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segunda-feira, janeiro 28, 2013

UM POUCO DE RESPEITO PELOS MORTOS NÃO FAZ MAL

Sou dum tempo em que óbito não era lugar para crianças e os jovens recolhiam-se, pesarosos, ao ver um cortejo fúnebre passar. Os mortos mereciam muito respeito e as campas, por serem últimas moradas dos de cujos, eram também respeitados.
Os tempos me parecem ser outros. Os a vida evoluiu e eu fiquei estagnado no tempo ou as coisas desandaram e eu cultivo modos que muita juventude desconhece.

Desloquei-me ao Alto das Cruzes, para “partilhar a dor”  de alguém que perdeu uma ente querida. Entre vândalos que pisam campas “alheias”, num desrespeito total aos finados e aos familiares, muitos aí presentes, uma idosa cuja atitude diária chamou-me à atenção.
 
Pipa, o filho dela, foi morto (assim reza a lápide) em Fevereiro de 1976, aos 17 anos. Pela foto, o jovem era militar. A sua campa diferencia-se das outras por ter o terreno adjacente pintado de cinza metalizada e a óleo. Há vasos com flores naturais e folhas verdes bem cuidadas. Não se vê poeira em canto nenhum daquele túmulo que se parece a uma casa. A idosa, desde Fevereiro de 1976 que faz companhia ao jovem soldado todos os dias, pelo menos trinta minutos. Já não chora. Chega, vassoura, balde d´água e pano de pó na mão: rega as plantas, limpa o pó, recolhe as folhas secas, senta num banquinho, olha para a campa, projecta um reencontro, que espera para breve, e faz uma oração.
 
E, comovido, chorei.

quarta-feira, janeiro 23, 2013

QUEM MAIS TRANSFERE DÓLARES VIA WESTERN UNION?

Estou numa agência bancária e, como sempre, vejo muitos rapazes e raparigas a serviço de brasileiros (sobretudo teólogos), chineses, vietnamitas, portugueses e oeste africanos nas filas para transferências bancárias, via Western Union.
Cada estrangeiro, em média, transferem entre USD 5000 a 10.000, servindo-se de cidadãos nacionais pagos a preço de banana, o que multiplicado pelo número de vezes em que são vistos nos bancos, onde até já se tornaram familiares e constituíram amizades, pode dar em altas somas por mês.
Perguntar não ofende a ninguém:
- Onde tiram estes estrangeiros tanto dinheiro que remetem aos seus países?
-  O governo angolano, através das instituições financeiras e de ordem e segurança, controla estes traficantes?
- Que dizer dos nossos inertes explorados por chineses, revendidos aos angolanos, cujo o dinheiro vai para China?
- Pagam impostos?

sexta-feira, janeiro 18, 2013

SAURIMO: PRIMEIRA BIBLIOTECA PÚBLICA ESTÁ EM CONSTRUÇÃO

As obras caminham a bom passo e o edifício de dois andares, que se ergue defronte ao prédio que acolhe as direcções provinciais e outras repartições de serviços públicos, já tem as paredes erguidas, restando apenas a pintura, acabamentos internos e apetrechamento.
 A construção da Biblioteca Municipal de Saurimo é resposta a um vazio que se fazia sentir na cidade há já muito tempo, depois da degradação e desmantelamento da Biblioteca deixada pelo colono. “Quando terminar será um alívio para a juventude estudantil” disse entusiasmado Manuel Mutale, 25 anos, estudante da Escola Superior Politécnica, afecta à Universidade Lueji a Nkonde.
Tudo quanto se sabe, o apetrechamento da mesma em livros não será bico d´obra, uma vez que a municipalidade possui um acordo de geminação com a câmara de Trás-os-Montes, Vila Real, que tem já fornecido apoios do género à apêndice da Universidade pública e escolas secundárias da província. “Neste momento há mais de 60 mil títulos doados pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, no quadro do acordo de cooperação existente entre Saurimo e aquela autarquia portuguesa”, disse uma fonte ligada à ULAN. Grande parte dos livros estão por catalogar na biblioteca da Escola Superior que se debate com a falta de bibliotecários especializados e espaço físico, avançou a fonte.
A falta de uma biblioteca pública é um dos factores que contribuiu, até aqui, para os baixos indices de leitura entre os jovens e adolescentes, na capital da Lunda Sul.

quarta-feira, janeiro 16, 2013

POBRE COM DINHEIRO EM JANEIRO É HOMEM(?)

