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sábado, outubro 25, 2014

SOMOS TRI-CAMPEÕES

Jogam neste momento para o campeonato principal de primeira divisão de futebol angolano as duas equipas que lideram o Girabola e separadas por quatro pontos, quando faltarão dois jogos para o fim da corrida.
O Recreativo do Libolo, primeiro com 52 pontos, vence ao ASA por 1-3, ao passo que o Kabuskorp do Palanca, segundo classificado, com 48 pontos, empata no Lubango a um golo.

A terminarem assim os dois jogos, o Libolo abre o champagne e soma o seu terceiro título nacional de futebol.
Faltam pouco menos de dois minutos para o fim dos jogos. Somos campeões?
DAQUI A NADA A RESPOSTA.

quinta-feira, outubro 23, 2014

OS KM DE AVANÇO E A REDACÇÃO DE SANUKA

No Belas, o "kasula" dos municípios da "Ngwimbi", o momento era de festa e trabalho. Festejavam-se os dados do censo que apontavam mais de um milhão de habitantes destronando o Cazenga que afinal não tinha o milhão da fama de muito tempo. Festejava-se com “lambula” e “maluvu” de bordão trazido da Barra do Kwanza, lá pelas bandas onde o bordão e o “cisombe” abundam. Os pescadores vindos da faina distribuíam as kabwenhas para seca e os peixes mais graúdos às tias do “mbijeéé-mbijééé” que se “tombwelavam” aí mesmo. As mais espertinhas passavam a perna às caloiras no negócio madrugador do peixe fresco.
Só no bairro Km 30 é que a conversa era outra, embora sobre o censo ainda. Em quase todas as ruas e ruelas havia discussão sobre “roubo” de terrenos. Uns tinham adquirido espaços de 20m x 20m mas no dia da última medição para início das obras as contas estavam a bater erradas. Só as dos vizinhos madrugadores na construção é que batiam acima do talhão.
- Porra, se “tombwelaste” no meu terreno, assim fica como, vizinho?! – Gaspar não tinha dúvidas. Tinha medido tudo ao pormenor. Até GPS tinha usado.
- Porra não, vizinho. Haja respeito. Eu cheguei primeiro e cuidei do teu terreno. Deixou de ter capim e minhocas. Quarenta centímetros que o meu pedreiro te descontou até foi favor. – Ripostou Kafuxi com a rabugice que lhe é reconhecida no bairro.
Enquanto os kotas trocavam ameaças, mas sem intenção de “gargantear” o pescoço do outro, Sanuka, miúda do bairro que estuda no IGCA, apareceu com o relatório do censo, com as makas da extensão geográfica na boca.
- Tios, estão se dar “kibeto” só porquê se ainda o Estado também se “tombwelou” lá terreno dele?
- Que conversa é essa, menina Sanuka, cuidado que num se brinca com assuntos de Estado. - Alertaram, já amigados, Kafuxi e Gaspar, atentos às folhas que Sanuka exibia. E pareciam autênticas, com carimbo e tudo.
- Sim, vizinhos. Quando chegou a “dipanda” dos africanos, naquela pressa do “tunda mindele”, Angola e seus vizinhos mariscos, zairenses, zambianos e mais tarde os  namibianos eram como o vizinho Gaspar e vizinho Kafuxi. Não tinham colocado muro ainda nos seus quintais e começaram a viver só assim. Filho de vizinho entra na casa do outro e galinha daqui esgravata ali, sem problema nenhum. Até que um dia o vizinho Angola decidiu murar o seu espaço. Assim tipo já o vizinho Kafuxi fez no seu quintal. Levantou o muro e foi fazendo um “kadesconto” aqui, outro acolá. Desbastou a “kamunda” que estava no meio dos dois terrenos e ficou tudo plano. No lado do buraco, meteu lá a terra que era da “kamontanha” e o terreno dele ficou mais largo. Assim fez também o Estado. Como os vizinhos  do mar, do norte, do leste e do sul estavam a demorar pôr os muros, Angola fez depressa e cresceu mais 5445 km2.
- Boquiabertos os vizinhos, não se deram conta da baba a cair, perante a explicação pitoresca mas documentada da nova intelectual do Km30, ao Belas.
- Mas ó Sanuka, não terá sido o GPS que aumentou o terreno do Estado? Não terá sido o "kaputu" que se enganou nas contas da nossa geografia antiga? Não terá sido fruto das dragagens no mar? Olha que temos portos e avenidas costeiras em construção... – Gaspar, entendido em assuntos de GPS, acordou do sono e procurou entender melhor o assunto dos quilómetros de avanço.
- Deixa, vizinho Gaspar, - ripostou Fafuxi - a população passou de sete para vinte e quatro, querias que o terreno encolhesse?
Chamada ao telefone, pelas colegas da escola, Sanuka se desfez dos vizinhos e foi fazer a composição solicitada pelo professor de cartografia. E escreveu:
 
