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sábado, novembro 18, 2017

QUEM É O "PATRÃO" DO REFORMADO?

Numa relação jurídica de emprego actuam para tal dois sujeitos com obrigações mútuas: um vende o seu capital intelectual aplicado em forma de trabalho e outro paga o que é proporcional à prestação.
Os homens de leis "inventaram" o contrato de trabalho (escrito ou oral e testemunhado) para regular esse casamento, sendo considerado como findo quando as partes decidem partir pela cessação do mesmo por diversas razões. A aposentação é uma das formas que determinam o fim de contrato, passando a obrigação de pagar salários e demais prestações ao órgão da administração pública ou associativo (fundo de pensões privativo) encarregado para realizar o pagamento das prestações sociais com base nesse contrato de financiamento do fundo. Por exemplo, Caixa Social, Fundo de Segurança Social, etc.

É preciso assinalar que todo o saber e toda a energia necessária e possíveis devem ser despendidos pelo colaborador, a favor do empregador, enquanto este estiver no activo. De igual sorte, toda a atenção retributiva e social devem ser prestados ao colaborador enquanto estiver vinculado à organização.

Não vejo, com toda franqueza de minha alma, por que razão algumas organizações empresariais andam com seus aposentados às costas, depois de serem justamente passados à reforma e vivendo eles do fruto de suas poupanças feitas através do fundamento social. Há que se pensar nisso e mudar de mentalidade. É preciso libertar a gestão de RH de responsabilidades passadas à outras instituições. A sociedade, as instituições públicas e privadas, devem ser geridas como empresas. É preciso simplificar. Passar tarefas específicas a outrem e focar-se no cor business. Para um gestor moderno de RH, o seu foco, sem desprimor por aqueles que fundaram e fizeram crescer a organização, são as pessoas no activo. Deve ser a preocupação em atender os desafios presentes e futuros da organização e estar alinhado com a estratégia de médio e longo prazos.

Uma relação jurídica de trabalho legalmente extinta não gera dívidas nem ressentimentos. Pode haver ofertas e reconhecimentos mas não obrigações como se fosse em um casamento indissoluto.

As empresas e organizações que empreguem colaboradores devem, nos termos da lei fazer depósito descontos para o financiamento da segurança social obrigatória. Mais do que isso, devem fazer chegar os descontos ao Fundo para que uma vez chegada a reforma, o pensionista tenha direito ao que lhe é devido.
Tarde ou cedo, há-de chegar, para cada um de nós, o seu tempo de reformado, mas devemos nos conformar que é assim a vida. O "patrão" do reformado é o Instituto de Segurança Social ou Fundo de Pensões para o qual tenham contribuído enquanto no activo.
Pense nisso!
 
Luciano Canhanga

quarta-feira, novembro 15, 2017

DE VOLTA AO LOCAL DE "SOFRIMENTO"




Oka pousando com um ex-colega da primária
Desconheço qual das ciências se adiantou no terreno, se a psicologia ou a História. O certo é que "ninguém gosta de voltar voluntariamente a um local onde tenha sofrido". Oka nasceu em Calulo, mas seu "sofrimento" de filho de um agro-comerciante foi no Quissongo, onde voluntariamente se tornou condutor de equipamentos motorizados aos 13 anos, com várias noites perdidas no matagal, sempre que a sua Ford enterrasse. Sofrimento voluntário? Tudo que seja indesfrute é padecer.
Oka estudou, meteu-se na política e fez-se homem. Mas o sofrimento, no campo, a vida no campo é "sofrimento", estava-lhe no sangue. Enveredou pelo comércio, serviços e show bisi. A aventura pela agricultura nasceu aos 46 anos.
Hoje, sexagenário, Oka é agropecuário com largas centenas de bovídeos e milhares de hectares agricultados.
Na fazenda, em Cambau
Em Cambau, terras de Quissongo, onde se fez criança, cresce um pomar com mais de trezentas mil plantas, entre laranjeiras, tangerineiras, mangueiras, limoeiros, mamoeiros e abacateiros a que se juntam outros duzentos mil pés de ananaseiros.
Para os adubos que custam dólares, Oka encontro uma solução local, criando uma unidade de produção de adubo orgânico: caca de galinha, dress (de cevada) e casca de café. É desta forma que poupa dólares ao mesmo tempo que sonha com "as verdinhas" resultantes das vendas além Angola.
- Já temos contactos avançados e em 2020 deveremos atingir a produção plena em centenas de milhares de toneladas por espécie de frutas. O investimento que conta com uma represa e irrigação gota-a-gota, para além da desmatacão, preparação dos campos, compra de equipamentos agrícolas e ordenados, está avaliado em dezenas de milhões de dólares. Mas Oka é optimista.
Caca de galinha sem cheiro peculiar
- Só a idade atrapalha um pouco, mas se os filhos e os netos derem continuidade ao trabalho ficarão felizes. A idade de cada planta vai até aos 250 anos. É um investimento com retorno lento mas contínuo.
É isso que o mantém animado em Cambau, Mulundu (Ndala Kaxibu), Ebo e Assango. Mas Oka não pensa apenas no que os seus descendentes hão-de colher.
Cresce com os povos que o vêem empreender. Colabora intensamente com as administrações locais e, por via da sua responsabilidade social, requalifica aldeias, tomou o desafio de reparar 250 Km de estrada terciária/ ano como emprega os aldeões próximos de seus investimentos agropecuários e turísticos. Em breve, a foz do Queve vai ser valorizada.
Ex-cozinheiro conta peripécias
- Aqui é chapa ganha, chapa gasta. Nem casa em condições temos. Diz confiante no que há-de vir.
- Os retornos são para breve. Mas as necessidades das populações são de ontem. Afirma - Confiante.
Oka é homem do povo e conhecido dos políticos. Com eles colabora e se entrega.
Quissongo, Ebo, Assango, Ndala Kaxibu, Amboim, entre outras paragens dessa imensa Angola que não dorme.
Poucos voltam ao local onde sofreram. Bem haja!






