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quarta-feira, dezembro 31, 2014

A PROCURA DE NOVAS OPORTUNIDADES



Fazia tempo que a sua vida era matar kasumunas enquanto a mulher treinava atletismo nas ruas da zunga com os fiscais administrativos. Embora não os lesse, Ndinha comprava sempre, no fim da sua jornada, um exemplar do jornal diário que oferecia ao marido que viajava de imediato as paginas de necrologia e anúncios sobre empregos.
No dia em que se anunciou a possibilidade de se aumentar o número de províncias e municípios, a cidade toda, as rádios, jornais e televisões nao falaram de outra coisa senão a possibilidade de os maridos terem mais empregos e as senhoras da zunga mais espaço e territórios para vender. Ndinha que estava cansada das corridas nas ruas da Grande Capital já tinha esboçado o seu plano e cochichou mesmo às amigas que não perderia a oportunidade de se mudar daquela cidade, caso o assunto fosse levado a sério pelas instâncias superiores e pelo marido que matava kasumunas há já três anos, desde a desmobilização da vida kwemba.
Posta em casa, antes mesmo de contar as receitas do dia, Ndinha passou o jornal a Jota que consertava o fofandó que parara de gritar a sua dor de tanto uso por falta da energia da rede pública.
Pelos fundos do quintal, onde Jota se encontrava, não tardou surgir o grito de alegria:
- Ndinha, minha mboa, amarra o cabrito e as galinhas que estão na capoeira. Vamos procurar chefe Kapwete.
- Quem é esse Kapwete, Jota?
- Mulher, não esquenta. É irmão do chefe Kamundanda. Vamos. Há novos cargos na Libaju. Não ouviste que país vai aumentar? Temos de nos apressar se não vamos “lerapiar”.
- Mas, cargo então aonde, Jota. Coisas que explicas nunca só ficam esclarecidas. -Resmungou Ndinha.
- Vamos. Prepara as crianças e podes também avisar as tuas colegas que queiram singrar longe de Luanda. Vão criar 3 novas províncias, 75 municípios e sei lá quantas comunas. Já imaginaste quantos vão subir? É vida!
- Jota, é mesmo já você que vai subir?- Tentou contrariar Ndinha, na sua manina de “só para contrariar”.
- Eu não porquê? Eh? Não porquê?! Já não sou secretário executivo da Libaju? Aponta aí. “Se tenta” e oito novas circunscrições, vezes 17 comissários eleitorais, sem contar os departamentos e secções, administradores comunais, os “lima-unha”, os “joga-cartas de baralho” e os “leva-mala” do boss. Três províncias, vezes trinta directores, três vice, o staff e dependentes, os assessores… Jota fez pausa para levar ar fresco ao peito que reclamava água fria, devido à ressaca do dia anterior. E prosseguiu: “se tenta” e cinco administradores municipais e seus adjuntos, mais o staff das repartições... Dizem que até os deputados vão subir para 135. Vamos, não me faz perder mais tempo e oportunidade. Temos que levar o cabrito e as galinhas ao chefe Kapwete que está a fazer a lista. O período de recrutamento é curto e temos que aproveitar agora que os tubarões estão ainda na distração das festas e a engordarem com os cabazes. Vamos!
- É verdade mô Jota, mô amori. É mesmo muita vaga, Jojó. Vou também avisar a mana Miquilina, minha chefa-adjunta na Anazunga. Ela também estudou até à quarta classe do tempo de Agostinho Neto. Sabe ler, escrever e fazer contas de dinheiro. Ninguém lhe aldraba na tabuada!
- Sim dama. É muita vaga mas também muitos dos môs avilos ainda sem função, vivendo de “mixas” ou das damas como tu. Essa é a oportunidade da nossa salvação.- Respondeu Jota.
- Sim amor. Haja o que hajar, dessa vez ninguém mais nos kasumbula. Vamos, antes que as vagas dos municípios acabem. Nas províncias assim já se tombwelaram, mas nos municípios e comunas ainda deve sobrar. – Respondeu Ndinha com o kasula às costas, o filho mais velho agarrado à saia e puxando o cabrito pela corda. A galinha, o pato e um casal de pombos estavam na quinda que seria ofertada ao boss das listas.
- Vamos aproveitar o período festivo de natal e ano como motivo da oferta. Assim, o chefe Kapwete não alega “motivos de ordem moral” para recusar as ofertas em troca de umas vagas num dos novos municípios ou comunas que estão na forja.
- Vamos Mô Jota, homem vijú.- Respondeu Ndinha entusiasmada.
A família partiu, deixando para trás a casa arrendada na Fubu, e as dívidas das birras por saldar. Se vai dar certo ou errado ainda ninguém sabe porque o tal anúncio no jornal não passou de uma antecipação do dia das mentiras, 01 de Abril. Como não se despediram dos vizinhos nem levaram a pouca mobília, que Ndinha foi juntando com o dinheiro da zunga, ainda podem voltar a casa na maior tranquilidade. Há porém um mujimbo que corre e que aumenta a expectativa do casal.

Obs: texto publicado no Semanário Angolense de 08.08.2015
 

quinta-feira, dezembro 25, 2014

O JORNALISMO QUE VAMOS TENDO

Numa "conversa", comunicação virtual (teclagem), o meu amigo Tazuary Nkeita depois de uma estupenda entrevista que concedeu à ANGOP: (http://ads.portalangop.co.ao, 07 Dezembro de 2014, 11h42 - Lazer e Cultura), que considerei "digna de ser levada aos estudantes e jornalistas juniores, colocou-me algumas perguntas/provocações que, no seu entender, deviam ser objecto de uma discussão profunda antes de as levar aos estudantes.

Reproduzo-as com as minhas respostas:

Jornalismo em Angola
- Que jornalismo temos?
            LC:      O possível. O que se deixa fazer.

- Somos jornalistas ou somos assessores deste e daquele?
            LC: Mais assessores do que jornalistas. Os jornalistas contam-se aos dedos. O jornalismo bem elaborado também se conta. A assessoria é mais presente.


- Somos equidistantes e podemos sê-lo no dia a dia? Porquê?
            LC: A equidistância está por ser conseguida.
Somente quando houver mais jornalistas do que assessores ou a clara distinção entre assessoria e jornalismo puro.
Não tem havido equidistância porque a propaganda e propagandear acções institucionais se confunde ainda com a informação objectiva e isenta de "maquilhagem" jornalística.


- Que diferenças existem entre imprensa estatal/pública e imprensa privada e porquê?
            LC: Uma é, por via de norma, a tutelada pelo Estado.
É pública e patrocinada com o dinheiro de todos. Outra é fruto de iniciativa privada para diversificar a informação e, como empresas, lucrarem tratando informação que é acompanhada de propaganda publicitária (paga). Noutro prisma, uma publicita os órgãos do poder e outra (entre noticias) publicitam as empresas.
Há muito que se diga sobre esse tema.