«Camões que em terra de “cawoyos” é rei escreveu “Os Lusíadas”, poesia épica ou epopeia, em que narra factos notáveis, grandiosos de um povo. A literatura costuma apresentar os factos, geralmente,  atribuídos a um herói. Luis de Camões, atribui a epopeia dos Lusíadas ao povo português, representado por Vasco da Gama, o descobridor das Índias Orientais.
Enquanto povo heróico e generoso, os angolanos têm muitas epopeias. Uma delas, e novíssima, tem a ver com a conquista/resgate/recontagem/reconfirmação(?) da extensão do nosso território nacional, onde estamos a fundar a “Pátria Nostra”. Os dados, ainda fresquinhos, do resultado do censo geral da população e habitação de 16 de Maio de 2014, apontam que a extensão de Angola passou dos então conhecidos 1.246.700Km2 para os nada maus 1.252.145 km2, (pág. 07 do Relatório do censo) mais 5445Km2.
Estranho é que a minha festa continua a solo como se 5.445Km2 fossem nada. Já imaginou um terreno desses para uma auto-construção dirigida? Dava até por ter bois, cabritos, galinhas, gansos, patos, e exploração mineral autorizada caso houvesse recursos no seu subsolo. Os vizinhos Gaspar e Kafuxi deixariam de trocar ameaças de morte e praguejamento à família e descendentes.
E continuo a festejar sozinha o aumento da nossa “geografia” ou a confirmação, via GPS, distinta do metro-a-metro da contagem luz-e-tana do antigamente, porque nos falta gente com olhos lince para nos explicar onde e como se conseguiu tamanha proeza.
 Senhor, professor, atendendo ao facto de a extensão do nosso país estar figurada em relatórios e documentos internacionais e ser objecto de estudo das nossas crianças desde a 4ª classe, qualquer alteração desses números devia ser bem explicada e documentada ,já que os novos dados sujeitarão as instituições de ensino e afins a mudarem os manuais.
E, enquanto festejo, vou também colocando perguntas a mim mesma?
- Como foi mesmo que conseguimos os 5445 quilómetros quadrados?
- Foi devido a dragagem do mar? Temos exemplos claros na baia de Luanda e noutros sítios em que se projectam portos de águas profundas.
- Terá sido por "kasumbula" a um vizinho distraído ou que se tinha dado de “viju” quando nós engatinhávamos ainda na tomada das chaves da nossa Angola?
- Terão sido os tugas que nas pelejas com os  franceses, belgas, alemães e ingleses aceitaram um número que lhes era desproporcional?
Pronto. O angolano é “viju” e, doravante, será assim. Se o meu país cresce, e ainda bem que cresceu em terreno e população (essa duplicou a projecção mais pessimista que havia dos 12 milhões), sempre que endireitar o muro do quintal dou uns “kacentímetros” ao lado do vizinho “kimbonzado”, como fez o vizinho Kafuxi com a "kibela" do vizinho Gaspar que está quase a lhe “gargantar”.
Como o censo será de dez em dez anos ou distâncias ainda maiores, as contas serão feitas pelos nossos filhos».
Sanuka terminou a redacção e leu-a em voz alta para colocar as pausas correctas. Lá fora Gaspar e Kafuxi que foram pedir copia da página sete do relatório preliminar, ouviram a composição e não perderam terreno, brindando-a com uma estrondosa salva de palmas, pois ela é boa em redacção.