- Trim, trim, trim… o telefone tocou. Na linha um amigo.
- Epá, fazes-me um reforço? A balança desequilibrou-se.
- Mô mano, estou mal. Lamento...
Nem terminou a conversa. Noutro telefone, pi.rim.rim.rim.rim.rim.rim… outra chamada. Na linha uma amiga de longa data.
- Epá posso fazer-te um pedido? És único amigo que me podes ser útil. Estou pior do que uma gata…
- Vai, fala amiga. Espero que a tua preocupação esteja ao meu alcance.
- Yá. Estou mal. Me empresta só dinheiro.
- Hum! Para pagar quando?
- Não sei, mas estou mal. Já nem dinheiro para táxi tenho.
- Amiga, esse pedido chega em hora imprópria… Tenho propinas dos miúdos. Sabes que tenho uma prole elevada…
- Yá entendo, mas…
Ufff. Até já dizem que pobre com dinheiro em Janeiro é Homem.
- Por que será que nesta fase todos estão sem reservas?
- Que tal passar a guardar o dinheiro do ordenado de Dezembro para ser gasto em Janeiro?

domingo, janeiro 13, 2013

O TI DOMINGOS MORTELADO

Era procedente do planalto angolano. Não se sabia se do Huambo ou Bié porque nunca o perguntamos e ele também nunca nos explicou, talvez porque se julgasse irrelevante. Angola não é dos angolanos? Que importa o local de nascimento se nestes 1246700km2 cabemos todos nós e mais uns tantos "chinocas" que já nos dão sobrinhos?

Uma arma destruidora bastante usada na
guerra civil
 O tio Domingos Mortelado não tinha um dos pés, perdido na guerra (calcula-se que tenha sido a guerra pela independência), em sitio e circunstancias que só ele sabia. Vivia da sua lavra e do esforço de sua mulher e filhos. Era único na aldeia a usar muletas embora fizesse quase tudo. Cortava lenhas, capinava e também tomava o seu copo com os outros homens da aldeia. Apenas não podia trabalhar na fazenda onde a labuta era mais agreste.
Todos os miúdos e miúdas da aldeia contígua à fazenda Israel (Libolo) hoje reagrupada e denominada por Pedra Escrita, tratavam-no por tio Domingos Mortelado. Até parecia que Mortelado fosse seu apelido. Nunca alguém questionou porque era mutilado e porque era assim tratado.
Perguntar? A quem? Havia espaço para tal?
- Podia ser entendido como uma discriminação o que era impensável naqueles tempos.
E a vida corria bem. Ti Domingos Mortelado p´ra cá, ti Domingos Mortelado para lá. Sem que ele se importasse do cognome.
Hoje já não vive. Mas fica na saudade de muitos miúdos e miúdas do meu tempo que só mais tarde se aperceberam que Mortelado não era seu nome, mas a condição que a guerra lhe tinha imposto. Na verdade ele era o tio Domingos, o mutilado.

terça-feira, janeiro 08, 2013

UM OLHAR AO MOVIMENTO LITERÁRIO NA LUNDA SUL

Uma cronologia* elaborada por Tomás Lima Coelho e Manuel Seca Ruivo, que lista os escritores angolanos desde o surgimento do primeiro livro escrito por um angolano (José Maia Ferreira), em 1847, até ao presente, ilustra que entre os cerca de 600 autores angolanos apenas 04 são da Lunda Sul a saber: Bula Mbungue, Fonseca Sousa, Valter Hugo Mãe e Victor Kajibanga. É Obvio que o estudo ainda recebe contribuições para se seja o máximo realista, mas é um indicador que nos deve preocupar e levar à reflexão.
Enquanto capital do distrito, no tempo colonial e capital de província de 1975 a esta parte, Saurimo teve sempre um ensino liceal e não faltou a diáspora académica ao longo dos tempos. Porém, apesar destes condimentos que são a formação intelectual e a criatividade que propiciam a existência da literatura, o número de escritores da província é de 04 e se juntarmos os escritores das duas Lundas teremos apenas um total de apenas 9 escritores. São ainda muito poucos os que mostram a cara através da escrita criativa ou académico-cientifica.

