradas e esquecidas, faz tempo, em outras comunidades mais avançadas.
 
Medicina, formação e informação, comércio e estradas devem lá chegar para que haja um salto para a luz. Também se pode promover a aglutinação das aldeolas para justificar investimentos em termos de infra-estruturas sociais básicas acima citadas e permitir que o sol os ilumine o mais cedo possível.
Bastará às autoridades administrativas indicarem um espaço intermédio entre diversas aldeolas, lotear os terrenos para construção, distribuir chapas de zinco, indicar o tipo de material a usar na construção (normalmente adobe queimado) e fornecer uma planta arquitectónica tipo. A própria comunidade erguerá as residências, cabendo ao Estado construir o posto médico, a escola, o Jango (com TV comunitária?), as casas para professores e enfermeiros, posto de polícia, construir picadas em condições, instalar água e energia foto voltaica, etc. O comércio irá a reboque.
 
Isso pode e deve ser levado a todos os pontos do pais  onde ainda se verifique uma vida do tipo feudal em pleno séc. XXI.
 
Os governantes habituaram-nos, nos seus discursos, a remeter todas as realizações infra-estruturais ao Presidente da República. “Graças à orientação de Sua Excelência”. Sabendo que o chefe do Executivo não pode percorrer todas as aldeias  do país, onde aqueles que o representam nada fazem sem que o chefe os mande, ofereço-me para “radiografar” desapaixonadamente a Angola desconhecida, a começar pela aldeia do meu cordão umbilical.

segunda-feira, setembro 30, 2013

A MINHA AGENDA ELEITORAL DE 1992

Em Maio, de 1992, um ano depois da assinatura dos Acordos de Bicesse, tinha acabado de fazer dezoito anos cronológicos. Porém, a necessidade do adiamento da minha convocação para o serviço militar, que era obrigatório, levou a minha mãe a diminuir dois anos à minha data de nascimento, ficando no registo o anos de 1976 como o do meu nascimento.
Cartão de eleitor: CNE 1992
Entre Junho ou Julho do mesmo ano fiz o registo eleitoral. Fi-lo no Cazenga (Luanda), numa brigada de registo que actuava nas imediações da Sonefe. Uns parentes que conheciam a minha idade real convenceram-me a fazer o registo, sendo eles testemunhas, conforme postulava a lei eleitoral (aqueles que não possuíssem documentos podiam ser  testemunhados por angolanos adultos, bem identificados). Lá fiz o registo eleitoral e não tardou para a campanha, realizada com muita euforia e troca de mimos entre os políticos, durante o mês de Setembro (não faltam microvídeos no youtube).
MPLA, UNITA, FNLA, PAJOCA, PDP-ANA, PRD, PSD, AD-Coligação, FpD, PLD, PAI, PDA, MDIA-PCN, FDA, entre outras forças políticas, expuseram argumentos, durante 30 dias, para convencer o eleitorado (até 27 de Setembro). O dia seguinte, 28 de Setembro, foi o de reflexão ou recolhimento.
Foi também dia de correria às cantinas e praças para o aprovisionamento logístico. O endurecer dos discursos entre os Partidos-Movimentos que tinham acabado de “desmobilizar” as suas forças armadas levava os angolanos a temer por dias de jejum. Era preciso encher as despensas. Havia sintomas de que algo correria mal ou que viesse a faltar comida. E aconteceu dias depois do pleito com os adiamentos do anúncio dos resultados e as escaramuças que se lhe seguiram, um pouco por todo o país.
As famigeradas lojas do povo tinham dado lugar às cantinas que, num abrir e fechar de olhos, brotaram como cogumelos em época chuvosa, mas ainda abastecidas pela mesma ENSUL que fornecia o mesmo arroz, feijão e óleo vegetal aos recém-finados "Supermercados" da sexta básica.
Eu e outros angolanos estávamos ansioso em eleger, pela primeira vez, os nossos governantes e ver Angola de forma diferente, “Novos Rumos” como se dizia.
A 29. Set. 1992, eram enormes as filas nas escolas para borrar o dedo indicador direito de tinta indelével e perfurar os cartões de eleitor. Filas intermináveis, nalguns bairros de Luanda, mas de forma ordeira, enquanto uns iam votando outros iam suando e acompanhando emocionados as noticias pela rádio... Eu, meu tio e meus primos passamos a manhã numa fila no bairro dos CTT, km7, em Luanda. Todavia, só pude votar à tarde, no escola Ekuikui II, ao Rangel.