Obs: texto publicado pelo Semanário Angolense, 21.11.2014.

segunda-feira, outubro 20, 2014

O DOTOR WALENDE

Pedra Escrita, 10 de Janeiro de 1981. Vivia-se ainda um tempo calmo no campo militar por aquelas paragens.
Os estrondos de canhões eram para a miudagem do meu tempo contos de fada. De guerra com corpos despedaçados, os mais velhos tinham já vagas lembranças dos dias longos que levaram o país à ”dipanda” e doutros mais funestos que se seguiram ao hastear da bandeira, uma “trungungada” já entre nós, os “mambundu”, que caídos nas intrujices dos guerreadores-frios do oriente e ocidente que, procurando por estender as suas zonas de influência nos novos Estados sem colonos, nos levaram a nos “balasiarmos” sem aparente causa profunda.
Minas que se falavam naquele tempo e naquela região eram apenas as que os prospectores marcaram nas suas aventuras pelas montanhas e savanas, procurando pelo que a natureza encobre aos homens. Minas de ferro, de cobre, de diamantes no Musende, etc. Essas sim, levavam os “pioneiros” a sonharem com o dia em que se tornariam engenheiro de verdade e não como o Mam-Belé, da Munenga, que anda com as mãos sempre pretas de óleos descartados dos tractores agrícolas.
Na fazenda Israel, rebaptizada por Hoji-ya-Henda, ainda se viam homens andando de lado a lado, de campo a campo, capinando ou levando “imbambas”. Viam-se também tractores, desbravando florestas, charruando e gradeando a terra. E floriam milherais, girassóis, tangerineiras e laranjeiras. Floriam ainda mamoeiros, bananeiras. Até jovens e adolescentes floriam e a beleza era com eles.
As mulheres “amigadas” entregavam-se às lavras familiares, enquanto os homens aguentavam a “tonga” a troco de uns Kwanzas que sobravam para comprar o inexistente nas lojas do povo. Aos sábados e domingos, dias de descanso na fazenda, os homens, as crianças e os adolescentes da escola auxiliavam as mulheres e mamãs nos trabalhos campestres familiares, donde provinha o “mbolo ya kizwa” de todos os anos.
Enquanto as bananas da fazenda satisfaziam o estômago carente de fruta, a banana dondí das propriedades familiares, depois de fermentada com sumo de “muxiri” ou “mbundi” e destilada, dava azo a voos cósmicos àqueles que da sua condensada bebida se tornavam artistas. Kyama Ngulu era um deles.
Não tinha mulher, nem lavra, nem filhos. Trabalhava de campo em campo a troco de comida imediata e trocos para uns copos num alambique qualquer. Quando a moda da “doutoromania” se alastrou por aquelas “bandas”, o povo começou a “doutorar e enginheirar” todos aqueles que se apresentassem como exímios artistas nos seus afazeres.
António Xico era o “dotor catana”. Tão grande era a sua perícia em roçar a roça que desafiava as capinadeira mecânica da fazenda. Xika Yangu era o “dotor volanti”. Dizia-se mesmo que “tractorava” com os olhos fechados até em noites sem luar nem estrelas iluminantes. Narciso era “dotor capataz”. Dele ninguém se ausentava sem licença. Dizia-se que o “dotor capataz” tinha olhos e ouvidos de gato, capaz de ver e ouvir em noite escura e barulhenta. O Mam-Belé era o “inginhero” da aldeia e da fazenda. A manutenção de todas as máquinas e equipamentos mecânicos passava por ele. Kyama Ngulu também tinha o seu título. Não era um homem qualquer. Era dos que mais chamavam a atenção dos visitantes àquele bairro. Ou pelo seu estado emporcalhado ou pelo seu “darcensa”, sempre que se dirigisse a uma cozinha para pedir lume ou uma “kabwenha” para o almoço. Se vivesse até hoje, dir-se-ia mesmo que Kyama Ngulu se tinha licenciado por auto-didactismo em ingestão de bebidas alcoólicas tradicionais africanas. Daí o nome de “dotor Walende” lhe ter servido como chave certa na fechadura.
