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terça-feira, setembro 19, 2017

NÓTULA SOBRE CAXICANE

O festejo do 95º aniversário natalício do primeiro Presidente de Angola, também consagrado Herói Nacional, Dr. António Agostinho Neto, levou-me à vila de Catete para actividade lúdica e cultural, adentrando depois a estrada que nos conduz à Muxima e mais ainda a picada que vai a Caxicane, local que conserva o cordão umbilical do fundador da nação angolana nascido a 17 de Setembro de 1922. Não sendo a primeira vez que para lá me desloquei, não deixei de “descobrir” algumas curiosidades não visualizadas com minúcia nas primeiras visitas ao local. Repare bem a foto. Estou apoiado sobre o púlpito do que foi o segundo templo metodista erguido em CAXICANE. Procurei pela data da sua construção e, embora houvesse no local cidadãos sexagenários, não obtive resposta. Resta-me a impressão de que a edificação terá sido a que existia nos dias de mocidade de Agostinho Neto, sendo feita de pau-a-pique e rebocada com areia e cimento nos dois lados das paredes. O chão foi também cimentado, sendo que os púlpitos haviam sido construídos em tijolos e rebocados. O tampo também é de betão.

A primeira igreja no local terá sido em material ainda mais precário: ramos de palmeiras, paus, barro simples para fechar as paredes e coberta de capim, conforme nos mostram as fotos de seu pai, Reverendo Pedro Neto, com o filho, Kilamba, pousando no colo de D. Maria da Silva Neto. 


A terceira igreja, em alvenaria e pintada de branco, é maior e tem altos alicerces, devido às inundações que vezes sem conta acontecem em CAXICANE, quando o Kwanza faz suas águas transbordarem, é mais próxima no tempo.

Repare agora na proximidade entre o rio e a Igreja em cujas ruínas concebi esse texto: apenas escassos metros a separam do leito. Não será, por isso, difícil concluir que os implantadores do metodismo em CAXICANE terão navegado sobre o manso Kwanza.

sexta-feira, setembro 15, 2017

UMA VISITA AOS IRMÃOS DE CAMBULUNGO

CAMBULUNGO é  o nome da classe (espécie de capela para os católicos) da Igreja Metodista Unida em Angola, IMUA, no Quissongo. Ao longo da rodovia não vi mais do que duas confissões religiosas, sendo o templo de Cambulungo o maior.
 
As paredes duplas, em adobe, dão maior resistência e durabilidade ao edifício coberto de chapa de zinco. Os assentos são de plástico e atendem todos os irmãos e visitantes.
Cambulungo, designação adoptada para o templo, é nome de um nativo Metodista que nunca deixou a chama se apagar, mesmo em momentos difíceis da vida daquele povo e comunidade religiosa.
Malanje é berço do metodismo angolano e fica aí, a poucos quilómetros, servindo de inspiração.
 
Parabéns aos irmãos da Classe Cambulungo/Cargo de Calulo (Kalulu).
Os peregrinos metodistas de Luanda e de outras cidades precisam de lá ir e procurar entender os caminhos árduos percorridos pelos missionários americanos que nos trouxeram a chama do METODISMO wesleyano.
 
É também um chamado que os metodistas que amam a sua chama e que podem contribuir com algo apadrinhem comunidades como a de Cambulungo.

sexta-feira, setembro 08, 2017

DEPOIS DA FILA A 10GRAÇA

Tarde de sexta-feira, dia de repor energia, depois de cinco jornadas extenuantes. Aturei "mbora bem" o engarrafamento na zona do Coelho, três horas e tal, a "caloriar" num carro com AC e tudo. O gasóleo, agora, é líquido precioso que exige poupar. Luxo fica só pela metade: um pouco de AC e um pouco de poeira e calor, para poupar combustível em trânsito intransigente.
 
Quando estava mesmo já no fim do sofrimento, eu a buzinar a os outros automobilistas para que tivesses mais atenção e eles a me buzirem de volta, uns só mesmo de pirraça para espantar os nervos que tinham comido todas as unhas e estavam quase a sangrar os dedos, eu já a entrar para o asfalto, ouvi um cru-cru-cru- buá trás de mim. Era no lado esquerdo. 
 
Um Rav 4 antigo, todo desmazelado, um acaba de me matar, raspou-se no meu carro, até se estatelar no degrau (estribo) que chamam de "pisa-pé". Buá! E o homem não pára já? Não! Continuou.
Estava, afinal de contas, a ser puxado, com corda de aço, por uma camioneta. Saí da viatura "foribundo", quase aos socos, mesmo tendo a minha mão aleijada. Mais atento esteve o polícia, quase a ler-me os nervos à superfície da epiderme, contrariando-me:
 
- Não faz isso, senhor, por mais razão que tenha. Não se bate ninguém a frente d'autoridade. 
 
- Então, camarada autoridade, mande-o assumir e pagar os estragos, senão vamos nos resolver mesmo já aqui. Esse carro tem nome da minha sofrida mãe. É de sofrimento. Não me foi oferecido nem o apanhei só assim... - Falei mais calmo.
 
Aí,o homem do acidente exibe as "cadaplas"e confessa: 
 
- Sou pessoa de boa fé. Me desculpa só. Também sou polícia que guarda as empresas grandes o meu ganho é xis. Pior do que isso, errar a mãe. O meu passe e a carta de condução podem ir consigo. Dá-me seu contacto e um dia lhe procuro. -Disse o senhor.
 
Eu com a mãe (viatura que tem o nome da minha progenitora) arranhado. Ele, verdade ou mentira, perdeu a mãe. Fiquei por interrogações sem respostas.
 
- Assim mesmo se faz?
 
A Maria (carrinha) anda agora "despelada", como se tivesse lutado com o António (outra viatura com o nome do finado marido de setenta e três-oitenta e dois). É uma estória antiga, já leva tempo. Mas aconteceu mesmo!

Publicado no jornal nova Gazeta de 31 de Agosto/17. 

sexta-feira, setembro 01, 2017

LOTADORES, COBRADORES E ESPALHA DORES

Fazia tempo que não andava de táxi. Fi-lo propositadamente em dois dias seguidos para estar por dentro do mundo que existe para além do ar condicionado e vidros translúcidos.
 
