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terça-feira, novembro 25, 2014

WOMA DA OMA E A CHEGADA DO GABIRÚ


(Nza Kutimbe na área)
 
Na chamada "barraca das unhas", para as tias, e manicure, para as moças do bairro, homens e mulheres contavam cenas para ver o tempo passar, enquanto aguardavam pela sua vez. Às sextas e sábados é que Miquilina mais enchia a algibeira. Homens bem vestidos mas que bebem "birra" na rua e comem pincho da pracinha também iam à sua bancada limar e envernizar as unhas. As mamãs eram já fregueses de costume e sábado era dia delas, levando para aquele recinto cenas várias sobre os mais pictorescos episódios da cidade, algumas mesmo de arrancar cabelos ou comer as unhas.

- Woma de agora já não é a mesma do antigamente, quando tinha "competências" para julgar, condenar os homens faltosos e “porradá-los” competentemente até se mijarem nas calças. - Dizia uma mulher convencida dos seus argumentos.

- Sim, man´Ana. - Respondeu a companheira. - As mamãs da Woma de hoje já não sabem “porradar” e parece que também tem Woma.

A conversa entre as duas “quitandeiras” do Tunga Ngó ia longe. Estavam há já meia hora na barraca das unhas como chamavam aquele salão improvisado com panos amarrados sobre paus implantados no solo másculo do Rangel.

Desde manhã que a conversa era sobre os dislates dos filhos, as vírgulas dos maridos que deixavam grande parte do ordenado nos becos e nas roulottes e sobre as vírgulas de umas senhoras que nas igrejas desafiavam a santidade das “santas de argila”. As mulheres “fwefwenhavam” conversas sobre filhos e maridos ou homens de ocasião, enquanto do lado masculino eram carros, viagens, mboas de esquina, negócios chorudos de “kumbú, pinchos regados com birras e “pomadas suculentas” que embelezavam as bocas em conversas de “só para entreter”.

- Mana, isso de ir queixar, pequena coisa se queixa, pequena coisa se queixa, há “arguém” que tiro lhe saiu pela culatra.- Atirou Miquilina que se manteve ausente da conversa por largo tempo.

- Como é ansim, Miqui?- A pergunta de Ana e Kina foi rajada curta.

- Ontem mesmo me contaram quando fomos receber "ningócio" que uma "cavalona" que era "a oficial" foi se queixar do marido que a enchia de presentes e “kumbú”, mas que pouco ou nada aquecia a cama.

- Mamã da woma, o gajo virou galo e, ainda por cima, mesmo para a migalha, é preciso lhe implorar ou lhe pôr chicote por cima. Isso se faz? - Queixou-se.

- Nada, mana. Isso é azar!- Responderam, quase a fazer um coro. E a conversa continuou.

- Ora a tia da woma pergunta, ora ela lhe "arresponde". – Miquilina faz um discurso indirecto livre como se fosse a protagonista da queixa à woma. E prossegue:

- Mas conta, Camarada. - Mamã da woma estava curiosa. - Ele falta com a assistência material?

- Dinheiro ele dá. Carro, quando estraga, manda arranjar.

- Escola para os filhos paga? - Indagou, já com alguma inveja camuflada, a instrutora processual.

- Sim. Até cursos para mim ele me dá. É só mesmo na "hora do vamos ver" que ou não vem ou o galo não canta. A inspectora da woma ainda perguntou: - Mas só isso mesmo?

- Sim, camarada woma. É só mesmo isso que não é pouco. Pessoa fica já com aas vontade e ele não vem pagar dízimo? Estou farta. Se ele não mudar, deixa de ir “na” minha casa ou vou "sengar" nos môs pais. - Ok, mamã. Vamos já tratar disso. Dá-me telefone dele e vamos chama-lo para tratar do assunto.

- Ai mesmo foi já engano da tia cavalona. Não fica mbora só no teu canto, não! Foi entregar o "oro" à bandida. Não é que a instrutora do caso ficou com o "coiso da outra", no mês e meio mais tarde?

Algumas titias da woma não têm mesmo woma! - Rematou a narradora, buscando assobios das companheiras que entornaram umas birras e “kisângwa” para sessegar o calor de um meio-dia abrileno.