Texto publicado no jornal Nova Gazeta de 09/11/2017, pg 06.

quarta-feira, novembro 08, 2017

LOJAS DO POVO DOS ANOS OITENTA

Eram também conhecidas como Supermercados, mesmo se parecendo mais a cantinas dos tempos de hoje, as lojas do povo vigoraram da independência à abertura do país à economia de mercado (1991). Para quem não viveu e nem podia comparar com o que havia no tempo colonial, nem tinha outras vivências, eram supermercados e ponto final, independentemente da oferta e metragem.
Frequentei o supermercado "Casa Banga" na rua 8 de Novembro (Rangel), o Zé Gordo, rua dos Estudantes (Rangel), o 54 no Palanca (rua do Cavalo branco), o Nzala Ikola de António Silvestre, junto à escola 5 do Rangel, o Kiluanje no largo com mesmo nome, também no Rangel e ainda a Loja 60 do Cazenga, bem como algumas vezes fui à Cimex.
Havia porém outros melhor estruturados como os "Njamba". O Nzamba 3, próximo do Ngola Mbandi, foi o que mais frequentei e ainda lá está. O Njamba 1 também não foi destruído. Sorte diferente teve o Nzamba 4 da Zona industrial do Cazenga. Sobre o Nzamba 2 da Samba nada sei.
O que se devia e podia comprar nos "supermercados" não passava de "ração alimentar mensal", sendo que os produtos essenciais vinham listado num cartão. Todos os meses, a entidade empregadora passava uma declaração, atestando efectividade laboral.
O arroz, óleo alimentar, sabão, vinagre, massa (quando houvesse), açúcar, vinho, leite e outras poucas coisas eram vendidos a preços e quantidades fixas. As "bichas" (filas) estavam na moda e as havia para tudo e nada. Para ser dos primeiros a ser atendido e chegar a tempo de encontrar os produtos menos quantitativos era preciso madrugar e marcar o lugar com uma pedra, lata de leite, bidão, tronco, etc. Não eram poucos os cidadãos assaltados ou esfaqueados pelos bandidos quando se dirigiam à loja, perfurando os becos no escuro da madrugada. Algumas vezes, os "gregos" chegavam a fazer confusão à porta da loja, antes desta abrir, sendo que, frequentemente, os primeiros a marcar lugar acabavam sendo empurrados para trás, tomando-lhes os lugares cimeiros. Os organizadores de bicha, impiedosos com cintos e cacetetes, algumas vezes, os "odepê e bepevês" ou ainda os CPPA, vezes tantas chegavam com autoridade para pôr ordem. Maior organização e pouca "kavwanza" acontecia quando os PCU ou ST passassem por perto. Refractários e desertores eram levados, se não corressem antecipadamente com o pé no ngimbu.
Nos depósitos de pão, onde iam mais as crianças, nos talhos, peixarias e lojas de gás era frequente os gregos passagem à frente de quem tinha aturado a fila.
Já naquele tempo, anos 80 do sec. XX, havia uns "chico-espertos" que possuíam mais do que um cartão de abastecimento. Havia também os que desviavam a "comida do povo", levando-a às praças para a venda na "kandonga". Meu tio Ferreira "gastava" na Casa Banga. O seus papás onde "gastavam"?

Texto publicado no jornal Nova Gazeta de 16/11/17, pg. 4.

sábado, novembro 04, 2017

A MAYOWA DE CAMBAU

Em Cambau (Kambaw) 53 Km de Calulo (Kalulu), conta-se:
Há muito tempo, quando os homens se sedentarizaram, um régulo havia orientado o máximo empenho no trabalho que consistia na agricultura de sobrevivência, pesca, caça e a recolecção que persistiu até há bem pouco tempo. As doenças que afectaram a região durante alguns anos, sem explicação, produziram muitos portadores de deficiências e "inválidos" para os trabalhos árduos de uma vida rural sem maquinarias.
Inicialmente, a população construiu um centro onde ficavam todos os deficientes que eram alimentados mediante a contribuição alimentar de todas as mulheres e homens activos. Como os males se repetem, uma seca afectou a região que se vê cercada por cordilheira montanhosa em todos os lados. Os homens intensificaram a pesca e os jacarés que habitavam preferencialmente o estuário de Mayowa, ficaram sem o que comer. Começaram a rondar a aldeia e a atacar os meninos incautos e os portadores de deficiências.
Sem caça, sem sorgo e sem peixe os "inválidos" passaram a ser um peso para a comunidade. Mayowa passou a ser solução: cegos, mayowa. Coxos, mayowa. Mudos, mayowa. Tetraplégicos e crianças com dentes sobrepostos, mayowa!
A mayowa passou a ser o local de sacrifício humano de todos os indesejados.
O régulo tirano, só daria conta da sua má opção quando contraiu uma hérnia escrotal, obrigando o povo a cumprir o que ele mesmo ordenara: mayowa para alimentar os jacarés e sobrar peixe para os "válidos!".
Em Cambau, com um ou outro retoque, todos contam a lenda. A única coisa que não conseguem determinar é quando tal prática começou e quando terminou. Há quem arrisque que apenas com a chegada dos missionários metodistas e católicos à região tal pratica se extinguiu. Porém, a mayowa ainda está lá, num riacho que vai ter um dique este ano, obra do fazendeiro Oka, podendo aumentar a quantidade e qualidade de peixe para os aldeões e os jacarés que nunca se distanciaram da região de Cambau.

Publicado no jornal Nova Gazeta de 02 de Novembro/17

quarta-feira, novembro 01, 2017

ENTRE MUDAR E SER MUDADO VC ESCOLHE

No dia primeiro de Junho/2017 tivemos a honra de representar o titular do Departamento Ministerial da Geologia e Minas num evento organizado pelo INITI, Instituto Nacional de Inovação e Tecnologias Industriais, sob o lema: Pensar Indústria – O Desafio da Inovação para a Competitividade da Indústria Nacional:
Numa primeira leitura, se pode deduzir que as discussões sobre competitividade se tenham restringido aos fornecedores de produtos, ou seja à indústria. Não! A Competitividade é transversal aos fornecedores de serviços aos utentes, como é o nosso caso, Funcionários Públicos.
 
E não foi em vão que foi formulado um apelo a todos os presentes (representantes de ministérios e serviços da administração directa e indirecta do Estado) no sentido de promover e disseminar a inovação ou as boas práticas em termos de produtos (indústria) e serviços (administração), procurando fazer mais com menos recursos humanos, temporais e financeiros.
 
Os organismos também foram instados a “olhar para fora da caixa” no que tange a capacitação de seus integrantes, de modo a se mitigarem os males que inibem a criatividade e a inovação.
 
Inovar é: introduzir algo novo ou modificar algo já existente para melhora-lo. Por isso, a busca incessante de inovações ou melhores resultados deve perseguir o funcionário público no seu dia-a-dia. É preciso fugir dos modelos antigos, pouco produtivos, e introduzir novas rotinas que resultem em melhorias contínuas dos processos de acolhimento, atendimento e formulação de respostas, reduzindo o tempo, emprego de homens que realizem a mesma tarefa, etc.
 
Inovação é, em suma, melhorar o desempenho das pessoas (funcionários) e das organizações. Daí que os profissionais não devem estar presos às velhas práticas, defendendo-se, como se ouve com frequência, que “aqui sempre fizemos assim”. Devemos sempre tentar fazer diferente.
 
As lideranças devem ouvir os integrantes de suas equipas. A melhor ideia para revolucionar um procedimento pode vir de um assistente de limpeza ou de quem menos se espera.
 
Já dizia Albert Einstein que “tolice é fazer sempre do mesmo jeito e esperar por resultados diferentes.
 