Descobri que, para além dos já famigerados cobradores (preferem ser chamados de gerentes), loteadores (os que numa paragem principal ou término se encarregam de chamar os passageiros até completar a lotação do veículo), existe uma outra subcategoria, essa perniciosa, que é a dos aproveitadores ou saqueadores.
 
São grupelhos de jovens, muitas vezes drogados, que inundam as paragens de táxis colectivos, dedicando-se à extorsão dos cobradores no valor de cem Kwanzaa por cada paragem que efectuem. Se resistência houver, muitas vezes, acabam agredindo o cobrador resistente, ficando com todo o dinheiro que tenha e chegam mesmo a assaltar o táxi e se acaparar dos bens e dinheiro dos passageiros. 
 
Contra esses, não se pode fazer outro apelo que não seja a atenção e acção da polícia que deve ser implacável e não coabitar, nas paragens e em qualquer lugar, com tais inimigos da segurança pública.
Aos saqueadores e espalha-dores não devia haver sequer um segundo de tolerância!
 
 
Texto publicado pelo Jornal Nova Gazeta a 04.05.2017

terça-feira, agosto 29, 2017

VENDO BEM... COMO SURGEM OS NOMES?

- Na Pasa; Sa Lutenda; Mama ly´Atimba; Tata lya Juá... não passam de nomes que ganham os progenitores depois do nascimento do(a) primeiro(a) filho (a). Era assim antigamente a atribuição de antropónimos (nomes de pessoas). 

Para a comunidade rural angolana, sendo a paternidade/maternidade um marco muito importante, o(a) genitor(a) passava a ser chamado(a) pelo nome do(a) filho(a), antecedido do prefixo equivalente na língua local a palavra pai (sa em Cokwe e tata em kimbundu), passando-se o mesmo com a genitora (na ou mama nas duas línguas em que fiz a pesquisa) passando a "mãe de fulano (a).

Situações semelhantes verifiquei no Mali e Guiné-Konacri. Já para os europeus, os antropónimos e depois os apelidos surgiram para diferenciar os indivíduos em função da ocupação. Assim, surge o Pedro (pedreiro), diferente do Jardim (jardineiro), do Backer (padeiro em inglês), etc. 

Entre os Bantu, o homem social ganhava estatuto depois de se tornar pai/mãe.

quinta-feira, agosto 24, 2017

AO DEBATE: ANTES E DEPOIS DE VOTAR

Nota prévia:
Discutíamos de forma saudável e urbana sobre a impertinência de, na próxima legislatura se poder ou não rever a Constituição da República e "acomodar" o principio da eleição dos deputados pelo ciclo provincial em função da proporcionalidade do seu número de eleitores. Dizia eu que "não fazia sentido que o Bengo eleja mesmo número de deputados (cinco) que Luanda", sendo a capital do país a principal praça eleitoral, com cerca de um quarto do total de eleitores. O debate ia animado (ele defendendo a regra em uso e eu o contrário), até que chegou "o dia do voto", 23 de Agosto/17, tendo decretado uma "pausa" para que pudéssemos pensar em outras coisas mais imediatas. E assim escrevi:
  
"Permito-me ainda abusar o meu amigo Carlos Calongo Adão, jovem inteligente de Catete que já foi Luanda, passou ao Bengo e voltou a ser Luanda. Eu também, do Libolo, sou agora o quarto vizinho de Luanda.
E é assim:
Duas lambisgoias bêbadas e perdidas. Dizia uma:
- Quero saber onde estamos é aonde vamos.
Respondeu a outra:
- Não precisas saber.
- Por que razão?
- És puta, por que te interessa saber aonde vais?
- Para me orientar no regresso à casa.
- Tu precisas é de clientes e mais copos... - Dizia a conformista.
- Disso sei, mas... Quando acabar o álcool e os clientes?
- Por acaso decidimos mudar de profissão?
- Até que não. Mas não precisaremos nunca nem de mudar de tangas?
- Tangas?
- Sim, roupas maquiagem, higiene, etc.
- Basta que tenhamos clientes e dinheiro. Tudo se compra no momento.
- E os banhos?
- Já te disse, Maura. Se vier um cliente que te leve a um hotel você toma o duche. A roupa compras na boutique. Casa pra quê.
- Mingota, sua tonta, e quando tiveres saudades dos teus irmãos também os vais transformar em clientes?
...
Cada foi no seu caminho.
No caso, eu e o meu amigo Carlos Calongo Adão, ainda vamos a caminho do voto e voltaremos à conversa".
Bom dia e espero que tenha votado em consciência.

terça-feira, agosto 22, 2017

A CAMINHO DO ALAMBIQUE

Entre Setembro a Abril, bate a chuva e todos curva. Homens, rios, vegetação... Cresce o canavial e o bananal, destacando-se o "dondi". É no kasimbu que tem proveito. O capotar de um camião irrecuperável é festa para o ferreiro-artesão. Tem cano para a canoa que há-de expelir já liquidificado o álcool gasoso que foge do tambor em que se agita o fermentado em fervura.
 
No kasimbu, sim. Os caminhos vão dar ao alambique, à ditenda ou outro código. Uns contam os dias de fermentação da matéria prima: pasta de batata doce, de mandioca, de milho (incrementada se seiva de muxíri ou mbundi que é raiz suculenta de um arbusto), sumo de cana de açúcar, de mamão, laranjas, abacaxi, frutas diversas incluindo silvestres como o maboque. Há quem ouse até transformar maluvu (vinho de palma) em kaporroto! Sete dias para a destilação!
 
Antes, há o catar de lenhas para preparar o produto que entra em fermentação. Depois outras lenhas para a fogueira que há-de expulsar o álcool e transformar o vapor em líquido.