Kyama ngulu não era apenas um copofónico. Era também um filósofo de bairro. Nos óbitos, em que era figura omnipresente, costumava levar os “dikotas” da região a minutos de reflexão e busca de respostas quase sempre difíceis.
- Por que se lavam os mortos, se vão a enterrar?
- Por que se lavam as toalhas de banho, se os seus donos as usam depois de se lavarem?
- Por que se vestem os finados com a melhor roupa existente ou se compram fatos caros, se vestido e vestes vão a enterrar e a apodrecer?
- Por que se enterram os ricos com fios de ouro, pedras de diamantes e, às vezes, acompanhados de whisky caro, se deles não fazem usufruto?
- Assim, se um gajo desenterrar o rico para aproveitar o que os familiares deitam fora, é bruxaria?
Essas eram as perguntas de Kyama Ngulu que nem sempre encontravam respostas, mesmo por parte dos “makotas” mais bem servidos de experiência e inteligência.
“Dotor Walende” viveu a sua vida entre trabalho tarefeiro, copos, algumas roubalheiras de pouca fartura e surras à mistura quando apanhado com a “boca na botija”. O soba já o tinha julgado “ene” vezes e passou a ser um “réu permanente e entregue à justiça pública”. Até mesmo a polícia da Munenga tinha “desconseguido metê-lo na linha”. Vezes tantas tinha varrido a esquadra e a zona contígua à administração comunal, sem que dele surgisse o arrependimento ou o endireitamento de conduta.
Não o vi partir, mas conta-se, ainda até hoje, que a sua morte foi das mais choradas naquela aldeia libolense. A fama do “Dotor Walende” replica-se aos que vão nascendo, mesmo não se vendo mais a campa que guarda as suas lembranças. É o nome que se atribui a todos que seguem o seu caminho.
As mulheres, viúvas e solteiras, enfeitaram com flores nativas a estrada EN-210, que corta a aldeia em dois quarteirões, e as ruelas interiores da localidade. As moças tinham viajado ao Ndondo e Kalulu para tratar do cabelo, unhas postiças e comprar adornos. Os homens fizeram uma contribuição para enterrar de forma honrosa o seu companheiro de todos os dias, meses e anos.
“Dotor Walende” ou “kawalende” era chato mas útil para a comunidade. Era “mantenedor” de muitas coisas. Amores esfriados ou inexistentes ele atendia a troco de “walende” ou algum manjar. Corte de capim para reforçar a cobertura das casas, fabrico de adobes, derrube de árvores nas lavras (o que mais o chateava), acompanhamento dos meninos à escola, tudo era obra para o “Dotor Walende”. Até para “porradar” outros gatunos, ele era o primeiro na fila. Por isso, os homens fizeram uma contribuição ordenada pelo soba. Cabritos, vinho, “walende”, canjica e até gira-discos havia. Só não compraram urna funerária para não terem de matar árvores, o que o finado detestava. Também não compraram roupa nova. Apenas lavaram a rota que ele usava, cumprindo com a sua filosofia.
Por cima da sua tumba, uma lápide foi colocada e ali permaneceu até que a guerra pós-eleitoral levou aquelas gentes para muito longe de suas “libatas”, não se sabendo quem se terá acaparado do letreiro.
 