Puna e Spina que se lambuzavam com uns pinchos de porco se mantiveram calados perante aquela cena da porrada e das queixas à woma que também estava cheia de woma, no dizer das próprias queixosas. Aguardavam pelo amigo Nza Kutimbe que estava a terminar uns “pentes” para o fim-de-semana com os kambas na “maratona”.

- Cheguei!- Era a voz dele. Não se passaram sequer dez minutos.

Nza fez-se anunciar pomposamente, depois de estacionar o carro, “zero quilómetro”, conseguido numas negociatas com estrangeiros com residência ilegal.

 

- Nza Kutimbe na área. Agora é que a coisa vai aquecer.- Disseram os convivas, mulheres da barraca incluídas.

- Sim, avilos. Trago cenas quentes. Na verdade não sei se a quem pertenceu a iniciativa. Se a mim ou a ela. O homem das Lundas começou a contar. - Desci do avião e cheguei à “gwimbi”.

- Sim, conta rápido que já não me sobram unhas de tanta curiosidade. Daqui a nada como também os dedos, disse Puna.

- Yá, - continuou Nza Kutimbe - porta do aeroporto escancarada. Fome, saudade e vontade, tudo à mistura. “Munzúbia” lá de casa e os “kanukus” a me esperar saudosos. Vontade era lhes dizer também "cheguei" mas não o fiz. Não pude. Nem tempo tive para sorver ar que chegasse para uma boa exclamação.

- Como assim? - Entreolharam-se os amigos cada vez mais expectantes.

Yá, - continuou - mal recebi a chave do “boter”, das mãos do colega de serviço, uma “belezura” vinha em minha direcção com os seios todos trepidantes e à mostra. Aquilo faria apanhar convulsão a quem já sofresse de hipertensão.

- Mas papaste ou foste papado. Estou já a ver as letras na tua cara a denunciarem que caíste numa armadilha. É ou não é? – Interrogou Spina revezando-se nos questionamentos com Puna.

Nza, apesar do “fogo amigo”, mantinha-se sereno e ia desembrulhando a conversa aos bocados. Parecia ter preguiça na articulação das palavras, ao mesmo tempo que enchia os amigos, já nada pacientes, de mais curiosidade quanto ao desfecho da trama.

- Yá, - prosseguiu - como se me conhecesse há já longa data, a moça deu-me dois beijos, seguidos de um apertado abraço, e disparou apressada no seu pretuguês que denunciava mais pinturas do que carteira.

- Moço, também cheguei agora mesmo de viaji. Minhas coisas estão aí. Vucê me podes dar só uma boleia até à casa das mizamigas?

Fiquei a gaguejar. Palavras todas se escapuliram.

- Sem mais nem menos, é já assim? – Questionaram os amigos.

- Notem que fiz a mesma pergunta embora não a tivesse dado voz.

- E se a "mamã grande" viesse me apanhar como é que isso ia ficar? – Spina a pôr lenha na fervura e a panela de Nza a não querer ferver.

- Avilo, ias pagar pagar pelo peixe que até o gato nunca comeu?!- Ironizou Puna.

- Yá. A “kindoza”, sem que me desse tempo para reclamar, pegou-me pela mão, quase me arrastando pelo parque de veículos. E lá estava ela com a “kimbundaria” toda bamboleante, ora tudo à direita ora à esquerda, ora cada montículo gemendo no seu lugar como coração que bombeia em alta rotação. Olhando para as calças de malha fina e leve que mal guardavam aqueles volumosos e movediços tubérculos, ficava-se com a impressão de que dentro delas não havia nenhuma guarnição. Nem só já um fio dental para dividir as montanhas e guardar a barragem! - Pensei, mas balbuciei outras coisas.

- Mas papaste ou te papou a massa? – Os amigos cada vez mais afoitos.

- Calmem, vou já chegar ao fim. Ai eu perguntei: você não ligou antes de partir, anunciando a hora de chegada?

- Fiquei sem sardo, moço. Mi leva só, mor da minha vida.

- Sukwama! – Exclamei - Isso agora é que está à “nduta”! Para a minha infelicidade, mesmo com a má-língua ela não percebeu ou fez-se de distraída. Não é que um velhote atento, cachimbo na boca, dizamba na dibala, olhou-nos de soslaio e me abriu o olho?

- Te disse o quê? Que era piteu dele?