- Há fosso? Como reduzir esse fosso?
LC: O fosso se pode reduzir através de formação e acções de credibilização da media quer pública quer privada (com ou sem objectivo indirecto de alcançar ou manter os poderes instituídos). A autorregulação também pode contribuir para um jornalismo mais responsável (com cassação de carteira, caso houvesse, etc.). Ainda vamos longe e temos de labutar arduamente para que tenhamos um jornalismo ideal. Ou ficaremos apenas pelo "jornalismo angolano/à moda angolana".


- Devemos imitar ou assimilar e processar os conhecimentos?
LC: Sou pela absorção e processamento de conhecimentos universais. Jornalismo puro será como a arquitectura, economia ou sociologia pura (ajusta-se aos aspectos particulares do país, mas não perde a essência).


- Os jovens (jornalistas ou não) têm futuro em Angola?
LC: Os jovens terão o futuro que nós os mais velhos lhes permitirem ter. Têm as oportunidades (não tantas) que também lhes permitimos ter. Ontem fui jovem e hoje adulto, um pai de jovem, mas vou ainda reclamando as oportunidades que não tive. Se isso vai melhorar ou piorar, não sei. Houve um tempo que as lojas não tinham nada mas todos tinham emprego na função pública e na tropa. Hoje para se ir à tropa já se diz que é preciso cunha. Os empregos dependem ainda do desenvolvimento da indústria, da agricultura e dos serviços (isso abrirá oportunidades aos jovens). A função pública vai "desengordando", o que é bom mas há ainda instalações e instituições sem quadros qualificados. E que tal reflectir também sobre o tipo de educação e ensino que temos? Isso fará nos próximos anos a diferença.


- Têm oportunidades?
LC: Muitos terão diplomas sem conhecimentos. Outros (poucos) terão conhecimentos sólidos e esses disputarão as poucas oportunidades que surgirem. Os demais ficarão a lamentar-se com os diplomas vazios de conhecimentos na mão.

sábado, dezembro 20, 2014

NO TEMPOS DE CIPAIOS E CAPATAZES


No edifício rosado da vila crescente de Lumbala Ngimbu, Xavier Martins e Ernesto Del Ponte dividiam o corredor longo e estreito. Duas salas com portas paralelas se enfiavam ao fundo, ganhando janelas pelas laterais e pelos fundos, um arrojo da arquitectura daquele tempo oitocentista. Uma das salas era do administrador do posto e a outra era a do secretário.

Do outro lado estavam os cobradores de imposto indígena, os cipaios e seus cacetes, os serviçais e os queixosos e queixados. Mais longe, mas no mesmo quintal engalanado de flores que desbrochavam em todas as épocas, estavam as casas para as "sentinas": duas para os brancos da administração e um “covil” que servia a "negralhada" toda, onde homens e mulheres acossados pelas descargas fisiológicas se revezavam minuto sim, minuto sempre. Kapita era empregado auxiliar e cuidava de levar e trazer o que os brancos pedissem.

Certo dia, daqueles em que o céu parecia ter descido à terra, ameaçando queimar tudo e todos, Xavier na sua sala suava. Del Ponte também de suor molhava a malha da camisa estampada que quase lhe mordia o corpo torneado. Os dois se pareciam a nascentes de rios que se alargavam a cada chuva, a cada gota. Já tinham trocado os lenços pelas toalhas que mesmo assim não bastavam para se enxugarem. Água nos moringues já não havia.

Kapita, atrás dum monandege traquino, na vista do administrador se colocou.

- Ei, ó preto, pega uma bacia e traz água. Tens um minuto e meio. - Ordenou Xavier Martins, o administrador.

Dois passos à frente, outro grito e Kapita ainda sem descodificar o que lhe fora solicitado.

- Kapita! Outra bacia para mim, uma toalha límpida e um minuto e meio para a empreitada. - A voz de Del Ponte, um luso de descendência hispânica era inconfundível. O homem era dos principais queixinhas de Xavier Martins e culpado pelo desterro de muitos serviçais à roça Camokomoko, autêntica colónia de morte nos tempos da administração estrangeira no Leste de Angola.

- Coitado. Mbacia chamado por um e por outro, 'deve ser muito sério o que esse irmão aprontou'. - Kapita assim pensou e meteu-se mangueiras e laranjeiras abaixo, gritando e procurando por Mbacia.

- Mano Mbacia, ó Mbacia, se estás a te esconder é melhor se apresentar, porque o branco está a ficar vermelho. Mwata mutolo nyi secretario já informaram no cipaio e disseram que se o Minuto e Meio não vier contigo, vais mijar  água com sangue.

Kapita gritou até fazer-se ouvir por todos os que se tinham dirigido ao posto administrativo, sem que ninguém o pudesse ajudar. Nem Mbacia, nem Minuto e Meio se apresentaram.

Desolado, pensando nas palmatoadas que levaria por conta do fugitivo Mbacia que não pôde encontrar, dirigiu-se aos soluços ao gabinete do secretário Del Ponte.

- Sô secretario, Mbacia nyi Minuto e Meio ma lunga o ma pwo? (Bacia e o minuto e meio são homens ou mulheres?) 'Num li vistei casa tudo'. - Explicou numa mistura entre ucokwe e português.

Del Ponte, furioso, fez-se como flexa ao gabinete do administrador, informando que Kapita se tinha gozado deles e se recusado a dar-lhes água.

Xavier Martins, um flexa que já tinha sido capturado nas guerras de conquista do Leste, pegou, com as próprias mãos em Kapita e o acorrentou pelo pescoço, juntamente com outros dois empregados que se faziam passear pelo quintal. Foram mandados à roça Camokomoko desbastar uma montanha durante as manhãs e cortar lenhas durante as tardes.

Lá ficaram, os três, cinco anos, sempre labutando acorrentados ao pescoço. Até às "sentinas" sempre juntos: Kapita, Katonde e Sandumba...

Num Novembro de mangas fartas, sede na hora doze acompanhava a fome da fuba levada pela chuva. Na frondosa mangueira, habilidosamente, decidiram subir e desfrutar-se de polpa que cumpriria as duas funções: matar sede e fome num só trago.

Mangueira acima se fizeram. Lá foram os trigémeos. Uma formiga brava, entretanto, sangue humano queria sugar e Katonde, o do meio, não foi poupado.

- Wawé, ndifa! (Ai, morro!) - Exclamou em umbundu.

Pretendendo desfazer-se do incómodo quebrou o galho. Outro abaixo acolheu a corrente. Katonde e Sandumba num lado e Kapita noutro balouçando.

- A suku a tatê, tukutise ño (Deus pai. ajude-nos). - Gritava Kapita.

