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sábado, abril 08, 2017

FIM DE MISSÃO


Já lá vão três anos que Mangodinho teve a arriscada ideia de construir instalações para o que pode vir a ser o Posto Médico da aldeia. Como homem avisado, cuidou também de mandar à Huíla miúdo Russo e Sembe, jovens da aldeia que não hesitaram em aproveitar a oportunidade de crescer na vida e ajudar o povo. Aliás foi mesmo esse o discurso de Mangodinho quando os abordou.

- Miúdo Russo, como vês, aqui as pessoas morrer é tipo cabrito. Não há enfermeiro nem Posto. Não queres estudar saúde? Já falei com o meu pai que foi trabalhar no Lubango e ele pode ajudar. Pelo menos cresces na vida e ajudas o povo.

miúdo Russo, miúdo de visão, não hesitou.

- Obrigado Tigodinho. Muito obrigado. Vou já avisar a mãe. É mesmo avisar.

Mangodinho falou também com Sembe sobre o assunto e nos mesmos termos. Sembe, miúdo crescido e já um pouco viajado, viu naquela proposta a vez da sua vida.

- Já aceitei, tio. Não precisa só se dar massada de explicar. Não aproveitar é ser burro e continuar na lavra e nos alambiques. - Concluiu Sembe, fazendo-se à casa para avisar os familiares.

Já não era boato. Era certeza. O chefe Sabalo, tio de Mangodinho que foi ao Lubango trabalhar na ordem e segurança, cuidou de os inscrever na Escola Técnica e instalar no internato de Tchivinguoro. Vezes tantas levou apoio moral e material para suprir carências de visita e de quem vive de braços estendidos.

Mangodinho, hoje distinto daquele que aportou à Ngwimbi em situação de óbito, é homem diferente, iluminado.

Com as instalações erguidas e os dois técnicos formados, mesmo que venham a ser pagos apenas pela comunidade, só restará pedir à administração os equipamentos e medicamentos. Mangodinho é, ao que diria Salas Neto, "um filósofo de bairro" ou um "mago no escuro da aldeia rural". Ele foi felicita-los pelo empenho e leva-los de volta à Pedra Escrita.

- Epá! Ti Godinho e chefe Ti Sabalo! Muito gosto. Obrigado por nos darem o estudo e virem nos visitar. - Soltaram em coro miúdo Russo e Sembe.

- Nós é que agradecemos o vosso espírito de entrega é de sacrifício. Sabia que a vossa vida aqui, longe da família, não seria fácil mas confiei também na vossa resiliência, enquanto jovens comprometidos com o bem-estar da população. - Agradeceu Mangodinho.

- Tio, só o começo é que foi duro, explicou miúdo Russo a desembrulhar os certificados, mas o resto foi fácil, porque o chefe tio Sabalo estava sempre aqui ou íamos com ele à cidade comer e beber.

Cumprido o protocolo junto da direcção do lar de estudantes, fizeram as imbambas e rumaram à cidade onde fariam a compra de algumas lembranças. Tchivingiro fica para a história. Dentro de uma semana, será a aldeia de Pedra Escrita a construir outras páginas em suas vidas.

Pacientes: feridos, encolerados, doentes de pele, crianças de barrigas fartas, todos pacientes. Eles também pacientes. Aguardavam-se uns aos outros.

A notícia da formação dos dois enfermeiros gerais tinha chegado cedo à sede do

município. Camas, medicamentos e lençóis chegaram 24 antes e, no dia do desembarque dos dois "kimbandas", o administrador já os esperava para as boas-vindas, apresentar o material de trabalho, as guias de colocação e abrir o Posto.

Mangodinho aproveitou pedir ao Cda administrador comunal para deixar a função de coordenador do bairro e se dedicar exclusivamente ao Partido. Afinal, era ano eleitoral.

Texto publicado no Caderno Fim-de-semana do Jornal de Angola, 10/12/2017
 

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