- O dikota me falou num quimbundo rebuscado que me ficou gravado no ouvido e no cérebro. - Nza retirou do bolso o papel em que escrevera tal expressão e leu para os amigos: mon'ami, ima ya mundu. Ku itexile kitadi kye. Madimá meniyâ nyi idingo yenyi yand'o bolé!

Spina que é ovimbundu ainda tentou pôr perguntas para entender o que quis alerta o mais velho com aquela expressão, carregada de simbolismos. Na parte baixa do papel, como nota de rodapé, Nza Kutimbe tinha grafado a tradução para português que equivale a:

- São coisas do mundo, não desperdices o teu dinheiro. Esses limões e essas mandiocas - alusão aos seios e à “kimbundaria” -, não tarda, hão-de “apodrecer" - ficam caídos que nem chinelos esquecidos no óbito!

Estalaram copos e garrafas. Assobios também. O sol marcava já os últimos passos. Sol pachorrento que já não queimava sardinha. As mulheres arrumaram as “imbambas” e eles, os homens, meteram-se à estrada para protagonizar outras cenas que trariam no  encontro de sábado seguinte.


Obs: Texto publicado no Semanário Angolense de 20 de Dez 2014.

quinta-feira, novembro 20, 2014

A FAMÍLIA GPS: DONA PAULINA E SEUS DOIS MARIDOS


Nada do que se passava no bairro e arredores era do desconhecimento daquela dupla família. Os filhos andavam todos nas escolas do povo. Gaspar, coveiro na Sant´Ana, trazia dias sim, semanas sempre, as informações mais frescas de quem foi enterrado “congelado ou a quente”. Nomes de finados, biografias, figurantes e até conversas inéditas sobre poligamias e poliandrias praticadas pelos de cujus, ele sabia de cor.
Paulina era enfermeira do Hospital do Prenda e kitandeira em dias de folga. Doentes abastados, com família que conjuga o verbo ter. Doentes pedintes que se alimentavam de restos se sopas de quem podia e tinha. Doentes quase a conjugar o verbo ir, ela sabia de tudo. Na kitanda, outra  praça do ouvir dizer e contar como se estivesse no filme, Paulina era a maior contista. Falava sem tabu nem deontologia sobre as suas experiências hospitalares e sobre coisas que “até mesmo o diabo era capaz de duvidar”.
- Xê, mana Tonha, se mana Paulina está te contar cenas do hospital, é melhor ouvir com uma orelha e esquecer com a outra.
Já viste doente que sai de noite para ir assaltar banco e volta de novo na cadeira de roda? Contou que um dia um senhor, você lhe vê tipo coitado. À noite chegam os comparsas dele e lhe levam na cadeira de rodas até um carro.
- Mas assim lhe levam p´ra quê, Yeta? – Indagou Chica.
- É, Yeta, coisas que mana Paulina conta na praça é só já ouvir. Disse que lhe levavam para ir assaltar os bancos. Quando Judiciária chega e colhe já fotografia dos dedos, é mbora dum doente acamado do hospital. Isso mesmo se acredita?
- Hum!, aceita só já quem quer.
Paulina não só era boa falante como era realista. Dizia-se dona do seu destino e que espera “julgamento só de Deus”. Por isso ela fazia a tripla afectiva com Simão. Velho de Ambrizete que foi corrido pelos filhos sob acusação de feiticismo que nunca se comprovou. A lavra de citrinos que tinha decidiu doar ao sobrinho, filho de sua irmã, obrigando os filhos, que dizia ser apenas de sua mulher, irem trabalhar como assalariados do primo, o seu sobrinho. Acusaram-no “nganga”e deram-lhe "kibetu" até descarregar nojice nas calças. Coitado do velho Miguel saiu daí e encontrou dona Paulina que tinha acabado de chorar o seu homem, Gaspar Kaquarta que foi considerado morto num ataque dos fantoches quando saia dum funeral no Kitexe.
Ali mesmo. Se conheceram na estação dos Caminhos-de-ferro de Malanje. Velho Simão e Mana Paulina, mal se viram, paixão pegou. Amigaram-se. Na casa que Gaspar deixou havia um anexo de pau-a-pique que Velho Gaspar foi reconstruindo com blocos de cimento e areia da rua. Arranjar ripas para zincar o quarto não foi difícil. O emprego de marceneiro permitiu-lhe contacto com uma agência de fazer urnas funerárias e a serração da vila. Fazia os seus caixões e uns “mochos” que vendia às kintandeiras, colegas de Paulina nos dias de folga.