- Capatajééé, Tukwase! (Capataz, ajude-nos!) - Replicavam apelos, em ucokwe, Sandumba e Katonde.

Mukwa Kuxaha, o cipaio, e Mukwahenda, o capataz, meteram-se a caminho. Um com a espingarda e o cacetete e o outro com o chicote.

- Toma a chave, liberta um e depois o da outra ponta. O do meio desce com a corrente. - Ordenou o cipaio.

O capataz trepou, mas o coração pesou-lhe a alma. Na sombra, o cipaio arma na mão, pronto a atirar.

- Sô cipaio, “quarente” está complicado desamarrar”. em só me ajudar. - Iscou o capataz.

- Desce de lá seu sebo e se eu conseguir resgata-los, coloco-te na condição destes desgraçados. – Ameaçou o cipaio antes de concluir: - Dou-te a espingarda e atira neles, antes de eu cumprir em ti a minha promessa. Desce de lá, pá!

Mukwahenda também temendo pela sorte. Livrou-se da árvore. Fez-se à sombra, caçadeira na mão. O cipaio descalçou as botas, arregaçou as mangas e ajeitou os calções de caqui. Embravecido agarrou a árvore como quem lhe pega pela garganta. Confirmou as chaves dos cadeados no bolso. Subiu ao colmo. Sedento de sangue soltou valente bofetada a Kapita que apenas suspirou antes de levar o rio de saliva ao rosto do assassino.

- Ai é? É la em baixo que vamos ajustar as contas.- Verberou alto.

Mukwa Kuxaha, soltou Katonde e voltou ao lado de Kapita que sangrava na boca. Quando o cipaio se preparava para descer, Mukuahenda, o capataz, deu-lhe a provar do veneno.

- Tuááá! - A bala certeira de caçadeira abraçou-o de morte. Fez-se silêncio e depois o eco além savana. O cheiro de pólvora e as aves predadoras fizeram-se anunciar. Era sangue e pedaços espalhados pelo matagal.  
Kapita e o capataz meteram-se mata adentro. Catonde e Sandumba seguiram a caminho do pantanoso Lunge-Bunge, não se sabendo qual foi a sua sorte. Outrossim, ficou registado que o corajoso capataz e os seus troféus entregaram-se ao Movimento.

Obs: Texto publicado pelo Semanário Angolense

segunda-feira, dezembro 15, 2014

OS PENSAMENTOS DE VHM EM SAURIMO


Os corredores apresentavam uma correria e uma enchente que seria anormal noutros dias de aulas ou provas de conhecimentos. Não era só na Pública, mas também na privada. Parecia um que haveria um teste para emprego em toda a cidade. O branco das tshirts predominava e as conversas eram sobre o jovem do Janela aberta.

Se fosse num ambiente de manjares, comícios e “bebícios” diria que o jovem jornalista Victor Hugo Mendes juntou à fome a vontade de comer.
Tratando-se de livro e leitura, digo que o autor de "Meu livro de pensamentos" juntou a fama que tem, enquanto rosto de TV, (que lhe proporciona muitos admiradores e seguidores) à sede de leitura que aos poucos vai crescendo na Lunda Sul.

Ao assistir às longas filas de estudantes da Escola Superior da Universidade Lweji A Nkonde e Instituto Superior Politécnico da Universidade Lusíada, ambos na capital da Lunda Sul, só me devo sentir feliz e orgulhoso. Tem sido nestas duas instituições de ensino universitário em que "prego", há já três anos, "a necessidade de as crianças, adolescentes e jovens, sobretudo os estudantes, lerem cada vez mais".

A minha alegria aumenta também por ter notado que mais de 75% dos que se fizeram às filas são meus estudantes de Língua Portuguesa ou o foram nos dois últimos anos.

Sempre pensei que seria possível haver leitores na Lunda e noutros pontos da Angola distanciada do mar, desde que alguém tocasse o clarim do despertar intelectual. Já há um Núcleo de Amigos da Leitura e Literatura na Lunda Sul que se reúne, todos os domingos, para troca de saberes, numa micro-imitação às quintas da União dos Escritores.

Victor Hugo Mendes, ou simplesmente VHM, fez-se à estrada, na primeira semana de Novembro, o mês da independência, percorrendo milhares de quilómetros, num itinerário que o levou de Luanda a Malanje, por sinal sua terra umbilical, Lunda Sul, Moxico e Lunda Norte, deixando palavras, sorrisos e algum conforto.

Que venham outros escribas e tantos outros fazedores de arte e animem conversas com os leitores e apreciadores de coisas belas e originais, como fez VHM na Escola Superior Politécnica e no Instituto Politécnico Lusíadas da Lunda Sul.
Saurimo agradece e eu também.

Ainda sobre VHM e o seu “Livro de Pensamentos”, não sendo normal em Angola que um escritor, mesmo aqueles do quilate de Pepetela, José Eduardo Àgua Lusa, Manuel Rui Monteiro, Uanhenga Xito, Roderick Nehone, Jacinto de Lemos, Jofre Rocha e equiparados, venderem mais de vinte mil exemplares de um livro em apenas um ano, os “Pensamentos” de VHM são para mim um “study case” que já reclama, há muito, pela incursão crítica dos especialistas em literatura e vendas.

Quanto a mim, um leigo nessas andanças, ocorre-me apenas levantar algumas questões que podem servir de pano de fundo para uma apreciação mais aturada por parte de quem tenha créditos firmados para a crítica literária e análise do comportamento do mercado.

  1. O que faz VHM vender tanto, sendo mais estreante na arte da escrita?

  1. Carisma?
  2. O facto de ser figura de Tv?
  3. Qualidade (estética e conteúdo) do livro?
  4. Publicitação e fácil acesso aos media?
  5. Preço acessível?

Como disse atras, só o facto de VHM ter vendido em um ano tanto, mais do que muitos veteranos juntos e em muitos anos, já é motivo de satisfação visto que o meu pregão tem sido para o aumento de leitores. É preciso buscar a quantidade (leitores e obras para leitura) para se chegar à qualidade do texto e dos consumidores de produtos gráficos ficcionados ou não.

  1.             E, pensando nos consumidores e no seu comportamento após usufruto do produto, outra bateria de perguntas me invade, porque gostaria de saber com que ideia se fica depois da leitura da última página do tão cobiçado “Livro de Pensamentos” de VHM:

  1. Um romance ficcionado?
  2. Um livro de auto-ajuda?
  3. Um livro auto-biográfico?

 

Cada um dos leitores desta prosa e da prosa de VHM terá, com certeza, as suas respostas, ou pelo menos algumas. Porém, caberá, sobretudo, aos críticos da arte literária (ao que se diz mais propensos a elogios do que à análise aturada com aplausos e ou apupos), e aos especialistas em vendas esclarecer aos milhares de leitores o tipo de texto que VHM nos apresenta e as razões das longas filas para se ganhar um autógrafo do autor que é, sublinhe-se, meu “amigo de peito”.
NOTA: texto publicado no Semanário Angolense a 08.11.2014

sexta-feira, dezembro 12, 2014

A COBRA DO HOSPITA LEVADA AO TEATRO


É um conto inserto no livro “O colecionador de pirilampos”, editado pelo Grecima, 2014, “colecção novos autores”, em que se retrata a coabitação do kimbanda, catequista e médico para salvar um soba mui querido e que sofrera uma picada de cobra.