Sendo a resistência à mudança um dos problemas que emperra a inovação nas organizações públicas e privadas, o apelo vai para o seguinte: é importante ter em conta que mudar ou afinar os procedimentos não é recuar nem buscar o impossível. Se é resistente à mudança, saiba que você tem apenas dois caminhos: ou você muda ou você é mudado(a), pois num ambiente competitivo a mudança é irreversível.
Pense nisso e se é resistente às inovações mude enquanto é cedo!
 
 

domingo, outubro 29, 2017

VISITANDO KARIANGO, K-SUL

Estou sobre a ponte do rio Longa, a que chamam de ponte antiga, pois a nova está a ser construída mais acima, na nova estrada asfaltada. Aqui, as pedras em forma de tartarugas, combinadas com o os rápidos fluviais e a vegetação criam um efeito de beleza rara. Não há visitante que não roube minutos ao seu tempo, mesmo curto, para apreciar o cenário.

Ao que a natureza expõe, se acresce a presença de mulheres cuidado da roupa e as crianças que lavam a loiça, aproveitando uns pinos na água que, no tempo chuvoso, ganha uma coloração semi-acastanhada, quando vista à distância.

Distanciada 50 quilómetros da vila de Kibala, Kariango é um vilarejo que ensaia os primeiros passos, depois do impacto nefasto da guerra que afectou toda a sua infra-estrutura. Pouco sobrou da guerra (1975-2002) e da força destruidora da natureza.

Com excepção da administração comunal que beneficiou de reparos com cimento e tinta, as casas mais vistosas são aquelas reabilitadas pela construtora que ganhou a empreitada da Estrada Nacional 140, utilizando-as como alojamento para os seus trabalhadores não locais. 

Os pequenos serviços e o pequeno comércio só agora vão dando sinais, fazendo adivinhar dias melhores. Em Kariango está projectada uma mini-hídrica que, ao sair do papel, poderá revolucionar a vila, pois a energia eléctrica é um factor de desenvolvimento.

Sendo Kariango uma comuna potencialmente agrícola e onde despontam fazendas como o Projecto Terras do Futuro, é de crer que, com a estrada asfaltada concluída e a energia eléctrica projectada transformada em realidade, surjam na circunscrição pequenas ou médias indústrias agrícolas que podem revitalizar a economia familiar e regional.

Kariango é ponto de passagem entre os municípios kwanzassulinos de Kibala e Mussende, ligando esse último ao Bié, através de Andulo, e a Malanje, passando por Kalandula.
 
Obs: Texto redigido a 12.12.2012 que se confirma actual.

quarta-feira, outubro 25, 2017

OXALÁ CUMPRAM SONHOS

O parque automóvel é pertença de Oka (José Carlos Cunha). A aldeia é Cambau, na comuna libolense de Quissongo (Kisongo). Manuel Cunha, pai de Oka, aqui fez sua vida comercial e agrícola, tornando-se num dos homens mais respeitados pelos nativos. Oka que nasceu "acidentalmente" na vila de Calulo (Kalulu), perto de 35 km, cedo ganhou o gosto pelo conhecimento da terra, dos processos produtivos e de suas gentes. Os coetâneos e os makulu (mais velhos) contam que aos 13 anos já era "um dos motoristas do pai", metendo-se ousadamente em picadas com a sua Ford em busca de café e makoka dos postos comerciais e de recolha. Muitas vezes ficou "perdido pela mata" com a Ford enterrada na lama até o pai aparecer em socorro. "Há vezes em que a comida da viagem acabava e o rapaz, embora habilidoso e corajoso ficava a chorar. Afinal filho de patrão era também nosso patrão". - Conta o antigo cozinheiro.
- Filho alheio do velho Cunha e dona Marília, tem dias em que passa e a gente vê só o carro passou. Assim é porque tem pressa ou vai se encontrar com alguém. Outras vezes, pára mesmo para nos saudar e conversar. Todos, aqui no Quissongo sede, somos amigos dele. - Conta o septuagenário que diz ter estudado a iniciação com o Oka ou Sô Cunha.
As palavras elogiosas não vêm apenas de homens. As mulheres imitam um antigo pregão da "mãe comerciante", dona Marília: wenjié, wenjié! mbiji ya matona yeza kyá!
No Cambau, uns 18 km depois da sede do Quissongo, fica a fazenda e uma casa-acampamento. Os rapazes olham para os carros, tractores e retro-escavadeiras e fabricam sonhos. Tal como na infância dos quarentões de hoje, os rapazes de Cambau não desperdiçam as latas de óleo, margarina e até de conservas de sardinha. É com essas que reproduzem fielmente os equipamentos do parque, constituindo-se nos seus prediletos brinquedos do dia a dia.
Zito e Mingo são dois desses rapazes. Hábeis no ver, "gravar" as características e reproduzir. Zito tem um monta equipamentos e Mingo um camião cisterna. Ambos têm dez anos e estudam a primeira classe.
- A escola (construída pelo FAS) só abriu esse ano. Contam.
Mingo, Zito e demais meninos de Cambau alimentam o sonho de ser grandes, "assim como sô Cunha", dizem. Pensam em um dia conduzirem os tractores, buldozers, motoniveladoras e carros da fazenda. Por isso, estudam e sonham.
No ano passado, explicaram, todos os meninos e meninas receberam "brinquedos de fábrica": carros, motos, bolas, bonecas, fogões e muitas coisas. Mingo é quem mais fala.
- Alguns brinquedos já se estragaram e outros guardamos. Há vezes em que o Sô Cunha nos dá também rebuçados, leite e papas.
Os rapazes contam tudo sem reserva. Falam também dos medos em frequentar o rio em tempo de chuva por causa do Jacaré que "bate com a sua cauda e arrasta as vítimas para seus matuku (esconderijos sob a água)".
- É por isso que Sô Cunha meteu aqui chafariz de furo (artesiano). relataram.
São mais de uma dezena de fontanários espalhados pelas aldeias da região onde Cambau se destaca com as suas casas alinhadas, todas cobertas de chapas de zinco, mantendo, à entrada, equipamentos sociais como a escola, lavandaria, o posto médico e o jango social. A aldeia tem luz eléctrica 24horas ao dia.
- Esse senhor tem bom coração. A luz dele divide com o povo. Na fazenda dele, todos os trabalhadores (perto de 50) são mesmo daqui de Cambau. As chapas ele mesmo é quem ofereceu. Oxalá Deus "lhe" abra ainda mais as portas. Hoje, nem mesmo o Quissongo sede torra farinha com Cambau em termos de boniteza. - Finalizou Velho Joaquim, abordado à passagem do parque automóvel.
Oxalá que na próxima visita Cambau e arredores tenham rede telefónica para que a minha crónica não seja publicada em Calulo nem haja necessidade de regressar apressadamente à vila. Oxalá que Oka e os cambauenses realizem sonhos e continuem a crescer juntos.

