Translate (tradução)

terça-feira, dezembro 29, 2015

REVISITANDO A HISTÓRIA E A TRADIÇÃO ORAL

Nkidyafuka: é o vocábulo bakongo que designa quem tem dívida há muito por pagar ou impagável. Essa condição em que se encontrava o meu primo Segunda João, a quem que ajudei a criar, levou-me a Mbanza Kongo, percurso de mais de 450 Km por terra, em estrada ainda bem cuidada, para o seu pedido de noivado, transformado em "casamento" na tradição bakongo.
- Na conservatória podem ir apenas os dois que se casam e os amigos, como também nunca se nega a separação. Para nós bacongo, esse é o nosso casamento. Envolvemos os familiares no acto e quando nos vêm comunicar separação, nós dizemos sentam ainda aqui, vamos conversar. É esse o casamento seguro, o que envolve as famílias. - Declarou o tio-sogro, no momento dos conselhos e recomendações.
Entre colinas que escoam abundante água pluvial para riachos e canais temporários, cresce o mosaico habitacional, destacando-se o tijolo (cor) do adobe queimado e que confere resistência e longevidade aos imóveis.
Para quem como eu não ia a Mbanza Kongo há dez ou mais anos, a cidade cresceu em tamanho e qualidade de vida dos seus habitantes: há mais casas e edifícios erguidos na vertical, há mais asfalto, largos e novos monumentos e, acima de tudo, mais sorrisos nos rostos das pessoas, longe do que um jornalista gozão tratou, em Abril de 2005, por "cidade de rua e meia".

Monumento que retrata o topónimo
A receber quem chega de Luanda está um monumento que representa o topónimo do antigo reino: um caçador (nkongo), munido de kanyangulu, outros instrumentos menores de caça, um valente cão (também necessário ao caçador) e acompanhado por uma senhora que leva os víveres e que, com certeza, confecciona a jinginga servida ao jantar.
Mas estou ainda no Ambriz, norte do Bengo, a caminho do Zaire, parado num posto de abastecimento de combustíveis e aproveito prosear:
- Mana, boa tarde!
- Boa tarde mano. Quer "arguma" coisa para consumir ou para levar?
- Para consumir. Um café, por favor. Pode ser com açúcar, mas tem de estar quente e forte.
Enquanto a jovem ligava a máquina aproveito provocá-la:
- Mana, como se chama quem nasceu no Zaire?
A senhora faz passear a mente que navega nos conhecimentos acumulados ao longo do tempo e da instrução e quase naufraga.
- Mano, nasci "mborra" em Luanda. Minha mãe é que é daqui do Ambriz e o meu pai é que é de Mbanza (Kongo).
Mariana desviou a resposta que eu esperava, sendo, porém, fornecida por um seu colega que me a transmitiria em voz meio muda:
-  A resposta é "zairiense", kota. E justificou-se: zairense é do Congo Democrático. Nós aqui "samo" mesmo de Ambriz, ambrizetano (do Nzeto) ou mbanza-konguense que também se chama "zairiense".

João Nevumba, como se apresentaria já na hora de despedida, não se ficaria por aí na sua explicação e acrescentaria:
- Estou a ver que o mano está perguntar porque gosta mesmo de saber e parece que está mesmo a ir "na" capital. Mano, as pessoas de Mbanza não gostam muito "lhes" chamar "zairiense". Quando o mano chegar, se precisar referir, fala só mukongo que abrange todos do norte.
Acatei o conselho, joguei o café, meio frio, garganta abaixo. Engatei a mudança automática de progressão e rumei à cidade cujo símbolo apresenta cinco espadas que simbolizam igualmente número de topónimos por que já foi designada: Mpemba, Nkumba Ungudi, Kongo dya Ngunga, S. Salvador do Congo (depois do baptismo do Rei, tornando-se cristão) e  Mbanza a Kongo.
Nkongo, contam os guias do museu, é caçador na língua local. Terão os enviados de Diogo Cão, aportado em Matadi, perguntado como se chamavam aquelas terras, ao que os nativos vindos da caça entenderam que se lhes tivesse sido questionado "o que eram", tendo respondido "nkongo" (caçadores). O reino que possuía seis províncias geridas por "Manis" (titulo de governadores) tomou a designação de Congo, sendo Mbanza (capital) a Congo, na pronúncia e escrita dos comerciantes de bugingangas e anunciantes de Cristo,  o centro político para aonde os "manis" levavam os impostos recolhidos para custear a máquina administrativa. O detentor do poder supremo é Ntotila, em cujo Palácio repousa(va) uma frondosa árvore de três grandes ramos (são dois na actualidade) e uma fronde de folhas permanentes, sob cuja sombra eram efectuadas as audiências e os julgamentos. Perdeu-se na memória o nome da árvore (tipo). Porém, o facto de ter acolhido vários "kuhu" (boas vindas ou conversas introdutórias que para os ambundu equivale a mahezu) ela ganhou o registo de yala kuhu.
O residência real possuía ainda um espaço muito restrito para a lavagem e  tratamento do cadáver do rei finado (sungilu) para que fosse possível conservá-lo intacto até ao acto fúnebre que era procrastinado até à chegada do Mani que vivesse mais distante, chamados todos pelo som do tantã.
A casa mortuária real (mpindi a tadi) ficava a umas centenas de metros do Palácio, distância aproximada a que nos leva ao campo santo real, colado ao nkulu mbimbi (igreja antiga, a Sé com mais tempo a sul do Sahara).

Mas sobre Mbanza Kongo não é tudo. Sobre o desrespeito à mítica Yala Kuhu, contam-se estórias associadas à queda, nos anos 90 do sec. XX , de um elicóptero que, entre outros, vitimou o bispo da diocese local e também o despiste de um avião da companhia de bandeira, já no início do séc. XXI, que levou à morte o administrador municipal, para além do "sangue que a árvore jorrou, estendendo-se do espaço em que está o pavilhão desportivo até ao cemitério real, quando os brancos construíram a estrada, cortando o terceiro galho".
Mas o guia do museu, formado no Benin, em preservação de espaços históricos, a luz da candidatura da cidade de Mbanza Kongo a património da humanidade, não se fica por aqui e vai mais adiante nos detalhes da sua apresentação. Fala também do "Mbanda Mbanda, do clã Nenzako, de Maquela", uma espécie de Presidente do Tribunal Constitucional, a quem cabia entronizar o rei, e informa que "Mbanda Mbanda e o rei no trono nunca se podiam reencontrar. Se o rei fosse à terra dele, ele se ausentava. Se Mbanda Mbanda viesse à capital, também o rei se ausentava. Ele só se via com o Ntotila uma vez e para o entronizar", concluiu.

Entre História confrontável nos livros já abundantes e estórias de ouvir contar e entreter o visitante/turista, muito há ainda por ouvir e desvendar. O melhor mesmo é percorrer os cerca de 450km que separam Luanda de Mbanza a Kongo para ver ouvir e reter. E, quiçá, recontar também?!
 