“Aqui jazz o dotor Walende, homem ímpar em todos os tempos”, lia-se.

Obs: texto publicado pelo Semanário Angolense.

quarta-feira, outubro 15, 2014

A MINHA FÉ NA CULTURA

A língua é um dos principais elementos identitários de um povo, estando por isso intrínseco à sua cultura.
Apesar disso, as línguas de origem africana (bantu) sofreram ao longo do último século um ostracismo que as remeteu ao fundo do quintal, ou seja, elas passaram a ser utilizadas apenas nas áreas rurais, e nos subúrbios das cidades ou em conversas privadas, redundando em perda de identidade.
Tal postura, também herdada pelas novas autoridades angolanas emanadas do processo de independência nacional teve alguns fundamentos:
1º Em 1921, Norton de Matos, Governador português de Angola, exarou o decreto nº 77, nº 5 primeira série, de nove de Dezembro, que estipulava, no seu ponto 3, a obrigatoriedade, em qualquer missão cristã, o ensino da Língua Portuguesa. Rezava ainda o decreto, nos pontos adiantes, a vedação do ensino em línguas estrangeiras bem como a proibição (artigos 2 e 3) do ensino das línguas locais. “Não é permitido ensinar nas escolas de qualquer missão, línguas indígenas, sendo as línguas indígenas permitidas apenas catequese”.
2º O “Estatuto dos indígenas das Províncias da Guiné, Angola e Moçambique” adoptado pelas autoridades coloniais (Decreto-lei de 20 de Maio de 1954) que visava a "assimilação" dos nativos africanos na cultura lusitana, foi outra arma contra a locução e ensino das línguas nativas no território da então colónia de Angola, uma vez que para se chegar à categoria de “cidadão português de terceira” ou assimilado, o nativo teria de abdicar de práticas animistas, não se comunicar, em momento algum, em língua nativa e adoptar os hábitos e cultura lusitana. Isso levou, até há bem pouco tempo, que determinadas famílias abdicassem de usar as línguas nativas e, inclusive, proibir os filhos de as aprender.
3º A unidade do povo para a luta contra a presença colonial exigia uma identidade e uma língua comum entre todos os patriotas. Essa necessidade fez com que, naquelas circunstâncias, os Movimentos de Libertação Nacional adoptassem a língua herdada portuguesa (comum a todos) para mobilizar o povo para a luta e projecção de uma Nação que se revisse num instrumento de comunicação geral.

4º Alcançada a independência, embora se tenha reconhecido nas Lei Constitucional o respeito e valorização das Línguas Nacionais, foi a língua herdada da colonização que ganhou o estatuto de idioma principal, relegando para papel secundário as dezenas de outras línguas que se falam no país.

Entretanto, apesar de vilipendiadas ao longo do tempo, as línguas africanas faladas no espaço territorial de Angola não morreram. Elas persistem e vão cada vez mais, buscando o seu merecido lugar. É desta forma que um número, ainda reduzido, de “angolenses” se vai batendo pela valorização e ensino das mesmas, levando-as, inclusive, à literatura, não apenas na transcrição gráfica dos fonemas mas também obedecendo aos instrumentos reguladores das mesmas, como os alfabetos convencionados nacional e internacionalmente.
Olhando para o FENACULT (Festival Nacional de Cultura) decorrido de 31 de Agosto a 20 de Setembro de 2014, dois aspectos configuraram-se transcendentais e aumentaram a minha fé de que um dos elementos primordiais da nossa cultura, as línguas nativas de origem bantu, venham a ter o reconhecimento e valor que encerram para os povos que habitam Angola.

Reunidos na província do Kwandu-Kuvangu (Cuando Cubango, segundo a grafia ressuscitada pelo Ministério da Administração do Território e fornecida aos media públicos), cento e setenta delegados ao V encontro de Línguas Nacionais recomendaram “a necessidade dos topónimos de origem africana serem escritos de acordo com a grafia bantu estabelecida pelo A.F.I. (Alfabeto Fonético Internacional)” e demais convenções do CICIBA (centro de Estudos da Civilização Bantu).
As direcções provinciais da Cultura, segundo os presentes, “devem aprofundar os estudos sobre o mapeamento linguístico das suas províncias, com a supervisão do Instituto de Línguas Nacionais, bem como estabelecer uma parceria técnico-científica com instituições nacionais e estrangeiras afins”.
A esse encontro seguiram-se declarações, não menos importantes, da titular da pasta da Cultura que afirmou, na cerimónia de abertura do III Congresso Internacional de Língua Portuguesa, (19 Outubro) que “Sem qualquer mácula, deve permanecer o diálogo, já que a diversidade linguística do país constitui a sua grande riqueza na validade e diversidade cultural”.
As afirmações da Ministra Rosa Cruz e Silva surgem quase que como resposta ao que um pequeno grupo de angolenses vem escrevendo desde que o MAT orientou a alteração da grafia, na media pública, de alguns topónimos angolanos. O discurso da Ministra vem, a meu ver, conferir uma abordagem mais responsável e equilibrada sobre um assunto que não foi encarado com a seriedade necessária, tratando-se de uma questão que mexe com um bom punhado de angolanos, alguns com e outros sem voz audível. É o “vamos conversar que chegaremos a meio termo sem ‘trunguguismos’ a que sempre fomos, eu incluído, apelando em vários escritos nas redes sociais”.