E, a 30 de Setembro ainda se votava em regiões onde o acesso por terra (estrada) era difícil ou impossível. E todos viviam a mesma alegria. A alegria de poder ser deste ou daquele partido, de exercer o direito de escolha, de ser útil, pela primeira vez, na definição da governação do país.
Mau agouro o que se sucedeu semanas depois. Adiamentos do anúncio do resultado da votação, ameaça de "somalização" de Angola caso os resultados fossem divulgados, discursos musculados e respostas à medida. Das ameaças verbais passou-se ao uso do músculo e do gatilho. E o país descampou em nova guerra, essa, mais sangrenta e com elevadíssima destruição do pouco que tinha sobrado Dos 14 anos de luta para a independência, ao que se seguiram outros 15 anos de guerra civil. Foram mais 10 terríveis anos que, felizmente, ficaram para a história...

As primeiras eleições multipartidárias em Angola aconteceram há 21anos. 

quarta-feira, setembro 25, 2013

DESCOBERTO NOVO HERBÍVORO EM ANGOLA


A NOVA CLASSE DE HERBÍVOROS

São bípedes. Preferem, entretanto, rolar sobre rodas, em dois eixos.

Onde quer que estejam, distinguem-se das duas classes de mamíferos com que se aparentam: diferentes do homo sapiens sapiens porque este pensa antes de agir e conserva um termo que se chama moral. São também diferentes dos demais herbívoros porque estes ruminam e  o novo animal descoberto em Angola não o faz. O novo herbívoro alimenta-se, porém, de folhas da árvore “George Waxing Tony”, a mais cara do planeta terra.

Tal como as executivas do protocolo, os novos herbívoros andam divorciados dos valores e, quando ouvem soar este termo pronunciado pelos homens, seus aparentados, apenas lhes vem a ideia de pecúnia.

Intitulam-se pomposamente de “boi velho” e, como tal, preferem “capim fresco” que devoram desalmadamente, de dia, de noite e em horas esquivas. Tão longos têm sido os seus pastos que deixam as florestas caseiras desprotegidas de predadores de sua e doutras espécies.

Nos seus discursos de ocasião, não se coíbem de apregoar: boi velho faminto, relva fresca devastada!

E a sociedade, ainda moribunda, apenas ataca o capim nascente quando herbívoro e relva foram talhados um para o outro!

 

quarta-feira, setembro 18, 2013

AS TRÊS DIMENSÕES DO(s) 10ENCANTOS DE SOBERANO CANHANGA

Por: Nguimba Ngola
Setembro é o mês em que nasceu Agostinho Neto e no dia 17 nosso poeta transita. O povo lembra-se dele nas várias dimensões da sua vida, como poeta e político.  Na Cidade Diamante, a cidade da Pedra Brilhante, Neto também foi lembrado. Várias foram as actividades.
Na manhã do dia 16, o anfiteatro da Escola Média Politécnica, transbordou literalmente de alunos. Sim. Plateia jovem ouve atentamente a governadora, Cândida Narciso, palestrando sobre Agostinho Neto. Em seguida, vem a apresentação do terceiro (O Sonho de Kaúia, Manongo-Nongo, 10encantos) livro do escritor Soberano Canhanga, jovem de Libolo, onde nasceu há 37 anos… A mim coube a missão, desnecessária (?), de apresentar o livro que, depois de alguma relutância, aceitei porquanto tinha sido indicada outra apresentadora que por motivos alheios não se fez presente.
Poetas: Soberano Canhanga e Nguimba Ngola
Soberano é um dedicado “bloguista”. Tomei inicial contacto com seu texto poético no seu blog “10encantos” que é o título do mais recente livro publicado. Já na sua forma gráfica, cuja apresentação não deixa a desejar, peguei o “filhinho” do Soberano entre mãos, acariciei-o, senti-lhe o cheiro agradável, passeei brevemente nos textos, para constatar o modo de arrumação. Enquanto isso, a voz no microfone anunciava o nome Nguimba Ngola para tomar o lugar. Um friozinho toma conta de mim, é grande a responsabilidade, câmaras, olhares atentos expectantes da apresentação, “é o tio dos livros do tchilar…” ainda ouvi da plateia. Som e palavra é igual a poder. Ganhei o poder e comecei. Tirei partido da apresentação para o aconselhamento dos jovens sobe a importância da leitura. No final, as palmas. Ah, que alívio! Acabou, não é nada fácil falar ao público. Já no aconchego dos lençóis, eis que meu anfitrião comunica que lhe foi pedido o texto da apresentação. Não o tinha. Antes as notas rabiscadas em papel qual esboço orientador do pensamento. Um pequeno lap top foi-me entregue. Agora escreva o texto, disse-me Soberano Canhanga.
 