Obs: texto publicado pelo Semanário Angolense em Dezembro 2015.

quinta-feira, dezembro 24, 2015

UMA INCURSÃO À MUXIMA DA KISAMA

As primeiras estórias que ouvi da minha mãe e parentes, eu ainda infante, eram sobre "Kwisama kwete môngwa!" (Há sal em Kisama!). Sim. Jazidas de sal gema que era muito procurado pelos africanos do interior do reino do Ndongo de que as terras da Kisama, Kambambi, Lubolu, entre outras eram partes integrantes. Depois chegaram-me outras estórias sobre um local da Kisama, a beira do grande rio, onde os enviados do rei Tuga mandaram erguer um porto fluvial, uma igreja e outras instalações, dando início a um vilarejo que agora floresce com o surgimento do asfalto. Muxima, pois claro!
Aqui, contam os que frequentam o santuário católico com regularidade, acontecem coisas do arco da velha. Chegou-me ao ouvido que duas esposas de um mesmo homem bafejado pela sorte dos fáceis dólares do passado pegaram ambas em fotos da rival e foram pedir a "mamã coração" que afastasse a adversária do seu caminho.
- Mamã muxima, apareci sozinha, no tempo da pobreza, por que me surge uma intrusa na relação agora que é tempo de colheita, ainda por cima de carnes fartas? Ajude-me mamã a defuntá-la. Todo o víntimo vou trazer durante ano e meio, se a mamã me ajudar. - Terá suplicado Kadihiba, a primeira das esposas do sô Kitadi Yangu.
- Mamã do coração, já me deste metade do que te pedi nos últimos cinco anos. Só falta aquela cavalona deixar de privatizar o homem, tipo nasceram juntos do mesmo ventre. Outras abrem vaga, menos ela, mamã. Só falta um bocado. Mesmo metade do salário e metade de tudo que ele me dá posso trazer à mamã se ela abrir vaga. -  Implorou Kakinga, a Luanda dois.
O resultado, segundo o meu amigo Katimba, que jura ter visto com seus próprios olhos, foi uma pancadaria daquelas de pôr o padre com o pé no ngimbu, para que não fosse apanhado por um murro perdido na algazarra.
- Foi na hora de levar ao altar as ofertas e a prova (foto) do que se pede. Kadihiba com a cara de Kakinga e essa  com a da concorrente Kadihiba. As duas caralmente, olho no olho sem espaço para esquiva. Ali esmo, nome chama nome, começaram a se dar kibetu. - Narrou o sempre bem humorado Katimba que foi introduzindo, entre os supostos factos, elementos de sua criatividade, dando mais calor à narrativa.
Contaram-me também que as moças, aconselhadas por tias mais experimentadas, e algumas tias na idade entre " a sobra e o salda negócio" são as que mais preces dedicam à mamã para que mande no seu caminho um homem que tenha "quatro cês sem efe-a". Vou explicar melhor essa dos cês e sem efe-a. É tudo da lavra do Man Didas que nasceu na Kisama ao tempo em que os kisamistas se diziam ainda kwanza-sulinos: "casamento, casa, carro e conta farta sem filhos anteriores", reportou-me o Didi Segundo​ com a seriedade que lhe é característica.
Pois, essas estórias todas acrescidas ao discurso de um idoso do município biodiverso da Kisama que numa das barracas de Katete narrou a célebre frase "uxa dikongo, kuxê kitadi. Andodijiba (deves deixar dívida e não dinheiro como herança vão matar-se)!", levou-me a espreitar o outro lado do Kwanza, atravessando pela segunda ponte, da foz à nascente, a que se estende sobre os terrenos pantanosos da Kabala. Quem não se lembra da Kabala, reportada no antigo livro de leitura da segunda classe, ensino do tempo de Agostinho Neto, onde se lia: "na Kabala, uma pequena aldeia perto do rio Kwanza vive a família do Viti. O pai trabalha na loja do povo. A mãe trabalha na lavra. O Viti e os irmãos andam na escola".
Pois é. Transpus a Kabala intalado no Fiat punto que ensaiava o motor, acompanhado da mulher, que ignorava o destino, e lá nos fizemos Kisama adentro, ou melhor, coração adentro. MUXIMA! A Entrada é de cortar a respiração. A estrada é um sulco sobre a montanha lamacenta nos dias de fúria de São Pedro. As habitações e outras construções melhor apresentadas, construídas em alvenaria para longa vida, acham-se em topos de colinas, fazendo as águas pluviais deslizarem até à curta zona plana que se estende longitudinalmente como faixa de lençol, entregando-se lateralmente ao Kwanza milenar.
As devotas peregrinas, sem chuva nem distâncias que as detêm, marcam presença no terreiro contiguo à capela ou nas instalações vizinhas, erguendo tendas de campismo. A capitania do Porto de Luanda, a polícia e outras instituições como o Partido MPLA mostram-se também aos residentes e aos visitantes com suas representações. E aqueles que exploram o turismo interior encontram a "senhora Ritz" ocupando a parte da zona baixa com módulos contentorizados a preço concorrencial.
- O kakusu tem de encomendar com antecedência. É preciso pedir "nos" pescadores para trazerem na faina da manhã. - Explicou a garçonete caprichosamente vestida. Uma saia chitada, neve branca da cintura acima e negro na batina a combinar com cabelos reais.
Quanto aos quartos, lá estão, "mas se vier em tempo de maior peregrinação, tem de fazer reserva" para não lerpar. Aconselha o gerente tuga para quem "há quem até encomende o quarto com um ano de antecedência". Verdade ou não, foi a boca dele que cumpriu com o papel da fala. Quartos havia de sobra num dia de chuva miúda e continuada e muximeiros escassos quando contados e comparados aos números milhentos da televisão.
- E a catedral mostrada ao papa, marido? Será que está noutro lugar fora daqui? - Quis saber a mulher a quem sosseguei com um "está no Vaticano. Come e relaxa porque ainda temos 118 quilómetros até a casa!"
Obs: texto publicado no Semanário Angolense a 04 Dez 2015.

terça-feira, dezembro 22, 2015

ELA SENGOU

Isso mesmo. Ela separou-se momentaneamente do dono de casa. A Gia preferiu sair de casa tão logo ele chega do serviço e voltar quando ele se prepara para sair manhã cedo.
Às vezes nem chegam a cruzar. A filha de TwENDE prefere deixar o homem e todos os electrodomésticos aos cuidados da amante, a que tem como profissão amar e nunca abandona a casa, a menos que seja para se dirigir ao médico.
Desta feita, é a amante que goza e que geme de prazer ou de dor toda a noite, enquanto a Gia que sengou de livre e espontânea vontade saltita de bairro em bairro, mais chateando do que agradando os visitados.
Assim estou eu e os meus pertences. Quando nos habituamos com a fiel amante, ela vem reclamar o seu antigo papel de manDONA e senhora, encostando a amante geradora de prazer e lazer ao seu papel subalterno, embora, em abono da verdade, se diga que a amante já vai, mais vezes do que nunca, passando ao papel principal.
É sobre a enerGIA, filha de twENDE, que me reporto. Ela sengou!
 