Tudo que fosse sobre compra e encomenda de caixões para pessoas vivas, moribundas ou mortas, o velho Simão sabia e contava também à sua dona e os miúdos, pelos “furutos” da casa aproveitavam também captar umas conversas, nem sempre completas que levavam à rua, aos amigos e vezes tantas aos professores também.
Por sua vez, nas horas em que supunham que os miúdos estivessem já dormitando, “hora do vamos se o galo canta”, os miúdos aproveitavam ligar as suas antenas para ouvir os relatórios diários que Paulina e Simão trocavam, antes do cantar do galo que era num silêncio sepulcral.
Ano e meio depois daquela morte chorada do vizinho Gaspar Kaquarta, homem que facilitava todos os enterros dos vizinhos e parentela, com Paulina já amigada e o kota Simão a dar uma de tio Matoso “lundulou”, o dono de casa reapareceu. Tinha sido raptado pela guerrilha e o seu corpo foi confundido com o de um infeliz companheiro de desgraça que era militar da ODP, também mestiço.
No dia em que o vizinho apareceu, com os olhos dele todos rasgados, o bairro todo se pôs em fuga.
- Vizinho coveiro ressuscitou! – A berraria ecoava por todas as ruas da vila.
- É quê? Vizinho fez quê?
Todos fugiram, até Paulina e os três filhos, menos o velho Simão que continuou na sua cadeira de fitas a enxotar as moscas que saboreavam o sumo da sua ferida na perna.
Como protagonista e vilão dum filme de acção. Cara-a-cara, olho no olho. Gaspar a dizer com o coração “quero entrar, deixa-me entrar”. Velho Simão, apesar da idade, a dizer também, apenas no coração, “aqui, seja quem for, morto ou vivo, aqui não entra”.
O “bilo” silencioso foi de uns cinco minutos. Ninguém disse nada nem fez nada. Ficaram só a se estudarem até             que cada um tirou a mais acertada ilação.
- Você é o pai dos meninos não é? É o Senhor Kaquarta. Então saiba que a notícia que chegou na tua família foi de que o senhor foi abatido. A tua família chorou, fizeram um funeral sem corpo  e, depois do luto nossa mulher me admitiu aqui para cuidar dos meninos. O terceiro está já na barriga. – Explicou Simão.
Gaspar deu-lhe um abraço cheio de energia. Os dois foram abraçados à sombra da figueira que espalhava folhas pelo quintal. Gaspar abriu também seu saco de memórias e foi narrando o que se passou durante o tempo todo e o que pretendia fazer com seu regresso.
- Mano, a vida que nos falta viver é pouco. Casa, você aumentou lá "kabucado". Os filhos você educou lá kabucado e aumentou mais um que está a vir. Se Paulina concordar, podemos viver aqui os três. Ela com os filhos fica na casa grande. O anexo de dois quartos, dividimos, um é teu outro é meu. O resto é conversa de homens crescidos.
O cavalheiros selaram o acordo e quando os ânimos se amainaram, Paulina que fora buscar refúgio em casa de uma colega do hospital regressou com os monas à casa em clima de paz total.
A tripla viveu mais décadas. Paulina ainda pôde dar mais quatro filhos aos maridos que foram se revezando na procriação. Os de Gaspar Kaquarta são clarinhos e com olhos rasgados. Os de Simão Meso ma Nkala são pretinhos como carvão e duma altura que desafia a trepadeira. Juntos os filhos eram seis. Com os pais, a equipa era de nove e tratada carinhosamente por “família GPS”, iniciais de Gaspar, Paulina e Simão, mas também por saberem de tudo o que se passava na Vila da Mata. Os filhos, todos varões, compravam e vendiam informações nas escolas em que estudavam e contavam aos pais. Paulina via e ouvia na Clínica do Prenda e na Praça “Ajuda Marido” e levava para casa, partilhando com os maridos e os filhos. Gaspar que voltara ao seu antigo emprego no campo santo de Sant´Ana, atendia e assistia aos mais diversos funerais e reproduzia as imagens vocais aos de casa.
Simão que fabricava e atendia os compradores de urnas também tinha as informações frescas sobre bairros e ruas onde havia ou haveria "komba" e canjica. Viveram do seu jeito, enfrentando a curiosidade e "mexerequice" duns vizinhos mais inconformados, até que a cova os chamou, um a um.