Só para se ter uma ideia, o Huambo tem 51 escritores listados; Benguela tem 47; Malanje, aqui ao lado, tem 32. O Kwanza-Sul tem 18; Cabinda tem 07; Moxico tem 09 e apenas Kwando-Kubango e Kunene têm cada 02.

Daí que julgo ser necessário pensar-se numa solução. É preciso incentivar os jovens a criar e registar em papel aquilo que criam. Mas, antes, temos de incutir nas crianças e jovens o hábito da leitura, do debate, da reflexão e do uso correcto da língua em que trabalhem: seja a língua herdada do colono (português) ou as nossas línguas de origem bantu. Julgo ser este o caminho para que possamos fazer crescer o número de escritores na província e no país.

É ingente que os jovens os mais velhos escrevam e publiquem as suas experiências e memórias, merecedoras de serem legadas às novas gerações. É urgente que os nossos professores “reinventem” o saber científico, o registem e publiquem.

É preciso também que as instituições públicas e os empresários locais apoiem aqueles que já escrevem para que possam publicar e servir de mola impulsionadora dum movimento literário ao nível da província.

Não havendo quem escreve, porque não habituamos as crianças a ler e a praticar a escrita, temos de fazer uma analogia com o futebol: É possível aspirar a primeira divisão nacional sem jogadores em quantidade e qualidade na praça local?

Se calhar, a solução seja criar uma espécie de “núcleos de leitura, debate e escrita” que nos darão talentos que nos permitam, no futuro, ombrear com os grandes que também tiveram de gizar políticas de formação, formal ou informal, ostentando hoje fama e a tradição que têm. Benguela é um exemplo no campo literário para não falar de Luanda.

Buscando o exemplo de Benguela, há dois anos que o governo daquela província instituiu o Prémio Provincial de Cultura e Artes, uma versão local do Prémio Nacional. Os vencedores de cada uma das sete categorias recebem Kz 700 mil. Sabendo que o artista que se empenhe com qualidade pode ganhar no principio do ano esse dinheiro, quem é que não escreve? Quem é que não pinta, quem é que não esculpe, quem é que não cria moda, quem é que não investiga sobre a nossa tradição e costumes do nosso povo? Quem é que não canta e quem é que não dança?

Entendo que não basta que existam as instituições artísticas sem o essencial que são os artistas porque já é sabido que sem panela não se faz o funje.

Sem leitores nunca teremos escritores.


(Texto escrito a propósito do dia da cultura nacional que hoje se assinala em Angola)
 
* Autores de Angola: Naturalidade e bibliografia (ebook), no prelo.

sábado, janeiro 05, 2013

AS LINHAGENS, OS POTENTADOS E AS DINASTIAS

Numa suposta “brincadeira de mau gosto” alguns originários do Kuteka me têm beliscado, de leve, para revitalizar o potentado de Kuteca, cuja capital é Mbanze-yó-Teka, onde meu avó materno foi rei entre finais dos anos sessenta e início dos anos setenta do sec. XX.
 
Dizem, estes conterrâneos, que eu seria o mais idóneo e mais habilitado para reclamar a coroa daquele potentado encravado entre montanhas, nas margens libolenses do rio Longa (Mbango-yo-´Teka, Kabombo, Hombo, Mbanze, etc).

Acontece que não cheguei a conhecer meu avó, embora lhe tenha herdado o apelido.
Nasci na semana em que ele morreu, tendo para o seu lugar sido indicado um sobrinho que também já é de cujos.
Calculo que, “de sobrinho em sobrinho, a monarquia tenha mudado de linhagem e dinastia”.
Distante dos hábitos e costumes mais intrínsecos do meu povo, estando aculturado, e mais: exercendo actividades para as quais me formei e me sinto bem, tenho respondido a esses meus “partidários” que agradeço a escolha mas devem procurar por um outro rei.

Pior do que isso é que a autoridade nas comunidades tradicionalistas como a que reporto é mantida através da crença no metafísico. É a crença no feitiço e no poder e veneração dos antepassados que mantém a ordem social. Conheço pessoas que temem mais o feitiço do que a autoridade pública. Um rei sem feitiço (ainda que fictício) é um rei sem autoridade. As leis ordinárias e a polícia quase não têm valor nas aldeias. O feitiço sim: ordena, comanda e condena.