Os kinangambala (os que, por preguiça de lavrar, "cuidam" da aldeia), são guiados pelo fumo negro e quente que no kasimbu abre fenda entre o nevoeiro cerrado. Encimando um montículo, uma pedra ou outra altitude, passeiam os olhos pelos 360 graus da aldeia. Já sabem de quem é a lavra e o alambique. Fazem-se caminho abaixo. As amizades e parentescos também contam para "fiar". E a fabriqueta dispensa assalariados. Ganha braços voluntários que alimentam de lenhas a fogueira  água na "canoa refrigeradora",aguardando pacientes pela primeira gota e primeiro litro: o da "ponteira". Depois enchem-se garrafões. Aos poucos, muitas vezes pelo mesmo copo, vão provando, "fiando" e comprando, se entorpecendo até álcool não mais for expelido pelo cano ligado ao tambor.
 
Fila indiana, já tarde avançada ou noite escura, vasilha na mão, catana noutra mão, seguem a caminho da aldeia, alegres, às vezes cantando, outras vezes discutindo "descoisas". Passou o dia. Outros se seguem. E os alambiques prosseguem a sua função.

terça-feira, agosto 15, 2017

VELHO TRINTA


Caminhávamos em fila indiana pela estrada asfaltada e sob sol ardente. Os homens mais velhos à frente, as crianças descalças pelo meio e as protectoras mamãs à recta-guarda. Antes da fuga, havíamos passado noites a dormitar na mata, embora os dia fossem passados nas lavras. A preocupação pelo que de bom ou ruim nos pudesse acontecer era obra dos adultos. Brincávamos e íamos à escola sempre que o professor, meu primo Jorge Kakonda, entendesse.

Entre os adultos ninguém tinha sido militar, nem sequer conheciam as artimanhas dos Kahuha (assim apelidados os kwaca pelos namibianos da Swapo).

Pensava-se que os homens podiam chegar à madrugada, cercar as casas e levar todos ou quem quisessem. Por isso, as noites, sob frio intenso e chuva, eram na mata com a atenção virada aos sons que podiam vir de cães a ladrar ou galinhas a reclamar liberdade.

Lembro-me da aflição que vivia a minha mãe. A Emília devia ter dois anos e às vezes chorava, como o fazem as demais crianças. Dormir na mata, apenas um pano estendido no solo húmido ou rígido, não tem a comodidade de uma esteira. E diziam à minha mãe:

- O mon'u mubane lyele. Otujibisa! (Põe essa criança a mamar, vai fazer matar-nos!)

Vontade de defender minha mãe, eu filho primeiro, havia. Mas como exercer autoridade? Tal pressão psicológica sofriam também que estivessem engripados ou acometidos de tosse. Tossir? É se os kwaca estiverem por perto e ouvirem?

- Eles vêem melhor de noite e madrugada do que quando há sol. Com UNITA, você não torra farinha quando esteja escuro. - Diziam para nos pôr no lugar.

O Limbe, minha aldeia, era formado por duas comunidades: uma constituída por originários de Mbangu de Kuteka, cujo patrono era Xika Yangu, e outra comunidade da família Trinta. Ficavam distanciadas uma da outra por um intervalo inferior a meio quilómetro.

O dia da fuga, a primeira, foi combinado entre os makota das duas comunidades. Já se tinha "assistido ao accionamento de minas por parte de tractores e viaturas e subiam os rumores de que os kwaca estavam por perto. Já se tinham verificado rastos e algumas lavras aliviadas.

Partimos. Já não me lembro se bem no princípio da manhã ou no fim dela. Porém, aquele sol ardente sobre nossos corpos pioneiris e o alcatrão derretido a travar nossa marcha não me saem da memória.

Os da casa de Xika Yangu e os Trinta, todos estrada a baixo, em direcção às proximidades da sede comunal da Munenga. Era lá que estava a tropas das FAPLA e da Swapo.

Foi durante essa marcha, em 1983, que ouvi o Velho Trinta (já retratado em livro de ficção) a falar do seu "relógio que na verdade era o seu coração que teimava em funcionar.

- Por que não estragas de vez, ó relógio? - Apelava ele, cansado daquela vida de fugas permanentes e dias passadas nas matas, dado o peso da idade que carregava, já acima do dobro do seu nome.

Os Trinta ficaram em Katoto. Na verdade era Sangisa, pois a aldeia original de Katoto ficava mais no interior, próximo do rio Ryaha. Lá fomos parar na fuga posterior que nos levou à Munenga em Fevereiro de 1984.

Os da casa de Xika Yangu avançaram até Fuke, junto ao Ngana Mbundu, na margem do rio Mukonga. Ernesto Kapitia, irmão de Xika Yangu e primo de meu pai já finado naquela altura, era motorista do alemão (Walter Kruk ou Ngana Mbundu). Ali ficamos uma semana.

sábado, agosto 12, 2017

VIAGEM AO PASSADO


Monte Kanzangiri. Munenga/Libolo
- Kanzangiri em chamas?
- Não! É nevoeiro pela manhã.
- Então é isso que faz o cimo das montanhas ter sempre vegetação verde, mesmo em tempo seco?
- Sim. Já sabes que quer chova quer não, lá, no topo, há sempre humidade que se farta para manter vivas e verdinhas aquelas árvores que estendem as suas raízes em pequenas camadas de terra sobre pedras.
- Há bichos e pessoas por lá?
- Pessoas a morar não. Apenas canta-pedras e outros bichos de pouco valor.
- E canta-pedra é o quê?
- São pequenos animais mamíferos, não muito pequenos. Assim do tamanho de... de um coelho gordinho. Têm pêlos, pele mais resistente do que a do coelho, três dedos apenas, roedores, frutívoros e insectívoros. Vivem entre pedras e cantam ao alvorecer.
- Ah! Então são bichos que cantam entre pedras, não é?
- Pois, sim. Emitem sons ímpares à madrugada.
- E a montanha chama-se Kanzangiri porquê?
- Os locais de referência têm sempre nomes. Os montes, as montanhas, os rios, as coutadas, os cruzamentos de caminhos, etc. são referências que ajudam a situar as pessoas. Imagina que sais de Kalulu à Munenga pela primeira vez. Tenho de te dizer, para te situares ao chegar, que a lavra do Soba Kavindi Tungunu fico em Kanzangiri, montanha paleolítica que se acha à direita do teu caminho. Posto lá, em Kanzangiri, é só perguntar que as pessoas mostram a lavra do regedor.
- Ah, agora percebo, tio. E esses nomes são novos ou antigos?
- São antigos. Muito antigos. Há estórias já perdidas sobre a nomenclatura. Tentei, certa vez, perguntar sobre a origem de alguns topónimos e fiquei sem explicação.
- Mas como, sem explicação, tio, se as pessoas ainda vivem aqui?
- Sim. Vivem. Mas há uma grande dificuldade em descortinar a origem de todos os nomes. Os mais velhos não registavam por escrito os acontecimentos. Depois, houve um tempo em que os jovens deixaram de especular sobre o que lhes aparece à volta. Quem devia perguntar não o fez. Quem devia explicar também não. As pessoas estavam preocupadas em salvaguardar a vida do que a herança histórico-cultural.
- Foi no tempo da guerra não é?
- Sim. E muita nossa história ficou prejudicada. Para a recomposição histórica vamos precisar de muitos mais recursos e técnicas como o recurso à Arqueologia, Antropologia, Literatura Oral, que está a ficar escassa, etc.
- É por isso que, onde o tio pára, fica sempre a perguntar e a tomar notas?
- Sim, sobrinho. Temos de fazer a nossa parte, por mais ínfima que seja, para permitir que os verdadeiros investigadores encontrem alguma pista. Temos de fazer o mínimo possível...
- Obrigado tio.
E seguiram viagem...