Vila de Viana, 02.12.2015

quarta-feira, dezembro 16, 2015

GERINDO HOMENS E RECICLANDO VASSOURAS

Geralmente, as pessoas chegam às organizações empresariais muito motivadas, mesmo não ganhando tanto quanto gostariam ou tanto quanto a sua carteira de custos demanda. Estão motivadas porque ocorre-lhes mostrar o que sabem, aprender o que lhes falta e encarnar o ADN ou cultura da organização. Mostram-se propensos a fazer mais do que aquilo que deles se espera ou se lhes exige, sendo por isso tratados na gíria das organizações como "vassouras novas".
Sempre que numa organização as coisas estagnaram em relação ao desempenho do Capital Humano, a primeira ideia da gerência vai para a contratação de um novo integrante, com provas dadas e muito motivado para reforçar e oxigenar a equipa em aparente apatia. É a chamada "vassoura nova" que varre tudo quanto seja trabalho que lhe seja delegado. Comumente, os novos integrantes, por desconhecerem ainda a casa, surgem sem grandes vícios de absentismo laboral e, por conseguinte, não se entregam à ociosidade.
Quem nunca passou por essa experiência na condição de novo reforço de uma equipa ou, na qualidade de Gestor, recorrendo à contratação de uma "vassoura nova"? Mesmo nos nossos domicílios, costuma-se dizer, e com dose de razão, que "uma nova vassoura varre melhor". Porém, mais prudente será aquele que fizer o reaproveitamento inteligente de todas as vassouras antigas que tiver. Trocando os cabos, invertendo as bases, reforçando os palitos naquelas em que a moldura se apresente vazia, etc. Assim também é na Gestão de Pessoas.
Com o tempo, a ausência ou atraso na progressão de carreira, o incumprimento da expectativa inicial quanto ao incremento da remuneração,  a falta de respeito pelo seu trabalho e, às vezes, a falta de consideração por parte das lideranças e dos integrantes da equipa, acabam desmoronando todo aquele edifício motivacional, caindo na rotina e acomodando-se na zona de conforto. Tal como nos nossos domicílios, a "vassoura nova" se junta as antigas e reforça o exército das que pouco ou nada fazem em prol da organização.
Se o causa da apatia do Capital Humano tiver que ver com desajustes institucionais e não meramente com a acomodação na zona de conforto, a "nova vassoura" começa a funcionar tal qual varrem as outras: a trabalhar com brechas, com falta de atenção, com falta de precisão e desatenção ao tempo de entrega dos produtos e ou serviços, prejudicando os prazos do patrão ou da liderança. O descontentamento, a desmotivação, e espírito de deixa andar ou deixa fazer e outros comportamentos negativos começam a invadir a sua mente.
- Já fiz a minha parte. Fiz o máximo. Pensei e inovei o quanto pude. Agora que venham outros! – Diz-se vezes sem conta nas instituições. Pessoas jovens, muitas vezes, se entregam ao desleixo de nada fazer. Gastam dinheiro nos transportes para ir e voltar do local se serviço, deixam filhos e família manhã cedo e regressam à noite, com o pretexto de que vão trabalhar, quando as oito horas diárias são passadas no trabalho e não a trabalhar.
Nesse estágio, quando os casos se generalizam, há que se fazer um diagnóstico sobre a situação geral e conter ou mitigar as causas.
Já se sabe que não é destruindo todas as penelas velhas e comprando outras substitutas que se obtém a boa comida, pois o tucokwe (povos do leste e nordeste de Angola) dizem, e bem, que "doho ikulu ikateleka kulya cipema!" (A panela velha faz boa comida!).
Como fazer da "vassoura velha", aquela que limpa com brechas, uma "vassoura renovada" e que se renove todos os dias?
Não sendo esse exercício um ensaio científico e com suficiente suporte bibliográfico, mas baseado tão somente na experiência que o autor vai acumulando, eis algumas dicas:
- Formação e capacitação do Capital Humano (quer seja on job ou fora do local de serviço): cursos de especialização, formação académica, palestras seminários, conferências e outros eventos correlacionados podem servir de balões oxigenadores.
- Política de Incentivos e Recompensas: Instituir uma jornada que seja por objectivos e resultados e não por mera presença física. Há quem é assíduo e pontual mas que não produz  como haverá gente sem assiduidade, nem pontualidade que produza mais. Distribuindo tarefas concretas, objectivos e metas bem delineadas pode ser um caminho. De seguida, serão (re)compensados aqueles que venham a superar as metas, o que incentiva os demais a seguirem-lhes o exemplo. Quem mais produz deve ganhar mais. E, retenha-se o ganhar mais nem sempre se deve traduzir em dinheiro. Há muitas formas de motivar ou recompensar as pessoas. Elogios em público (criticas em privado), um novo meio de trabalho, beneficiar de viagem de serviço, participar de uma reunião em que apenas os líderes fazem parte, representar a organização em eventos, são pequenos gestos e acções que podem motivar e galvanizar o Capital Humano para mais empenho e chamar os outro ao bom exemplo.
- Rotação e ajustamento em novas tarefas (mobilidade interna): o curso do tempo de trabalho numa organização leva as pessoas a terem novas preferências em termos de tarefas. Há ainda aqueles que ganham novas habilidades. Torna-se, por isso, importante estar-se atento a isso. Quem beneficiou de uma nova formação on job, distinta da inicial, procurará implementar o seu novo conhecimento. O mesmo se dirá em relação a quem tenha concluído um novo ciclo académico ou tenha uma nova formação distinta daquela que possuía quando foi recrutado. Daí a necessidade do estudo da composição do capital humano da organização, de tempo em tempo, para aferir as principais mudanças ocorridas e fazer os ajustamentos pertinentes. Toda a mobilidade, mesmo interna, redundará sempre em vassouras novas ou vassouras renovadas que devem ser cuidadas e com energias renovadas  para que nunca percam o vigor e o bem fazer.
Sendo o Capital Humano dotado de uma complexidade psíquica e intelectual, geri-lo é das tarefas mais difíceis, exigindo a interdisciplinaridade e a participação de todos os Gestores da Organização. É, destarte, a Gestão de Recursos Humanos ou Capital Humano uma tarefa transversal a toda a Organização e não apenas da área encarregue de gerir os processos administrativos de Recursos Humanos.
 
Nota: Texto publicado pelo Semanário Angolense a 18.12.2015.
 