10encantos do Soberano
Analiso a poesia desencantada do Soberano em três dimensões: Dimensão textual, dimensão social e dimensão espiritual.
Os textos do Soberano se nos apresentam com uma estrutura externa não tradicional, não encontraremos formas fixas como o soneto. Sim. Os textos são desprovidos de métrica, impera porém o verso livre que deixa margens para maior criatividade e liberdade ao poeta.
Ainda assim, elementos poéticos básicos podem ser observados como a rima “Revejo/ num quarto agora vazio/ esse teu corpo tão esguio// Recrio/ emoções e amores loucos…/ voltam à vida aos poucos// Reencontro/ espalhados pelo chão/ roupas, beijos e paixão!” (in Sem medo, pg 85). O ritmo também confere beleza nos vários textos 10encantados. É sentir, por exemplo, “À fala com os meus botões” onde “tarda o sono/ nos sonhos a traição…” (pg 103), ou ainda “tórrida e sofrida/ minha pátria/ dorida…” (pg 53).
A linguagem poética, em muitos textos, torna-se expressiva pelo recurso de figuras e tropos, assim que encontraremos “pretinha cor de nuvens”, “espertinha na quilometragem da idade”, “o sol já brinca no quintal”, “fustigai-vos ó ventos/ maltratai-vos ó águas/ façam-se remoinhos”, “no além da curva sanitária/ morre o sémen preguiçoso”.

A dimensão social dos poemas do Soberano Canhanga, reveste-se de textos, alguns dramáticos, porém apontado esperanças, “e sonhos de liberdade”. Sinto isso no poema “Êxodo” (pg 29). Quem não constata hoje, o drama nas vidas de muitos que “ontem/ na sanzala/ gente farta gritando/ canções alegres, intrépidas!”? E “Hoje/ na cidade/ gente magra/ esfarrapada/ entoa baladas tristes”… Profunda para todos, pois o contrário seria como diz o sujeito lírico do Soberano Canhanga apenas “paz podre” (pg 61), “paz sem perdão/ é tentar esquecer/ sem dar o braço a torcer/ não é paz, é podridão”.
Eis então que no que depender de todos nós, devemos buscar sempre a paz. Sensível, o poeta, ante o drama da transição (morte), pede a que se chore a “mãe-grande”, mãe de seu “grande kota José Caetano”, “com prosa e poesia…// com pintura e escultura/ choremo-la com realidades e ficções/ choremo-la com ARTE!” (pg 33). São os 10encantos do poeta, desabafos e choros, “o mundo enfrentar/ sofrer (?)”. 
O fenómeno prostituição também é motivo lírico pois pululam ao vento “kitata kuribeka”, que deixam suas tetas moribundas serem sugadas “no leito da morte”. Hoje é intensa a correria ao “álcool barrigudo” e, despudoradamente, vão “xaxatando nádegas flácidas” “mbunda ya kitadi”, “mbolo ya kizwa/ kufwa kidi!” (in na cama de hotel, pg 18).
O falante lírico vive intensamente suas paixões, descrevendo-as com nostalgia, rememorando sonhos e traições, e muitas vezes encantando-se  com a beleza da(s) sua(s) amada(s).
Na dimensão espiritual, vejo o poeta convocar-nos para o cultivo. “Vinde e cultivai/ que é próprio o memento!” É o momento de amar verdadeiramente pois “ o nosso amor é a importância que nos atribuímos”. Todos aqueles que se furtarem ao verdadeiro amor devem perceber “que é chegada a ceifa” , “é chegado o julgamento/ do Cefeiro que chega à hora”, eis a infalível reintegração cósmica. O eu lírico confronta-se com a realidade mística “há vezes/ em que não sou eu quem age/ mas o oculto” (pg 44). Sim. É a inteligência universal comunicando.
Saurimo, 16.09.2013.