Texto publicado pelo jornal Nova Gazeta, 03/08/2017

terça-feira, agosto 08, 2017

EMBOSCADO EM KASANJI

Dois ataques principais levaram-me a procurar refúgio em Luanda.
Primeiro em 1984, quando me encontrava na sede comunal da Munenga. Fiquei na capital do país até 1987, saindo daí para a sede municipal do Libolo, Kalulu, onde permaneci até Junho de 1990.
Em 1992, fruto do cessar-fogo e a sua "mini paz", que era tanta para a nossa vida de guerras sem fim, desloquei-me, em férias intermédias, à Pedra Escrita (Libolo) e depois à aldeia de Kizowo, Kibala, onde residia Luciano Fernando Dambi, irmão do meu pai. Eu gostava de bicicletas. Pegava em quadros simples e, peça a peça, fazia daquele esqueleto emergir uma "Bina". Peguei um quadro e, de regresso à Pedra Escrita, pendurei-a no ombro. A mochila repousava nas costas, assim como caminham os militares. Era adolescente pleno a espreitar a juventude. Corpo sarado e bem estruturado, 1,74m de altura.
Caminhava sozinho perto de 25 quilómetros. Carros não havia. Muitas pontes ainda partidas por reconstruir. A descer a aldeia de Kasanji (Lususu-Muxixi) Kalumbungu, chefe da UNITA e sua tropa, fazem-me uma emboscada. À distância terão enxergado "um militar com mochila às costas e PKM nas mãos". Cinco homens de farda verde oliva a mostrar o desenho dos genitais, barba por arranjar, irromperam sobre a estrada manipulando em simultâneo. Não entrei em desespero. Entrevistaram-me e expliquei de onde vinha e para aonde ia. Conheciam meu padrasto que era soba da Pedra Escrita. Minha permanência na Pedra Escrita foi apenas de um dia pois, tinha certeza que os tipos, que andavam desconfiados que eu era anti-motim, lá iriam para me incomodar. E a minha mãe informou-me, tempos depois, que mal me retirei os homens apareceram perguntando onde me encontrava.

Publicado pelo jornal Nova Gazeta de 28/08/2018

terça-feira, agosto 01, 2017

BALA NA CÂMARA: MÃOS AO AR

A paz de Bicesse, 31 de Maio 1990, tinha permitido realizar as primeiras eleições em Angola, de 27 a 29 de Setembro de 1992, classificadas como livres e justas.
Eu estava inscrito no Instituto Nacional de Petróleos e, em Janeiro de 1993, deveria ir ao Sumbe saber dos resultados e eventualmente estudar Geologia e Minas.
Em Dezembro de 1992, desloquei-me à Pedra Escrita, a fim de pegar um saco de macroeira que me permitiria comprar roupas novas e sapatos para aguentar o ano lectivo. No segundo dia da minha estada por aquela aldeia, que tinha a Unita sempre por perto, fui alvo de uma emboscada.
Eu trajava calças jeans blue, camisola da CNE e, por cima, um casaco avermelhado. Os homens que haviam negado a lisura do processo eleitoral e os seus resultados, terão chegado à aldeia no dia anterior e acompanhado todos os meus passos.
Eu ia à lavra, a pé, acompanhado de dois rapazes, meus paarentes: o Segunda Africano e o Daniel.
Na primeira descida, em direcção a Luanda, EN240, a olhar para a pedra, os homens saíram da mata. Crá-crá. Bala na câmara.
- Mãos ao ar.
Obedeci. Um esboçou posição de atirador. Deu uns passos à recta-guarda.
- Ainda tira o casaco. - Ordebnou arrogante.
Obedeci sem me acobardar.
Veio outro para reparar ao detalhe as inscrições na camisola, tendo anunciado depois:
- Ainda pensamos que era a cara do "Enduarto Sando". Se era ele, íamos disparare só na "fodografia" que está no peito. Ainda o maninho pode ir na (à) lavra. Mas se te darem camisola do "Enduarto Sando" nó usa. Doutor Savimbi não lhe gosta!
Quase ri. Estava já avisado que, embora tivesse propaganda do MPLA, não devia exibi-la naquele território. Um dos putos que me acompanhava não conseguiu conter o mijo. Fê-lo nos calções. Era tanto o medo que a presença dos homens e aquela acção impunham.
Segui o meu caminho, atrevido como são os adolescentes e os jovens de primeira viagem, até à lavra onde me encontraram, horas depois, para mais provocação.
Chegaram uns miúdos, FALA pequenos, irrompendo sobre a horta. Eu cuidava do bananal. Gosto de bananas e aprendi a cuidar de bananeiras. Os miúdos armados de kalachenikov pediam tudo o que viam: cana, mamão, mandioca, bombô demolhado, banana, etc. Quando eu ia já ficando fulo, a minha mãe apareceu e deu o que queriam. Ela leu o cenário mais cedo.
De regresso à aldeia, coloquei umas tantas canas na bina que me fora emprestada por um primo. Pelo caminho, fui novamente interpelado pelos kwaca (Unita) a pedir cana e demais produtos. Sabia que pretendiam um subterfúgio para lançarem toda a sua ira contra mim. A contragosto, não ofereci resistência.
Posto em casa, aturaria outras humilhações, pedindo que eu e tantos outros "kinangambala" fossemos catar lenhas para a sua habitual fogueira nocturna.
Para escapar, tive de me socorrer das que a mãe tinha na sua cozinha
...

sábado, julho 29, 2017

KITOTA NA MUNENGA


Naquele dia do ataque à Munenga, em Fevereiro de, parecia que até os cães se tinham aposentado de ladrar. Ou estava tudo muito calmo ou eu não tinha reconhecido o suficiente aquele vilarejo.