Texto publicado no Caderno "Fim-de-semana" do Jornal de Angola do dia 19/11/2017

domingo, outubro 22, 2017

BENGUELA QUE OS MEUS OLHOS VÊM

Por três vezes, e com um intervalos de 2 em 2 anos, estive em Benguela (cidade) para actividades profissionais  e de lazer.
Benguela parece-me, à primeira vista, (aquilo que chama a atenção do visitante no primeiro contacto visual), uma cidade com:
- Ruas limpas, sem contentores apinhados de lixo, mesmo com os gritantes problemas de pagamento aos operadores já anunciados publicamente pelo então governador Isaac dos Santos. Até aqui, parece que ainda se vai aguentando (ou não será?);
-Jardins verdes, com rega permanente e bem cuidados;
- Árvores que não cheiram urina nem abraçam o lixo de mãos e pernas preguiçosas. Parece que os fiscais andam ainda atentos e os moradores conscientes de que "a cidade mais limpa não é a que mais se limpa, mas aquela que menos se deposita lixo em lugares impróprios";
- Valas de drenagem sem lixo, nem capim. Sim. Dá gosto ver e tomara que as demais cidades aprendam com ela;
- Continuidade estética: onde termina o asfalto não é (ao meu olhar não muito profundo) o início da confusão ou desordem habitacional;
- Casas não muito gradeadas e com crescimento do vidro: pareceu-me que ainda se vive livre, sem que as casas se tornem nas prisões voluntárias a que se submetem muitos dos habitantes de Luanda, "forçados" a levantarem os muros, gradeá-los e, às vezes, encobrir os quintais;
- Um super (que já foi nosso) a reclamar por clientes: será pelo facto de os produtos hortofrutícolas, cereais, pecuários e piscícolas se encontrarem antes da loja?
Verifiquei ainda:
- Um aeroporto a reclamar por mais aviões: vai-se bem por estrada, apesar dos seiscentos quilómetros de Luanda;
- Moto-táxis até à madrugada, todos ordeiros e cumpridores das regras de trânsito: tomara que fosse assim também em Luanda e outras cidades, sem receios;
- Mulheres e homens “da vida” como em todas as urbes angolanas do litoral: Por que não?!
Por tudo isso que tem sido um regalo para mim, as minhas felicitações aos benguelenses que têm sabido cuidar do seu património.
Que Luanda e demais cidades com estruturas decadentes lhe sigam o exemplo!

Texto publicado pelo jornal Nova Gazeta de 13/07/2017

segunda-feira, outubro 16, 2017

UM MINUTO NO DESVIO DO GRABRIEL

Ruínas do jazigo fúnebre de Gabriel
No entroncamento entre as picadas do Luati e Quissongo, junto à travessia do rio Luha, o café já não vai ao terreiro nem enche sacos que davam dinheiro a Portugal, quando Angola era ainda Província Ultramarina de Portugal. Quem por lá passa sente o perfume das flores de café e ouve o chilrear dos beija-flores. Esses sim. São os mesmos, entra década, sai década. Mas o café não! Antes de phaka (desfiladeiro da cadeia montanhosa que cerca o Quissongo), na fronteira entre a Comuna de Calulo e a do Quissongo, à entrada do rio Luho, está uma fazenda cujo dono atendia por Gabriel.
Primeiro foram os portugueses que assassinaram o dono da fazenda. Depois foi a guerra civil que tornou impraticável a cafeicultura em grandes extensões do Libolo. Mas como a desgraça chama desgraça, os fogos descontrolados de todos os anos dizimaram as plantas de café robusta que se abrigavam debaixo do muxitu (mata).
Os aldeões da região da phaka (desfiladeiro) dizem que Gabriel foi o homem negro mais rico dos anos cinquenta, rivalizando com os alemães e portugueses que se haviam estabelecido no Libolo. 
- Tem um filho que vive em Luanda. Temos ouvido apenas falar. Seria bom se viesse retomar a fazenda. - Conta António Kixindo, cujo pai trocou força por dinheiro no cafezal em que hoje só restam poucos exemplares que ajudam a reconstituir a história.
Kixindo, catana na mão, seguia à lavra e repousava no cruzamento em que se enxergam dois pilares que suportavam um antigo alpendre ou algo parecido.
- Kota, esse lugar é sagrado. Aqui tem estória que quando os mais velhos contam você perde fôlego. - Disse provocador, depois de se aperceber que éramos caçadores de estórias incógnitas.
Contou que os brancos do tempo colonial invejavam o sucesso do Sô Gabriel, o negro que torrava farinha com os brancos em termos de café.
Oka indicando a outra picada que vai ao Luati
- Quando os brancos comprassem Chevrolet ou Ford ele também comprava. Um dia, quando a guerra (pela independência) rebentou, os PIDE "lhe fizeram" uma kikonda (emboscada) e jogaram o corpo dele mesmo aqui (apontava para a bi-forcação). A família aflita e sem saber o que fazer, ficou em volta do corpo ainda quente. Naquele tempo, chegar a Calulo era custoso. Quando um amigo do falecido Sô Gabriel chegou, vindo da vila (de Calulo), disse: o corpo enterrem mesmo aqui no jiphambo (bi-forcação) para que os malfeitores tenham peso de consciência ao passarem por aqui. É assim que esse lugar passou a chamar-se Sepultura do Sô Gabriel.
Antes do ponteco sobre o rio Luha, na picada que corta a phaka, está esse lugar de triste memória, cuja ousadia do "mártir" nos encoraja a trabalhar de igual para igual e a lutar pelo país.

domingo, outubro 15, 2017

E AGORA?

Viram-se crianças. Ele mais adiantado na idade do que ela. Namoraram ao iniciar a juventude plena, ele,  e ela a findar a adolescência. Madó e Loló, naquele tempo assim conhecidos, seus pais e até seus avós nasceram e sempre viveram no Margoso. Estudaram em escolas diferentes, encontraram outros cônjuges com os quais juntaram trapos e formaram famílias. Viveram, porém, e vivem no mesmo bairro. Ele em um edifício de três andares, construído ainda no tempo colonial. Ela em habitação térrea.

             Já a caminho da senilidade, ele pai de menina, a Tininha, prendada por Deus e pela herança biológica. Uma "estraga sapatos" ao passar. Qual homem que se depara com sua carga e não tropeça? Ela, dona Madalena, Madó em tempos de menina, é hoje mãe de rapaz.

As conversas de comadre, entre Madó e amigas de juventude, levaram o Totó a se aperceber que no passado houvera um "affaire" entre a sua mãe e o pai da jovem que ele ardentemente cobiçava. Sentiu-se encorajado ao ouvir aquela conversa e conseguiu cravar o primeiro beijo à Tininha.