sábado, dezembro 12, 2015

ENTRE (IN)VERDADES INCÓGNITAS E FICÇÃO ORAL

Antes da invenção da escrita, as artes já existiam, pois elas evoluíram com o homem enquanto ser pensante, livre e transcendental. O que é hoje literatura já teve outras formas de expressão, nomeadamente, a oralidade que conservava e ainda conserva a História e as estórias dos povos e das civilizações.
Entre nós, angolanos, a oralidade vai coexistindo com a literatura e vezes há em que se confundem. Abundam entre nós relatos da Oralidade levada aos livros e livros grafados como se fossem relatos orais sobre estórias e lendas milenares dos povos bantu e pre-bantu do nosso espaço geográfico.
Não poucas vezes, esses contos viajam nos autocarros públicos, comboios e candongueiros e, tantas outras vezes, os contos ficcionados ou verdades incógnitas almoçam nas barracas de kakusu (tilápia) e carne de caça ou mesmo nos quintais de adyakime já de cabelo algodoado e dentes cariados.
Ngaxi, Nga Madya, Manda e Isabele Gaspara são comadres desde os tempos da Kitanda do Xamavu e partilham hoje o sombreiro no mercado municipal de São Paulo. Numa de suas saídas em busca de negócios, as idosas, caprichosamente vestidas a bêssangana, pões conversa em dia, não se coibindo ante a presença de jovens com idades de filhos e netos.
- Xê, Nga Madya, sabes duma! - Atirou Isabele, meio escondida na cadeira do motorista do autocarro que geme na subida da Mutamba.
- Nada, comadre, conta. ; Respondeu Nga Madya, buscando conversa.
- Estás e ver, no Panguila, Sector quarenta e sete! Uma velhota, assim na nossa idade, mais ou menos, vivia já viúva cerca de vinte ou trinta anos. Não é que um dia desses se combina com um dikwenze daqueles trungungeros e começa já as conversa à noite?!
- Sim, mana, avança. Estamos atentas. – Intrometeu-se Manda, também ela expectante.
- Pois é comadre. - Continuou Isabele. As coisas quando aqueceram, a velhota começou a gritar “me larga vai me furar, me larga vai me furar”.
- E depois, mana, aconteceu mais o quê! - Interpôs Ngaxi que se manteve calada até aí, ante a expectativa da juventude que se continha para não rir e despertar as idosas que ficcionavam descontraidamente.
- Pois, então, prestem atenção. - Apelou a narradora. O vizinho da porta frontal, sabendo que a vizinha era viúva e vivia sozinha, julgou ser bandido que se introduziu em casa da vizinha e chamou a polícia, dando o nome da rua e número da casa. Nao é que posta a polícia no local, a velha não abria a porta?! – Isabela fez pausa para inspirar a brisa que espalhava ar fresco para dentro do automóvel.
- E ficou tudo por aí ou houve mais cena com a polícia, o intruso e a mutudi? – Indagou  Ngaxi.
_ Ouve então comadre. – Prosseguiu a narradora. A polícia, pum, pum, pum, na porta e a velhota nada! Não abria a porta, nem sequer atendia. Mas os gemidos continuavam. Afinal a conversa lá dentro entre a viúva e o muzangala já ia no ritmo do carrecto dezoito. O polícia mais corajoso deu um pontapé na porta e foram ter com os dois em flagrante delícia.
- Sukwama, Kima kyabambuka! Pegou fogo! – Atirou Ngaxi no outro canto do pesado que deslizava já em direcçao ao Zé Pirão, procurando fazer o contorno para dobrar a Cónego das Neves, em direcção ao antigo Xamavo.
- Os polícias, cordas no atrevido e mamã na cabine da Toyota para ir apresentar queixa na esquadra. - Acrescentou Isabele Gaspara.
- Mas é mesmo tua verdade, mana Isabele, ou é tua invenção! – Procurou confirmar Ngaxi que se preparava para abrir também o seu livro oral acabado de produzir.
- É verdade comadres. - Confirmou Isabele que prosseguiu a narrativa. Postos na esquadra, em vez de o muzangala explicar o que sucedeu, a própria mutudi é que foi pedir ao chefe da esquadra: filho, o jovem não me fez nada. O vizinho é que é invejoso e fofoqueiro. Ele queixou à toa, não viu nada nem ouviu sequer um gemido! Os polícias: Haka! Boca a tocar na nuca de tanta estupefação.
- E o que nós vimos então foi o quê, ó mãezinha?! - Procurou ainda saber um dos agentes policiais que foi prestar o socorro requerido pela vizinhança.
- Foi só mesmo o que viram. Não me fez violação. Foi só manutenção!
Mamãs e a juventude toda no autocarro entraram em transe. Gargalhadas de mostrar o último molar ou apenas os terreiros vazios. Ngaxi, Engrácia de registo, nascida no distante ano de trinta e cinco do século vinte, como fez vénia de se apresentar, entrou também no círculo e sacou da sua prosa.
- No meu bairro, no Kifica, a cena, que não é de mentira como essa da mana Isabele, é mesmo de verdade verdadeira. A Senhora até é minha amiga e está também já assim, sem manutenção desde que o vizinho Gasparito apanhou kikonha. Com os negócios dela de Kisângwa, banana pão, jinguma e bombó assados, arranjou dinheiro e inventou uma fórmula.
- Fórmula de quê, mana Ngaxi? Pessoa que começa cena de arranhar cabelo tem de terminar. – Apelou novamente Manda, procurando pôr mais lenha na fervura.
- Pois é, manas. Estava só a limpar o suor. – Prosseguiu dona Engrácia ou simplesmente Ngaxi. – A vizinha, certo dia, a doença de comichão lhe tocou. Bebeu água fresca e nada. Tomou banho de água natural, de água morna e de água gelada e também nada! Fazer o quê? Chamou um daqueles meninos que transportam água em troco de bebida. Xê muzangala, não queres birra? Perguntou a “kaveia” toda sacudida. Até o Português dela parecia duma mocita do colégio.
- E o moço, mana Ngaxi? - Perguntaram expectantes as amigas.
- Esperem que já lá chego. – Acalmou Ngaxi. O moço trouxe um, dois, três bidons de água. Na hora já de cobrar o que era seu, portanto as cervejas, a velhota lhe diz: só queres mesmo beber, não queres te lavar? O moço fez sinal de mais ou menos. Na verdade ele queria mesmo é só beber cerveja dele e ir fazer mais outros kadyenges mas aceitou já tomar banho por causa do respeito e dos sabonetes caros que a velha lhe mostrou com ele.
- É verdade mesmo, dia de sol negócio de água é que bate. - Interrompeu  Isabele Gaspara. Mas foi Ngaxi quem prosseguiu, depois de mais uma pequena pausa na narrativa.
- O  moço bebeu a primeira e a segunda. A tia fez pausa e sugeriu: queres mais duas? Vai tomar banho e depois a avô acaba de te pagar. Não é que o moço aceitou a proposta?!
- E depois? - Interrogaram, quase em coro, todas as senhoras vendedeiras do mercado de São Paulo que se faziam transportar naquele pesado.
- Enquanto o dikwenze se lavava, usando os sabonetes e cremes da anfitriã, a minha amiga, que não vos digo o nome dela, fez-lhe uma comida leve e meteu na mesa, ao lado de uma ngala de vinho. O rapaz também parece já estava a sentir o cheiro a sair da cozinha e, vendo que não estava aí mais ninguém, atacou e quase mordia a língua. Zás. Piteu foi-se todo na barriga que começava a ganhar volume.
- E se foi embora, mana Ngaxi, ou houve mais? – As comadres pareciam adivinhar o fim da odisseia mas preferiram devolver a palavra à narradora que contava com mais retoques e acepipes.
- Não é que o moço depois de comer queria já sair voado? A velhota lhe perguntou: não queres enxaguar a boca com uma birra?
- E ele? - Atirou  Nga Madya procurando precipitar o final.
- Ele aceitou, mas a vizinha Inês, já com a birra na mão, fez a última proposta: Agora bebe a avô e depois bebe a birra da porta!
- E bebeu ou saiu voado? – A pergunta, meio descontrolada fez-se ouvir por todo o autocarro.
- O jovem ainda a gaguejar, pois procurava digerir aquelas palavras e tomar uma decisão, rcebeu da idosa a sentença final: acaba de me matar!..
Não houve tempo para mais perguntas. Só gargalhadas.
Obs: texto publicado no Semanário Angolense de 27.11.2016 

terça-feira, dezembro 08, 2015

ENTREVISTA À REVISTA ÁFRICA TODAY


AT 129 – Sociedade
– Luciano Canhanga
1.       Jornalista há vinte anos, costuma dizer que não é escritor, apenas um contador e descritor da sociedade. Como observa a sociedade angolana contemporânea e as suas transformações nestes 40 anos de independência?