À madrugada, os kwaca (cuacha) que gostavam da alvorada, atacaram.

- Avança, kovaso (covasso), agarra, kwata... Verberavam em meio a cânticos e batucadas do pessoal de rapina.

Balas perfurantes sobre a pobre cozinha em que Sabalu-a-Soba e eu dormitávamos. Ele, meu primo mais velho, apertou-me junto do seu colo.

- Não grita. Não chora. Ordem de mano. - Cumpri.

Um Kwaca entrou armado. Roubou o cobertor que usávamos. Levou o recipiente que continha óleo de palma. Levou, acto contínuo o veado que defumava. Vasculhou outras coisas. Parecia não nos ver. Confesso que não viu. Ainda bem que só tinha olho para comida e vestuário.

Depois vieram outros. Um deles, chefe com duas estrelas ao ombro, botas lusidias e acastanhadas. Falava bom Português ao meu ouvido de então. Depois, quando toda a nossa família alargada já se achava encostada à parede frontal da casa que nos acolhia (Manuel Albano), sem sabermos qual nosso destino (uns já carregavam imbambas e cerveja roubada do bar do Sangue Frio em direcção ao Ngana Mbundu), eis que o kwaca-chefe sacou de sua “kilera” uns papéis e mandou meu mano Sabalu lê-los. Ele que já frequentava o III nível na Kwame Nkrumah, em Kalulu, leu como esperado ou terá ultrapassado a expectativa. Era em Francês. Espantado, o Kwaca-chefe teve de simpatizar-se com ele.

- Já não vais connosco. Ficas aqui a responder pela jura (algo que não sabíamos o que era).

E para mim, virou-se em tom ameaçador: e tú, ó menino, sabes ler?

- Sim mano. Estudo a terceira classe.

- Pois é. Então ficas aqui com o teu mano. A partir de hoje és da alvorada. - Ordenou o Kwaca-chefe.

Assim, ficámos sãos e salvos, enquanto outros jovens, adolescentes e crianças que foram surpreendidos nas suas casas tiveram de "acompanha-los", carregando fardos. Uns seriam soltos. Outros seguiram para nunca mais voltarem. Ngana Mbundu e sua tia (madame Lina, também conhecida por Senhora Kasenda) foram raptados. Os alemães eram já idosos. Consta que as filhas, Érika e Mónica, tudo fizeram junto do governo racista da África do Sul que mandava na Njamba, mas debalde. Nem ossadas foram devolvidas.

segunda-feira, julho 24, 2017

AO ENCONTRO DA "MISSÃO SUBMERSA" DE MBANGU WANGA

Em 1878, pela vez primeira, pastores protestantes Baptistas surgiram em terras angolanas, através do Noqui e foram estabelecer-se perto de uma velha missão católica abandonada em S. Salvador do Congo.
 
Em 1880, surgem na faixa litorálica e nos subplanaltos e planaltos angolenses os missionários da Junta Missionária Americana que se estabelecem em Benguela, no Bailundo e no Bié ensinado a prática da agricultura, música, leitura, artes e ofícios, etc. Dizia o conselheiro Guilherme Augusto de Brito Capelo, em 1887 que «O procedimento destes missionários é irrepreensível e muito diferente do dos que estão em S. Salvador e noutros pontos da costa do Norte. Dedicam-se ao ensino, estudam o modo de se tornarem simpáticos, respeitam a autoridade constituída, e não consta que promovam a intriga…». Tratam-se dos percursores da IECA.
 
Em 1885 estabelecem-se os Metodistas — enviados pela Igreja Metodista Episcopal da América — em Luanda, donde irradiaram para Malange e Nova Lisboa. O pessoal desta consiste em dois homens e duas mulheres, com casas filiais no Dondo, Nhangue-à-Pepe, Pungo-Andongo e em Malange. Tanto numas como noutras o missionário mantém-se por si mesmo, quer professorando, quer trabalhando de ofício. Alguns apresentam diplomas de médicos, e nos pontos onde não há facultativo oficial, vão exercendo a sua profissão com grande contentamento dos habitantes. O ensino é em português, mas leccionam também francês, inglês e alemão». (CAPELO, Brito: Relatório cit., p. 84).

Em "Oiço passos de milhares", Emílio de Carvalho narra a expansão do Metodismo angolano chegado em Março de 1885, por obra do americano Willian Taylor, fazendo-se do mar ao interior, através do Kwanza. O autor assinala importantes Missões evangélicas "protestantes" como: Dondo, Nyanga-a-Pepe, Quiôngwa, Quessua e Quela, para além de Luanda, a "Missão-mãe".
Apesar desse roteiro (sintético), outros pontos de evangelização e até mesmo Missões terão sido criados ao longo do rio Kwanza, nas suas duas margens. O Bispo Gaspar Domingos, em entrevista a Angop (http://www.angop.ao/angola/pt_pt/noticias/minuto-a-minuto.html) diz que "outras pequenas missões  foram surgindo na área do Libolo e nos Dembos".
Uma visita que efectuei ao Kisongo, comuna do Libolo, onde a chama do Metodismo Unido se mantém acesa, apesar das peripécias vividas pela comunidade religiosa de Cambulungo, levou a revelações até então incógnitas por muitos irmãos metodistas de Angola.