A 26 de Fevereiro de 2014, o Jornal de Angola estampava que “o Ministério da Administração do Território vai levar ao Parlamento, para debate e provável aprovação, uma proposta de Projecto de Lei sobre as denominações das províncias, localidades e municípios do país que está a ser preparada”. Lia-se ainda na notícia que “Bornito de Sousa esclareceu que o seu Ministério vai adoptar novas grafias para algumas províncias, tendo exemplificado a retirada da letra “K” e a introdução do “C”, algo que já se observa nas designações usadas pela media, sobretudo a pública, em cumprimento a uma orientação daquele Departamento Ministerial enviado às redacções e que se baseia em “uma Portaria de 1971, de 12 de Fevereiro, sobre a Divisão Administrativa e Toponímia da então Província Ultramarina de Angola”. Se tal exercício “visou a realização do censo”, é importante que o bom senso e o diálogo prevaleça e que os alfabetos convencionados pelo nosso Governo, através da Resolução 3/87 de 23 de Maio, do Conselho da República sejam aplicados nas designações das nossas circunscrições.

Os topónimos e antropónimos de origem bantu não são meras designações. Encerram sentidos e conotações semânticas que devem ser respeitados tanto na grafia quanto na articulação fonética para que designem aquilo que foi projectado. Não é certo, por exemplo que se diga “Canjala” (relativo à fome) quando se pretende dizer é “Kanjala” (pequena fome), ou Canhanga em vez de Kanhanga, que não são a mesma coisa.

É por essa e outras razões digo: “não há bota, por mais suja e pesada que seja, que vá aniquilar as nossas línguas e a nossa identidade cultural, secular”. É por isso que mantenho a minha Fé na Cultura!

Obs: Texto publicado pelo Semanário Angolense na rubrica "Aplausos e muxoxos"

sexta-feira, outubro 10, 2014

NALL TEM NOVA DIRECÇÃO

ANGOP: 04.10.2014

Lunda Sul: Núcleo de Amigos da Leitura com novos corpos gerentes

Saurimo- Os novos membros que integram os órgãos directivos do Núcleo de Amigos de Literatura, na Lunda Sul, tomaram posse sexta-feira, tendo como Presidente da Assembleia Geral, Luciano Canhanga.

Para presidente do Conselho Directivo foi empossado Guilson Satxingo, coadjuvado por Alves Chaxe, enquanto a pasta de secretário geral ficou com Alfredo Lologi.
Ruth Limata responde pela pasta das Finanças, sendo Fábio Pedro para a Informação e Intercâmbio, e Celestino Cussecala, como secretário para Eventos e Recreação.
O Conselho Fiscal é presidido por Brigitte Caferro e tem como vogais Domingos Rodrigues e Vivi da Cruz.
Os novos responsáveis do Núcleo comprometeram-se em tudo fazer para dinamizar as actividades da instituição.O Núcleo de Amigos da Leitura e Literatura é uma associação apartidária, sem fins lucrativos e tem como finalidade promover e incentivar as crianças, adolescentes e jovens à prática de leitura. A mesma promove debates e escrita criativa nas escolas e comunidades, para além de outras acções afins.  

domingo, outubro 05, 2014

O MEU TIO, O PASTOR E O GREGO DO "SETE & MEIO"

Depois de a “Classe de Kwanza-Sul” se ter emancipado do cargo de Kalemba, eu era o centro da disputa ao domingo, entre o casal que me adoptara para criação.

Órfão aos oito anos e deslocado de guerra, aliás, “recuados”, era esse o vocábulo dos anos 80 do século XX que designava aqueles que tinham abandonado suas terras de nascimento em busca de protecção nas cidades controladas pelas forças governamentais, no tempo da República popular de Angola, eu era árvore de caule flexível e que não resistia ao vento.
Explicando os termos: Classe é um espaço de culto entre os Metodistas Unidos, onde realizam encontros matutinos ou nocturnos, ao longo da semana. Cada membro da Igreja Metodista Unida frequenta, normalmente a classe do seu bairro.