Quarenta anos é quanto terei daqui a nada. Tudo o que sei da sociedade pré-independência é fruto de leituras e de ouvir contar. Sigo as entrevistas do Drumond Jaime e Helder Bárber aos obreiros da luta pela emancipação de Angola. Eu mesmo, enquanto jornalista fiz várias entrevistas que me ajudaram a compreender o quão difícil foi a vida para os nativos negros no tempo de outra senhora. Era uma vida abaixo de cão, quando os cães deles tinham direitos humanos. Isso fez com que muitos intelectuais e assimilados daquela época abdicassem das suas mordomias e encetassem uma revolta que nos conduziu à independência. Podemos também abordar as transformações no campo do conhecimento e das ciências onde se contavam aos dedos os negros com formação e ocupando lugares de destaque na administração colonial. Em termos de infra-estruturas herdamos também muito pouco dos cinco séculos de colonização, quando comparado com o muito que se ergueu nos 40 anos de independência e com maior realce para os últimos 13 anos. Sou fruto da independência e sinto que temos vindo a somar em todos os domínios, até no campo literário.

2.       Agostinho Neto está presente na sociedade angolana? Ainda se sente o seu legado?

Tem sido recordado em Setembro de cada ano, e algumas vezes quando saudosistas como eu recitam os seus poemas ou as suas palavras de ordem como #Nós somos milhões e contra milhões ninguém combate#. Há um despertar de consciências que quase adormeceram mas ainda vamos a tempo. A conclusão do seu memorial na Praça da República, o erguer da sua estátua no Largo da Independência, a colocação de seus bustos em vários largos das nossas cidades, a feitura de ensaios sobre Neto, a reflexão sobre seus escritos como #Adeus à hora da largada#, entre outras actividades, configuram acções que vão perpectuar e elevar Neto à sua verdadeira dimensão, sem os chavões reducionistas e utópicos doutrora. O legado de Neto é inapagável e incontornável.  

3.       Com cinco livros publicados entre 2010-2015, assina com o pseudónimo Soberano Canhanga. Porquê a escolha?

Sou neto e homónimo do Soba Canhanga da região de Kuteka, nas margens do Longa, entre Libolo e Kibala. Para quem já era tratado como Soba Kanhanga, daí para Soberano foi meio caminho. Sem grandezas ou imodéstias, foi essa a razão da escolha do pseudónimo.

4.       Bloguista desde 2005, tem seis blogues, escrevendo sobre aspectos antropológicos, sociais, históricos, comunicacionais. Considera esta plataforma uma extensão do jornalismo contemporâneo?

Indubitavelmente, o jornalismo tradicional focado para a simples transmissão do facto actual e de interesse público vai perdendo terreno para a media alternativa. Sem poder exercitar o jornalismo puro, encontrei nos meus blogues a forma de participar neste edifício informativo e comunicacional. E, sinto-me regozijado por ter sido ponto de partida para reportagens com profundidade elaboradas por jornais e rádios de Luanda. Nos meus blogues tanto informo, partilho pontos de vista, como também formo. O jornalismo hoje tende mais para a análise e interpretação dos factos, deixando, aos poucos, o anúncio dos factos para os blogues, facebook e similares.   

5.       A internet e as redes sociais têm contribuído para a produção dos novos autores angolanos ou, pelo contrário, poderão dispersar ou mesmo apagar o passado, as referências?

Vejo a internet e as redes sociais mais no sentido positivo da partilha de informação em curto espaço de tempo e sem necessidade de muito aprumo. Muitos artistas de hoje só são conhecidos graças a essas novas ferramentas de difusão. Aliás, o conceito de blandig marketing ganha cada vez mais corpo hoje. Nenhuma promoção é eficaz se não abarcar a componente dos novos medias ou alternativos. A conservação das informações em termos de facebook, por exemplo, é ténue, porém os blogues e os sites que estão conectados ao google conservam a informação e até permitem o acesso rápido às memórias. Vejo mais vantagens do que desvantagens.

6.       Que análise faz da nova vaga de autores angolanos? De que forma se relacionam com os consagrados?

Tenho ainda pouca idade para comparar a interação entre os artistas de gerações distintas no passado e no presente. Das idas constantes à União dos Escritores Angolanos, na década de noventa, enquanto estudante do ensino médio, posso aferir que me parecia haver maior intercâmbio entre as gerações daquele tempo. Entendo também que as preocupações e as limitações temporais eram outras. Hoje está todo o mundo a correr e a procura de algo que ninguém encontra. Há pouco tempo para os consagrados dedicarem aos que anseiam por um lugar ao sol. Mesmo para ser acolhido na penumbra, o indivíduo precisa de ter sorte. Felizmente, tive a sorte de encontrar dois guias, o angolano Tazuary Nkeita e o Armando Graça, um reformado português com passagem por Angola. Foi com a ajuda deles que dei forma aos meus primeiros três textos publicados. Para dar de graça os ensinamentos que deles recebi de graça adoptei a Mãe dos Setinhos que deve apresentar o seu primeiro trabalho ainda em 29015, como também criei na Lunda Sul o Núcleo de Jovens Amigos da Literatura que funciona como escola solidária onde os membros se auto ajudam a aprimorar a técnica da escrita e a língua veicular em Angola.

7.       Na sua escrita recorre a paralelismos entre a vida humana e o mundo animal. Considera o Humano divorciado da Natureza?

Para um individuo nascido numa fazenda cafeícola, sem mais nada à volta senão a selva, a vida está frequentemente associada à natureza. Basta ver a semi-floresta que é a minha casa. Os homens, para mim, são apenas seres naturais que escolheram uma forma de vida distinta dos outros animais. A natureza está presente em todos os nossos actos. Até mesmo o lado animal reside em nós, e emerge em alguns momentos de menor razão.  

8.       Nos seus textos, considera que o homem é um “ser gregário e solidário que necessita da associação, cooperação e interdependência com os seus semelhantes”. São estas as fundações de Angola?

De facto, só juntos. Só pensando na mesma direcção com vista a um objectivo comum, seremos fortes e capazes. Há já muitos anos que o ser humano vem provando que as grandes realizações só se tornam possíveis quando os homens se congregam, traçam objectivos que a todos satisfazem e trabalham para atingir tais desideratos. No nosso caso, a pacificação, a reconstrução e a construção de um Novo País devem ser as nossas metas, independentemente das convicções ideológicas.  

9.       Termos como empreendedorismo e diversificação são os alicerces do futuro da Nação?

Primeiro devemos desmistificar o que muitos angolanos carregam no seu subconsciente de que #Somos um povo e país muito rico#, como se os recursos naturais, no subsolo, uns ainda por estudar, outros por recuperar, fossem riquezas factuais mesmo sem tecnologia e conhecimentos. A principal riqueza deve fundar-se no conhecimento e no trabalho. Depois, temos de explorar todas as adjacências e deixar de depender de um só produto de exportação para que haja menos importação e fontes alternativas para entrada de divisas. Temos também de deixar de nos envergonhar em fazer pequenos negócios. Basta ver quem detém o comércio retalhista quando há milhares de angolanos de mãos estendidas para ganhar um pão. Fazer negócios limpos deve ser vocação de todos nós e não apenas de expatriados. O  Governo deve é continuar a criar legislação e serviços que facilitem o estabelecimento de pequenos negócios. Os serviços públicos, quando necessitem, devem recorrer aos empreendedores para que se desenvolvam e se fortifiquem. 

10.   Pegando nas palavras de Nelson Mandela, considera que “o melhor ensino é o exemplo”? Que evolução nota no sistema de ensino nacional?