1- A "Igreja" Cambulungo não é recente e já existia no tempo colonial, estando ligada à Missão de Mbangu Wanga, na margem Libolense do rio Kwanza, território do Quissongo/Kisongo (Artur Cussendala).

2- A referência à Missão de Mbangu Wanga é novidade, visto que a literatura conhecida sobre a expansão do Metodismo não se refere a ela.

3- A toponímia Angola confirma a existência da aldeia de Mbangu Wanga, na margem direita do Kwanza, tendo nela existido uma "pequena Missão protestante/metodista" que tomava o nome da comunidade.

4- A população da aldeia de Mbangu Wanga e demais circundantes foi realojada em outro local, seguro, dada a construção da hidroeléctrica de Lawka que inundou o espaço em que se achavam "as comunidades de Quissaquina, Bango-Wanga, Ginguri, Ulumbo, Quinguenda e Dala-Quiosa, que haviam sido implantadas nas margens do Kwanza" (http://www.angop.ao/angola/pt_pt/noticias/sociedade/2015/7/32/Cuanza-Sul-Mais-200-familias-serao-reassentadas-Quienha,0cc24609-b71c-4680-a7f9-7392b5a56d16.html).

5- Em contacto mantido com o empresário libolense  José Carlos Cunha, que frequenta aquela região, fiquei a saber da existência da Associação de Naturais de Mbangu Wanga.
 
6- João Francisco (62 anos), Carlos Correia (64 anos) e Júnior Armando (70) anos, todos naturais de Mbangu Wanga e membros da associação, confirmam o relato sobre a transladação da aldeia que guarda(va) os restos da Missão, sendo que "nos terrenos da antiga missão criou-se uma cooperativa agrícola".
 
Falta desvendar quando a "Missão" de Mbangu Wanga foi implantada na margem direita do Kwanza, em território do Libolo. Porém, já há suficientes vozes concordantes de que a mesma foi encerrada em 1961, depois de muitos dos seus integrantes (pastores, obreiros e crentes metodistas) terem sido alvo de perseguições e mortes pela PIDE.
 
Dada a "missão despertadora do homem angolano", os evangélicos ou metodistas foram tidos pela autoridade portuguesa como instigadores do nacionalismo, portanto, catalogados como "terroristas".
Depois de actos repressivos contra missionários e seus prosélitos, os alunos que ficaram sem mestre receberam um professor enviado pela Missão Católica de Calulo, leccionando apenas até à terceira classe, tanto aos estudantes abandonados da Metodista quanto aos da própria Católica.
 
Consta que dentre os que estudaram em Mbangu Wanga o destaque vai para o Eng. Bernardo Campos, sendo mestre Baptista Pedro Gabriel.
 
Hoje, a aldeia de Mbangu Wanga não tem sequer uma Classe (espécie de capela) Metodista. Apenas a aldeia de Quienha, que dista aproximadamente quinze quilómetros (comuna do município de Moussende) mantém acesa a chama e a obra evangelizadora Metodista.
 
Da antiga "Missão" de Mbangu Wanga ainda restam, segundo meus narradores (Júnior, Correia e João) escombros do que foi a igreja-escola e a casa pastoral, tutelados, na altura, por pastores negros, recebendo visitas regulares de missionários americanos que se encontravam na Missão de Quiôngua (margem esquerda do Kwanza, Malanje), sendo, à data, André Dias dos Santos o tradutor dos missionários americanos que para lá se deslocavam periodicamente.
Para além dos equipamentos imobiliários acima citados a "Missão" também possuía lavras que atendiam o sustento dos missionários.

Texto publicado no Jornal Cultura (Angola) edição de 15 a 28 de Agosto/2017 

quinta-feira, julho 20, 2017

VIAGEM AO QUISSONGO

"Se for contra LCB num aguenta. A unita só tem boca no Quissongo!" . Já são poucos os que ainda recitam essa canção do meu tempo de meninice, em Kalulu (Calulo), nas décadas de 80 e 90 do séc. XX.

O Quissongo, zona recôndita do município do Libolo, era intransponível, dada a sua localização geográfica e ocupação pela rebelião armada, na altura, fazendo daquela sede comunal o seu bastião no tempo da guerra fria e conflito pós-eleitoral.
Conheci a sede comunal do Kissongo a 15 de Julho/2017. O Quissongo é o reflexo do Libolo mais profundo e (ainda) "original" com a sua cultura, ritos e actos de passagem em estado puro. A sede comunal é uma (antiga) vila no meio da vegetação encontrando-se, aos pedaços, devido à acção humana e desgaste do tempo... vai havendo remendos ao que sobra e tímida inovação, mas faltam dois catalisadores fundamentais: estrada e telecomunicações.


São perto de trinta e cinco quilômetros que gastaram não menos de duas horas ao volante de um 4X4 em excelente estado técnico. A picada que separa Kalulu do Quissongo é sofrida, estreita com declive acentuado, curvas apertadas, buracos, crateras e pedras no traçado (para piorar)...