 “Apesar do esforço abnegado dos três para salvá-lo, nada puderam… nem sinais vitais ao chegar ao hospital que distava 30 quilómetros. Porém, com a visão ainda  viva, ao ver o desenho de uma cobra no hospital, o soba pôs-se a correr, pensando que fosse outra cobra viva que estava pronta a dar-lhe outra picada”.

 Essa estória que cobre as páginas 25-32 foram teatralizadas pelos jovens do Núcleo-Lev´Arte da Lunda Sul, peça apresentada numa tarde cultural realizada nesta quinta-feira, 11.12, na Escola Superior Politécnica da Lunda Sul.



O “Colecionador de Pirilampos” é o quinto livro de Soberano Canhanga (dois romances, dois livros de contos e um poemário) que publica desde Dezembro de 2010.
Obrigado Núcleo-Lev´Arte da Lunda Sul.

quinta-feira, dezembro 11, 2014

NALL JUNTA-SE AOS LEV'ARTEANOS


Ilustres amigas e amigos das artes,

Distintos convidados,

É para nós, Núcleo de Amigos da Leitura e Literatura da Lunda Sul, uma grande honra ter-vos aqui, e

permitam-me que vos saúde calorosamente, em nome da Direcção da Escola que nos acolhe, Engº Fidel Manassas, e em nome do Presidente do Núcleo, o Jovem Guilson Silvano.

Senhoras e senhores,

Iniciámos esta caminhada em 2012, aqui mesmo, assinalando o nosso surgimento com a realização de uma palestra subordinada ao tema: a importância da leitura para o sucesso acadêmico. Focalizamos a leitura de textos académicos e ou lúdicos como fonte de conhecimento e de exteriorização de pensamentos e saberes que levam cada um de nós à excelência...

Passados dois anos, e perante a apatia que se apossava da nossa iniciativa, decidimos injectar ao nosso Núcleo sangue novo e uma nova direcção, que tem sido sábia e corajosamente liderada por jovens voluntariosos da nossa cidade. Para eles, caros convidados, peço uma salva de palmas.

A partilha de carências, dificuldades e anseios com outras formas de realização da arte fazem-nos hoje olhar para além do nosso foco inicial e atrevemo-nos a ser um Núcleo aglutinador de todas as formas artísticas.

Assim, proclamamos hoje a fusão do Núcleo de Amigos de Leitura e Literatura da Lunda Sul ao Movimento cultural Lev’ Arte, surgido em 2006, em Luanda e que possui representações na Huila, Kwanza- Sul, Kwanza-Norte, Benguela, Malanje, Moxico, Bengo, Huambo e Namibe. A Lunda Sul torna-se, desde agora, o mais recente membro do Movimento artístico-cultural Lev´Arte.
A nossa missão é levar arte aos artistas e amigos das artes. A promoção da Leitura e Literatura, teatro, música, humor, artes plásticas, artes visuais e todas as demais formas de representação do génio criador e inventivo do homem passam a ser a nossa preocupação.

O Núcleo passa doravantea designar-se: NÚCLEO-LEV’ARTE da Lunda Sul.

Para materializarmos essa difícil mas necessária tarefa, gostaríamos de contar com a experiência, os conhecimentos e apoios morais e materiais de todos quanto nos assistem e se interessam pela cultura e pelas artes.

Reitero a minha incontida gratidão à Governadora da Lunda Sul, que teve a amabilidade de nos chamar para apresentarmos o projecto inicial e manifestar o seu apoio pessoal e institucional; ao Engº Fidel Manassas, pelo seu amor à ciência e ao conhecimento; e ao meu discípulo Guilson Silvano, pela coragem em tripular esse barco.

Muito obrigado.

Luciano Canhanga
16horas, 11.10.2014

quarta-feira, dezembro 10, 2014

ATÉ SETEMBRO, NETO!

Homenagem a Agostinho Neto
"kya ngi bonzo" é uma expressão ambundu que significa aborrecível, cansativo, chato… é o que sinto ao ver uma media, abram-se alas à audiovisual, mais virada ao entretenimento do que à formação. Não escreverei neste texto sobre a forma questionável e, às vezes,  parcial, maculando a qualidade das notícias de que tenho sido brindado ao proceder o zapping/sintonização das Tv´s e rádios públicas.
Reporto-me simplesmente à forma parcial, amadora e desrespeitosa como é tratado na nossa media aquele que se convencionou/reconheceu como o Herói nacional.
Não sou adepto de celebrações do tipo da Coreano do Norte. Não peço que Agostinho Neto seja presença diária e obrigatória na media publica e privada, pois nem sempre haverá factos. Mas podem ser feitas rubricas que permitam os jovens e crianças conhecê-lo um pouco mais.

O que me aborrece é ver os dias do ano repartidos em onze meses e vinte e três dias para o Executivo e seus titulares, nos mais diversos graus hierárquicos e regiões, sobrando míseros sete dias de Setembro para se lembrarem de uma figura que já “dorme como pedra lançada ao poço”. Se “a pedra” foi lá parar por obra da natureza humana, não deixemos, pelo menos, que o lago do nosso conhecimento se seque, pois o mesmo Neto da nossa Independência também nos recomendou “a criar, criar amor, com os olhos secos”.
 

Não vejo em Agostinho Neto um ser que amedronte, que faça concorrência aos vivos, nem aos seus negócios políticos e económicos ou afins.
Lembremo-nos dele nem que seja pelo facto de ter hasteado a bandeira que carregamos orgulhosamente ao peito e nos ter ensinado a cantar um Novo Hino.
Lembremo-nos dele, nem que seja para contar a sua trajectória académica e missionária (filho de professora primária e de pastor Metodista) ou política, pelas cadeias que enfrentou devido à sua relutância em se opor à colonização, quando os seus proventos bem podiam dar-lhe uma vida folgada num território colonizado.
Falar sobre Agostinho Neto, mesmo que uma vez por semana, não seria um favor a ele e a pessoas saudosas como eu. Não peço a deificação dum homem mortal, embora declarado “Guia Imortal”. Entristece-me notar que crianças angolanas que frequentam o ensino primário português conhecem D. Afonso Henriques e as nossas do Ensino Médio, muitas pouco ou nada sabem sobre o Fundador da Nação. Não estará a faltar mais conteúdos nos programas escolares, radiofónicos, televisivos e nas conversas entre pais e filhos?
Que saudade sinto de ouvir Tabonta, os irmãos Kafala e outros “músicos da revolução” evocando e chorando neto nas suas criações artísticas. Que saudades das brigadas jovens de literatura com o “njila ya muxitu”de John Bella!
Para terminar essas súplicas vou me contentar com o “bombas que partem casas não metem medo ao povo unido” de Mwana-a-Kitoko e voltar aos prantos quando tivermos Neto não à dimensão poluidora do antigamente hodierno, mas à dimensão que merece.
É tanto esquecimento que me aborrece!