De Maio de 1972 a Julho de 1983, um grupo numeroso de kwanza-sulinos residentes em Luanda e seus descendentes que tinham frequentado vários templos Metodistas da capital decidiram em fundar a sua classe que anos mais tarde veriam ascender à categoria de cargo ou “Igreja” como designam os locais de culto ao domingo. Entre eles havia também alguns malanjinos, kwanza-nortenhos e outros provenientes do centro norte e centro sul. Porém, os “kikís”, como são designados na intimidade os kibalistas e seus conterrâneos do Kwanza-Sul, eram a maioria. Se calhar, daí o nome “Classe Kwanza-Sul” não ter enfrentado resistência.
A "Classe Kwanza-Sul" subordinava-se à “Igreja”(templo) de Kalemba, que fica nas traseiras do cemitério de Sant’ Ana, ao Kilamba Kiaxi. Em 1983, a Classe emancipou-se, separando em termos de frequência dominical o casal que me tinha como tutores. Ele, também um kwanza-sulino, preferiu continuar na Kalemba onde tinha amigos e próximo da casa da filha. Na “igreja de Kalemba os ovimbundu e ambundu do centro estavam em maioria, embora lá cultuassem também catetenses, como a família da minha contemporânea Luzia Mateus Pedro. Ela, a esposa do meu tio, decidiu frequentar a novel “igreja” que ficou baptizada com o nome do profeta que levou os escravos israelitas do Egipto à terra prometida de Israel, Moisés. Como quem dá de beber e de comer aos filhos é a mãe, tive de segui-la e recorrer ao tio apenas para os conselhos e o dinheiro para o ofertório. Aliás, ele fazia questão de dar-mo todas as manhãs de domingo, antes da nossa separação de casa.

A caminho da igreja eu e a tia seguíamos caminhos distintos. Ela ia com as suas amigas da Classe, e eu com os meus kambas da EBF (Escola Bíblica de Férias) e do Pavilhão Infantil. O regresso é que era comum, devido as compras, à porta do Supermercado Nzala Ikola ou nas bancadas da Praça das Corridas, hoje conhecida apenas por Praça do Tunga Ngó.
Num domingo em que a tia não fora à Igreja, por razões que a memória se encarregou de apagar, caminhava em direcção à Moisés, com os meus amigos, quando, a metros do Nzamba-1, nos deparamos com gente reunida à volta de um homem que falava sem cessar. Havia muita gente. Uns eram devotos e outros meros curiosos como nós que paramos para ver e depois contar aos ausentes. Uns sentados e outros em pé. Era uma nova confissão religiosa e um pastor muito eloquente. Daqueles que o meu amigo Murtala satirizou em música por “pastor murras”. O homem tinha sobre o púlpito um livro “Verbo Divino” que coincidia com a sua verborreia. E todos o ouviam, até os que se dirigiam ou saiam de outras “ngelús” bebiam e comiam um “koxitu” daquele sermão que aos cristãos mais treinados lembrava o Sermão do Monte, proferido pelo nazareno coroado Rei Celestial.

O “pastor murras” falava sobre o comportamento dum bom crente da sua igreja que “deve dar a face esquerda depois de apanhar uma valente galheta na face direita”. E continuava ele:
- Irmãos e irmãs, fui enviado pelo nosso pai, tal qual foram enviados os profetas da antiguidade. Um bom cristão tem de saber perdoar…

Os seus ouvintes seguiam-no atentos e, entre ligeiras pausas, recebia aplausos e assobios dos que se mostravam contentes, até que um “grego” do Sete e Meio irrompeu dentre a multidão com um “é mentira”!
Empolgado, “o pastor murras” esqueceu-se da pregação e soltou um veemente “vai para o carvalho, seu bandido!”

Foi a dispersão total dos que seguiam e se sentiam empolgados com aquele parlatório. Dos aplausos, passou a receber mixoxu de meio mundo.
Felizmente chegamos a tempo ao nosso Pavilhão Infantil para cantar o “kasanje-kasanje” do tio Farias, “Margarida Morena” da mana Cândida ou “o elefante que incomoda muita gente”.