Nota: Texto escrito para e publicado pelo Semanário Angolense

sábado, novembro 15, 2014

TERRA-AR

A conversa foi curta mas não deixou de despertar a atenção aos compradores e vendedores de “mabobo”.
Terra é terra. Ar é ar. O título é súmula de uma áspera resposta recebida por um viajante por parte de uma “aero-dama”.
Marisa é mulher bem prendada em termos de atributos físicos, com as carnes a procurarem evadir-se das apertadíssimas vestes que faziam dela uma estátua concorrente àquela implantada no jardim bieno da pouca vergonha, porém mal “enxovalhada” em termos de SAC- Serviço de atendimento ao cliente.
A abordagem foi sobre a constatação do passageiro que todas as revistas de bordo colocadas nas bolsas traseiras dos assentos estavam rasgadas, sendo necessário trocá-las por outras mais decentes ou, inexistindo novas folhas com letras e fotografias, recolher aqueles deselegantes bocados que muito beliscavam a imagem da empresa detentora da aeronave e da Revista.
- Bom dia, o que o senhor vai beber?
- Vou tomar um café. A propósito, posso fazer-lhe um pedido?
- Sim. - Respondeu lacónica e já com o sobrolho carregado.
O passageiro sacou da bolsa da cadeira do avião pedaços da revista e colocou-os por cima da mesa.
- Pois é. Noto que em quase todos os assentos a situação é essa. É possível trocá-las?
- eu senhor, são crianças que viajam no avião quem fazem isso. - O tom de Marisa subia à medida que o semblante viajava do desanimado para preocupante.
O passageiro procura identificar-se como funcionário sénior da empresa dona do avião operado pela companhia em que Marisa trabalha.
-Já dei instruções aos meus colegas para vos fornecer mais material de leitura a bordo. Bastará pedir ao nosso departamento administrativo, vosso interlocutor na gestão da aeronave. É possível retirar esses pedaços e depois colocar novas revistas? – Emendou.
- Meu senhor, isso é com o pessoal de terra.
Nem mais nem menos, a jovem mulher, indelicadamente destrancou o carrinho com sumos, refrigerantes, água e cafés e pôs-se a fresco.
“Terra é terra. Aqui é ar. Nossa empresa é assim”, pus-me a pensar na resposta recebida, tentando digeri-la com dois goles de água que ganharam um sabor envinagrado.
- E como encontrar o pessoal de terra se são as moças aéreas que me atendem sempre que entro no avião?
Senti vontade de inverter os papéis e dar-lhe resposta homóloga e ver se a engoliria com a mesma facilidade como ma impôs.
Não sendo essa a minha escola, preferi descontar no papel a incómoda resposta e recomendar às aeromoças do meus pais mais formação sobre atendimento e satisfação do cliente. “Um bom ouvido e uma boa resposta, ainda que vazia de conteúdo prático, acalentam almas”- lembrei-me das lições da professora Lozano. Um mau serviço afecta negativamente o produto que vem agregado ao serviço, mesmo que o primeiro seja processado com a mais incomum das perícias e tecnologias.
Acordei do sono e do sonho. Era já hora de poiso.