quarta-feira, setembro 11, 2013

MORTE DE MOTO-TAXISTA DESEMBOCA EM REVOLTA


Imagem retirada da net
Um morto por abalroamento, alguns feridos alvejados, outros detidos e várias viaturas com vidros quebrados é o balanço de escaramuças verificadas na última terça-feira, 10 de Setembro, na cidade de Saurimo, entre motociclistas e condutores chineses.
O jovem moto-taxista ia à frente do condutor chinês que abalroou a motorizada, atingindo-o mortalmente. Em retaliação, os colegas moto-taxistas organizaram-se em distintos grupos que se dirigiram às estradas que dão acesso ao Moxico, Malanje, Mukonda e Lucapa, ao encontro dos camionistas chineses que foram apedrejados e alguns agredidos.
 
Acto contínuo, os que se encontravam na cidade foram ao encontro dos lojistas chineses que não escaparam à fúria dos moto-taxistas.
Ao que se conta, a polícia de intervenção rápida teve de deixar o quartel para acudir a situação que, por um triz, escapava do controle, pois até outros condutores de pele mais clareada começavam a ser atacados.

Ao fim de alguns tempo, tudo voltou ao normal. As viaturas foram removidas, ficando apenas, para aguçar os comentários, o brilho nas estradas dos pára-brisas quebrados em todas as rodovias que dão à cidade de Saurimo.

segunda-feira, setembro 09, 2013

QUE TAL UM MABOQUE PARA A MELHOR CARREIRA JORNALISTICA?

Solicitaram-me alguns amigos jornalistas, habituados a ler os meus comentários nesta altura da atribuição do Prémio Maboque de Jornalismo, que debitasse algumas palavras ao último Prémio. Disseram ter estranhado o meu silêncio no dia 08 Setembro, tendo-o como sinónimo de concordância total com os critérios de atribuição do galardão e galardoados.
 
Abro aqui um parágrafo prévio para dizer que não sou: nem contra o prémio e nem contra aqueles que o venceram e ou venham a vencer, tal como sou inadimplente a tal prémio por me encontrar, há muito tempo, a assistir o “jogo pelas bancadas”. Sou, entretanto um “puto” que começou a exercitar o jornalismo em 1996, que esteve no campo como jogador, e agora como um experiente adepto e espectador. É nesta condição que me atrevo a debitar ideias sobre o jornalismo que se exercita no país e os prémios a ele relacionados.
 
No ano passado (2012), um dia como hoje, quando expressei o meu assentimento sobre os critérios e os eleitos do Prémio Maboque de Jornalismo, fui brindado com algumas intimidações, umas mais públicas e outras sub-reptícias endereçadas à minha almofada.

Defendi, na altura, a revisão/clarificação do regulamento do prémio e a observância do código de deontologia e do Estatuto do Jornalista Angolano. Fui mal compreendido.
 
O pronunciamento, nesta edição, do patrono do Prémio Maboque de Jornalismo, segundo o qual, "A partir do próximo ano, o prémio vai sofrer ligeiras alterações no seu regulamento. Vamos propor ao futuro corpo de jurado algumas alterações. Gostaríamos que pudesse demonstrar, do ponto de vista técnico, o porque de alguém ganhar, em detrimento de outro", surge como "pedra no charco" que a classe esperava e que vem clarificar que nem tudo vai bem no PMJ. Aliás, Armindo César vai mais longe ao afirmar que "Nomear jornalistas por apenas nomear não é justo nem é bom. Sei que aqui há entidades da classe que discordam de algumas decisões do júri  que deve procurar aclarar essas nuvens cinzentas, dúvidas, tornando o prémio transparente".
 
Para mim, ou o regulamento está desajustado, e aqui se torna urgente a sua conformação com a realidade, ou o júri confunde o exercício anual com a carreira dos artistas. Só assim se pode entender que o prémio maior seja entregue a profissionais com carreira irrecusável mas que pouco fizeram no período sujeito a premiação ou que há muito se encontram na bancada ou na condição de incompatibilidade.
 