De regresso à casa, aguardei pelo tio que chegava às duas da tarde e informei-o sobre os dislates dum pastor, seguido de perguntas “se pastor que é quase deus também ofende”.
- Como assim, sobrinho? No Kwanza-Sul o vosso pastor mordeu a língua?

- Não tio. Foi um pastor de rua que respondeu a um grego do Sete e Meio com um duro palavrão.
- Ai é? - O ancião procurou por palavras conciliadoras para “lozar” o seu conselho habitual, sem ter de desprestigiar o homem do verbo fácil, nem desencorajar-me de ouvir a palavra sagrada.
- Meu sobrinho, faz sempre o que te digo, mas nem sempre o que faço. O diabo está sempre á espreita e o tio ou o pastor pode errar. Aliás, não foi o pastor quem ofendeu o grego. Foi diabo quem se serviu de sua boca!
 
Obs: Escrito para e publicado pelo Semanário Angolense

quarta-feira, outubro 01, 2014

A BANHEIRA E A BACIA

- Amiga chega na minha banheira. Tem feijão, tem vassoura, tem chouriço, tem jimboa, tem alho, tem tudo.
A zungueira percorre Luanda de lês a lês com o megafone que manda para os ventos soltos o pregão do costume. E correm as donas de casa, correm as empregadas domésticas para Pará-la e comprar o que interessa.

- Joana, enche a banheira para lavar os pratos. – Berta ordenou, já noite, à filha.
Quer o recipiente em que ela carrega os produtos que vende, quer o recipiente em que se lava a loiça (onde não haja lavatório ou pia para os brasileiros) são bacias e não banheira.

- Jojó, me dá o “barde” e o “apá” do lixo. – Pediu Isabel ao filho para acrescentar: - "Quando estávamos a vir, “se demos encontro” com a prima Maria que foi “na” praça do “Adorfo” vender makayabu. Se estás a ir "no" rio Luzia,  pega "na" Jaja e “lhe traz” já na mãe dela que foi lavar roupa".
- Mamã, "mi" dá só aquela mochila. É muita coisa à frete de "me".- Respondeu o filho.
 Variadíssimas vezes ouvimos expressões como essas. Alguns dos oradores ou redactores são universitários que não deixam de receber críticas pela forma como "vilipendiam" a oratória e a escrita da Língua Portuguesa. Às vezes, fico com a sensação de que desaprendi a escrever. É tanta "bujarda" que me chega aos olhos e outras tantas vezes aos ouvidos.
 "Os médicos enterram seus erros. Os juízes aprisionam-nos. Os que escrevem expõem-nos", dizia um filósofo clássico.
Pior ainda quando o conteúdo que se quer transmitir, sobretudo nas redes sociais, vale menos do que o texto. Para quê se expor e "manchar" a banga toda? Por que não colocar apenas um  "like" nos textos encontrados nos murais do face book, a atrever-se a escrever palavras cuja ortografia não domina?
 “Se uns exibem as barrigas, há os que exibem os narizes e outros mambos. Outros ainda decidem exibir os seus ‘descompassos’ com a língua escrita. Esses precisam de exercícios. Os da barriga fazem abdominais e talvez lá cheguem. Os dos narizes fazem cirurgias e talvez fiquem menos narigudos. Os dos textos que revelam o seu questionável nível de instrução (não estou a falar de diplomas, porque estes até no Pau Grande tiram-se), devem mesmo voltar à escola para aprender a não ferir sensibilidades alheias. É tanta pedrada junta que um dia desarrumam o mundo!”
Escrever bem é difícil mas aprende-se. Leia muito. Pratique  a escrita normativa (fora dos clichés e abreviaturas do face book), faça cópias de livros bem escritos. Só quem lê passa a conhecer as palavras e a escrevê-las correctamente.
Não será bom que o seu empregador se aperceba de lacunas graves em questões básicas de escrita, interpretação e expressão oral.
É a falar que se aprende a falar. Leia sempre em voz alta para aperfeiçoar esse lado.

Obs: Texto publicado no Semanário Angolense.