Com o tempo, conversas daqui e dacolá, Totó contou à namorada o que foram a adolescência e os factos marcantes entre seus progenitores. Outros factos lhes chegariam aos ouvidos, por meio de tios e tias com que os pais conviviam.
- Teu pai deflorou minha mãe! - Disse um dia Totó, despretensioso e a seco.
Tininha nem sim, nem não. Era ainda uma flor imaculada. Rolaram os tempos, cada vez mais eram vistos de mãos dadas.
- Esses meninos estão mesmo a seguir as peugadas dos pais. - Diziam os mais velhos do bairro que sabiam mas nada diziam.
Dias depois. Noite de pouca luz. Depois da telenovela das vinte e trinta, Tininha chegava a casa banhada de lágrimas. Saia, quase a cambalear, do terraço do prédio onde fora vista a conversar com o Totó.
- O que foi, filha? - Questionou o pai preocupado.
- Foi o Totó, pai.  Fez-me o que o papá fez à mãe dele!
 Publicado pelo jornal Nova Gazeta de 29/06/17 
 
 
 
 


 

domingo, outubro 08, 2017

A GEOGRAFIA DO GIRABOLA E AS VIZINHANÇAS

Já imaginou alguém não ter vizinho para "brincar", desabafar quando haja desgraças ou comemorar as vitórias? Assim se apresneta a nossa "santa de cássia". Enclausurada, sem vizinhos da mesma competição.
Siga o raciocínio.
O Girabola (campeonato angolano de futebol de primeira divisão) joga-se na Huíla (Desportivo), que faz fronteira com Huambo (Cahála e JGM) e Benguela (1º de Maio e Académica do Lobito).
Benguela faz vizinhança com Kwanza-Sul (recreativo do Libolo). O K-Sul liga-se a Luanda (Petro, D´Agosto, Kabuscorp, Inter e Progresso do Sambila).
 
O Moxico, onde desponta a equipa Bravos do Maquis, está ligada à Lunda Sul (Progresso) e essa à congénere Lunda Norte onde a Esperança é Sagrada.
 
Uije está sem vizinho girabolista. A "Santa Rita" é wandalika!

quarta-feira, outubro 04, 2017

HERÓIS DE KWITU KWANAVALE

Sabalo Cambota, em vida também conhecido por Zito, foi soldado das FAPLA, inicialmente na 108 Brigada de Desembarque e assalto. Foram eles que "cuidaram" do famigerado Tembi Tembi (general da Unita), numa batalha, no Moxico, em que acabou baleado na perna. Regressado a Luanda, foi de novo "rusgado" e destacado em Mavinga e depois no Kwitu Kwanavale. Regressou desmobilizado, em 1992, com duas medalhas ao peito, outorgadas pelos governos de Angola e de Cuba.
Para mim, o primo Zito era a personificação do "nosso herói" e símbolo da nossa participação (familiar) nos eventos militares de maior visibilidade em Angola.
Infelizmente, Sabalo Cambota morreu de forma inglória, vítima de um acidente de viação, quando viajava, por cima de um camião lotado, do Libolo a Luanda.
Desmobilizado, sem como dar jeito à vida, nem mesmo um kit profissional, o primo Zito virou negociante de macroeira até "se dar encontro com a morte".
O governo angolano rendeu a merecida homenagem aos seus bravos heróis de Kwitu Kwanavale, erguendo no local um monumento que eterniza os feitos militares ali decorridos. Eu faço-o em relação e memória a Sabalo Cambota, filho primeiro de meu tio Xavier (Cambota) Canhanga.
 
Texto escrito a 20 de Setembro de 2017

domingo, outubro 01, 2017

A AVENIDA BRASIL

Quando a conheci era estreita, uma lombriga comparada às avenidas de hoje em dia. Vinha do Zé Pirão (ou mais abaixo). Aliás, até à Fazenda (Minfin), era ainda, no dizer do meu tio Ferreira Nganga, a Avenida Brasil, estendendo-se à ligação com a Quinta Avenida, lá pelos lados do Ajuda Marido (hoje Asa Branca).
Entre os locais e paragens que deixaram fama, destacavam-se: Cine Loanda, Zé Pirão, Alpega (Minars), Pica-Pau, Bombas da Segurança, Cáritas, lixeira do Kaputu (hoje largo do triângulo do Kaputu), linha férrea, Bombeiros do Kariangu, Imbondeiro do Cazenga...
Voltei a percorrer o troço da Avenida Brasil, hoje Avenida Hoji ya Henda, do Alpega ao Asa Branca. Está larga, do Beiral à cidade. Mas as obras nunca terminam. O nó sobre a passagem da linha férrea parece estar esquecido. A lentidão do trânsito automóvel faz-nos recuar dez anos...
Do antigo Imbondeiro ao Centro de Formação do Cazenga já não há Avenida Brasil. Aquilo é uma rua qualquer. Hoje, a Avenida Brasil parte do Imbondeiro à baixa. A rua das Comandos (Cuca-Deolinda Rodrigues) tem um troço alargado. Do Imbondeiro ao nó (passagem superior), a Avenida Brasil também foi alargada e resselada. O que resta, lá pela continuidade do Marcelo Caetano, até à praça Ajuda Marido (Asa Branca) é só poeira e buracos quando não é agua. É só...
Amputaram (a avenida) Hoji ya Henda, nosso herói juvenil?!
Que continuassem a designa-la Avenida Brasil. Ao menos doeria menos!

sexta-feira, setembro 29, 2017

A MUNENGA DOS MEUS OLHOS

Do ponto de vista infraestrutural parece-se ser a comuna que mais cresceu, porém, fora da aldeia sede.
Investimentos em avícolas, matadouro, restauração e agricultura, incluindo um posto de abastecimento em combustíveis (bombas) foram projectados e implementados a 4 quilómetros da sede, ou seja, na EN 120 (onde a estrada de Kalulu se junta à Nacional 120).
Quanto aos imóveis da zona político-administrativa e habitacional (aldeias do Ferreira, Sangue Frio e Bannza), pouco de novo. Apenas o velho vai resistindo às investidas do tempo e dos homens. Aqui também, e como me disse o ancião do Kisongo/Quissongo, se as antigas lojas de colonos falassem, estariam a rir-se do estado em que "as levamos".
De duas coisas, uma nos podia valer: ou dar aquelas ruinas a alguém com garantias de as reconstruir e proporcionar vida àquela "zona comercial" que se acha à entrada da circunscrição (loja do Ferreira) ou demolir o velho para se implantarem aí novas infraestruturas públicas e ou privadas. Há que valorizar um espaço que já foi nobre. Ali, no Ferreira, se aguardavam pelos autocarros da ETP e ETIM. Ali repousavam aqueles que se dirigiam ou vinham do posto administrativo/comissariado.
Quem viveu ou conheceu Munenga de outros tempos lembrar-se-á também da cerâmica da família Cunha, à passagem do rio Ngunji, a meia-distância  do "comissariado" que se acha no monte. Naquele espaço, em que hoje só resta o que foi a cabine de transformação de energia eléctrica, pode ser erguido outro equipamento social ou económico. A água, embora pouca, nunca faltou. O capital humano está aí nas aldeias à volta, sem nada por fazer. Para os jovens que não emigraram, todos os dias são de ociosidade.
Não padecendo da inacessividade e incomunicabilidade que vive o Kisongo/Quissongo, a sede da Munenga bem se pode transformar, com ideias e acções, em uma vila digna desse nome. Também pode ser deslocada para a "Nova Zona Económica" que cresce a bom passo na desembocadura da EN120, ficando na "velha Munenga" apenas o posto administrativo e seus equipamentos sociais como a escola, a esquadra e o posto médico...
São ideias.
 