Mesmo na minha língua materna (meus primeiros diálogos foram em Kimbundu) há um adágio que reza que todo o ensinamento só se torna sólido se seguido de uma exemplificaçao. Não basta falar. É preciso demonstrar ou exemplificar. Como profissional e como académico, essa tem sido a minha práxis. Quanto ao ensino em Angola, considero que já foi melhor nos anos que se seguiram à independência, quando ainda reinava a palmatória e a reprovação por notas baixas. Hoje, me parece que se está mais para os diplomas do que para os conhecimentos e até alguns pais e encarregados de educação, em vez de inculcarem nos filhos a busca de conhecimentos, concentram-se mais nos diplomas. Só isso justifica o exército de consultores expatriados que temos nas nossas instituições. Estudamos mal e nos contentamos em pagar rios de dólares a alguns doutores de qualidade duvidosa.

11.   A História é um meio de analisar o passado para entender o presente e olhar para o futuro. Nesta perspectiva, quais os maiores desafios de Angola?

Fui estudante de História e tenho um pouco dessa vocação de olhar para o passado. Os angolanos têm a obrigação de escrever a sua História de forma desapaixonada. Sei que há um esforço nesse sentido. Organizações como a ATD (Associação Tchiweka de Documentação), a RNA, a LAC e outras, vão recolhendo testemunhos que podem servir os redactores da nossa verdadeira História. Daqui a nada, os arquivos ainda classificados se abrem e os Historiadores terão matérias para contar, de forma equidistante, a nossa trajectória como país. Há também muitos livros de cariz histõrico e de memórias como os dos nacionalistas Lúcio Lara, Dino Matrosse, Kundi Paihama, José Chiwale e o professor Jean Michel Mabeko Tali, só para citar alguns. São contributos de extrema vitalidade para que um dia saibamos que exemplos preservar e quem foram, na verdade, os heróis da nossa História.   

12.   Aquilo que foi preconizado em 1975, está hoje a ser cumprido?

Calculo que algumas coisas tenham sido cumpridas e outras por cumprir. Tivemos condicionalismos endógenos e exógenos que desviaram as atenções dos nossos dirigentes. É obvio que sempre que entrevistei, enquanto jornalista, os obreiros da independência, alguns diziam que o país tomou um rumo distinto daquele que haviam desenhado. Também é obvio que não tinham sonhado com a guerra civil nem com a queda do Socialismo que inspirou os seus sonhos. O meu balanço e a minha perspectiva é de que devemos olhar para frente, corrigir o que nos correu mal e não cometermos os erros do passado. O país chama-nos para uma nova atitude.

13.   Com 40 anos independência, estamos perante uma Angola emancipada?

Emancipada do jugo colonial e das potências com ambições desmensuradas em nossos recursos naturais. Já canto a música #em Angola mando eu#. Porém, tal como os homens são gregários e interdependentes, assim são também as relações entre os Estados. Precisamos ainda do apoio de outros Estados com os quais mantemos relações amistosas para desenvolver o nosso país. 

14.   Que individualidade melhor personifica a essência angolana?

Estou perante uma pergunta fácil de resposta difícil. Calculo que cada angolano encontre no nosso mosaico cultural e político um líder que o inspire e que siga como modelo. O verdadeiro angolano é mulher ou homem de paz, de acções ponderadas, , tolerante, solidário e optimista. A liderança máxima do nosso país tem essas e outras qualidades imprescindíveis.  

15.   Como projecta Angola a 10 anos?

Mesmo com a crise financeira que nos assola, seremos um país melhor para se viver. Vamos continuar a crescer intelectual e materialmente.


Nota: entrevista realizada em Novembro de 2015.

terça-feira, dezembro 01, 2015

O ABRIDOR SE SALÃO

Nasceu na fronteira entre o asfalto e o museke (musseque). Estudou também no bairro e na industrial onde se fez homem culto e respeitado.
Costa, sua graça de baptismo, soa em muitos   lugares e países da região austral de África.
- Papá Costa, azali bien? - Questionam os franco-lingaleses procurando por conversa.
- How are you, mister Costa? -  Saúdam outros, os vizinhos do leste, sudeste e sul que herdaram a língua de Shakespear.

Depois de anos árduos de trabalhos e negócios, Costa já a caminho da aposentação, tornou-se mascote familiar. Os primos, sobrinhos e até netos querem ficar ao pé dele e aprender um pouco de suas brincadeiras, sempre bafejadas de humor, quando não são verdadeiras lições sobre etiqueta e comportamento familiar ou empresarial.

Sempre que questionado por que entende ele de quase tudo, a resposta sai-lhe curta e peremptória:  estou no meu décimo mestrado.
Em tempos, surgiu alegre como sempre, a informar aos irmãos e cunhadas com quem convivia que durante uma viagem de 24 horas a uma província do litoral angolano aproveitara fazer um mestrado de três horas.
- Três horas? Qual mestrado, mano Costa?! - Questionou a assistência expectante.

Costa era daquelas pessoas que quando começasse a falar a plateia abria-lhe as alas. Era o mais velho da família e a reserva moral a quem todos deviam respeito e obediência.
- Sim, começou ele a explanação a que o mais atrevido da audiência apelidou de “aula magna”, fiz um rápido Mestrado em abertura de festas de salão. - Explicou recebendo uma forte gargalhada, seguida de assobios festivos.
- Abertura de festas de salão? Kota Costa é bué, yá?! - Enfeitou um dos assistentes e admiradores.

- Sim. Até avanço já o preço. Cobro apenas uma ngala de pomada. E, se for pessoa de casa, pode até ser por crédito mas acreditem. Danço muito que até nem me estou a acreditar. Foi um curso muito bom e quero já anunciar que estão abertas as inscrições para interessados nos meus préstimos. Todos que me viram na exibição prática do Mestrado só diziam: esse é o mestre que a cidade esperava há milénios. - Explicou entre sorrisos.

- Mas o kota estava a ser aguardado há milénios ou no Millennium? - Voltou a provocar um dos sobrinhos. Entre os bakongu, sobrinho e tio têm conversa ilimitada. Apesar da diferença de idade podem tratar-se como se fossem contemporâneos, sem tabus nos temas em abordagem.

- Xê, seu sakana de mercadoria. Organiza uma festa e convida o tio para ver se as moscas não se vão alojar na tua boca de tanto a manter aberta e bater palmas. Até as mãos te vão ficar rachadas. - Rechaçou Costa, inclinando as últimas gotas de uma reserva alentejana de 14 graus.

- E então jovens, estão ou não dispostos a contratar? Já conto com vinte inscrições para 2015 - Apelou o mestre Costa.

A plateia fez sinal de aprovação e o debate prosseguiu. Zé da Costa pegou a sua taça de pomada, sorveu dois goles, sentiu a massudez da velhice daquele tinto e o sabor a reserva. Marcou uma dúzia de passos pelo quintal, ensaiou um assobio e retomou a sua publicitação:
- As inscrições a decorrer. Faço abertura de festas de aniversário, de casamento, de baptizado e até de amistosos. Não tardem em fazer as vossas reservas nem se esqueçam do pagamento. Uma garrafa de boa pomada é o valor mínimo para familiares e amigos chegados da família!