 

sexta-feira, dezembro 05, 2014

RECUO NO TEMPO


Os meus amigos (destaque ao Virgílio Tchoia) há muito me queriam ver no show do mês, da nova energia. Falhei, faltei, ate que, finalmente, lá fui me "caloirar", quando os outros já vão na sexta velocidade.

Encontrei casa a rebentar pelos ângulos rectos, muitos com saudades dos tempos de "undenge", outros com saudade do "ouvido contar" ou narrado em livros de gente que nunca se abeirou junto ao palco dum kutonoka ou kudisanga.
Primeiro cheguei acanhado. Em boa verdade diria "fox" com a mamã grande que me fez atrasar com a maka dela do "vestido de preferência". Cada evento, um novo vestido. Ara xisa!

Antes que não me espalhe, cheguei mesmo com cara de quem "cheirou na dibinga dum walendado" e vi passarem por mim, naquele palco Plaza, o sobrinho de Sofia Rosa que cantou a sua "manyinga" (sangue), Legalize que se "legalizou" com voz tipo mesmo do Urbano de Castro e o Gaby Moi, puto do David Zé.
No fim já, quando se ouvia o "ngi dila ngi banza, ngi banza kamba dyami", o meu motor emocional pegou. António Paulino cantou ainda o "ponta-pé" que me levou mesmo a desferir um valente ponta-pé à cadeira de frente e por pouco adentrava a nádega duma kindoza que revivia um tempo que sua idade denuncia não ter vivido.

 - Estás mas’é a gritar só para entreter e agradar o kota te garante as finanças, pá! – Desabafou maldosa uma senhora com os cabelos todos esbranquiçados, mas com um corpo ainda bem conservado.

E Foi a segunda vez que o desferi um ponta-pé involuntário. Na primeira vez que o fiz tinha imaginado um “sul-africano-carcamano” a nos bombardear impiedosamente e desalmadamente com "bombas que partem casas não metem medo ao povo unido". Desta pensei mesmo na mulher de casa e que estava à minha direita. O meu inconsciente terá cogitado: pela próxima que me fizeres atrasar ponho-te uns "conta-pé" como esses do tio Paulino.

E eu, ainda sem terminar minha "jijinda", lá estava o kota a terminar o show com o seu "ungibekela jijinda, alaposa"!

 Estou com o pé esquerdo dorido.


Luanda, Outubro, 04,2014.

segunda-feira, dezembro 01, 2014

A PRAGA DE MWANGEJI E NDUNDU


Fazia tempo que sua vida eram só lamentos. Mwangeji tinha perdido a vontade de viver. Tamanha era a desgraça e o desprezo a que fora votado, depois de muito ter servido a seus vizinhos e dependentes. Na verdade, a vida miserável que levava era também a que seu primo enfrentava num território distante, embora parte do mesmo país. Nasceram num tempo que a História se encarregou de esquecer. As lendas e as crónicas de gentes que por eles passaram fazem ténues referências ao tempo em que toda a terra estava submersa. Terão sido trazidos à luz, nos dias da separação das águas e surgimento de terra firme.

 Vivia cada um confinado ao seu território natural. Embora primos, Ndundu e Muangeji não se conheciam fisicamente. Toda a comunicação era através do avô Kasai que tinha ligações permanentes com seus dois filhos, Lwaximu e Cikapa.

Mwangeji, mais velho e filho de Cikapa vivia a sul do território e Ndundu a norte.

Já velhinhos, sofrendo desprezo de quem deles viveu e se sustentou por muitas décadas, os dois co-irmãos passaram a padecer de doenças várias derivadas do desrespeito com que eram brindados pelos homens à volta e pela podridão em que suas casas se tornaram.

Tinham contado a seus pais, já seculares, o que se passava com eles e estes, aconselharam-nos a trocar experiências a ver se se salvavam da opressão e infra-vida a que estavam votados.

Foi nessas circunstâncias que Mwangeji decidiu escrever uma carta ao Ndundu, contando a sua saga.

- Querido irmão, espero que estejas bem. Embora nunca nos tenhamos visto, julgo oportuno, narrarmos o quanto fomos úteis e a vida que levamos hoje para que nossos filhos e netos prevejam situações anómalas que lhes possam ser impostas pela ganância dos homens capitalistas desse tempo.

Nasci entre colinas. Papá e mamã deixaram-me um vasto território que herdaram de nosso avô. Durante minha juventude vivi quase solitário. Filhos menores, abundância em peixes, caranguejos, algas, misoji, águas límpidas e solos férteis para irrigar. Assim vivi com fartura até à chegada dos homens. Primeiro negros, depois os brancosos. Na luta entre eles, os primeiros correram com os segundos e eu não fui poupado. Meu quintal passou a depósito de tudo que saísse descartado de suas casas: areias transportadas de longe, latas, plásticos e papelões, óleos e pilhas, tudo atiram em minha casa. Já sofri de pneumonia. Já tive sarna. Já chorei e implorei. Nada! Uns, preocupados mas sem poder, já fizeram músicas contando meu presente e passado. Outros retiram de mim pedaços para remendar seus terraços de ferro e aço. Já fiz famílias felizes. Crianças deram suas fimbas em minhas exuberantes piscinas naturais. Jovens apaixonados em minha casa rocaram primeiros beijos e até cenas de pro-criação assisti. Já fui padrinho, pastor e advogado na hora de divórcio litigioso. Tudo de bom fiz, aos homens, mas eles me remetem aos confins da pocilga…”- Mwangeji pousou a pena no tinteiro e começou a ler o que escreveu, limpando com um pano enxugador os pequenos borrões.

– Irmão do norte, embora este seja o nosso legado, fazer sempre o bem aos homens de todas as raças e credos, temos de alertar aos nossos filhos para procurarem contenção na bondade e viverem o desprezo com maior preparação.- Rematou.

Mwangeji fechou a carta e a colocou numa caixa flutuante que a faria chegar ao pai Cikapa e este para o avô Kasai, de onde seu tio Lwaximu a pegaria para a entregar a Ndundu.