Sendo comum, em situações como essas, o coro de prós e contra, e não sendo poupados aqueles que se mostrem desconfortados com os critérios de premiação, espero que, desta vez, haja coragem de se criticar Armindo Cesar, presidente do Grupo Cesar e Filhos, promotor da iniciativa, que quer ver o regulamento revisto.
 
É que, a meu ver, o grupo do empresário César muito bem podia atribuir a distinção a quem queira, podendo também mudar a designação para “Prémio Maboque de Reconhecimento à Melhor Carreira Jornalística” mas, atento ao que se passa, ano após ano, o patrono quer que o prémio vá ao melhor jornalista do ano ou que a sociedade saiba por que foi atribuído ao Mutaleno e não ao Mutambuleno.

sábado, setembro 07, 2013

AS EXECUTIVAS DO PROTOCOLO

 



 

 
AS EXECUTIVAS DO PROTOCOLO
São jovens na flor da idade, algumas ainda pubertárias. Estão sempre de salto alto, bronzeadas, cabelo emprestado do Brasil e Índia e unhas sempre em dia. Ao sair de casa, algumas se vestem à executiva, para fingir ser gente. Uma vez na rua, apresentam-se de forma muito ousada: de collants extravagantes, muitas vezes mostrando a natureza genitália, calções curtos e top less que deixam descoberta a “faixa de gaja”. Usam ainda pinturas labiais que as distanciam das demais fêmeas do bicho homem.
Habitualmente, dormem durante o dia, quando não têm trabalho extraordinário, e trabalham à noite. São as “organizadoras” de eventos sócio-culturais e “meninas do protocolo” para os notáveis da alta sociedade.
Apostando no marketing, as executivas do protocolo optaram por elaborar business cards com fotos ousadas e endereço telefónico que entregam a convivas bem aparentados e desacompanhados nos eventos públicos e ou restritos das cidades angolanas. O resto é preço a combinar.
Dessas negociatas das executivas do protocolo surgem os jeeps top de gama com que algumas raparigas, ainda púberes, se exibem, quando não são os famigerados i10 e arredores.
Endinheirados, pseudo empresários, administradores de empresas públicas, altos dignitários do Estado, kamanguistas e generais no activo fazem parte dos preferidos e muito cobiçados pelas “moças do protocolo” que chegam a resolver contendas entre elas com imposição de voz e músculos sempre que uma se antecipe ao cliente permanente de outra. Pena é que já não cantam as kalashenikov e de tanques, tirando os de lavar roupas, já ninguém morre de medo. Nos tempos doutra senhora seriam capazes de resolver as diferenças protocolares a balázios…
Perante outras mulheres, elas são diferentes. Deslizam no gingar. Ciciam como cadela no cio. Usam perfumes com fragrâncias super sex e têm perícias em coçar a barba do idoso ou roçar a zona baixa do “Cabo de Santo Homem”.
Têm também expressões decoradas que lhes conferem uma aparente cultura do bem falar e modos cordatos. Apenas trechos de folhas decoradas, porque o resto são borboletas. O verbo que melhor sabem conjugar é fazer. Sendo “se fazer” o tempo mais empregue.
Uma vez transitadas para a fase posterior, a do emprego com remuneração mensal, não se coíbem em passar pelo “teste do sofá”, galgando como alpinistas. De sofá em sofá e de homo sapiens sapiens ao homo sapiens… Do general ao praça, até que sua volúpia se esfume.
Para os pais, as filhas fazem biscates de protocolo em eventos culturais.
- O emprego está difícil. - Concluem.
Para as puritanas, elas são a nova peste que arrasa a humanidade. As estraga lares e outros epítetos.
– É preciso tomar medidas contundentes e urgentes, antes que o pântano nos engula. - Apregoam.
Para as mães libertárias, elas são coitadas, invejadas pelas más-línguas.
– São trabalhadoras honestas, submetidas a longas horas de labuta, sem tempo para descanso. – Acodem.
Para os músicos da nova vaga, elas são a razão de avultadas vendas, casas de espectáculos cheias e fonte de inspiração para temas prolixos.
– Essas munzúbias me ‘arrebentam’. – Evocam no seu pobre vocabulário.