Obs: texto publicado pelo jornal Nova Gazeta de 27/07/2017

quarta-feira, setembro 27, 2017

MANGODINHO NA POSSE DE JLo

Em Novembro de 1975, criança ainda com 12 anos, Mangodinho era já homem no pensar. Quando ouviu no rádio que a independência estava a chegar, preparou um kaquibuto de macroeira e meteu-se numa BedFord a caminho de Luanda. Sorte ou azar, ainda não me contou bem essa parte, encontrou a ponte do rio Zenza suspensa. 
- Ninguém mais passa. Os carcamanos e mobutistas estão a vir para impedir o camarada Neto levantar a bandeira. - Contou que lhe disseram isso e ficou mesmo por ali.

 
Quando entrou na Ngimbi, encontro o camarada Agostinho Neto já era Presidente e Angola já não era mais de Portugal.
Em 1979, o óbito do camarada Neto apanho-o numa ilhota do rio Longa. Tinha ido tarrafar sem o seu radito e quando voltou, com muitas "salambas" de peixe, encontrou toda aldeia de Kuteka "era só choro". Escapou desmaiar mas fez coragem de se aproximar devagar, devagarinho até se cruzar com rapaz Sabalo que o informou sobre o infortúnio do camarada Neto. Dos mabululos onde ficava a aldeia até chegar a capital levou quatro semanas. Aliás, é já hábito dos homens de Kuteka que, quem vai à capital, mesmo que se hospede em casa de "burguês", tem de levar qualquer coisa. ,E nessa de preparar a viag, em perdeu a investidura do camarada Eduardo dos Santos, que foi a 21 de Setembro.
Também, mesmo que fosse, não O deixariam entrar. A cerimônia parece que foi no Palácio onde até os makota grandes, se não têm convite, não entram. Dizem que no Palácio a segurança é apertada tipo é sandalheta de quem vai caminhar uma grande distância. Por isso mesmo, em 2008 e 212 Mangodinho não se deu massada de ir a Luanda assistir a investidura do Presidente reeleito.
- Se ele é já nosso Presidente desde que o cda Neto se foi para quê só "se dar" massada de ir mais "lhe" ver? Foi assim que Mangodinho tinha parado de tentar. Mas quando ouviu que o camarada dos Santos vai meter o colar da República no pescoço do camarada Lourenço, Mangodinho fez tudo às pressas. O quibuto dele de macroeira já estava preparado. O peixe do rio Longa a e carne de caça também já tinha. Uma semana antes, meteu-se já na estrada. Agora com a paz que temos viagem de trezentos quilómetros é só mesmo em um dia e a pessoa chega mbora bem. E chegou. Ficou na casa do tio dele Sabalo onde a luz não falta para ver televisão.
Quando "lhe disseram no" Bartolomeu que a entrada no Mausoléu é de borla, ou seja sem convite, Mangodinho, cinco da manhã já estava lá com garrafa dele de água mamão e um pouco de bombô assado com jinguba. Ao sair do Benfica ainda estava a cair kawelewele. Nalguns sítios era mesmo irmão pequeno de chuva. Por isso, levou boné, casaco de lona e mais um guarda-chuva que não chegou a usar.
Aliás, antes de sair de casa, penetrou bem o cabelo, escovou o casaco e os sapatos, embora com sola gasta e inclinada, estavam a brilhar. Mangodinho para quem o visse era homem de pôr respeito. Posto na bancada pública da Praça da República, Mangodinho disse para si mesmo "não quero confusão". Foi, por isso, ocupar uma cadeira na penúltima fila, onde esperou, esperou, esperou sem desesperar.
- A viagem do Kuteka a Luanda demora mais do que esperar pelo Cda Presidente das cinco e meia ao meio dia. - Disse para se encorajar.
Mangodinho no lugar dele de visibilidade privilegiada viu todos os presidentes a chegarem, a serem ovacionados, e o "camarada de vestido preto" que falou ao camarada Lourenço que "se abre, a partir de hoje, uma Via Expressa para corrigir o que está mal e melhorar o que está bem". O homem disse mesmo como pai que recomenda o filho que (camarada Presidente), "combata a corrupção, melhore a vida da população, diversifique a economia...". Já a lhe correrem lágrimas de contente, Mangodinho ouviu atentamente o camarada Lourenço a reafirmar que vai cumprir as promessas da campanha e as detalhou uma a uma.
- Não. Esse camarada Lourenço tem cabeça. Não esqueceu nenhuma das promessas e ainda acrescentou lá outras como "Ninguém é tão rico para não ser punido ou tão pobre para não ser protegido". - Mangodinho a baba a cair-lhe tipo é nenê que está a esperar a chegada dos dentes de leite. É alegria ou quê?!
Mangodinho, assim mesmo, está a preparar as malas para regressar à aldeia de Mbangu de Kuteka. Pelo caminho vai fazer a acta detalhada que vai apresentar ao povo já convocado para uma Assembleia. Afinal, ele foi já indicado "Administrador de aldeia", no âmbito do regulamento da Lei da Administração Local.

sexta-feira, setembro 22, 2017

O CERTIFICADO DE HULE

À boca pequena tudo se fala. Relatam-se cenas sobre eventuais pessoas que se doam, que se alugam e outras que matam sonhos geratrizes. Poucos porém, desabotoam a camisa para baterem ao peito e soltam a voz do que a sociedade "fala" em surdina. É viajando na imaginação, por terras distantes, que encontramos Hule, filha querida de seus pais, soberanos no seu território gentílico. A estória é comum, se calhar, apenas o final pode ser distinto.

Fazia meses que Nampula registava calor. Pior, quando El Nino se aproxima, cumprida a sua sazonalidade. Estava um calor de assar sardinhas para um prenúncio de noite. Já se alinhavam estrelas num céu cinzento recortado por nuvens turvas. Ao mesmo tempo que Hule procurava acertar a cor do céu afivelava ideias sobre a janta do dia seguinte e o leite do Diploma que brilhava nas costas. 