Obs: texto publicado no Jornal Cultura (Angola) de 7-20 de Dez. 2015, pág. 13.

domingo, novembro 29, 2015

A BOCA E O PEIXE

(A boca mordida pelo peixe ou o peixe morto na boca)
Diz a sabedoria secular que da boca de um mais velho saem dentes podres ou cariados mas nunca palavras vãs.
Em momento de lazer, em Cacuaco, numa cacussaria frequentada por idosos, senhores e senhoras de idade e jovens ainda com barba emergente, ouvi alguém, com a cátedra que os cabelos brancos e as rugas no corpo fustigado pelo tempo e pelo vento, a dizer no seu refinado Kimbundu bem conjugado e articulado:
- Uxa dikongo. Kuxye kitadi. Andodijiba! (deves deixar dívida por saldar e não dinheiro aos filhos. Se deixares dinheiro vão brigar ou matar-se).

E o septuagenário não se ficou por aí. Falou ainda mais. Falou sobre um seu coetâneo que, estando acometido de uma doença e sem o apoio esperado dos parentes mais próximos, mandou matar os porcos que possuía na sua pocilga, todos de uma vez, oferecendo a carne à comunidade. "Querem deixar-me morrer para ficar com os meus animais? Não vos darei esse gosto". Terá desabafado, depois de ter vendido uns tantos para com o dinheiro buscar saúde. – Contou num discurso rebuscado, distribuindo expressões entre o seu Kimbundu materno e o Português de verbo fino.
Ao ouvir uma companheira de ocasião, na cacussaria de Catete, a sugerir o sumo de pepino para rejuvenescer o organismo, João Domingos, o idoso, apesar do peso da idade e dos cabelos todos esbranquiçados, não poupou esforços em solicitar a bendita receita.
- Filha, toma papel. Aponta tintim por tintim. Quero experimentar esse sumo e ver se esse corpo ganha força. Apenas o cabelo é que nunca pinto. Jindemba kaná (Kimbundu). -  Sacou ele de um caderno onde apontava as suas contas sobres vendas e créditos de produtos retirados da sua lavra à margem do Kwanza.
- Avo, desculpe paizinho, se o ofendo com o termo avo. É somente respeito. -  Interrompeu, inocentes, o jovens Mangololo que no segundo cacusso empurrado por fresca cevada.
E ele prosseguia:
- Se Mwadyakime uxa mona wofele, tambi y´ota (yand´o tokota) equivalente a se um mais velho deixa um filho menor, o óbito estará quente. Terá assunto para debate (sobre quem cuidará do menor).
João Domingos, o septuagenário, prosseguiu cauteloso, mas sempre desbocado:
- Ukale ngo umbaku, se mona. Tambi ki yando waba (fique infértil, sem filho. O óbito fica sem assunto, sem debates acalorados)!
 
 

terça-feira, novembro 24, 2015

UM GRITO A FAVOR DA FORTALEZA DE KALULU

Construída sobre o Monte Lukulu, que estará na origem da designação da vila de Kalulu, sede do município do Libolo, no Kwanza-Sul, a Fortaleza de Kalulu (ou Calulo nome oficializado nos registos topográficos) foi um dos maiores bastiões da resistência nativa à afixação dos europeus nas terras de Ngola até ao século XX.
Nos tempos da minha infância e adolescência, na década de noventa do século XX, ela cumpria ainda o seu papel militar, sendo o local onde se concentravam as melhores peças de artilharia do exército governamental que fazia face a uma rebelião armada e, por isso, seu último reduto. O entrar e sair de militares era sempre tido como sinal de algum alerta de que o cheio a pólvora podia estar próximo ou sinónimo de novas aquisições em termos de tecnologia militar. Basta ver que o Palácio do Administrador está erguido à entrada do forte.

No tempo da guerra civis entre angolanos a Fortaleza de Kalulu era um local inacessivel a civis comuns, sendo quase místico para a miudagem do meu tempo o que havia e ou acontecia no seu interior, para além das "armas pesadas" e dos "tropas mais cacimbados" que entravam e saíam. Das raras vezes que vi o seu controlo a mudar de mãos, mesmo que fosse por curtos minutos, senti parte da derrota, assim como sentia dor ao ver pedaços de pedra a ela arrancados à força de canhões e morteiros. Mas, dia depois, retornados duma fuga forçada, lá estávamos de novo, a curar as feridas, apagar as cinzas e a contemplar a dureza da nossa Fortaleza contra a qual, infelizmente, a acção voraz do tempo tem sido implacável.
A abertura da Fortaleza de Kalulu ao público aconteceu nos anos de paz efectiva, isto é, depois de 2002. Com a desmilitarização da vila de Kalulu a fortaleza passou a acolher as antenas reprodutoras dos sinais da Televisão Pública de Angola e da Rádio Nacional de Angola.
Embora seja considerada pelos nativos do Kwanza-Sul e por muitos historiadores, que leram sobre ela ou a visitaram, como um "local de memória colectiva", desconheço a existência de um diploma legal que a eleva a património Histórico Nacional, como acontece com outros edifícios classificados, pois não vi nenhuma placa com tal indicação, nem à entrada nem no seu interior.
De uma coisa, porém, tenho plena certeza: a Fortaleza de Kalulu é memória colectiva dos angolanos sobre a resistência oferecida pelos nativos à presença europeia, levando os invasores portugueses a erguer na elevação que se acha no interior da vila um forte em pedra bruta para melhor se defenderem e desferir fogo de artilharia contra os nativos que se revoltavam de tempo em tempo. No seu silêncio, ela conta também o estoicismo dos povos do Lubolu (Libolo) e arredores contra a usurpação de suas terras, subalternização da sua cultura e mutilação de seus usos e costumes. Um povo fraco e submisso que tivesse renunciado a sua organização política, social e cultural não teria merecido tamanha honra dos conterrâneos de Paulo de Navais.
Sobre os anos das refregas entre movimentos desavindos ao sair de Alvor e, depois, entre o Governo instituído no país e a rebelião armada, a Fortaleza de Kalulu guarda outra História e estórias. Vai daí também a necessidade de se redigir tudo quanto ela registou, formar-se jovens guias que recontem estes episódios aos visitantes da sede administrativa do Lubolu que vai conhecendo um crescimento do número de visitantes, sobretudo nos dias de Futebol que é animado em semanas intercaladas pela equipa do Clube Recreativo do Libolo que está na 1ª divisão, ostentando já quatro títulos de campeão nacional.
Depois de ter sido reduzida a depositária das antenas que reproduzem os sinas da Rádio e Televisão Públicas, que caso fossem colocados na elevação maior, Kaliematuji, até dariam maior serventia em termos de alcance dos referidos sinais, a Fortaleza de Kalulu cai aos bocados, como facilmente observará quem para lá se desloca, não se observando movimentação no sentido do seu restauro e ou uma mera reposição dos blocos que se desprenderam do muro, fruto de continuada acção humana ao tempo das refregas e da acção do tempo.
Sabendo que o Palácio do Administrador municipal, que fica à sombra da escadaria da centenária fortaleza, beneficia de restauro, aproveito lançar um SNF (Salvem a Nossa Fortaleza) , procurando que seja lido e alguma alma com poder e apego à memória colectiva se lembre de exercitar a magistratura de influência positiva junto dos poderes político e económico ou mesmo leve mão ao bolso para que se  preserve a Fortaleza de Kalulu.
Já perdemos, com esse andar despreocupado, o Fortim da Kibala cujas pedras foram emprestar força aos alicerces das casas de adobe, não faltando muito para que o mesmo destino seja dado aos blocos que compões a Fortaleza de Kalulu.
Segundo o investigador Carlos Figueiredo, também ele um libolense a prestar docência em Universidades de Macau e Brasil,​ que se juntou a esse apelo, "...com a perda do Fortim da Kibala, infelizmente, apagou-se também uma página importante da História do Libolo. Na altura em que o fortim foi construído, a Kibala era parte integrante do Município do Libolo. No final do séc. XIX e princípio do séc. XX, a localização estratégica de Calulo foi importantíssima. Na Fortaleza de Calulo estava instalado o Posto Militar que funcionava como centro de todas as operações expedicionárias tanto na área do Libolo como nas circunscrições vizinhas da KisSama, do Seles e do Bailundo. O fortim da Kibala foi construído para dar apoio a essas expedições e servir como testa de ferro aos ataques dos nativos da região do Seles e do vale do Longa. O Município da Kibala só foi desanexado do Libolo em 1921, depois de concluída a pacificação da região".
Tornam-se, por isso, imperiosos a responsabilidade moral e o dever histórico-patriótico de todas as mulheres e homens conscientes de toda Angola que devem unir esforços para a preservação do nosso passado comum, em Kalulu e em outros cantos do nosso país.
 