Quando a carta lhe chegou às mãos, Ndundu estava embravecido. A sua casa tinha sido literalmente arrasada por areias enviadas por uma nova cidade. Antes dos homens do cimento e asfalto terem invadido a vizinhança, a sua vida, embora pacata, era de um idoso sadio. Os Pirilampos reproduziam-se em seus cabelos rastejantes e embebidos em águas frias e cristalinas. Suas terras eram guarnecidas e seus quintais murados. À semelhança de seu primo do sul, acolheu casamentos e divórcios. Deu beleza a gente rejeitada pelo amor e em suas águas ganharam vida milhares de vizinhos e transeuntes da cidade do brilho incessante. – Mano, faço de teus prantos minha música.

- Até há pouco, ainda respirava saúde. Os miúdos desse tempo já desrespeitavam kabucado com suas manias de estragar tudo que é natural. Mas agora que limparam dezenas de hectares na direcção do sol poente, todo lixo é na minha casa que pára: água de esgoto sem fundo, miram para mim. Areias de ravinas provocadas pelo corte do cabelo vêm cá ter. Lixo das compras exageradas deixam na minha porta. Até combustíveis e óleos dos carros capitalistas vêm cá ter, matando tudo à volta de mim. Já me chamaram de “Velho praia suja”, “colchão de areia”, "ribeira morta", "desgraça do presente", entre outros nomes que me escapam à memória. À semelhança do que li na tua carta, irmão, também assisto ao choro dos inconformados sem poder, bem como ao desprezo dos poderosos sem zelo e sem pudor. Já ouvi canções de saudades dum tempo que a vizinhança me procurava para se aconselhar na acalmia do meu rasto.

As minhas portas eram autênticas postais para gente próxima e de terras distantes que por cá buscava repouso e sustento. Não havia ser que passasse por mim sem a saudação com a devida vénia. Até o meu nome à sua cidade atribuíram, porém, hoje só recebo desprezo que me cria uma enorme repulsa. Dei água aos homens e dei leite aos seus animais. Levei comida a seus pratos, lavei suas roupas e lágrimas e dei ouvidos a seus prantos. – Escreveu Ndundo, filho de Lwaximu, neto de Kasai e bisneto de Nzadi.

Embora sem força e quase sem vida, Mwangeji ainda leu a carta – resposta de seu primo e, por meio de um sobrinho comum, puderam combinar o castigo aos seus malfeitores.

“Não mais lhes daremos água sempre que suas sedes pretenderem matar em nossas casas. Guardaremos nossas águas debaixo dos colchões de areia com que nos brindam.

Não mais lhes daremos peixe sempre que cozinharem seus pirões e ximas. Guardaremos o resto de nossos cardumes em casa de nossos pais e nosso avô Kasai.

Não mais lhes daremos terras férteis para suas lavouras. Exportaremos nossas terras repletas de húmus e faltarão verduras em seus pratos.

Não mais se banharão em nossos estuários nem se servirão de nossos leitos para utilidade alguma.

Seus animais enfrentarão sede e penúria. Seus filhos jamais conhecerão rios e andarão distâncias para ver cardume.

Seus poemas não mais escreverão, sob o farfalhar de um caudal e sob picada de peixe miúdo em pés adultos”.

E a praga se cumpriu, tempos depois, por longos e infinitos anos.


Obs: texto publicado pelo Semanário Angolense a 29.11.2014 

terça-feira, novembro 25, 2014

WOMA DA OMA E A CHEGADA DO GABIRÚ


(Nza Kutimbe na área)
 
Na chamada "barraca das unhas", para as tias, e manicure, para as moças do bairro, homens e mulheres contavam cenas para ver o tempo passar, enquanto aguardavam pela sua vez. Às sextas e sábados é que Miquilina mais enchia a algibeira. Homens bem vestidos mas que bebem "birra" na rua e comem pincho da pracinha também iam à sua bancada limar e envernizar as unhas. As mamãs eram já fregueses de costume e sábado era dia delas, levando para aquele recinto cenas várias sobre os mais pictorescos episódios da cidade, algumas mesmo de arrancar cabelos ou comer as unhas.

- Woma de agora já não é a mesma do antigamente, quando tinha "competências" para julgar, condenar os homens faltosos e “porradá-los” competentemente até se mijarem nas calças. - Dizia uma mulher convencida dos seus argumentos.

- Sim, man´Ana. - Respondeu a companheira. - As mamãs da Woma de hoje já não sabem “porradar” e parece que também tem Woma.

A conversa entre as duas “quitandeiras” do Tunga Ngó ia longe. Estavam há já meia hora na barraca das unhas como chamavam aquele salão improvisado com panos amarrados sobre paus implantados no solo másculo do Rangel.

Desde manhã que a conversa era sobre os dislates dos filhos, as vírgulas dos maridos que deixavam grande parte do ordenado nos becos e nas roulottes e sobre as vírgulas de umas senhoras que nas igrejas desafiavam a santidade das “santas de argila”. As mulheres “fwefwenhavam” conversas sobre filhos e maridos ou homens de ocasião, enquanto do lado masculino eram carros, viagens, mboas de esquina, negócios chorudos de “kumbú, pinchos regados com birras e “pomadas suculentas” que embelezavam as bocas em conversas de “só para entreter”.

- Mana, isso de ir queixar, pequena coisa se queixa, pequena coisa se queixa, há “arguém” que tiro lhe saiu pela culatra.- Atirou Miquilina que se manteve ausente da conversa por largo tempo.

- Como é ansim, Miqui?- A pergunta de Ana e Kina foi rajada curta.

- Ontem mesmo me contaram quando fomos receber "ningócio" que uma "cavalona" que era "a oficial" foi se queixar do marido que a enchia de presentes e “kumbú”, mas que pouco ou nada aquecia a cama.

- Mamã da woma, o gajo virou galo e, ainda por cima, mesmo para a migalha, é preciso lhe implorar ou lhe pôr chicote por cima. Isso se faz? - Queixou-se.

- Nada, mana. Isso é azar!- Responderam, quase a fazer um coro. E a conversa continuou.

- Ora a tia da woma pergunta, ora ela lhe "arresponde". – Miquilina faz um discurso indirecto livre como se fosse a protagonista da queixa à woma. E prossegue:

- Mas conta, Camarada. - Mamã da woma estava curiosa. - Ele falta com a assistência material?

- Dinheiro ele dá. Carro, quando estraga, manda arranjar.

- Escola para os filhos paga? - Indagou, já com alguma inveja camuflada, a instrutora processual.

- Sim. Até cursos para mim ele me dá. É só mesmo na "hora do vamos ver" que ou não vem ou o galo não canta. A inspectora da woma ainda perguntou: - Mas só isso mesmo?

- Sim, camarada woma. É só mesmo isso que não é pouco. Pessoa fica já com aas vontade e ele não vem pagar dízimo? Estou farta. Se ele não mudar, deixa de ir “na” minha casa ou vou "sengar" nos môs pais. - Ok, mamã. Vamos já tratar disso. Dá-me telefone dele e vamos chama-lo para tratar do assunto.