Hule fora enviada a Maputo ainda na puberdade aonde o pai pretendia que sua filha do meio se formasse em medicina ou outra ciência afim. Mas cedo conheceu angolanos e outros diplomatas oeste-africanos que exploravam petrodólares. Meticais para que te quero?! Instituto para que me serves?! Hule encontrou vida fácil. Dançarina de primeira hora, conhecedora de noites luxuosas, dama de companhia para eventos se fez. Não escolhia cor da epiderme. Não! Nem idade lhe interessava. Diferenças etárias eram apenas números. Somente uma cor, a do dinheiro americano lhe interessava. O certificado de habilitações literárias que lhe proporcionaria emprego numa instituição do Estado, sonho amputado do pai,  foi substituído pela cria. Foi assim que os mais inconformados com aquela opção da jovem passaram a tratar a filha de Hule por "Certificado".

No dia em que a cena aconteceu, Hule estava à porta da sua mandjungu ou choupana que herdara da avó materna de quem a filha se tornou xará. Abriu a porta, entre duas colunas que se prolongam e se revezam no andar. Deixou entrar um pouco de ar para arrefecer o forno que se achava envolto a kapulanas, como são tratados os tecidos em Moçambique.  O forno, fundo, húmido e já com pouca elasticidade, ante ao uso revezeiro, é a sua indústria, seu banco. Ajeitou os maboques, um par no peito, que se prestavam a fugir do soutien. Jactou o decote. Mamas já flácidas jazem quase quase num amontoado de esponjas suportadas por arcos metálicos. Aos lábios, levou um batom pobre e encarnado. É sangue procurando suor e sangue. À filha, chorona e resmungona, espectou um sambapito na boca. 

- Cala. A mamã vai ganhar pão pra amanhã!

Hule fez-se a caminho da baixa de Nampula, entre Faina e Mutotope, seu emprego prazeroso. Foi lá que o Manuel, polícia de profissão, já quase noivo, a encontrou em flagrante delícia.

Ali mesmo, no Largo Machel, depois de adentrar o jeep grande de vidros translúcidos, não precisou de vistoriar à volta. 

- São cooperantes, nada os detém! - Pensou.

Imitou o canídeo. Lambeu a sua cria,  afugentando-lhe as maleitas. O bicho respirou fundo e esticou-se ao comprido. Hule, feita canídea de Rafa, simulou caminhada, de quatro, do kambwá como dizem os angolanos na margem atlântica do continente. Sem se aperceberem, a polícia que procurava por marginais foragidos fez-lhes uma surpreendente visita. Manuel estava na patrulha.

- Estão presos, malandros!

Texto publicado pelo Jornal de Angola, edição de 24 de Setembro/2017

terça-feira, setembro 19, 2017

NÓTULA SOBRE CAXICANE

O festejo do 95º aniversário natalício do primeiro Presidente de Angola, também consagrado Herói Nacional, Dr. António Agostinho Neto, levou-me à vila de Catete para actividade lúdica e cultural, adentrando depois a estrada que nos conduz à Muxima e mais ainda a picada que vai a Caxicane, local que conserva o cordão umbilical do fundador da nação angolana nascido a 17 de Setembro de 1922. Não sendo a primeira vez que para lá me desloquei, não deixei de “descobrir” algumas curiosidades não visualizadas com minúcia nas primeiras visitas ao local. Repare bem a foto. Estou apoiado sobre o púlpito do que foi o segundo templo metodista erguido em CAXICANE. Procurei pela data da sua construção e, embora houvesse no local cidadãos sexagenários, não obtive resposta. Resta-me a impressão de que a edificação terá sido a que existia nos dias de mocidade de Agostinho Neto, sendo feita de pau-a-pique e rebocada com areia e cimento nos dois lados das paredes. O chão foi também cimentado, sendo que os púlpitos haviam sido construídos em tijolos e rebocados. O tampo também é de betão.

A primeira igreja no local terá sido em material ainda mais precário: ramos de palmeiras, paus, barro simples para fechar as paredes e coberta de capim, conforme nos mostram as fotos de seu pai, Reverendo Pedro Neto, com o filho, Kilamba, pousando no colo de D. Maria da Silva Neto. 
A terceira igreja, em alvenaria e pintada de branco, é maior e tem altos alicerces, devido às inundações que vezes sem conta acontecem em CAXICANE, quando o Kwanza faz suas águas transbordarem, é mais próxima no tempo.

Repare agora na proximidade entre o rio e a Igreja em cujas ruínas concebi esse texto: apenas escassos metros a separam do leito. Não será, por isso, difícil concluir que os implantadores do metodismo em CAXICANE terão navegado sobre o manso Kwanza.

Texto publicado pelo jornal Nova Gazeta de 28/09/2017

sexta-feira, setembro 15, 2017

UMA VISITA AOS IRMÃOS DE CAMBULUNGO

CAMBULUNGO é  o nome da classe (espécie de capela para os católicos) da Igreja Metodista Unida em Angola, IMUA, no Quissongo. Ao longo da rodovia não vi mais do que duas confissões religiosas, sendo o templo de Cambulungo o maior.
 
As paredes duplas, em adobe, dão maior resistência e durabilidade ao edifício coberto de chapa de zinco. Os assentos são de plástico e atendem todos os irmãos e visitantes.
Cambulungo, designação adoptada para o templo, é nome de um nativo Metodista que nunca deixou a chama se apagar, mesmo em momentos difíceis da vida daquele povo e comunidade religiosa.
Malanje é berço do metodismo angolano e fica aí, a poucos quilómetros, servindo de inspiração.
 
Parabéns aos irmãos da Classe Cambulungo/Cargo de Calulo (Kalulu).
Os peregrinos metodistas de Luanda e de outras cidades precisam de lá ir e procurar entender os caminhos árduos percorridos pelos missionários americanos que nos trouxeram a chama do METODISMO wesleyano.
 
É também um chamado que os metodistas que amam a sua chama e que podem contribuir com algo apadrinhem comunidades como a de Cambulungo.

sexta-feira, setembro 08, 2017

DEPOIS DA FILA A 10GRAÇA

Tarde de sexta-feira, dia de repor energia, depois de cinco jornadas extenuantes. Aturei "mbora bem" o engarrafamento na zona do Coelho, três horas e tal, a "caloriar" num carro com AC e tudo. O gasóleo, agora, é líquido precioso que exige poupar. Luxo fica só pela metade: um pouco de AC e um pouco de poeira e calor, para poupar combustível em trânsito intransigente.
 
Quando estava mesmo já no fim do sofrimento, eu a buzinar a os outros automobilistas para que tivesses mais atenção e eles a me buzirem de volta, uns só mesmo de pirraça para espantar os nervos que tinham comido todas as unhas e estavam quase a sangrar os dedos, eu já a entrar para o asfalto, ouvi um cru-cru-cru- buá trás de mim. Era no lado esquerdo. 
 