quarta-feira, novembro 18, 2015

GENGIBRE MEU


Há alguns anos. Não muitos anos ainda, quando chutávamos despreocupadamente à bola de trapos ou outro objecto qualquer para aliviar a distância de casa à escola do povo, no dizer das crianças, eram as tias das panelas grandes e brilhantes ao sol de Abril e canecas, também de alumínio brilhante como nunca, quem vendiam kisângwa adocicada com que empurrávamos pedaços de bolinho ou galetes estômago adentro. Só elas também eram vistas a comprar e vender aos pedacitos o famigerado gengibre. As kotas e os tios que pegavam em pedaços de cola, carregada de acidez, ou gengibre ajindungado eram rapidamente rotulados de langas ou outro ganhavam outros epítetos menos honrosos.

- Esse kota deve ser retrô! (alusão aos retornados angolanos, depois de exilio em país vizinho) - Dizia-se em surdina ou num canto distante colado ao ouvido do companheiro.

- Xê pioneiro, cuidado com a língua. Se o mano te ouve vai te dar kibetu ou dar parte na tua mãe. Não queremos bandidos no bairro. - Advertiam as senhoras da Kisangwa, sempre maternalistas mas também policiais, vigiando-nos quase milimetricamente para não descarrilarmos.

Meninos da kangonya e diazepam como hoje quase não havia, tirando aqueles incorrigíveis pela simples censura colectiva, que eram já designados como #os perdidos gregos#, cuja surra do dia a dia  era para eles elogio. Esses sim, eram detestados pela comunidade e até mesmo pelas próprias mães cujo amor que diziam sentir era só de fingimento.

Nas caminhadas, o sol, a poeira, as basulas, só para aborrecer o amigo e companheiro quando se estivesse já próximo de casa, vindos da escola, caminhavam connosco abraçados. Era ao abeirar-se da porta do quintal que a basula ao companheiro se fazia presente, sendo mimoseado com um vai pra aquilo ou uma pedra a beijar o ferro duro do portão.

- Amanhã vou te apanhar na escola, vais ver só, seu feio e faquiri duma figa! - Consolava-se o ofendido. Mas tudo ficava por aí. O dia seguinte seria de outras cumplicidades na fila do apinhado depósito de pão, nas trambiquices da bola no pelado, das inconfessáveis praias no Bungo ou Chicala de que as mães raramente desconfiavam e da cooperação na resolução dos problemas matemáticos da tarefa escolar.

Naquele tempo, de pouco ter e muita procura do ser e da honradez, o lixo não era amigo. Não nos visitava tanto a ponto de connosco pretender morar. O consumismo e a descartabilidade estavam ainda noutros dicionários não acessíveis a todos os angolanos do cartão da loja do povo e das filas nos talhos. Pedaços de madeira descartados no serviço atendiam o carpinteiro dos banquinhos para as tias das kitandas e da Kisângwa à porta de casa ou da escola. Latas de leite eram carteiras quando não faziam panelas chiar nas casas em que a palha da serração fazia o papel de gás e carvão. Até as escolas tinham-nas em quantidade e qualidade que se traduzia nas marcas onde o nido se destacava.
- Xê, fila da goda! Vocês tomaram nido no mês passado? Tô pai já gasta nas lojas francas ou viajou pro estrangeiro? - Perguntavam os petizes  habituados a ver o colega sentado numa lata de marca corriqueira. A atenção dos rapazes, sobretudo, em relação às novidades dos colegas era tão grande que quem aparecesse com roupa ou sapatos novos era logo brindado com felicitações amistosas.
- Xeie, fulano chamou! São novos ou do Asão? Perguntavam, referindo-se ao mercado do Asa Branca, ao Cazenga, que se tornou célebre por aí ser comercializada muita roupa e calçados usados, doados por organizações não governamentais.

Os papelões tinham uma utilidade qualquer. O ferro, mesmo retorcido, servia para as faças fogareiros e outros artefactos. Os pedaços de chumbo também eram reciclados e davam forma a outros objectos como os que davam peso às redes de pescadores da saveia, matona e lambula. As latas de salsichas e de óleo maná (alimentar) serviam para candeeiros que se expunham em lojas de referência e cantinas, depois de passadas pela arte do funileiro. Até as garrafas de vinho e cerveja eram cuidadas para serem devolvidas inteiras ao revendedor e à fábrica quando não recortadas com engenho para servirem de copos.

A mizangala desocupada não se kangonyava ainda como hoje. Apenas  se kacilingavam (do umbundu kacilingi cimwe) os kotas sem arcaboiços para convencer as manas mais vistosas do bairro. Outros se kapukavam de reco-reco cinquenta ou búlgaro cem Kwanzas. Algumas manas sobradas, por causa da vida fácil com os cooperas regressados à estranja, se migostavam para prender os kotas regressados ou fugidos da vida Kwemba e que procuravam recuperar a vida perdida. Mas eram poucas as mulheres que se entregavam à vida fácil entretidas nas latarias dos cubilas e grades de cerveja dos francós das lojas francas. As jovens queriam e procuravam mesmo era homem para as manter e formar família.

- Vais me fazer pedido com todos os deveres? - Questionavam ao que o cavalheiro candidato respondia com acções e não com as palavras de hoje que o vento leva.

Fora do acompanhamento à kisângwa, os kotas não se gengibravam como hoje, ao que dizem, para calibrar o divumo (diminuir o tamanho do tanque) e aumentar a potência da torneira. Caminhavam sem esforço e nem reforço. Trepavam montanhas sem tração. Era a força das caminhadas longas, sem táxi nem dinheiro para autocarros que os fazia fortes e valentes. E conseguiam convencer e atender até a Zaida Kimbundaria do romance do Ismael Mateus. 

Hoje, tempos do corre-corre, do tenho e proponho, até ngongwenya de gengibre já há.
- Compra gengibre para não usar táctica do galo, subiu e desceu! – Convidam as vendedeiras espalhadas pelas ruas da urbe.

E lá vamos introduzindo na dieta um novo elemento ajindungado, mas também açucarado. É farinha de gengibre. É sumo de gengibre substituindo a kisângwa. É refogado com gengibre... E quão gostoso ele é?!