E, já agora, por que não reflectir um pouco sobre a proliferação de potentados, sobretudo na era moderna (angolana)?

Me parece que a atribuição de "subsídio de sobado" tem contribuido para a dispersão das populações, dando lugar a uma multiplicação de sobas e regedores, em vez de se agregarem em conglomerados maiores.

Sem o subsídio teríamos a mesma coisa? É que já assusta o número de sobas em cada comuna, municipio e provincia de Angola, dificultando a construção de infra-estruturas sociais nas comunidades carentes de agregados populacionais que o justifiquem.

Imagine o que é cosntruir uma escola, um fontanário e um posto médico numa aldeola que apenas tem cinco famílias... Assim, vamos continuar a reclamar sem razão.
 

terça-feira, janeiro 01, 2013

O KILIMBO (CARIMBO) QUE CARREGO NO ROSTO

Rainha Antonica ao centro
- A mon´u! mbezo okesula? Wango akuno in wango a ngongo oyo? (oh menino! Afinal tens faquinhas na cara? És daqui ou da outra margem (Malanje?)
Assim me interrogou a ancião Antonica Gregório, rainha de Banza Tamba (Mussende, K-Sul), depois do meu sorriso denunciante, quando abordou um grupo de “não locais” (Kwanza-Sul) que a seguiam a um ritual tradicional localidade de Kepala (município da Kibala).
- Ngoya ngondola, mu hane uvita! (vou pronunciar-me em ngoya e não me vão perceber). A isso respondi apenas com um leve sorriso que a levou a inspeccionar-me com maior profundidade e tendo reconhecido no meu rosto os sinais (kilimbo) que identificam o originário do reino de Ngola.
E não foram precisas mais palavras. Tinha sido reconhecido como “filho da casa”. Os traços no rosto, comummente conhecidos como “faquinhas”, frequentes entre povos de Malanje e Kwanza-Sul, em Angola, têm uma explicação histórica.
Eles foram sendo usados pelos povos Ngola, ao longo da história, por motivos diversos e até de forma profusa. Dados obtidos da oralidade destes povos (pesquisa no Libolo, Kibala e Kangandala) e registos escritos apontam que a aplicação de “faquinhas na cara” (tracejados horizontais e ou verticais no rosto) tinha uma dupla função nos tempos dos reis Ngola:
- Uma era mitológica, ligada à questões de saúde: pensava-se que o sangue mau (de baixa qualidade) era a causa de muitas doenças e devia ser extraído. Essa evocação se prolongou até há bem poucos anos, sendo ainda visíveis adolescentes e nalguns casos até crianças oriundas das regiões supra com estes sinais nos rostos. Porém, a extensão dos serviços de saúde às áreas mais recônditas diminuiu grandemente este tipo de pensamento mitológico que, mais do que curar, levou à morte muitas crianças que se viram anémicas devido à extracção sanguínea.
- A outra razão da aplicação das faquinhas no rosto de Malanjinhos e Kwanza-Sulinos de locução ambundu tem a ver com o “kirimbu” marca/sinal com que o soberano identificava os seus emissários: não havendo no passado comunicações escritas e nem telefónicas, era preciso autenticar os emissários para que fossem reconhecidos e valorizada a mensagem de que eram portadores. Assim, o rei Ngola começa por colocar o “kirimbu” no rosto dos emissários enviados a outros Estados/potentados. Sendo sinal único do rei Ngola apenas estes embaixadores/emissários assim sinalizados/identificados podiam ser credenciados.
 O procedimento dos reis Ngola foi anterior ao tráfico negreiro, iniciado no Sec. XV, e que o adoptou para estampar as "peças africanas" (escravos) que estavam realmente pagas antes de embarcarem para a América.
 
A palavra portuguesa carimbo, adoptada pelos portugueses, que muito se relacionaram com os reis Ngola, provêm do kimbundu “Kirimbu” ou "kilimbu" que equivale a “stamp” (selo) em inglês.

Fontes escritas:
1- http://pt.wikipedia.org/wiki/Carimbo#Hist.C3.B3rico (24.11.2012)
2- Revista Austral: TAAG, 2011,