Um Rav 4 antigo, todo desmazelado, um acaba de me matar, raspou-se no meu carro, até se estatelar no degrau (estribo) que chamam de "pisa-pé". Buá! E o homem não pára já? Não! Continuou.
Estava, afinal de contas, a ser puxado, com corda de aço, por uma camioneta. Saí da viatura "foribundo", quase aos socos, mesmo tendo a minha mão aleijada. Mais atento esteve o polícia, quase a ler-me os nervos à superfície da epiderme, contrariando-me:
 
- Não faz isso, senhor, por mais razão que tenha. Não se bate ninguém a frente d'autoridade. 
 
- Então, camarada autoridade, mande-o assumir e pagar os estragos, senão vamos nos resolver mesmo já aqui. Esse carro tem nome da minha sofrida mãe. É de sofrimento. Não me foi oferecido nem o apanhei só assim... - Falei mais calmo.
 
Aí,o homem do acidente exibe as "cadaplas"e confessa: 
 
- Sou pessoa de boa fé. Me desculpa só. Também sou polícia que guarda as empresas grandes o meu ganho é xis. Pior do que isso, errar a mãe. O meu passe e a carta de condução podem ir consigo. Dá-me seu contacto e um dia lhe procuro. -Disse o senhor.
 
Eu com a mãe (viatura que tem o nome da minha progenitora) arranhado. Ele, verdade ou mentira, perdeu a mãe. Fiquei por interrogações sem respostas.
 
- Assim mesmo se faz?
 
A Maria (carrinha) anda agora "despelada", como se tivesse lutado com o António (outra viatura com o nome do finado marido de setenta e três-oitenta e dois). É uma estória antiga, já leva tempo. Mas aconteceu mesmo!

Publicado no jornal nova Gazeta de 31 de Agosto/17. 

sexta-feira, setembro 01, 2017

LOTADORES, COBRADORES E ESPALHA DORES

Fazia tempo que não andava de táxi. Fi-lo propositadamente em dois dias seguidos para estar por dentro do mundo que existe para além do ar condicionado e vidros translúcidos.
 
Descobri que, para além dos já famigerados cobradores (preferem ser chamados de gerentes), loteadores (os que numa paragem principal ou término se encarregam de chamar os passageiros até completar a lotação do veículo), existe uma outra subcategoria, essa perniciosa, que é a dos aproveitadores ou saqueadores.
 
São grupelhos de jovens, muitas vezes drogados, que inundam as paragens de táxis colectivos, dedicando-se à extorsão dos cobradores no valor de cem Kwanzaa por cada paragem que efectuem. Se resistência houver, muitas vezes, acabam agredindo o cobrador resistente, ficando com todo o dinheiro que tenha e chegam mesmo a assaltar o táxi e se acaparar dos bens e dinheiro dos passageiros. 
 
Contra esses, não se pode fazer outro apelo que não seja a atenção e acção da polícia que deve ser implacável e não coabitar, nas paragens e em qualquer lugar, com tais inimigos da segurança pública.
Aos saqueadores e espalha-dores não devia haver sequer um segundo de tolerância!
 
 
Texto publicado pelo Jornal Nova Gazeta a 04.05.2017

terça-feira, agosto 29, 2017

VENDO BEM... COMO SURGEM OS NOMES?

- Na Pasa; Sa Lutenda; Mama ly´Atimba; Tata lya Juá... não passam de nomes que ganham os progenitores depois do nascimento do(a) primeiro(a) filho (a). Era assim antigamente a atribuição de antropónimos (nomes de pessoas). 

Para a comunidade rural angolana, sendo a paternidade/maternidade um marco muito importante, o(a) genitor(a) passava a ser chamado(a) pelo nome do(a) filho(a), antecedido do prefixo equivalente na língua local a palavra pai (sa em Cokwe e tata em kimbundu), passando-se o mesmo com a genitora (na ou mama nas duas línguas em que fiz a pesquisa) passando a "mãe de fulano (a).

Situações semelhantes verifiquei no Mali e Guiné-Konacri. Já para os europeus, os antropónimos e depois os apelidos surgiram para diferenciar os indivíduos em função da ocupação. Assim, surge o Pedro (pedreiro), diferente do Jardim (jardineiro), do Backer (padeiro em inglês), etc. 

Entre os Bantu, o homem social ganhava estatuto depois de se tornar pai/mãe.

quinta-feira, agosto 24, 2017

AO DEBATE: ANTES E DEPOIS DE VOTAR

Nota prévia:
Discutíamos de forma saudável e urbana sobre a impertinência de, na próxima legislatura se poder ou não rever a Constituição da República e "acomodar" o principio da eleição dos deputados pelo ciclo provincial em função da proporcionalidade do seu número de eleitores. Dizia eu que "não fazia sentido que o Bengo eleja mesmo número de deputados (cinco) que Luanda", sendo a capital do país a principal praça eleitoral, com cerca de um quarto do total de eleitores. O debate ia animado (ele defendendo a regra em uso e eu o contrário), até que chegou "o dia do voto", 23 de Agosto/17, tendo decretado uma "pausa" para que pudéssemos pensar em outras coisas mais imediatas. E assim escrevi:

"Permito-me ainda abusar o meu amigo Carlos Calongo Adão, jovem inteligente de Catete, região que já pertenceu à província de Luanda, passando ao Bengo e que no correr do tempo e das transformações político-administrativas voltou a ser parte de Luanda. Eu também, oriundo e natural do Libolo, sou agora o quarto vizinho de Luanda, bem colado à Kisama (Quissama).

E é assim:

Duas lambisgoias bêbadas e perdidas, dizia uma à outra em semelhante estado:

- Amiga, quero saber onde estamos e aonde vamos.

- Não precisas saber. - Respondeu a outra

- Por que razão?

- És profissional de sexo, por que te interessa saber aonde vais?

- É para que me possa orientar na hora do regresso à casa.

- Tu precisas é de clientes e mais copos... - Dizia a conformista.

- Disso sei, mas... Quando acabar o álcool e os clientes, como me orientarei?

- Por acaso decidimos mudar de profissão? – Retorquiu a conformada.

- Até que não. Mas… não precisaremos nunca nem de mudar de tangas?

- Tangas?

- Sim, roupas maquiagem, higiene íntima, externa, tudo o que nos faz mulher e traz clientes que conjugam o verbo ter.

- Basta que tenhamos clientes e dinheiro. Tudo se compra no momento.

- E os banhos?

- Já te disse, Maura. Se vier um cliente que te leve a um hotel chique você toma o duche. A roupa compras na boutique. Casa pra quê? Acorda jovem.

- Mingota, sua tonta, e quando tiveres saudades dos teus irmãos também os vais transformar em clientes?

A conversa teve mais detalhes. Elas é que tomaram destinos diferentes já que o desentendimento levou cada uma delas ao seu caminho.

No caso prévio, eu e o meu amigo Carlos Calongo Adão, também fomos a caminho do voto e voltaremos à conversa tão logo haja reencontro".

Texto publicado pelo Jornal de Angola de 01/11/2017