segunda-feira, novembro 10, 2014

FESTA PELO CARGO

Transcorria o mês de Março. O Estado estava em ebulição. Dois grupos animavam as conversas e as passeatas e contra passeatas davam sempre ao Largo da Luz. O puxa que puxa já se parecia ao jogo de "quem mais força tinha e quem com jeito (?) pretendia derrubar o elefante". Uns puxavam para baixo e outros para cima. Cada um dos contendores tinha um nome de código, usado apenas na intimidade dos seus integrantes.
Era manhã de sol. Adivinhando-se mais uma enchente no Largo da Luz, as zungueiras decidiram marcar presença com suas bacias cheias de tudo: magogas, cuecas de fio dental, água, kitaba, jinguba, etc. Tudo. Dentre as zungueiras mais conhecidas da urbe, Ndinha destacava-se pela robustez corporal e exibicionismo. O seu traje predileto era um collant vermelho por dentro de uns calções extremamente curtos que faziam parar toda freguesia. Era olhar e comprar. Tão forte era também o seu pregão que nas ruas já tinha ganho o epíteto de “patroa da Zunga”.
No bairro Vila Nova, onde residia, os adeptos do “puxa para baixo” preparavam a passeata anunciada para o Largo da Luz. A música dos “kuduristas revolucionários” tinha sido distribuída em doses megalómanas aos taxistas e adolescentes ainda sem o discernimento real sobre o estado do Estado. Doutro lado estavam os adeptos do “puxa para cima”. Estes estavam em maioria, quer em exibição sonora quer em número. A Vila Nova estava dividida ao meio, fazendo prever desacatos no final das marchas.
Desperta pelos ventos dos maus agoiros, Ndinha abandonou o negócio mais cedo e dirigiu-se ao bairro escolhido como “ponto de partida e de chegada” dos contendores. Mal pousou as imbambas na cozinha, a voz do marido fazia-se anunciar:
- Ndinha, Ndinhaaaaaa! Onde estás, meu amorzinho?!
- É o quê então, Jota? Queres já o meu dinheiro da zunga ou ganhaste no “kaluanda da sorte”?
Jota era desempregado e vivia de comissões em negócios que envolviam alguns notáveis do Estado.
- Ndinha, amorzinho da minha vida, subi de categoria.
- O quê?
- Sim, isso mesmo. Fui promovido. Chama a vizinha Kuditemu para trazer muita “birra e pincho”. Chama também todos os meus amigos da célula e tuas colegas da zunga. A festa começou e não há mais perguntas. É preciso comemorar à dimensão do cargo que não é pequeno...
- Mas te promoveram então aonde e para quê? - Ndinha, a mulher, ainda entre o sonho e a realidade, vai acompanhando o agitar da conversa do marido que liga para os amigos um a um. O DJ Malcriado já estava a montar as colunas de som, cujos decibéis prometiam inundar de som alto o bairro todo.
- Hoje o bairro todo vai me sentir. - Disse Jota em voz alta, deitando goela adentro uma “mini-birra”.
- Mas vão te sentir então o quê que não desembuchas nem para mim? Ou vendeste a nossa casa?
- Ndinha, não me enche de perguntas. Sou chefe de gente graúda. Não me deram ainda gabinete nem carro de função mas o que está para vir é muita coisa mesmo, acredita.
- Mas ó Jota, nem só um pingo ou uma pista me dás? Vou me gabar como às minhas amigas que mandaste convidar? Vou dizer o meu Jota ganhou “kaluanda da sorte” ou apanhou mbora diamante no comício?
- Vai filha, chama aquele vizinho jornalista da Rádio Kuribota. Diz chefe Jota está chamar para fazer o meus discurso de apresentação no bairro.
A mulher fez a curva da ruela que separava a sua casa do albergue onde Vangula Ciwa passava noites.
- Vizinho me desculpa só. Sô Jota, meu marido, é que me mandou vir convida-lo para uma festa que estamos a preparar lá em casa. Pediu também para o vizinho preparar um discurso para apresentar aos convidados todos que estão a chegar para a festa da nomeação dele. Vem gente importante. Disse ainda que o mesmo discurso que o vizinho vai escrever deve passar na Rádio, na TVA e no jornal Verdade.
O homem puxou pela cadeira e, antes mesmo que convidasse a vizinha para se sentar, la fora a música alta começou com o "mana me deixa, me deixa".
- Vizinha Ndinha, diz ao kota Jota que aceito o repto. Dentro de uma hora terei o discurso  pronto se me disser para que cargo o seu marido foi nomeado.
Ndinha, que também transbordava de alegria, reescreveu a curva e foi questionar novamente o marido para lhe dizer o tão importante cargo para que fora nomeado.
- Jota, amorzinho, o peão do Vangula já está a escrever o discurso. Baixei-lhe a ordem que emitiste. Ele disse só falta mesmo pôr já a função que te deram na célula.
Jota que pretendia guardar o trunfo para o momento mais alto da festa contraiu os ombros e disse:
- Sou secretário executivo da Liga.
- Liga, meu amor?!
- Sim liga...
- Liga milionária, liga dos veteranos, liga dos campeões ou liga de quê? Me explica bem que estou a ficar arrepiada com essa tua festa e esse teu segredo do cargo.
- Filha, oiça bem. Conheces o camarada Beltrano e o dirigente Fulano? Conheces o camarada Kapwete e o kota Kamundanda?
- Sim. Ando a lhes ver na TVA. São chefes. Têm boa vida mas o povo diz de boca aberta que são “bajus” e são eles que mandam bater os "revús"!
- Pois, então anota ai. Sou chefe deles. Me nomearam secretário executivo da "Libaju"!