- Ai mesmo foi já engano da tia cavalona. Não fica mbora só no teu canto, não! Foi entregar o "oro" à bandida. Não é que a instrutora do caso ficou com o "coiso da outra", no mês e meio mais tarde?

Algumas titias da woma não têm mesmo woma! - Rematou a narradora, buscando assobios das companheiras que entornaram umas birras e “kisângwa” para sessegar o calor de um meio-dia abrileno.

Puna e Spina que se lambuzavam com uns pinchos de porco se mantiveram calados perante aquela cena da porrada e das queixas à woma que também estava cheia de woma, no dizer das próprias queixosas. Aguardavam pelo amigo Nza Kutimbe que estava a terminar uns “pentes” para o fim-de-semana com os kambas na “maratona”.

- Cheguei!- Era a voz dele. Não se passaram sequer dez minutos.

Nza fez-se anunciar pomposamente, depois de estacionar o carro, “zero quilómetro”, conseguido numas negociatas com estrangeiros com residência ilegal.

 

- Nza Kutimbe na área. Agora é que a coisa vai aquecer.- Disseram os convivas, mulheres da barraca incluídas.

- Sim, avilos. Trago cenas quentes. Na verdade não sei se a quem pertenceu a iniciativa. Se a mim ou a ela. O homem das Lundas começou a contar. - Desci do avião e cheguei à “gwimbi”.

- Sim, conta rápido que já não me sobram unhas de tanta curiosidade. Daqui a nada como também os dedos, disse Puna.

- Yá, - continuou Nza Kutimbe - porta do aeroporto escancarada. Fome, saudade e vontade, tudo à mistura. “Munzúbia” lá de casa e os “kanukus” a me esperar saudosos. Vontade era lhes dizer também "cheguei" mas não o fiz. Não pude. Nem tempo tive para sorver ar que chegasse para uma boa exclamação.

- Como assim? - Entreolharam-se os amigos cada vez mais expectantes.

Yá, - continuou - mal recebi a chave do “boter”, das mãos do colega de serviço, uma “belezura” vinha em minha direcção com os seios todos trepidantes e à mostra. Aquilo faria apanhar convulsão a quem já sofresse de hipertensão.

- Mas papaste ou foste papado. Estou já a ver as letras na tua cara a denunciarem que caíste numa armadilha. É ou não é? – Interrogou Spina revezando-se nos questionamentos com Puna.

Nza, apesar do “fogo amigo”, mantinha-se sereno e ia desembrulhando a conversa aos bocados. Parecia ter preguiça na articulação das palavras, ao mesmo tempo que enchia os amigos, já nada pacientes, de mais curiosidade quanto ao desfecho da trama.

- Yá, - prosseguiu - como se me conhecesse há já longa data, a moça deu-me dois beijos, seguidos de um apertado abraço, e disparou apressada no seu pretuguês que denunciava mais pinturas do que carteira.

- Moço, também cheguei agora mesmo de viaji. Minhas coisas estão aí. Vucê me podes dar só uma boleia até à casa das mizamigas?

Fiquei a gaguejar. Palavras todas se escapuliram.

- Sem mais nem menos, é já assim? – Questionaram os amigos.

- Notem que fiz a mesma pergunta embora não a tivesse dado voz.

- E se a "mamã grande" viesse me apanhar como é que isso ia ficar? – Spina a pôr lenha na fervura e a panela de Nza a não querer ferver.

- Avilo, ias pagar pagar pelo peixe que até o gato nunca comeu?!- Ironizou Puna.

- Yá. A “kindoza”, sem que me desse tempo para reclamar, pegou-me pela mão, quase me arrastando pelo parque de veículos. E lá estava ela com a “kimbundaria” toda bamboleante, ora tudo à direita ora à esquerda, ora cada montículo gemendo no seu lugar como coração que bombeia em alta rotação. Olhando para as calças de malha fina e leve que mal guardavam aqueles volumosos e movediços tubérculos, ficava-se com a impressão de que dentro delas não havia nenhuma guarnição. Nem só já um fio dental para dividir as montanhas e guardar a barragem! - Pensei, mas balbuciei outras coisas.

- Mas papaste ou te papou a massa? – Os amigos cada vez mais afoitos.

- Calmem, vou já chegar ao fim. Ai eu perguntei: você não ligou antes de partir, anunciando a hora de chegada?

- Fiquei sem sardo, moço. Mi leva só, mor da minha vida.

- Sukwama! – Exclamei - Isso agora é que está à “nduta”! Para a minha infelicidade, mesmo com a má-língua ela não percebeu ou fez-se de distraída. Não é que um velhote atento, cachimbo na boca, dizamba na dibala, olhou-nos de soslaio e me abriu o olho?

- Te disse o quê? Que era piteu dele?

- O dikota me falou num quimbundo rebuscado que me ficou gravado no ouvido e no cérebro. - Nza retirou do bolso o papel em que escrevera tal expressão e leu para os amigos: mon'ami, ima ya mundu. Ku itexile kitadi kye. Madimá meniyâ nyi idingo yenyi yand'o bolé!

Spina que é ovimbundu ainda tentou pôr perguntas para entender o que quis alerta o mais velho com aquela expressão, carregada de simbolismos. Na parte baixa do papel, como nota de rodapé, Nza Kutimbe tinha grafado a tradução para português que equivale a:

- São coisas do mundo, não desperdices o teu dinheiro. Esses limões e essas mandiocas - alusão aos seios e à “kimbundaria” -, não tarda, hão-de “apodrecer" - ficam caídos que nem chinelos esquecidos no óbito!

Estalaram copos e garrafas. Assobios também. O sol marcava já os últimos passos. Sol pachorrento que já não queimava sardinha. As mulheres arrumaram as “imbambas” e eles, os homens, meteram-se à estrada para protagonizar outras cenas que trariam no  encontro de sábado seguinte.