À entrada da circunscrição, um túnel natural. Árvores que ladeiam a picada fazem arco, procurando abraçar-se, o que representa um regalo a quem vai ao Quissongo. O chafariz "dia-e-noite", cuja captação vem da montanha, resiste às intempéries e aos desmandos dos homens. A água só falta se alguém sabotar o tubo. Porém, a bela tem senão:
Mal o sol se esconde atrás da cordilheira montanhosa e paleolítica, a escuridão canta alto. O gerador de electricidade, pertença da administração comunal, há muito que não é ligado por falta de dinheiro para a compra do gasóleo. Como consequência, a televisão inexiste, assim como a comunicação telefónica. O sistema comunitário "liga-liga" (funciona por meio de antena receptora de sinal por via satélite) também engorda de poeira. O Quissongo, apesar da vontade de seus aldeões em ser cidadãos do mundo, continua" distante". Pior ainda porque, conforme se conta, "o empresário que estava a financiar a montagem da antena de uma operadora de telefonia móvel também desistiu devido à crise financeira.
A antiga vila tinha mais infraestruturas e serviços concentrados do que a sede da comuna da Munenga, também no Libolo. A Direcção dos Serviços de Agricultura e Florestas (DSAF) estava representada no Quissongo. As casas eram bem concebidas, feitas de tijolos e cobertas de telhas, possuindo no passado água canalizada.
No Quissongo ainda falta o comércio que pode ser despertado pelo asfalto. "Temos de pensar no país que é eterno, assim como os colonos vindos de longe construiram no meio do mato aquelas estruturas que olham silenciosas para nós com pena".
Estamos convictos de que "a estrada aproxima e as telecomunicações integram aos localidades e os povos ao mundo".
- Camarada chefe, aqui não há luz. Dinheiro também não há. O divertimento dos miúdos e dos jovens é só mesmo jogar a bola e beber makyakya. Manuel Sende, o meu interlocutor, é um jovem ainda cheio de esperanças.
- Estamos a esperar que reparem a picada e a energia chegue também aqui. Os mais velhos dizem que no tempo colonial nem Kalulu torrava farinha com o Quissongo! Terminou com um sorriso ténue.
Do ponto de vista político-partidário, vi mais propaganda do MPLA e do seu candidato. Dos antigos ocupantes, apenas uma solitária bandeira na sede comunal. Outra trémuma e quase já sem cor respondia pela coligação casa-ce. Dos demais concorrentes às eleições de Agosto, nem ouvir falar.
- Agora, os garimpeiros estão também a apanhar tareia no seu antigo "acampamento". Confidenciou um aldeão, com ar sisudo quando perguntado sobre a oposição política.
- Eles atrasaram o Kissongo. A nossa vila está em pedaços. Prosseguiu o mais velho para rematar: - Sabemos que vamos ganhar as eleições, até aqui no Quissongo, mas temos de ter coragem e pensar no país que nunca acaba. Temos de fazer como os colonos que, mesmo saídos de longe, construíram no meio da mata coisas que duram até hoje. Essas casas, se fossem pessoas, estariam a nos olhar com pena de não termos acrescentado nada ao que recebemos na independência.


 

 


 
 


 


 



 


 
 
 
 




 





 

sábado, julho 15, 2017

APANHEM O ANTI-MOTIM

Oliver Ngoma, músico gabonês de feliz memória, apresentava-se em palco com um casaco preto, com ou sem mangas. O "casaco Oliver Ngoma" tinha sido uma febre entre a juventude de Luanda e de outras paragens angolanas. Eu tinha votado nas eleições de Setembro de 1992, um jovem portanto.
 
As antigas TGFA tinham uma farda malhada, distinta entre os uniformes militares usados pelas FAPLA. Foi uma dessas camisas que, sendo alfaiate, adaptei um "Oliver Ngoma" sem mangas. A escassez aguça o engenho. Não tinha meios para comprar um "origon". Desmanchei-o e voltei a costurá-lo, invertendo as faces: a malhada que mostrava as características típicas de uniforme militar ficou por baixo. A simplesmente verde ficou por cima. Os bolsos eram todos cheios. Dava gozo usá-lo por cima de uma tshirt.
 
No defeso de 1993 fiz-me à aldeia de Pedra Escrita. Os kwaca do bairro viram o meu Oliver Ngoma estendido e descobriram que tinha sido uma peça adaptada de uniforme militar.
 
- Esse gajo é anti-motim. - Sabularam em Umbundu, esquecendo-se que a minha mãe percebia e experimentava aquela língua nacional, dado o convívio prolongado com os falantes da mesma.
 
Quando foram para "rusgar" o casaco e o dono, a peça já se encontrava enterrada, sem o meu conhecimento. Doeu perdê-lo. Tinha me consumido várias horas de labor na OLIVA 50 do tio Ramos Ngunza Mungongo, em Luanda. Não foi fácil desmanchar todas as peças e as recompor. Porém, a minha mãe salvou-me do "subterfúgio contundente" de que andavam a procura para me "despacharem" ou torturarem. Era no tempo em que o chefe máximo dos kwaca gritava a todos os ventos que "os anti-motim estavam a apanhar no focinho".
 
Terá sido a última peripécia. Foi subindo a idade e a responsabilidade para com a própria vida. Dai em diante, o meu combate passou a ser político, na Jota do Rangel, contribuindo na desacreditação dos "homens da guerra". Enquanto jornalista, anos mais tarde, fiz algumas amizades com militantes esclarecidos daquela formação política, porém, os factos vividos mantêm-se intactos na memória e cada um que saiba e queira lê-los pode daqui tirar suas ilações.
Guerra jamais!

sábado, julho 08, 2017

MODA DE RUSSOS E CUBANOS

Terminava 1993, a guerra civil, depois das primeiras eleições multipartidárias, estava no auge. Em Lusaka tentava-se salvar o que restava do acordo de Bicesse. Porém, só em Novembro do ano seguinte o ministro Venâncio de Moura e Manuvakola assinariam o acordo de Lusaka que também não veio a funcionar como se expectava.
Até então, nunca a UNITA tinha estado em tanto lugar como depois das primeiras eleições.
 
Não pude estudar Geologia e Minas, no Sumbe, nem pude ir ao Quéssua fazer agronomia. O IMAQ, "irmão gémeo do IMEL", financiados pelo BAD, tinha acabado de abrir as portas mas, aos tiros e emboscadas, seria missão impossível ir a Malanje com a família espalhada entre Pedra Escrita (Libolo) e Luanda. Até Sumbe, em ambiente de guerra, ficava longe. Decidi fazer um curso de informática e aprimorar conhecimentos de electricidade de baixa tensão. Já era um alfaiate, quase. Os dois anos com o kota Goncha, em Kalulu, e outra temporada em Luanda com o kota Ngunza Makongo permitiam-me biscatear sem dificuldades.
 
Chegadas as inscrições para testes de aptidão no IMEL, curso de Jornalismo, consegui passar no exame. Surge daí uma nova necessidade em termos de atavios para iniciar a temporada académica em princípio de 1994.
 
Em Dezembro, fui à Pedra Escrita para mais um saco de macroeira. Andava-se por cima de camiões e muitas das pontes que haviam sido recuperadas para permitir a livre circulação de pessoas e bens, antes das eleições, estavam novamente debaixo d'água. A que fica depois do desvio de Kalulu, na EN 120 e a do Longa, depois de Lususu, são exemplos.
 