Texto publicado no Semanário Angolense a 25.10.2014

quarta-feira, novembro 05, 2014

O CENSO E O FUTEBOL


Era sábado de futebol. O país inteiro estava de olhos na TV e ouvidos no rádio que de meia em meia hora vomitava algumas verdades e muitas mentiras. Ora se dizia que a equipa lilás seria campeão, se vencesse e outra empatasse. Ora se dizia que os presidentes estavam em campanha “ganhística” extra-campo, a oferecerem prémios de jogo chorudos aos adversários do adversário à conquista da taça.

E o disse-que-disse passava de boca em boca a velocidade estonteante. Ninguém se podia alcandorar como detentor de verdade sobre o jogo de bastidores e de influências que se apregoavam na média.

No bairro da Lata, as ruas estavam movimentadas. A equipa do bairro tinha subido de divisão e teria no seu primeiro embate o vencedor da taça do ano precedente. Todos queriam saber quem será o campeão que rebaptizaria a equipa do bairro da Lata no campeonato maior do Estado.

Na rua das gajajeiras havia mais gente do que estrada. Até mesmo as frondosas gajajeiras pareciam desaparecer, ante aquele mar de gente, a subir e a descer para lugar incerto. O estádio das gajajas estava ainda de portas encerradas. Onde e meia, sol ardente, bairro a dentro. As kilumbas aproveitavam camuflar a feíce, enquanto os homens endireitavam as aparências. A “barbaria” do Chiquito, à berma da rua das gajajeiras, tornou-se lugar de encontros e reencontros. Os homens à direita e as mulheres perfiladas à esquerda. Conversas díspares poluíam o recinto de 32 metros quadrados. Do lado masculino era o futebol quem comandava.

- Epá, qual dos adversários preferes para a nossa benquista equipa da Lata?

- Para mim, qualquer. Só temos campeões na fila da frente. – Lené antecipou-se à pergunta de Kapenda que era novo naquela pequena urbe e que procurava por afinidades.

- Qualquer como assim? - Voltou a pôr conversa, na expectativa de mais argumentos e contra-argumentos.

- Sim, qualquer. Veja bem. Nós seremos neófitos. Na frente do campeonato deste ano estão um bi-campeão, um campeão, e depois uma equipa que nunca foi campeã, mas que já tem tradição e com bom plantel. Depois vêm a segunda equipa mais titulada do campeonato e em quinto o papa títulos. Qualquer um deles será osso duro e não pêra fácil.

- Boa argumentação! - Exclamou o barbeiro que acompanhava atento a conversa.

- E vais ao campo ou só te ficas pela rádio e TV? - Voltou a questionar Kapenda.

- Sou o coordenador do fã club da equipa da Lata. Não falto a nenhuma partida.- Respondeu Nelé.

Enquanto os homens festejam o futebol, as mulheres praguejavam os resultados do censo realizado pelo Estado que tinham colocado a descoberto um segredo que puderam manter incólume por muito tempo.

- Mana Joia, sabes o que o censo descobriu?

- Não, Lena. Descobriu o quê?

- Poças! Nem te digo, Mana Joia. A dupla e tripla agregação estão em risco.

- Como assim?

- Não viste os resultados do censo? – Ripostou Mariquinha.

- Ó Mariquinha! Qual censo qual quê? Mas então o tal censo censou o quê? Me fala meu Deuju!

- Sim, Mana Joia. - Mariquinha, mais serena, olhou para as companheiras desinformadas e abeirou-se da pasta onde tinha os relatórios preliminares sobre o comportamento quantitativo e qualitativo da população. – Não somos assim tantas que cheguem três a quatro para cada uma.

- Ai é? Como assim? Então o censo disse o quê?

- Joia, Josina de Andrade, de nome próprio, natural de Kunda Dya Base, Malanje, criada e crescida em Luanda, em casa de madrinha abastada, mas pouco escolarizada, parecia adivinhar um perigo em frente.

Foi aí que Mariquinha começou a desbobinar.

- Quem olha, e guardamos isso por mito tempo, pode lhe parecer que haja bwé de terrenos desocupados, mas é mentira. Quer dum lado quanto do outro, há mbayas.