Obs: Texto publicado no Semanário Angolense de 20 de Dez 2014.

quinta-feira, novembro 20, 2014

A FAMÍLIA GPS: DONA PAULINA E SEUS DOIS MARIDOS


Nada do que se passava no bairro e arredores era do desconhecimento daquela dupla família. Os filhos andavam todos nas escolas do povo. Gaspar, coveiro na Sant´Ana, trazia dias sim, semanas sempre, as informações mais frescas de quem foi enterrado “congelado ou a quente”. Nomes de finados, biografias, figurantes e até conversas inéditas sobre poligamias e poliandrias praticadas pelos de cujus, ele sabia de cor.
Paulina era enfermeira do Hospital do Prenda e kitandeira em dias de folga. Doentes abastados, com família que conjuga o verbo ter. Doentes pedintes que se alimentavam de restos se sopas de quem podia e tinha. Doentes quase a conjugar o verbo ir, ela sabia de tudo. Na kitanda, outra  praça do ouvir dizer e contar como se estivesse no filme, Paulina era a maior contista. Falava sem tabu nem deontologia sobre as suas experiências hospitalares e sobre coisas que “até mesmo o diabo era capaz de duvidar”.
- Xê, mana Tonha, se mana Paulina está te contar cenas do hospital, é melhor ouvir com uma orelha e esquecer com a outra.
Já viste doente que sai de noite para ir assaltar banco e volta de novo na cadeira de roda? Contou que um dia um senhor, você lhe vê tipo coitado. À noite chegam os comparsas dele e lhe levam na cadeira de rodas até um carro.
- Mas assim lhe levam p´ra quê, Yeta? – Indagou Chica.
- É, Yeta, coisas que mana Paulina conta na praça é só já ouvir. Disse que lhe levavam para ir assaltar os bancos. Quando Judiciária chega e colhe já fotografia dos dedos, é mbora dum doente acamado do hospital. Isso mesmo se acredita?
- Hum!, aceita só já quem quer.
Paulina não só era boa falante como era realista. Dizia-se dona do seu destino e que espera “julgamento só de Deus”. Por isso ela fazia a tripla afectiva com Simão. Velho de Ambrizete que foi corrido pelos filhos sob acusação de feiticismo que nunca se comprovou. A lavra de citrinos que tinha decidiu doar ao sobrinho, filho de sua irmã, obrigando os filhos, que dizia ser apenas de sua mulher, irem trabalhar como assalariados do primo, o seu sobrinho. Acusaram-no “nganga”e deram-lhe "kibetu" até descarregar nojice nas calças. Coitado do velho Miguel saiu daí e encontrou dona Paulina que tinha acabado de chorar o seu homem, Gaspar Kaquarta que foi considerado morto num ataque dos fantoches quando saia dum funeral no Kitexe.
Ali mesmo. Se conheceram na estação dos Caminhos-de-ferro de Malanje. Velho Simão e Mana Paulina, mal se viram, paixão pegou. Amigaram-se. Na casa que Gaspar deixou havia um anexo de pau-a-pique que Velho Gaspar foi reconstruindo com blocos de cimento e areia da rua. Arranjar ripas para zincar o quarto não foi difícil. O emprego de marceneiro permitiu-lhe contacto com uma agência de fazer urnas funerárias e a serração da vila. Fazia os seus caixões e uns “mochos” que vendia às kintandeiras, colegas de Paulina nos dias de folga.
Tudo que fosse sobre compra e encomenda de caixões para pessoas vivas, moribundas ou mortas, o velho Simão sabia e contava também à sua dona e os miúdos, pelos “furutos” da casa aproveitavam também captar umas conversas, nem sempre completas que levavam à rua, aos amigos e vezes tantas aos professores também.
Por sua vez, nas horas em que supunham que os miúdos estivessem já dormitando, “hora do vamos se o galo canta”, os miúdos aproveitavam ligar as suas antenas para ouvir os relatórios diários que Paulina e Simão trocavam, antes do cantar do galo que era num silêncio sepulcral.
Ano e meio depois daquela morte chorada do vizinho Gaspar Kaquarta, homem que facilitava todos os enterros dos vizinhos e parentela, com Paulina já amigada e o kota Simão a dar uma de tio Matoso “lundulou”, o dono de casa reapareceu. Tinha sido raptado pela guerrilha e o seu corpo foi confundido com o de um infeliz companheiro de desgraça que era militar da ODP, também mestiço.
No dia em que o vizinho apareceu, com os olhos dele todos rasgados, o bairro todo se pôs em fuga.
- Vizinho coveiro ressuscitou! – A berraria ecoava por todas as ruas da vila.
- É quê? Vizinho fez quê?
Todos fugiram, até Paulina e os três filhos, menos o velho Simão que continuou na sua cadeira de fitas a enxotar as moscas que saboreavam o sumo da sua ferida na perna.
Como protagonista e vilão dum filme de acção. Cara-a-cara, olho no olho. Gaspar a dizer com o coração “quero entrar, deixa-me entrar”. Velho Simão, apesar da idade, a dizer também, apenas no coração, “aqui, seja quem for, morto ou vivo, aqui não entra”.
O “bilo” silencioso foi de uns cinco minutos. Ninguém disse nada nem fez nada. Ficaram só a se estudarem até             que cada um tirou a mais acertada ilação.
- Você é o pai dos meninos não é? É o Senhor Kaquarta. Então saiba que a notícia que chegou na tua família foi de que o senhor foi abatido. A tua família chorou, fizeram um funeral sem corpo  e, depois do luto nossa mulher me admitiu aqui para cuidar dos meninos. O terceiro está já na barriga. – Explicou Simão.
Gaspar deu-lhe um abraço cheio de energia. Os dois foram abraçados à sombra da figueira que espalhava folhas pelo quintal. Gaspar abriu também seu saco de memórias e foi narrando o que se passou durante o tempo todo e o que pretendia fazer com seu regresso.
- Mano, a vida que nos falta viver é pouco. Casa, você aumentou lá "kabucado". Os filhos você educou lá kabucado e aumentou mais um que está a vir. Se Paulina concordar, podemos viver aqui os três. Ela com os filhos fica na casa grande. O anexo de dois quartos, dividimos, um é teu outro é meu. O resto é conversa de homens crescidos.
O cavalheiros selaram o acordo e quando os ânimos se amainaram, Paulina que fora buscar refúgio em casa de uma colega do hospital regressou com os monas à casa em clima de paz total.
A tripla viveu mais décadas. Paulina ainda pôde dar mais quatro filhos aos maridos que foram se revezando na procriação. Os de Gaspar Kaquarta são clarinhos e com olhos rasgados. Os de Simão Meso ma Nkala são pretinhos como carvão e duma altura que desafia a trepadeira. Juntos os filhos eram seis. Com os pais, a equipa era de nove e tratada carinhosamente por “família GPS”, iniciais de Gaspar, Paulina e Simão, mas também por saberem de tudo o que se passava na Vila da Mata. Os filhos, todos varões, compravam e vendiam informações nas escolas em que estudavam e contavam aos pais. Paulina via e ouvia na Clínica do Prenda e na Praça “Ajuda Marido” e levava para casa, partilhando com os maridos e os filhos. Gaspar que voltara ao seu antigo emprego no campo santo de Sant´Ana, atendia e assistia aos mais diversos funerais e reproduzia as imagens vocais aos de casa.
Simão que fabricava e atendia os compradores de urnas também tinha as informações frescas sobre bairros e ruas onde havia ou haveria "komba" e canjica. Viveram do seu jeito, enfrentando a curiosidade e "mexerequice" duns vizinhos mais inconformados, até que a cova os chamou, um a um.

Nota: Texto escrito para e publicado pelo Semanário Angolense