Desci na Munenga e segui a pé até Pedra Escrita. Era um jovem atrevido e destemido. Ignorava que os homens estivessem por perto. E chegaram dois dias depois. Alguns já me conheciam. Desta vez, os carrascos eram os meus ex-colegas da pré e primeira classe, pessoas com quem brinquei na infância, convertidos em kwaca de última carruagem. Esses chegava a ser mais perigosos dos que os Unita originais.
O kota Goncha fazia suas costuras: bainha a um pano, remendo por cá, recostura acolá. Eu ajudava o meu mestre e aproveitava uns biscates quando fosse possível.
Os homens da UNITA encontraram-me uma tarde a costurar, em casa do Velho Xika Yangu, e exigiram que eu devia diminuir o tamanho da minha "jens buluada" (azul e larga). Neguei fazê-lo. Foram buscar um alfaiate deles e quando regressaram eu havia desmontado a máquina e despido as calças.
Diziam ser moda de russos e cubanos e que o doutor deles se opunha àquela forma de vestir. Trungunguei. Não aceitei que diminuíssem a largura e o tamanho da boca das minhas calças de eleição. Porém, enquanto não completava o saco de macroeira, tive de abdicar de usar aquelas calças, até retornar a Luanda onde, se dizia, estavam na moda.

sábado, julho 01, 2017

KALULU: NOVO ATAQUE DEPOIS DE SET/83


Corria Dezembro e corria o ano apressado. Naquela semana era só sobre o natal que se falava e "mánada", embora rumores sobre passagem de kwacas por certas aldeias, raptos e saques soavam cada vez mais intensos e próximos. Era um roncar permanente nos ouvidos de todos kalulenses: O horroroso ataque dos unitas à vila de kalulu, perpetrado a cinco de Setembro de 1983, podia repetir-se mais dias, menos dias, caso a guarda não fosse reforçada e com vigilância redobrada. 

Para refrear o temor, e conferir tranquilidade o batalhão de Luta Contra Bandidos reforçava a preparação combativa e cantavam manhã cedo:

"Wazala kiba kyongo/Savimbi wakizalesa/wazala kiba kyongo/ Savimbi wakizalesa, nzaye!
...
Ó Savimbi, ó Savimbi tundako/ó Savimbi, ó Savimbi tundako ko Kisongo!"

Os estudantes da escola do II e III níveis Kwame Nkrumah de Kalulu já gozavam férias natalícias. Eu era aluno alojado no internato e muitos que se encontravam na minha condição já tinham partido ou arrumado as malas para ir gozar o natal com seus familiares. kota Ngunza-a-Xika que durante dois anos fora meu tutor estava naquele ano a leccionar na Munenga. Tinha abandonado a vila. Estava porém na vila e no dia de Natal partiríamos juntos para Munenga e depois à Aldeia de Pedra Escrita, aonde se tinham aglomerado os aldeões da extinta Limbe. Estávamos em Dezembro à porta do natal, também dia festivo dos kwaca.

E parece que estavam sem logística para a comemoração ou queriam aproveitar-se da festa para impor o luto e roubar os parcos haveres dos kalulenses.

Estávamos no Musafu (Mussafo), entre a padaria e a Missão. Madrugada de natal. Alvorada no dizer deles. Os tiros começaram pela Banza, Depois pela Kapopa, um pouco também pelo lado das mangueiras, onde estava uma guarnição das FAPLA (LCB) e pelos lados do velho Duas-Horas, à saída para Vila Flor e Ndala Usu. Só não entraram pela Kibuma e foi lá que nos refugiamos entre pedregulhos na montanha. As balas assobiavam nervosos quando não pelejavam com as cadeias paleolíticas, terminando aí a sua fúria.

As LCB pelejaram até onde as forças permitiram, mas tiveram de desmontar o gatilho do "grau de um pé" e outras peças médias de artilharia. A vila estava tomada. Seguiu-se fogo, sangue e fumo.

Partiram o tribunal, a conservatória dos registos, a polícia, entre outras instalações. Mataram dirigentes e civis indefesos. Raptaram jovens para reforçar suas fileiras e sexuar forçosamente as raparigas como era seu costume. Roubaram sal, peixe seco, roupas e tudo. Desta vez não os vi, não. A experiência da Munenga me tinha alertado para fugir ao lado seguro. Ao mato ou morro.

Ficamos na mata e morro até os kwaca abandonarem a vila em chamas e choros. Partimos, a pé, seguindo atalhos até proximidades da Banza de Musende, a caminho da Munenga. Lá pernoitamos e no dia seguinte fizemos o resto dos 40 quilómetros até à sede comunal para mais uma noite. No terceiro dia Ngunza e eu completamos a distância de mais 26 quilómetros até Pedra Escrita onde três dias depois os Unitas nos encontrariam. Tive de procurar refúgio na aldeia natal de minha mãe, Mbangu-Kuteka, fazendo mais trinta quilómetros a pé. Lá fiquei até Finais de Março de 1990.

De regresso à Pedra Escrita, deparei-me novamente com os Kwacas que ali haviam feito morada. Até Munenga, de regresso à vila de Kalulu, fui acompanhado pelo soba, bem relacionado aos Kwaca, que comigo não frocou sequer uma palavra durante o tempo que durou a marcha de 26 quilómetros.

À chegada, já o sol visitava as traseiras das montanhas. Arrebol. As populações começavam a retirar-se para Kanzangiri. Sorte minha, o chefe Gika (oficial da segurança do Estado) que me conhecia bem, vinha de moto do Dondo e decidiu levar-me até Kalulu. Já as aulas levavam três meses e o meu nome estava riscado da lista.

Consegui justificar as ausências e tive de aplicar a quinta mudança para recuperar as aulas perdidas. Por sorte, na fuga eu tinha esquecido a roupa e levado os livros. Valeu-me ter suportado o peso até Mbangu de Kuteka, pois lia e exercitava.

Quando saiu a pauta, apto, pedi certificado e guia de transferência para Ngola Mbandi, em Luanda, onde fiz o III nível.