- Mbayas, como, minha filha, Interveio dona Joana, mulher de respeito em todo o bairro da Lata. Era a coordenadora da comissão de bairro, dona de um Jeep que fazia ciúmes aos governadores da capital.

- Sim tia Joana. O censo veio a desmontar a ideia de que existiam três a quatro mulheres para cada angolano. Quase todos os homens se gabavam de garanhões e de terem mais do que uma “munzúbia”, entre a oficial e as que chamam de posições ou sei la o quê.

- E não é verdade, filha? Não sabes que morreram muitos na guerra e também, mesmo em tempos de paz, os rapazes são mais propensos a desportos radicais e outras forças violentas que os levam, algumas vezes à morte?

- Sim, tia Joana. Sei disso. Estudamos isso em demografia, mas o censo diz que a proporção é bem diferente e contrária até ao que dizem os homens. Veja bem - Mariquinha, mais serena do que antes, prossegui na sua explanação – Há mais mulheres do que homens, mas não chega uma e meia para cada um. São apenas 52 mulheres para cada 48 homens. Quer dizer que, em cada cem pessoas, 52 são mulheres e 48 são homens. Onde é que saem as demais com que se fazem passear os chefes e kamangwistas?

- Minha filha, eu sou segunda, mas também não sei. -Respondeu Joana perturbada.

- Sim, tia Joana. Veja bem. - Mariquinha continuou explicativa e inocente. - O censo demonstrou que nem sequer há uma mulher e meia para um dos homens. Onde é que saem as demais? O censo, mana Joana, mostra que as mulheres é que têm múltiplos homens agregados a si.

- Concordo contigo, minha filha. - Joana, a boss do bairro da Lata, começou a entender e não tardou em contar o segredo:

 – Então, se os homens pensavam que cada um tinha direito demográfico de quatro mulheres, a verdade diz que pelo menos três ou quatro partilham a mesma “xuinga”.

- É isso, Dona Joana. – Respondeu Lareira, assim apelidada pela sua fama de namoradeira a troco de boleia e aquecedora de lares apossados de gelo. A moça de má fama resistiu ao início da conversa mas pode ir mais além. Intrometeu-se na conversa e contando as verdades verdadeiras de que era dominadora. – Nós é que estamos na mó de cima, mana Joana. Mesmo no Kunene a diferença é mínima. Nós é que usamos e abusamos dos homens. Pior é que ainda há homens xuingado que pensam que têm mesmo por direito demográfico esse número ilusório de mboas e que a xuinga não passa por várias bocas. Outros assumem voluntariamente o socialismo mulherístico e empurram a carroça para frente, partilhando com xulos e outros levando uma vida de timatosismo ou pachequismo.

- Ai é, filha? – Interrompeu Joana, pensando que fosse única nessas andanças. – Olha, filha, olhando para o censo, até na Lunda Norte, onde o direito consuetudinnário institucionaliza a poligamia não há mulheres suficientes para o elevado número de homens, mas cada uma se arroga ao direito de ter mais do que uma. De onde é que saem as demais?

- É do segredo, tia Joana. Responderam as comadres todas do salão de cabeleireira.

E não tardou. O sino do estádio tocou. A ambulância passou com o seu wion, wion, wion característico. Seguiu-se o carro da polícia a abrir as alas. O povo todo eufórico. O jogo da equipa da aldeia nada tinha de importância, pois a subida de divisão era já um facto. Restava saber com quem se jogaria na primeira volta do campeonato, por isso, os ouvidos deviam estar ligados ao rádio e os olhos à TV. Nelé e Kapenda saíram de imediato, com a aparência ainda por terminar. Era dia de futebol!

Texto publicado no Semanario Angolense a 01.11.2014 

sábado, novembro 01, 2014

INSPIRAÇÃO & TRANSPIRAÇÃO NA ARTE LITERÁRIA

Transpiração é a minha máxima referente à fase seguinte à inspiração.
Caçar os esquivas e atrevidas gralhas, eliminar eros e redundâncias, acrescentar novos detalhes, buscar maior "corrente" para prender o leitor, é tudo transpiração.
Considero que na arte literária a inspiração é imprescindível, mas terá de ser sempre segundada pela transpiração que no meu caso vai até aos 90% do trabalho, até se obter a forma desejada, mesmo se sabendo de antemão que a arte é sempre um produto inacabado!